Quem achava que a Internet era a última fornteira para os fanzines pode começar a rever seus conceitos. Um grupo de pessoas da cidade de Salvador, entre os quais podem ser encontrados músicos, jornalistas e agitadores culturais decidiu lançar um fanzine pelo telefone, sob a liderança de Ednilson Sacramento. É o Telezanzine, cujo número é 0 xx 71 533.6640.
Com duração média de seis minutos, o informativo leva ao ouvinte as principais informações da cena rocker da Bahia: agenda de shows e lançamentos, além de promoções, como o sorteio de ingressos.
Ao contrário de muitos seriviços telefônicos picaretas, não há nenhum custo adicional para o usúário que liga para o Telefanzine. Apenas o pulso cobrado pela operadora local. Quem é de outro estado paga apenas a tarifa normal de um interurbano.
O Telefanzine é pré-gravado e colocado no ar (ou na linha) sempre a partir da zero hora. Apesar disso, esse serviço pertmite a interatividade. Para o interessado em emitir alguma opinião, bronca ou até mesmo em dar uma dica, basta gravar uma mensagem na caixa postal colocada à disposição dos ouvintes no final das edições. A veiculação acontece, em geral, nas edições subsequentes.
Além da programação normal, o Telefanzine tem edições especiais. Uma delas é o "Página Central", que vai ao ar uma vez por mês, um talk show no qual o âncora Ednílson Sacramento sempre recebe um convidado interessante para trocar idéias.
O serviço está partindo para seu sexto ano de vida, a ser completado em julho, e recebe uma média de 600 ligações diárias. Mesmo com esse sucesso de público, o Telefanzine tem um sério problema: a falta de patrocínio. "Os anunciantes preferem a mídia tradicional para divulgar seus produtos em detrimento de formatos alternativos, como o Telefanzinze. É uma questão cultural que não se muda de uma hora para outra", diz Ednílson. (Rodney Brocanelli)
Leia a seguir a entrevista com Ednílson Sacramento:
Onzenet - O que motivou a criação do Telefanzine?
Ednílson Sacramento - A necessidade de fazer as informações chegarem a um maior número de pessoas. Entretanto, eu diria também que o meu espírito inquieto, a vivência com os zines e a vontade de fazer algo diferente contribuíram com essa idéia.
Onzenet - Como foi feita a divulgação desse serviço no início?
Ednílson - No início a gente ligava para os amigos mais chegados e passava a idéia, esses amigos - mesmo sem saber explicar - repassavam o número do telefone a outros e assim a rede do boca a boca foi se desenvolvendo. Lançamos mão de meios já conhecidos como os panfletos, cartazes e um pouco da imprensa . Os shows eram também o grande alvo.
Onzenet - Como se deu a escolha do telefone como forma de veículação do Telefanzine?
Ednílson - Eu não posso negar que o formato telefônico se materializou graças a compania operadora - a Telebahia - que havia disponibilizado o sistema de telefonia virtual, pioneiro no Brasil, em 1994. Antes esse serviço so existia nos Estados Unidos. Bem, a idéia eu já tinha na cabeça, o conteúdo sempre houve já que informação honesta era rara...
Onzenet - Houve alguma reação por parte do mercado publicitário local (e até mesmo nacional) em relação a proposta de um zine via telefone?
Ednílson - De forma estrondosa não. No âmbito local tivemos uma boa receptividade por parte daquele segmento mais, digamos assim, engajado. O mercado publicitário nunca enxergou o Telefanzine. Nos primeiros meses tivemos uma valorosa parceria com a Transamérica com direito a chamadas na programação e tudo mais. Já fomos matéria na MTV e em diversos jornais do Brasil. Devemos muito a essa galera da imprensa que entendeu a nossa proposta.
Onzenet - E a resposta do público?
Ednílson - Identificação imediata! O público bebe muito na fonte do fanzine e nós ficamos muito orgulhosos disso. O ouvinte reparte com a gente a cara do Telefanzine, por vezes acho que existe um componente de vício nisso tudo. Eu falo com cerca de 500 pessoas a cada dia e isso é sintomático, é quase uma relação sexual.
Onzenet - Quais as dificuldades que você enfrenta para manter o Telefanzine no ar?
Ednílson - Falta de apoio financeiro. Ainda não consegui a auto-sustentação e isso me aflige bastante porque reflete na programação e nos impede de crescer.
Onzenet - O Telefanzine vai para seu quinto ano de vida, a ser comemorado em julho de 2001. Existe algum projeto especial para marcar essa efeméride?
Ednílson - Estamos bolando algumas coisas, mas nada de grandioso.Talvez um caruru...Ha! ha! ha!
Onzenet - Faça uma análise do rock and roll produzido na Bahia.
Ednílson - Frágil! Extremamente frágil! As bandas pequenas não conseguem crescer e as ditas grandes estão sucumbindo. A gente sente uma apatia generalizada. Muitas bandas, diversos shows, muitos lances e ninguém consegue marcar um gol (Hi, deu rima!). Esse descompasso está dando brecha para a formação de uma pseudo cena pop-rock, Cena essa composta majoritariamente por músicos desencantados com o axé-music que não ousam fazer rock. Com isso não quero dizer que não temos boas bandas. O problema é que os caras não sabem o que fazer. Parece que se perguntam: O que será que eu vou ganhar fazendo rock na terra do Farol Folia? Acho que a gente enfrenta o monstro da monocultura musical com muito medo. Creio que primeiro a gente deve saber o que realmente queremos.
Onzenet - O telefone é a "última fronteira" (pelo menos em termos de formato) dos zines ou ainda existem novas mídias para serem exploradas?
Ednílson - Não. Fronteiras a gente sempre vai encontrar por aí. A internet é uma imensa fronteira. Penso que nós que fazemos fanzine temos a obrigação de reservar alguns de nossos exemplares para as gerações futuras porque fanzine é comportamento. Fanzine é hábito.
Onzenet - O Telefanzine é um parente distante do rádio, uma espécie de primo. Você tem algum projeto para uma versão radiofônica do serviço?
Ednílson - Em rádio comercial não. Quem conhece rádio convencional sabe sabe que é difícil combinar numa mesa só interesses distintos. Quem dirige as rádios hoje é seu departamento comercial, salvo poucas exceções.