INTERFERÊNCIAS
por Chico Lobo
A quem interessa essa mentira? Dizem (os donos das grandes emissoras convencionais) através de milionárias campanhas na mídia convencional que as Rádios Comunitárias estariam "interferindo" nos sistemas de comunicação e navegação das aeronaves, bem como nos rádios de ambulâncias (se é que elas tem rádio...)
É muito estranho que pequenas emissoras que funcionam com baixa potência (no máximo 50 Watts) venham a causar esse tipo de desarranjo nos aviões de carreira.
Jamais conseguiríamos imaginar que grandes empresas aeronáuticas como a "Boeing" ou a "Fokker" que tem a responsabilidade de produzir veículos aéreos que percorrem os céus de todo o mundo, fossem tão ingênuas ou irresponsáveis em deixar sair de seus angares aeronaves com tamanha vulnerabilidade em seus sistemas de navegação.
Sabemos que nenhum tipo de radiofreqüência pode adentrar na fuselagem de uma aeronave, pois a engenharia aeronáutica prevê nos projetos qualquer possível interferência, dado o fato dos aviões percorrerem os céus de todo o planeta com as mais diferentes práticas de radiodifusão.
Todo avião é testado nos angares de fabricação antes mesmo da sua primeira decolagem e posteriormente nas manutenções de rotina.
Quem conhece um pouco sobre aeronáutica e comunicação, sabe muito bem que a fuselagem de um avião não permite a entrada, nem a saída de qualquer gama de radiofreqüência, além é claro do que permite sua antena, que por medida de segurança possui todo o tipo de filtragem que impede qualquer interferência.
É claro que dentro de um avião não podemos utilizar nenhum tipo de equipamento que possa causar interferências, como por exemplo os telefones celulares dos executivos que nele viajam, pois este sim, já estariam dentro do avião.
Se por ventura essas aeronaves fossem de fato vulneráveis às interferências externas, até mesmo os serviços de radio-comunicação das empresas aéreas nos aeroportos poderiam estar na lista de suspeitos.
Só prá se ter uma idéia, segundo a INFRAERO, existem mais de 350 transmissores de mão (HT) e 50 transmissores bases (com 50 watts cada) no aeroporto de Cumbica em Guarulhos em funcionamento nas mãos dos funcionários das empresas aéreas, totalizando mais de 4.150 watts de possibilidade de irradiação. E nada interferem.
O mundo inteiro, onde percorrem essas aeronaves, é pulverizado de todo tipo de emissoras (grandes, pequenas, legais ou não), mas só aqui no Brasil provocam essas supostas "interferências" como alegam os donos das grandes rádios convencionais.
Para termos um parâmetro mais preciso ainda, vamos ver que a somatória de toda a potência das mais de 500 emissoras comunitárias já existentes na grande São Paulo, não chega a metade da potência de uma só emissora convencional que atinge normalmente 100.000 Watts e que se somarmos a potência das emissoras de FM, mais as emissoras de OM, mais as emissoras de ondas curtas, TV. VHF, UHF, Radioamadores que somam 40.000 em todo o Brasil além de outros serviços de radio-comunicação Faixa do Cidadão (85.000 no Brasil), Telefonia Celular (incontável número), Comunicação Oficial e Comercial, Radio Taxi, etc. vamos notar uma potência dissipada nos ares da cidade paulistana de mais de 450.000.000 de Watts e não seria aquela parcela insignificante de radiodifusores comunitários que poderiam causar o estrago que alegam na mídia.
Ao pousarem no aeroporto de Congonha, os aviões passam apenas a 800 metros paralela a Av Paulista (Centro das maiores potências de Radio e TV das Américas) e também não se sabe de nenhum distúrbio de interferências.
Ouvimos também campanhas sobre supostas interferências em ambulâncias. Aí é que a barbárie das mentiras criam forças descomunais.
Procuramos saber na Divisão de dados e estatísticas da Secretaria de Estado da Saúde, e também no COETEL (Conselho Estadual de Telecomunicações da Casa Militar de Governo), quantas ambulâncias a cidade de São Paulo dispunha no sistema de Estado e Privado, chegamos ao número de 2.350 veículos, contando com as ambulâncias do município, do Estado, das clínicas particulares, dos hospitais públicos e privados bem como dos serviços de resgate dos Planos de Saúde, e fomos também informados que apenas 5 (cinco) desses 2.350 possuem sistemas de comunicação via rádio e que mesmo assim, 2 deles funcionam por ondas curtas. Acabamos então por entender que supõe-se interferências até em ambulâncias que não dispõe de rádio.
Deixa nos pensar que todo esse boato não passa de artimanhas de interesses dos proprietários das grandes emissoras para emperrar a democratização dos meios de comunicação via radiodifusão comunitária já tão tardia e tão discutida no Brasil.
Na verdade desse caso, as empresas aéreas estão sendo colocadas nesse jogo, sem a sua anuência e responsabilidade. Os donos das grandes emissoras, não tendo onde se pegar, apelam para o terrorismo verborrágico nas suas caras campanhas difamatórias, irresponsáveis e anti-democraticas, colocando em risco a tranqüilidade dos passageiros aéreos e os mais desavisados.
Se isto não bastasse, as grandes emissoras através da ABERT (leia-se: Latifundiários do Rádio) ainda coloca as Rádios Comunitárias na vala comum das rádios piratas. Ora Piratas são eles que conseguem suas concessões de forma escusa e só estão atraz dos interesses de mercado em detrimento da cultura e da informação, como todos já sabem a tempo.
Varias foram as tentativas de convocar um diálogo aberto e democrático diante da imprensa com os representantes e técnicos das grandes emissoras, mas até hoje, não se pronunciaram. Talvez seja esse o tipo de jornalismo "ético e democrático" que eles pregam em suas emissoras.
Gostaríamos de saber, o que eles temem? Do que se escondem? Quais são suas verdadeiras "intenções" com a preocupação repentina pela segurança...
Sabemos que os interesses mercantilistas dos proprietários dessas grandes rádios são ameaçados a cada vez que se instala uma nova emissora comunitária.
Afinal é isso, Democracia é um bem que se conquista com luta e participação cotidiana, mesmo sabendo que existem poderosos que relutam para impedi-la.
Radiodifusão Alternativa
Chico Lobo
(011) 869-2396 - São Paulo SP
RÁDIO LIVRE - BREVE HISTÓRIA
por Rodney Brocanelli
Você já ouviu falar em rádio livre? Não. E rádio pirata? Também não. E rádio comunitária? Bem, se você nunca ouviu falar nesses tipos de rádio, não se preocupe. Elas existem, até estão perto de você (e do seu rádio-receptor) mas são ignoradas pela grande mídia.
Rádio livre (ou pirata, ou comunitária) são emissoras que não possuem permissão do governo para seu funcionar. Operam com baixa potência de transmissor e, com isso, o seu alcance está restrito a apenas um bairro ou região de uma cidade
Essas rádios surgiram na Europa, montadas por pessoas que estavam insatisfeitas com o que ouviam nas emissoras oficiais, isso ná deçada de 60. Algumas dessas rádios que surgiram aos montes se preocupavam apenas em tocar músicas que não tinham espaço nas outras rádios, como o então emergente rock and roll. Outras tinham o propósito de fazer oposição ao governo, com mensagens de forte teor político. Apesar da repressão das autoridades, muitas dessas rádios livres européias sobrevivem até os dias de hoje
O movimento de rádios livres apareceu com força no Brasil lá pela segunda metade da década de 80. Primeiramente era apenas um divertimento de técnicos em eletrônica. Depois, grupos políticos de esquerda e estudantes universitários colocaram suas emissoras no ar. Como não poderia deixar de ser, o governo da época abriu fogo contra esse tipo de radiodifusão. Muitas rádios foram fechadas, com seus mantenedores sendo processados.
No começo da década de 90, as rádios livres do Brasil obtiveram uma grande vitória com a absolvição do jornalista Léo Tomaz, que dirigia a rádio Reversão, em São Paulo. Estava criado um precedente jurídico importante que favorecia os acusados de crime contra o Código Brasileiro de Telecomunicações.
Com essa vitória, o movimento de rádios livres mudou de perfil. Grupos religiosos passaram a ver nessas emissoras uma boa maneira de fazer proselitismo religioso. Outras pessoas enxergaram um modo fácil de se ganhar dinheiro, vendendo anúncios e espaço de programação. Algumas chegam a comercializar uma hora de programa por R$ 400. A alegação é que esse dinheiro cobre custos operacionais.
Existe um projeto no Congresso visando regulamentar a radiodifusão livre. Graças a outras prioridades, sua tramitação é comparavel ao caminhar de tartaruga. É dificil prever quando sai essa tal lei. Enquanto ela não sai, as emissoras operam , torcendo para que a fiscalização do ministério das Comunicações não venha interromeper as transmissões. A grande mídia (incluindo a impressa) por razões óbvias, ignora o assunto e até faz campanha contra. Tudo isso é uma pena, pois as rádios livres, desde que regulamentadas de um modo sério, poderiam prestar serviços a comunidade e a cultura.
Texo originariamente escrito para o zine Brujeria e publicado em 1997.
Quem quiser um exemplar pode escrever para Rua Pico da Tijuca, 55, CEP: 22715-380, Rio de Janeiro - RJ
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