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Eu me aproximava do pedágio da Via Dutra
(Estrada Rio São Paulo)
Cansado, com sono, vinha de Foz de Iguaçu e já estava quase em
casa no Rio de Janeiro quase atingindo o último posto de
cobrança.
Morava na Ilha do governador e restavam pouco mais de 60 km para
a minha casa o que depois de rodar ininterruptamente por mais de
1500 km não era nada. Mas era exatamente esse trecho o mais
cansativo, o mais desgastante, o mais preocupante.
Está provado que a maioria dos acidentes fatais de carros ocorre
perto do final da viagem o que, aliás, a torna final mesmo.
Repentinamente observo logo a frente uma fila de carros em baixa
velocidade e imaginando alguma barreira, blitz ou mesmo um
acidente, que é comum naquela área ou mesmo um provável
congestionamento em face de parada adiante, aliviei o pé do
acelerador e reduzi a marcha.
Aproximando-me dessa fila pude observar que os veículos eram
antigos e embora noite, deu para perceber que eram carros
escuros, se não pretos, bem escuros.
Logo entendi que eram carros que possivelmente participavam de
algum desfile de antiguidades comumente promovidos por
organizações de auto motores no Rio de Janeiro e em todo o
Brasil.
Acelerei mais um pouco e comecei a ultrapassar os veículos um a
um e então quando ultrapassei o ultimo deles, o que na verde era
o primeiro da fila notei com alguma estranheza, ser um carro
fúnebre.
Um “frisson” percorreu meu corpo e confesso que senti algo
estranho no meu ser.
Angustiado, mas fascinando emparelhei com o coche como eram
chamados os carros fúnebres antigamente.
Era um carro bem, antigo, porém muito conservado e reluzente
quando iluminados pelos faróis de contra ele surgidos numa pista
em direção contrária.
Era um féretro.
Um enterro tipo anos 50 com toda pompa e adornos tão usados
nessa época. Do tempo que parávamos ao ver um cortejo fúnebre e
nos benzíamos e murmurávamos: vá com deus. Alguns até tiravam os
chapéus e muitos oravam.
A morte sempre nos torna humildes e preocupados.
Ela não avisa quando vem nem para quem e nem com vem. Apenas vem
e imaginamos que poderemos ser os próximos e há uma verdade
universal nela contida. O medo. O apavorante medo.
Religiosos sejam de que religião ou seita pertençam, crêem em um
deus bom, um paraíso maravilhoso, sonho de todos. O Éden se
descortina como algo onde seremos felizes, risonhos, etéreos e
outras maravilhas eternas.
Uma vida sem dor, sem sofrimento, sem tristeza, ao lado dos que
um dia amamos e se foram de nós. Avós, pai, mãe, irmãos unidos
para nos receber e toda uma infinidade de acontecimentos
maravilhosos, perfeitos.
Entretanto apesar de tudo, nada é mais triste, pranteado por mil
carpideiras, chocante e assustadora do que ela, a morte.
Ninguém por mais crente que seja deseja para si ou seus amados,
a morte ou como dizia Manuel Bandeira, a Dama de Branco.
Mas ela chega inexoravelmente sem aviso, sem sorriso, sem se
anunciar. Apenas chega e cumpre o seu papel que até hoje não sei
qual é.
Envolto nesses pensamentos resolvi acelerar o carro e seguir em
frente e me livrar daquela visão tão desagradável.
Em menos de um minuto, desses minutos que existem em nossas
vidas e que nem percebemos, cheguei ao pedágio.
Parei alguns metros antes de cruzá-lo bem ao lado de uma viatura
da Patrulha rodoviária hoje Policia Rodoviária e saltei de meu
carro esticando as pernas e braços numa espreguiçada discreta.
Eu e alguns policiais ali parados nos entreolhamos
simpaticamente e um maneio de cabeça demonstrou nosso respeito e
simpatia.
Por curiosidade dirigi-me aos patrulheiros e comentei: Boa noite
companheiros o qual fui retribuído com um boa noite efusivo. Boa
noite responderam todos.
E prossegui falando: Credo, que gente estranha mora por aqui.
Acabo de ultrapassar um cortejo fúnebre e já deve estar chegando
aqui, pois de onde cruzei ate o pedágio não há saída nem
retorno.
Os agentes calaram-se e se olharam e todos me olharam também ao
mesmo tempo com um olhar não diria de surpresa, mas de
confirmação.
Um deles dirigiu-se ao outro e comentou: Chico era o apelido de
um dos patrulheiros, o mano viu!
Ansioso perguntei: Vi o que, o cortejo? Vi sim e me surpreendi
com a pompa e o horário que ele esta vindo para cá.
O patrulheiro o mais velho que parecia ser o chefe então
estufando e esfregando a mão no peito comentou: é, mas ele não
vai chegar aqui.
Não porque perguntei, há algum cemitério ou capela por perto?
Não, não há nada parecido.
E continuei, por que não vai chegar e ele está pertinho e não
tem como vocês sabem para onde ir.
E firmando seu olhar dentro de meus olhos e quase da minha alma
ele concluiu:
Trabalho aqui há mais de 10 anos e alguns colegas há mais tempo
ainda e geralmente toda sexta-feira perto da meia-noite algum
motorista que por aqui passa afirma que viu um enterro se
dirigindo para cá e nunca esse enterro chegou.
Há muitas histórias falando sobre isso e para ser franco nesse
horário todo mundo corre para cá inclusive eu.
Quem já viu nunca mais viaja por aqui nesse horário e nem eu
circulo nessa zona há essa hora, salvo se algo grave acontecer.
O senhor vai para onde ele perguntou.
Vou para a Ilha do Governador eu moro lá.
Bem meu caro continuou o interrogante, espere um pouco vá em
paz. Faça uma coisa, já que viu algo que não deveria ver.
Ore, talvez alguma alma perdida apareça para receber as preces
que não deve ter tido. Ore, apenas ore e depois siga seu caminho
em paz, a paz que muitos buscam e jamais encontram. É isso que
fazemos por aqui.
Eu fixei meus olhos naquela imagem de homem cansado e que
parecia saber mais que todos e me perguntei: quem ia no coche?
Quem ia acompanhando?
Apaguei essa absurda interrogação.
Estiquei a mão e apertei a dele forte, mas carinhosa e
respeitosamente.
Agradeci e me afastei em direção a meu carro com tudo em mim
tentando entender e o estacionei diante do posto da patrulha sob
olhares e compreensão de todos.
Lembrei-me mais uma vez de Sheakespeare e sua famosa frase: “Há
mais mistérios entre o céu e a terra do que consegue conceber a
nossa vã filosofia”. •Por precaução resolvi dormir ali mesmo e
só prosseguir minha viagem depois do sol sair”.
O sol é o maior inimigo do medo do desconhecido e do além.
O sol só tem um inimigo que ele não assusta. Ele mesmo. Que o
digam os que perambulam pelos desertos do mundo sob seu manto de
luz e calor.
Desde esse dia resolvi não mais passar por ali depois que o
amigo sol se fosse; afinal ninguém tem medo de enterro durante o
dia, talvez só do próprio.

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