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Na vida quase tudo se repete apenas com novas
máscaras.
Piadas sempre as mesmas. Os mesmos espetáculos circenses, as mesmas lendas
urbanas. Uma coisa difere levemente da outra. Umas são verdadeiras e outras
inverossímeis, normalmente quem conta jura que assistiu ou participou.
A lenda urbana do quente ou frio da comida baiana.
Com pimenta, quente e sem pimenta, frio e por ai afora.
O cara que dorme me acorda sem um rim, o seqüestro de criança para roubos de
órgãos e um monte de historias que pululam a humanidade.
Ás vezes é ate verdadeiro e não cremos pelo hábito de contarem isso
repetidamente.
Apesar disso vou me atrever a narrar algo que eu realmente vivi, só rindo mesmo,
mas vivi com certeza.
Passou-se com a minha primeira esposa, aliás, com os parentes dela.
Seus parentes eram complicados, estranhos, desmiolados em sua maioria e esse
então preenchia com sobras todos esses atributos.
Vou evitar seu nome verdadeiro e vamos chamá-lo de Carlinhos sem referência a
outro conto meu.
Perto dele bambus, (eta) eram gordos. Seu apelido de tão magro era esqueleto.
Ao contrário de outro personagem meu, o Fonfom, esse era maldoso, vivia
premeditando sempre alguma maneira de ganhar dinheiro fácil.
Estava sempre duro. Era casado com uma parenta da minha esposa e assim estávamos
sempre por perto e vendo o que ele aprontava.
Ele morava num bairro carioca classe média D e ao lado dele morava um português
dono de uma padaria no bairro.
Por razões desconhecidas o lusitano entrou em crise financeira e estava perdendo
tudo e em desespero.
Sua esposa o havia abandonado e levado o pouco que restava deixando só a padaria
quase falida e que iria pagar a sua pensão.
O português, que chamaremos de seu Joaquim só para ilustrar, um dia comentou com
a esposa do Carlinhos, aqui chamaremos de Mary, que ia fechar a padaria, pois
estava quase falido. Iria vender seu carro e pagar algumas dívidas, já que o seu
era novinho, a época um Aero Willys Itamaraty um dos mais caros naquela época.
Depois das lamentações e votos de que tudo iria melhorar ela chega em casa conta
para o marido. Então se faz a luz na mente do Carlinhos.
E que luz!
Dessas que o iluminam, mas escurece a vida alheia.
A noite passa se arrastando para Carlos torcendo pelo dia amanhecer.
Cedo Mary se levanta para comprar o pão, pois Carlinhos nunca fazia isso e Mary
estranhou não encontrá-lo.
Ele foi depressa e ao chegar na padaria cumprimentou seu Joaquim.
Bom dia patrício (é como chamam portugueses aqui no RJ)
- Bom dia seu Carlinhos
- Tudo bem?
- Não está nada bem seu Carlos, vou feichaire” a padaria.
- O que? Por quê?
- Ora seu Carlos "estoi" quase ffalido só resta meu carro e essa droga de
padaria.
-Calma, calma!
- Ai Jesus e a mulheire ainda foi embora llevando o pouco que eu tinha.
-Calma seu Joaquim. Olha patrício se pudessse eu ia resolver seu problema
- Como resolveire seu Carlinhos?
- Esquece seu Joaquim.
- Como esqueceire, se o senhor tem como mee ajudaire, me ajude.
- Não posso eu salvei a empresa de um caraa com meu guia e quase morri. Gastei
para me recuperar quase tudo que eu tinha e ele está rico e jamais reconheceu.
- Ora seu Carlinhos eu sou muito grato vejja se me ajuda e eu farei tudo pelo
senhor
- Lamento, mas jurei não fazer mais isso, nunca mais, por dinheiro nenhum do
mundo.
Era esse o papo quando o patrício depois de juras de reconhecimento “convenceu”
Carlinhos a realizar uma sessão espírita para que sua entidade ajudasse seu
Joaquim.
E assim combinaram depois de Carlinhos “recusar” várias vezes “participar disso
e ceder muito” contra –vontade ““.
Carlinhos o que faz? Busca um local ermo, nessa época não era tão perigoso como
hoje, e monta um pacote com terra, velas, charutos, fitas etc... e enterra perto
de uma árvore nesse devido ermo.
Em seguida marca com o português uma sessão com o caboclo Rompe Mandinga ou um
nome parecido
Todos reunidos um ambiente feérico, eis que baixa no Carlinhos, o tal caboclo
batendo a mão no peito e gritando ÊÊÊEEEEEEEEEEEEEEEEE
Oi Pai EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE
Joaquim nunca tinha visto algo assim e tremeu
O Caboclo olhou diretamente para o português e vociferou
Ta "fudidu"
Vai fica na merda
EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE
E continuo: e vai morrer
Tem um fazendo de trabaio pra matar suncê
EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE
Mas antes vai pedir esmola
EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE
Joaquim chorava copiosamente e em um momento de terror e humildade atirou-se aos
pés da “entidade” e implorando falou: “Me ajude caboclo”
E então o golpe de misericórdia:
Se te ajudar seu filho da puta o que você vai fazê pelo meu cavalo? "Suncês
depois de sirvidu somem tudo" e se fizé mar a meu cavalo faz mar pra mim e eu
sou pior que o que te deixou assim. EEEEEEEEEEEEEEEEEEE O que fizeram para suncê
é pra “modi” tua “custela” inté deixar e suncê ficar na miséria.
E continuou o guia: suncê arranjou outra “custela” que é feiticeira e quer acaba
com suncê e suncê está pedido pra “modi” morre
Presta a atenção zinfio presta muita atenção os bota longa (polícia) ainda vão
te metê no xilindró e lá os perna de calça ruim (bandido) vão fazendô mardade
com suncê e suncê vai ser como diz quando "custela" (mulher) e perna de calça
(homem) fazem bacuri. Bem suncê sabe.
Fala pra meu cavalo (corpo que recebe a entidade) ajudar suncê ou eu acabo cum
ele também.
E num grito maior que todos a “entidade” subiu
EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE sendo que Carlinhos num falso desmaio
caiu de costa na sala de sua casa respirando fortemente.
Fingindo acordar de um transe profundo Carlinhos olhou seu Joaquim como se não o
visse há anos e disse: oi seu Joaquim o senhor está aqui? Está tudo bem?
Joaquim ainda apavorado já se imaginando preso e casado na cadeia respondeu: sim
seu Luizinho imediatamente contentado pelo “cavalo”. Luizinho não seu Manuel, é
Carlinhos o senhor esqueceu? Abrindo um largo sorriso já imaginando o resultado
da sessão. Também não me chamo Manuel, eu sou Joaquim respondeu o patrício.
Cessado a troca de “conhecimentos” Joaquim contou para Carlinhos o acontecido e
a recomendação da “entidade” a que Carlinhos protestou dizendo não, não várias
vezes, até que Joaquim disse que se ele não o ajudasse ele ia morrer.
Carlinhos “revoltado” protestou: então o senhor está me ameaçando e eu fazendo o
bem.
Joaquim explicou: eu não seu Carlinhos foi o caboclo que mandou esse recado para
o senhor.
Finalmente Carlinhos concordou e exigiu que Joaquim voltasse na sexta-feira, ou
seja, dois dias depois com o que ele pedisse, para desfazer o trabalho que
estava desgraçando seus negócios e sua vida.
Prometendo consultar seus guias para resolver o problema, Carlinhos alegando que
necessitava descansar pois esses serviços acabavam com ele, despachou
“gentilmente” o português.
No dia seguinte Carlinhos retornou à padaria e pediu que Joaquim retornasse em
sua casa um pouco antes da meia-noite sem falta.
Assim dito, assim feito.
Passando um pouco das onze eis que chega Joaquim ansioso e é recebido por
Carlinhos.
Esclareça-se que Mary, esposa de Carlos e prima de minha mulher, não participava
dessas pilantragens, pois era uma mulher séria e de muito valor.
Sentaram e conversaram e a meia – noite baixa, é como falam em manifestações de
Umbanda. Candomblé e Quimbanda a entidade aguardada.
EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE
EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE
SARAVÁ
ILE BABA LOBÔ
EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE
SARVE OXALÁ
SARVE OGUM
SARVE YEMANJÁ
EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE
Sarve perna de calça (Joaquim)
Vou acabar com meu cavalo ele “num quer trazer eu” e fica fazendo corpo fechado,
mas caboclo e teimoso e vai vir sempre e soltou uma gargalhada fantasmagórica
KIA EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE.
E sem delongas olhou o acabrunhado Joaquim e disse: pega papér e escrevendor
(lápis) no que foi prontamente atendido.
O que pedia daria para montar uma pequena venda, armazém desses que antigamente
no tempo de nossos pais e avós, serviam a população dos bairros com o velho
caderno de anotações do fiado.
Eram frangos, vela (poucas) azeite de primeira, bacalhau para os guias com fome,
vinho e marafa (cachaça) aos montes, carne muitos e muitos kg, enfim um absurdo,
além de dinheiro para ser distribuído entre os “pobres”, só rindo mesmo, para
salvar o santo do Carlinhos e fazer uma limpeza depois dos serviços.
Em termos de hoje passaria de 20.000 dólares, para que quem ler essa bobagem
daqui a alguns anos, saiba o valor nessa época, porque o real não sei, mas o
dólar ainda estará no mundo. Até entidades adoram o dólar.
A entidade pediu pressa, pois restava pouco tempo para salvar Joaquim.
No dia seguinte, o português sem dinheiro foi a uma agência e vendeu seu carro
que valeria á época uns 40.000 dólares ou um pouco mais e comprou um carro menos
valorizado, ou seja, um Gordini e com o restante do dinheiro fez o que
prometera.
À noite retornou a casa de Carlinhos com a “encomenda”.
Marcaram para desfazer o trabalho para a noite seguinte, pois cedo Carlinhos
iria distribuir entre pobres a maioria do que a entidade pedira inclusive o
dinheiro.
Na sexta-feira saíram no carro “novo” de Joaquim com a entidade manifestada em
Carlos que num transe guiava o português até a tal árvore no tal ermo.
Saracoteando como doido e sempre com o EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE,
O caboclo disse: cava aqui fio da puta.
Ao cavar, não muito, Joaquim quase desmaia ao encontrar um pacote que
devidamente urinado e azeitado é aberto tendo velas, charutos, um alguidar (tijela
onde os Yorubas e nagôs oferendavam a seus guias comidas e doces) e diversas
fitas de cores variadas. Além de terra que o guia disse ser terra de cemitério
Terminado o teatro a entidade sobe e novamente Carlos pergunta: Onde estamos , o
que todos fazem aqui e outras enrolações.
Depois desse episódio rompemos relações com essa família tão doida e ocorreu a
separação e o fim de meu relacionamento com a minha esposa que já não ia muito
bem, antes que culpem o caboclo, (rindo).
Carlinhos durante quase um ano viveu desse seu “serviço” e tudo terminaria aí se
anos depois ao passar pelo bairro onde Joaquim tinha seu negócio, digo, sua
empresa, eu por curiosidade não resolvesse ver onde era a padaria de Joaquim.
Ela nem existia mais.
Acabara.
Carlinhos mudara nem sei para onde.
Já ia embora quando uma voz gritou: seu dotoire, e eu senti que conhecia a voz e
me virando percebi que não era ninguém menos que seu Joaquim ao lado de uma
mulata de fechar o comercio de tão atraente e bonita.
Ele correu e me abraçou.
Então perguntei: o que faz aqui meu amigo, nessa época acreditava em amizades.
E ele disse, ah Dotoire nem lhe conto. Isso aqui é meu e tenho mais 12 dessas.
Eu olhando sem crer continuei ouvindo.
O seu Carlinhos foi deus quem mandou.
No dia seguinte a ter estado com ele o dono da agencia onde vendi meu carro veio
aqui resolver problemas de documentação e ficou louco ao ver minha padaria quase
falida. Ele tinha trabalhado numa padaria e me propôs sociedade.
Bem para encurtaire, hoje tenho várias padarias e várias agências de automóveis.
Dotoire estou rico e casado com a Maria, a mulher de meus sonhos, ela me olhou
de soslaio com um sorriso de deusa africana que me fez tremer, mas eu sou
agradecido, continuou Joaquim, que agora eu mal ouvia, e até hoje mando todo mês
as compras e vários presentes para seu Carlinhos, pois abaixo de Deus ele é quem
me fez ter tudo que tenho. Ele e seu guia.
Até queria que ele fosse sócio de uma firma comigo, mas ele anda doente e não
quis, prefere essas coisinhas que mando para ele.
A doença dele se chama até hoje se ainda esta vivo (vagabundite).
Embarcando de volta no meu carro, lembrei de algo que crentes falam e imaginei
que: Deus faz o direito por linhas tortas.
Pensei na Tora (Livro religioso dos judeus) e nos seus 600 mandamentos. Rindo
passou pela minha cabeça a diferença da cidade santa de Judeus e católicos e o
que judeus mais amam.
A cidade é Jerusalém e judeus amam Juros além.
Para encerrar: SARAVÁ ZINFIOS, EEEEEEEEEEEEEE EEEEEEEEEEEE EEEEEEEEEEE...rsss
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