

Estranha recordação tive hoje sobre alguém da
minha infância que á ocasião nem imaginei teria tanta importância na formação de
minha personalidade e comportamento.
Seu nome era simples como ele era. Apenas Ivo, pois o sobrenome eu nunca soube e
nem sei até hoje.
Ivo era magro, alto, simpático, educado e respeitador como se soubesse e
sentisse sua insignificância. Tinha um bigodão e um ar indefectível e que nunca
olhava para nenhum lugar. Apenas olhava e nem ele sabia para onde.
Sempre mal barbeado e de passo sereno preenchia a visão de Bento Ribeiro o
bairro onde nasci e ele também. Ele fazia parte do folclore do bairro.
Sua imagem nem lembrava que era de família abastada proprietária de vários
terrenos e uma casa muito bonita como eu sonhava que fosse a minha.
Ivo estava só, pois sua família morrera. Pai, mãe irmão e irmã se foram um a um
lembrando Raimundo Correa em seu poema as pombas.
Há criaturas que nascem estigmatizadas pelo sofrimento da solidão. Ivo era uma
dessas criaturas.
Ivo era humilde e fazia serviços diversos para todos, pois seus bens se esvaíram
nas garrafas de bebida alcoólica e ele se tornara um nada ou quase nada
dependente do álcool.
Ele era o “office boy” do bairro e comprava condimentos, jornais, água
sanitária, papel higiênico não e nem modess, ob nem existia nessa época, pois as
senhoras tinham vergonha, e ás vezes quando acordado até comprava o pão pela
manhã.
Ganhava uma gratificaçãozinha, um café da manhã ou mesmo apenas um muito
obrigado.
Assim era Ivo.
Um dia meu pai pediu que ele fosse comprar um jornal, um simples jornal e
deu-lhe o dinheiro e sempre deixava o troco com ele. Nesse dia ele não voltou
com o jornal e sumira por dias.
Ate que sua necessidade de suprimento alcoólico se fez presente e ele foi
novamente lá em casa pedir um dinheirinho como sempre fez ou ver se havia algo
que ele pudesse fazer para ganhar algum.
Meu pai estranhamente o expulsou de nossa porta e o chamou de desonesto e
vagabundo.
Fiquei surpreso e minha mãe protestou contra a atitude de meu velho sempre bom e
paciente mas intolerante com desonestidades.
Foi rigoroso, rude, cruel mesmo dentro de seu direito. Nem sempre o direito nos
dá o “direito” de agir como desejamos e acabamos não agindo direito e essa
ocasião foi uma delas.
Um dia sai para o colégio bem cedo e Ivo estava sentado em sua porta ou a que um
dia fora sua e ao voltar ele ainda estava lá estranhamente quieto.
Seu corpo jazia rígido sentado para jamais se levantar sozinho.
Era frio e o som agourento do amolador de facas enchia o dia onde alguns
curiosos apreciavam o cadáver.
Ao entrar em casa notei tristeza no rosto de meu pai como se lamentasse nada
mais poder fazer para ressarcir este ser cuja vida de fracassos encerrava-se tão
tristemente.
Meu velho olhou-me e sua fisionomia dizia : filho jamais aja como eu agi, use da
piedade que os mais fortes devem ter pelos seus fracos que eu não soube ter para
jamais sentir remorsos.
Ivo morrera mas nos ensinara algo.
Tive pena dele , mas ele não sofria mais pois a dama de branco exaltada por
Bandeira tivera mais piedade dele do que nós seus semelhantes.
Porém tive mais pena de meu pai, que jamais se perdoaria pelo momento de
fraqueza por deixar crescer em si o ódio por quem nem merecia ser odiado, pois a
vida se vingara dele de maneira cruel.
Ainda lembro de Ivo sentado em sua porta descansando, descansando para sempre
deixando conosco uma lembrança, uma lição de humildade respeito compreensão e
amor.
E o mais importante: não carregando para sempre o remorso que só a dama de
branco apagaria.
As pombas voltaram para os pombais, mas Ivo jamais voltará e por isso sofri toda
vida pelo sofrimento de meu pai
Se houver vida após a vida com certeza meu velho não se desculpará pois ele não
fazia isso mas, com certeza estará tratando o Ivo como ele nunca foi tratado
aqui e dizendo: Ivo você é um grande cara. Bom te ver feliz e para si
completará: e a mim também.
Se meu pai pudesse me dizer algo ele diria: filho EU VI O IVO e ele está ótimo.
Paz , luz e muita compreensão para jamais sentirmos remorsos.
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