Reminiscências são bem interessantes e eu costumo compará-las com um armário onde guardamos objetos que não usamos mais ou usamos raramente.
Sabemos que está lá, mas achá-los é o grande problema.
O armário de nossas lembranças é nossa mente, o cérebro, mas onde localizá-las é complicado.
Como no armário tudo fica entulhado, sobrepostas e desanima tentar pegar algo nesse labirinto de recordações.
Nesse momento uma delas veio á tona e antes que retorne para o armário dos esquecidos vou narrá-la.
Uma pessoa que gosto muito me disse: Anderson tudo acontece com você, tinha mesmo que ser escritor. Jamais deixe de passar adiante tua experiência, pois ela serve de guia pra acontecimentos incomuns e assim entendê-los e neles acreditar antes que virem lendas urbanas.
Numa narrativa anterior, contei um “causo’ como diria um nordestino que não sou, mas descendo deles, de um companheiro de infância que incendiou um valão com combustível e restos de óleo derramado por um posto de abastecimento de veículos (nessa época não existia IBAMA) se existisse teria sido uma bomba atômica dependendo da propina paga.
Como conseqüência, os bueiros explodiram e alçaram vôo atingindo mais de 10 metros de altura. Muitos acharam inverossímeis os fatos e em referência zombeteira afirmaram que eu estava inventando. Ontem uma notícia calou a todos.
Em Copacabana por algo inexplicável, possivelmente um vazamento de gás ou mesmo derrame de combustíveis, diversos bueiros explodiram levantando suas tampas a mais de 20 metros de altura tornando minha história café pequeno, discreta e totalmente crível.
Liguei para alguns descrentes e disse: poxa lembrei que as tampas dos esgotos de meu conto, voaram 30 metros de altura e não só dez. Se em Copa subiu 20 metros em Bento Ribeiro subiu mais.
Alguns riram insossamente e como diria o velho lobo Zagalo, tiveram que me engolir.
Essa nova narrativa também raspa pela inverossimilidade, mas mesmo assim vou contar. Acreditem se quiser.
Encerramento de ano letivo eu fui aluno e professor de um colégio do subúrbio chamado Colégio Madureira de deliciosas lembranças e como sempre outras tristes.
Fechamos um bar na rua principal do bairro e bebíamos sem restrições, daquela falta de restrição onde o de “bebum” não tem dono.
Deixo claro que eu não bebia antes que desconfiem de mim.
Mas todos salvo um colega pára-quedista e eu, estavam como dizem hoje para lá de Marrakesh.
Éramos uns 10 ou 12.
Três professores e os demais alunos.
Bebiam e comiam tudo do bar ate que a comida acabou.
Alucinados pelo álcool e pela farra resolveram furtar comida de um supermercado vizinho cujas portas eram vazadas como as de açougues.
Assim o furto ficou fácil e com o cabo de arriar as portas do bar eles puxavam lingüiça, paio e tudo comestível. Assim até uma lata de um suco chamado Yuke veio junto.
Repentinamente luzes vermelhas iluminaram o palco da ação “desonesta” e de soslaio vimos que era um carro da PM.
Saltaram da viatura um pouco em dúvida e nos abordaram.
Boa noite. O que esta acontecendo aqui?
Pegos com as calças na mão ficamos sem resposta.
O dono do colégio estava conosco e assumiu a explicação e aí complicou tudo.
Bêbado, falou: seu policia é que a comida acabou e só viemos roubar um pouco não podemos é ficar com fome. Todo mundo rouba não é? Principalmente a policia.
Isso enfureceu os PMS que imediatamente mudaram de uma ação pacifica para uma agressiva.
Deram voz de prisão a todo mundo e imediatamente assumimos nossa função de militar do Exército e especialmente do Grupamento Aero transportado eu e o colega Humberto.
Os PMS se retraíram, pois nessa época o Exercito era respeitado e ate temido.
Argumentamos que era final de ano e eram alunos e mestres numa despedida e que pagaríamos os prejuízos.
Disse aos policiais que jamais queríamos desrespeitá-los e apenas houvera um mal entendido pelo excesso de bebida ingerido por todos e aí eu me inclui.
Depois de muito dialogo cordial os policias relaxaram e então a coisa engraçada começou.
Convidamos os PMS para participar conosco da festa e eles aquiesceram e sugeriram que carregássemos mais comida para que pudéssemos nos divertir melhor.
Anos depois riamos muito dessa conclusão, mas estava apenas começando o festival de absurdos que mereceu esse conto.
Célio um dos professores bebera muito e mal se sustentava de pé e resolveu ingerir o suco que trouxemos: o tal Yuke e resultado: vomitou tudo o Yuke a lingüiça comprada, a lingüiça roubada, as bebidas e tudo o mais que ele havia comido naquele momento e antes, inclusive o almoço e o lanche e etc. etc. etc.
Emilio um aluno escorregou como em a pescaria no vômito do Célio caindo sentado sobre ele olhando com cara de ausente sem nem saber para onde.
Eu e Ribas horrorizados saímos para a rua e respiramos ar fresco.
Quem ainda se mexia saiu batido do bar
Os PMS rapidamente lembrando seu dever se mandaram antes que a coisa piorasse, já que até eles estavam doidões e a comida acabara novamente.
Entendemos que era hora de despachar os colegas, só que nenhum deles conseguiria pegar um ônibus para casa.
Jorand um bom menino morava em Marechal Hermes e Paulinho ali mesmo em Madureira local da comemoração.
Como Jorand estava muito doido pedimos ao Paulo que o levasse ate o ponto do ônibus e o embarcasse, já que Paulinho se dizia duro na queda e que nunca ficava embriagado.
Ambos saíram e nós permanecemos no bar para o acerto de contas com Américo português o dono do bar.
Paulinho ao sair para levar Jorand disse esperem que volto já só vou por o menino como chamávamos carinhosamente Jorand no ônibus e já venho.
Assim dito assim Foram.
Decorrido algum tempo eis que surge Jorand sozinho.
Perguntei, Jorand o que faz aqui cadê Paulinho?
Então a surpresa ele disse ora Paulinho foi para casa eu o coloquei no ônibus e ele não queria ir de jeito nenhum estava muito bêbado, mas foi.
Rindo muito e vendo Célio se recuperar perguntamos: Célio o que foi isso e ele calmamente como saindo de um estagio de sonambulismo respondeu: nunca mais faço isso, nunca mais e com nossa anuência ratificamos: Faz bem você bebeu exageradamente. E ele completando: nunca mais tomarei Yuke. Foi aquele maldito Yuke
Encerramos nossa comemoração com sonoras gargalhadas onde aprendi algumas coisas dentre elas as seguintes: bêbado não leva bêbado para pegar ônibus, roubo de lingüiça não da certo especialmente quando os PMS comem toda lingüiça que roubamos. Quem não bebe não fica perto de quem bebe e finalmente e o mais importante: Jamais, mas em nenhuma hipótese beba Yuke.


 

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