Karl Marx
Karl Heinrich Marx nasceu na Alemanha, em 15 de maio de 1818, na pequena cidade de Treves; filho de um advogado de origem judaica, Heinrich Marx, e de uma dona-de-casa, Henriette Pressburg. O jovem Karl, sob o incentivo intelectual do pai, realizou os seus estudos básicos em Treves seguindo, posteriormente, para Bonn, para estudar Direito. Karl, como a maioria dos jovens de todos os tempos, preferiu mergulhar no clima boêmio da cidade, imersa nos ideais do romantismo idealista de Schelling, Goethe e outros, que a se dedicar seriamente aos estudos das Leis. Por isso seu pai o transferiu para uma universidade mais disciplinada, a Universidade de Berlim, em 1836. Ainda neste ano, o romântico Marx se apaixona e noiva secretamente com uma das mais belas mulheres de Treves, e tão jovem e idealista quanto ele: Jenny von Westphalen, cujo irmão, Ferdnand, seria ministro do Interior da Prússsia posteriormente. Marx casou-se com ela, finalmente, em 1843. Em Berlim, Karl seguiu com destaque os cursos disciplinares e freqüentou o "Doktor-Club", círculo de jovens e brilhantes intelectuais hegelianos. Lá, discutiam a filosofia de Hegel e outros filósofos românticos. Em 1841, Karl laureou-se em filosofia em Berlim, com a tese intitulada Diferença entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e a de Epicuro. Depois de formado, Karl tentou seguir a carreira acadêmica na universidade de Bonn com a ajuda de seu amigo, o teólogo Bruno Bauer. Porém, este era considerado um teólogo progressista e ousado demais, e foi logo afastado da universidade, frustrando os anseios de Marx. Sem poder seguir seu sonho, Marx se dedica ao jornalismo, sendo o redator da "Gazeta Renana", órgão de concentração dos burgueses radicais da Renânia, onde escreviam homens como Herwegh, Ruge, Bruno Bauer e seu irmão Edgar, bem como Mose Hess. Logo Marx seria promovido a redator-chefe. Entretanto, em 21 de janeiro de 1843, o jornal foi oficialmente interditado. Nesse mesmo período, a imensa produção intelectual de Marx estava em pleno vapor, mesmo que, no global de sua obra, estivesse ainda em seu início. Estudioso de Feuerbach, Marx escreve em 1844 a Crítica do Direito Público de Hegel, da qual a introdução foi publicada em Paris no ano seguinte por Ruge, nos "Anais Franco-Alemães", do qual Marx seria, a convite de Ruge, co-diretor. Na cidade Luz, Marx entrou em contato e foi bem recebido por vários grandes intelectuais como Proudhon, Blanc, Heine, Denizard Rivail, George Sand, Bakunin e, sobretudo, o seu grande amigo e colaborador de toda a vida, Friedrich Engels. Porém, mais uma vez, a ousadia e o impacto dos "Anais" acabaram por decretar o seu próprio fim, tendo sido publicado apenas um volume. Marx, porém, com a ajuda de amigos da cidade alemã de Colônia, prosseguiu sua incansável pesquisa em filosofia e economia política. Foi nesta época que ele escreveu talvez a sua obra mais importante antes de O Capital e, em muitos pontos, mais transparente e acessível ao pensamento de Marx que sua obra irmã posterior: Os Manuscritos Econômico-Filosóficos. Karl também contribuía com artigos políticos para o jornal dos artesãos alemães, o "Vorwärts". Como este jornal tinha uma linha crítica-socialista e os artigos de Marx eram muito brilhantes, e como o jornal era lido por várias outras pessoas além dos artesãos a quem se dirigia (especialmente estudantes), a colaboração de Marx acabou por inflamar mais uma vez os ânimos dos poderosos de todos os tempos, e Karl foi expulso da França em janeiro de 1845. Em 1845, escreveu A Sagrada Família, em colaboração com Engels e dirigido contra Bruno Bauer e os hegelianos de esquerda. Ainda contra eles, Marx e Engels escreveram em Bruxelas (onde Marx havia se refugiado depois de sua expulsão da França) A Ideologia Alemã, em 1846. As Teses sobre Feuerbach foi escrita em 1845, rejeitando o materialismo teórico e reivindicando uma filosofia que, em vez de só interpretar o mundo, também o modificaria. A Miséria da Filosofia, que remonta resposta a miséria da filosofia de Proudhon, de 1847, é o escrito no qual Marx ataca o "socialismo utópico" em nome do "socialismo científico". Ainda residindo na Bélgica, Karl e Engels passam a aprofundar ainda mais seus estudos, com o apoio de Jenny. Em janeiro de 1848, Marx e Engels redigem o famoso e ainda altamente atual - em sua visão crítica do capitalismo - Manifesto Comunista, a pedido dos membros da "Liga Comunista" de Bruxelas. Foi o último livro em comum dos dois autores. Com os movimentos sociais de 1848 na França, Marx volta a Colônia, na Alemanha, onde tenta novamente o jornalismo, fundando "A Nova gazeta Renana". Posteriormente, depois de lhe ser negada permanência em Paris, Marx vai para Londres, em 1849, onde permanecerá até sua morte. O 18 Brumário de Luís Bonaparte foi publicado em 1852 em jornais e em 1869 como livro. É a primeira interpretação de um acontecimento histórico, no caso o golpe de Estado de Napoleão III, pela teoria do materialismo histórico. Entre os escritos seguintes de Marx Sobre a Crítica da Economia Política em 1859 é, embora breve, também uma crítica da civilização moderna, escrito de transição entre o manuscrito de 1844 e as obras posteriores. A significação dessa posição só foi esclarecida pela publicação (em Moscou, 1939-41, e em Berlim, 1953) de mais uma obra inédita: Esboço de crítica da economia política, escritos em Londres entre 1851 e 1858 e depois deixados sem acabamento final. Na capital do Reino Unido, Marx passa por toda sorte de dificuldades, mas com a ajuda de Engels e de seus artigos para vários jornais, Karl consegue se dedicar e aprofundar-se em suas pesquisas de economia política, sociologia e história de tal modo que seu conhecimento e argumentação impressionam a todos os que o conhecem. Destas são as sementes que mais tarde iriam eclodir em O Capital, cujo primeiro volume, redigido por Marx, veio à luz em 1867, sendo os outros dois compilados por Engels a partir das notas originais e publicados após a morte de Karl, em 1883. Dedicado quase que obsessivamente na atividade de organização política do movimento operário, Marx funda em Londres, em 1864, a "Associação Internacional dos Trabalhadores". No período posterior, Marx se dedica febrilmente ao trabalho. Em 1881 morreu sua companheira e grande incentivadora, Jenny. Semi-solitário, mas muito ativo, Marx finalmente expira em 14 de março de 1883.
Marx foi um grande homem e um gênio, quer da Filosofia, quer da Sociologia, quer da Economia Política, e disso poucos ousam questionar. O grande problema surge quando o seu legado passa a ser 'apropriado' pelos seus seguidores e admiradores, ou mesmo - e principalmente - pelos seus inimigos (muitos e muito versados na obra do mestre), que é exatamente o mesmo problema no legado de outros grandes homens, como Sócrates ou Cristo, em especial quando tentam institucionalizar sua herança. Ainda hoje, mais de um bilhão de seres humanos vivem e são educados naquilo que se chama erroneamente de marxismo (China, Cuba). Porém, há décadas que se sabe que este marxismo não é o de Karl Marx, e tal qual ele se apresenta há pouco de Marx e muito de outros, ou seja, está altamente contaminado. Este "marxismo" é uma vertente interpretativa do pensamento de Marx e dificilmente seria aceita por ele, mas, infelizmente, se transformou numa ideologia rígida dos chamados países comunistas. E foi, também, apropriada e altamente cristalizada tal como hoje se apresenta pelos ditos capitalistas, sendo usada como arma para manter, por ambos os blocos, seu poder. De qualquer forma, não há que se negar que mesmo nestes países as conquistas sociais foram inúmeras. Dentre os bilhões de habitantes da China, quase ninguém passa fome, e em Cuba, apesar de um embargo econômico criminoso de mais de 40 anos, todos têm direito à educação, moradia e um dos melhores sistemas médicos do mundo, mostrado pelos seus índices de IDH. Não podendo abarcar toda o alcance e extensão da obra de Marx, que é um dos pais da Sociologia e presença obrigatória nos cursos de História e Filosofia e, claro, Sociologia, podemos começar dizendo que o pensamento de Marx é, fundamentalmente, uma tentativa de compreensão da sociedade capitalista, onde uma minoria (os capitalistas) dita as regras para o viver e o pensar de uma maioria (os trabalhadores). Marx se dedica a analisar as contradições entre estas duas classes. A distância imensa e o desequilíbrio entre os que detêm os instrumentos para a produção, como máquinas e equipamentos vários, e a terra (meios de produção) e os que nada têm a não ser sua força de trabalho (os assalariados, empregados e operários), constituindo duas classes básicas e cada vez mais polarizadas no sistema capitalista, é o que salta aos olhos nos primeiros estudos de Marx. A tensão entre estas duas classes, que a cada dia parece aumentar - mesmo que tacitamente - agora pode se mostrar em sua frieza já que não parece mais existir a ameaça socialista, desde o fim da União Soviética - e tal fim é amplamente propagado pelos meios de comunicação responsáveis pela divulgação da ideologia (visão de mundo) mais favorável ao capitalismo, e este pode agir como bem quiser, sem que haja o contrapeso 'marxista' para equilibrar seus exageros. Principais Obras de Karl Marx
Capitalismo e Moderna Teoria Social - Antony Guiddens Páginas 79 a 122 3. As Relações de Produção e a Estrutura de Classes Segundo Marx, o progresso da sociedade é a resultante da interação produtiva contínua que se estabelece entre os homens e a natureza. Os homens diferenciam-se dos animais quando começam a produzir os seus meios de subsistência. A produção é o primeiro ato histórico, sendo condição fundamental para que a vida humana possa manter-se. Marx parte da premissa de que os sistemas de produção se caracterizam por um determinado conjunto de relações sociais que se estabelecem entre os indivíduos implicados no processo produtivo, para criticar o individualismo. Os seres humanos não produzem individualmente, mas como membros de uma determinada forma de sociedade. Não há nenhum tipo de sociedade que não se baseie, portanto, num conjunto de relações de produção. As sociedades se baseiam numa soma de forças produtivas, numa relação historicamente criada dos indivíduos entre si e com a natureza, que cada geração herda de sua antecessora. Domínio de Classe Marx foi o responsável pela descoberta da existência de classes na sociedade moderna, e para ele, as classes surgem quando as relações de produção geram um divisão diferenciada do trabalho, permitindo a acumulação de excedentes de produção por uma minoria. Marx não chega a definir precisamente o que é classe, mas escreve sua definição negativa : classe não é a origem dos rendimentos ou a posição funcional no interior da divisão do trabalho. Esses critérios levariam-nos a pensar que médicos e agricultores, por exemplo, pertencem a classes independentes, ou que dois produtores civis, um empregado e o outro proprietário de uma pequena empresa, pertencem ao mesmo grupo. A afirmação de que as classes são definidas pelas desigualdades na distribuição de rendimentos e que o conflito de classes poderia ser atenuado ou eliminado adotando-se medidas que minimizassem a discrepância entre os rendimentos, é inadmissível para Marx. Para ele, todas as sociedades de classes se edificam entre duas classes antagônicas: a dominante e a dominada. Por exemplo a burguesia: os capitalistas só constituem uma classe quando se vêem obrigados a entrar em luta contra outra classe. A Estrutura de Classe e as Relações de Mercado A concepção dicotômica de classes (somente dominados e dominadores) é muito teórica, sendo as sociedades, na prática, caracterizadas por sistemas de relações mais complexos. Há classes que desempenharam um papel importante, mas eram marginais por possuir relações de produção ultrapassadas, como os agricultores; estratos que mantêm relação de dependência com uma classe, identificando-se com ela; e os grupos heterogêneos de indivíduos que estão à margem do sistema de classes, não se integrando na divisão do trabalho, como os criminosos. A organização das classes e a natureza do conflito de classes diferem nas sucessivas formas de sociedade. Nas sociedades pré-capitalistas, o domínio ou a subordinação econômica confundem-se com laços pessoais existentes entre os indivíduos. Só com o capitalismo, baseado na expropriação de uma massa de trabalhadores, é que as relações de mercado se tornam determinantes da atividade produtiva humana, pois os trabalhadores vendem sua força de trabalho a troco de meios de subsistência. A exploração passa a ser "nua e crua". Já com a implementação do capitalismo, verifica-se a tendência para a criação de duas grandes classes: burguesia e proletariado. As outras tendem a ser absorvidas por uma ou pela outra. Na concepção de Marx, as classes constituem o principal elo entre as relações de produção e o resto da sociedade, ou " superestrutura". As relações de classes são o eixo principal da distribuição do poder político, delas dependendo também a organização política. O estado moderno surge com a luta da burguesia contra o resto de feudalismo, sendo estimulado pelas exigências da economia capitalista. A forma que ele assume na sociedade burguesa varia de acordo com as circunstâncias em que a burguesia ascendeu ao poder, sendo diferentes, por exemplo, na França e Inglaterra. À propriedade moderna corresponde o estado moderno que, gradualmente comprado pelo sistema de impostos pelos donos das propriedades, caiu nas mãos dos burgueses. A Ideologia e Consciência O sistema legal e judicial moderno é o principal suporte ideológico do estado burguês., já que a classe dominante sempre procura, nas sociedades de classes, formas ideológicas que legitimem o seu domínio. Por isso Marx afirma que "não é a consciência do homem que determina a sua existência, mas antes a sua existência social ". Deve-se acentuar que a ideologia tem de ser estudada em função das relações sociais em que se insere: deve-se estudar tanto o processo concreto que dá origem aos vários tipos de idéias, como os fatores que determinam quais as idéias que adquirirão importância numa sociedade. Há na concepção ideológica de Marx, dois aspectos que se relacionam e que devem ser destacados. O primeiro é que as circunstâncias sociais em que se exerce a atividade dos indivíduos condicionam sua visão de mundo. O segundo refere-se, principalmente, à difusão das idéias. Marx afirma que a disseminação das idéias depende predominantemente da distribuição do poder econômico na sociedade; a moral prevalecente é a da classe dominante. Idéias de um grupo só se tornarão dominantes se se articularem com os interesses da classe dominante ou com os de uma classe que se encontre numa posição forte para contestar a autoridade vigente. A base da sociedade é sempre constituída pelas relações entre indivíduos ativos e dotados de vontade, implicando, portanto, a criação e a aplicação de idéias. O aspecto essencial da "superestrutura" não é o fato de encarnar idéias, mas o de ser constituída por um sistema de relações sociais que regulam e sancionam o sistema de domínio de classe. Sobre o problema da relatividade do conhecimento histórico, Marx o resolve a partir de um exemplo: a anatomia do homem, criatura mais evoluída, permitiu a compreensão da anatomia do macaco; assim, a compreensão da estrutura e do processo de evolução da sociedade burguesa nos fornece categorias que permitem explicar a evolução social do mundo antigo. Ou seja, utilizando-se os conceitos formulados pelos economistas políticos, é possível aplicar-se de forma geral noções como trabalho e produção, a sociedades de níveis de complexidade diferentes. Todas as classes dominantes afirmam que a ideologia que legitima a sua posição de domínio é dotada de universalidade, mas para Marx isso não quer dizer que a subida ao poder de uma nova classe revolucionária seja equivalente em tipos de sociedades diferentes. O esquema que Marx utiliza para mostrar uma transformação social revolucionária é a seguinte: numa sociedade estável, quando se verificam progressos na esfera da atividade produtiva, surge uma tensão entre as novas forças produtivas e as relações de produção vigentes. As relações vigentes tentam impedir às novas forças. Essas contradições são os conflitos de classes, dando origem às lutas revolucionárias. O resultado dessa luta é a ruína das classes contendoras (ex. Roma) ou reconstituição revolucionária da sociedade em geral (ex. transição do feudalismo para o capitalismo). A classe revolucionária invoca os direitos humanos universais A ascensão de uma nova classe inaugura um período de estabilidade, porém , quando esta estabelece seu domínio surge, pouco depois, uma oposição mais hostil à nova classe. A diferença entre a sociedade burguesa e as outras formas de sociedade de classe que a precederam é que as classes revolucionárias, após tomarem o poder, tentavam proteger sua posição submetendo o resto da sociedade às suas condições de apropriação; o proletariado só poderá alcançar uma posição de domínio abolindo o seu próprio modo prévio de apropriação. Segundo Marx, a substituição do capitalismo ocorrerá porque a burguesia fez com que surgisse uma contradição cada vez mais acentuada entre as forças produtivas e a alienação da grande massa da população. A substituição do capitalismo criará condições que permitirão ao homem recuperar o seu ser alienado.
A Teoria da Mais-Valia Marx tem grande interesse ao longo de sua obra pela dinâmica da sociedade burguesa. O objetivo principal de sua obra O Capital é definir a lei econômica do movimento dessa sociedade, examinando sua base produtiva. Ou seja, Karl Marx estabelece a ligação entre as características da sociedade e seu modo de produção. Segundo "O Capital", o capitalismo é um sistema de produção de bens. Neste sistema, os produtores não produzem apenas o indispensável para sua subsistência, ou de pessoas próximas. O capitalismo implica um mercado de trocas, que pode atingir até mesmo um nível mundial, com o comércio entre países. E todos os bens podem ser encarados sob dois aspectos: o do seu valor de uso e de seu valor de troca. O valor de uso refere-se à utilidade dos bens, e as necessidades que podem ser satisfeitas por eles. Um objeto pode ter valor de uso e não ser um bem, mas um bem sempre tem que ter valor de uso. Já o valor de troca refere-se ao valor que determinado produto tem na troca com outros produtos. O valor de troca é inseparável de um mercado de troca dos produtos, e só existe quando se refere a bens. Marx diz que o valor de uso e o valor de troca de um bem relaciona-se diretamente com a quantidade de trabalho necessária para produzi-lo. Esta quantidade pode ser medida pelo tempo gasto pelo trabalhador na produção do bem. Um melhoramento tecnológico, por exemplo, poderia diminuir a quantidade de tempo gasta na produção de um bem, e consequentemente uma diminuição correspondente em seu valor. O capitalista tem de comprar e vender os bens pelo seu valor real, e no fim do processo, obter o lucro, uma quantia superior àquela que foi aplicada no início. Este aparente paradoxo é explicado por Marx em função da teoria da Mais-Valia. Ele explica que, devido ao fato de os trabalhadores poderem vender sua força de trabalho livremente no mercado, esta passa a ser um bem, comprado e vendido. Para renovar a energia despendida no trabalho, o trabalhador precisa receber o mínimo necessário para sua subsistência. O tempo de trabalho necessário para garantir essa subsistência é o valor de sua força de trabalho. Todo o tempo que ele passa produzindo além do necessário é a Mais-Valia. A Mais-valia está na origem do lucro. O lucro é a manifestação visível da Mais-Valia. A quantia que o capitalista despende para contratar trabalho é apenas uma parte do capital investido, o capital variável. A outra parte é despendida em máquinas, instalações, etc., e é chamada capital constante. Só o capital variável cria valor, o capital constante não sofre nenhuma mudança de valor durante o processo de produção. Ou seja, quanto maior o capital variável em relação ao capital constante, mais elevada será a taxa de lucro. As contradições econômicas do sistema Capitalista Segundo Marx, a procura do lucro é intrínseca ao próprio capitalismo. Mas há ao mesmo tempo uma tendência para a descida da taxa de lucro na economia capitalista. A quantidade total de lucro depende da mais-valia nela criada, e a diferença entre o capital constante e o variável na economia determina a taxa média de lucro. Marx diz que para compensar esta tendência, haverá maior exploração do trabalho, que inclui prolongamento do dia de trabalho e a descida dos salários abaixo de seu valor. As crises periódicas que ocorrem no capitalismo são, segundo Marx, a manifestação evidente das contradições internas do sistema capitalista. Nas formas de sociedade anteriores ao capitalismo, a troca dos bens é determinada de acordo com seu valor de uso, onde o conhecimento das necessidades que regula a oferta e a procura. Já o capitalismo é ,em certo sentido, anárquico, pois o mercado não é regido por qualquer força que controle a produção e o consumo, além de ser um sistema expansionista, movido sempre pela procura do lucro. Como a procura do lucro é a motivação dominante do capitalismo, qualquer desequilíbrio entre a oferta e a procura de bens produzidos pode tornar-se uma crise para o sistema. Uma crise é apenas a expansão da produção para além daquilo que o mercado pode absorver dentro de uma taxa de lucro considerada satisfatória. As crises não eqüivalem a uma quebra do sistema capitalista, e sim a uma maneira de regulá-lo, permitindo ao sistema sobressair-se das flutuações .O efeito de uma crise é restaurar o equilíbrio e tornar possível um posterior desenvolvimento. A Tese da Pauperização As crises , citadas no tópico anterior, desempenham um papel importante na consciência revolucionária, já que deixam evidente a situação do proletariado. Condições de pleno emprego são vistas muito raramente no sistema capitalista. A existência de um exército de reserva, ou seja um grupo de desempregados permanentes, é indispensável ao capitalismo, pois contribui para manter os salários baixos. Se não existisse essa reserva, os trabalhadores poderiam fazer pressões para aumentar os salários, e os capitalistas teriam que atendê-los, pois não haveria trabalhadores para substituir os insatisfeitos . Ou seja, poderia ocorrer um colapso no capitalismo. Esta é a tese da pauperização. Segundo Marx, devido a esta característica do capitalismo, o proletariado, ou pelo menos boa parte dele, está condenada a ser pobre, sempre. A essência da tese diz ainda que, por maiores que sejam as riquezas acumuladas pela classe capitalista, os trabalhadores nunca ultrapassarão o nível da subsistência. Ou seja, haverá uma disparidade cada vez maior da riqueza dos capitalistas em relação à classe operária. Concentração e Centralização Concentração é o processo no qual, à medida que o capital se acumula, os capitalistas individuais conseguem aumentar a quantidade de capital que se encontra sob seu controle. Já a centralização consiste na fusão dos capitais existentes, é uma alteração na distribuição do capital já existente. O efeito desses dois processos é o surgimento de unidades produtivas cada vez maiores. E quanto maiores forem os recursos de um empresário individual à disposição, mais eficiente poderá ser sua produção, já que poderá introduzir economias de escala e resistir a situações inesperadas, como uma crise momentânea no mercado. As unidades de produção maiores tendem a derrubar as pequenas, absorvendo seu capital. Outro instrumento que ajuda a promover a centralização é o sistema de crédito, sendo o setor bancário o principal neste sistema. Os bancos tendem a centralizar os devedores. Os próprios bancos tendem a unir-se, formando um único sistema financeiro. Este processo transforma-se num gigantesco mecanismo social de centralização de capitais. O próprio sistema de crédito é uma empresa capitalista, já que obtém lucro com juros dos empréstimos. A expansão do sistema de crédito seria acompanhada pelo desenvolvimento das sociedades por ações. Segundo Marx, é esse o tipo de organização mais compatível com a centralização em larga escala, constituindo a forma final de desenvolvimento da produção capitalista. A sociedade anônima, que faz a separação entre o capitalista individual e a organização produtiva, eqüivale à "abolição do modo de produção capitalista dentro do próprio modo de produção capitalista" .Está aí uma contradição, pois com as sociedades anônimas fica evidente o caráter social da produção, ao contrário de alguns poucos se apoderarem da riqueza gerada, simplesmente porque são os donos do capital. A pobreza de grande parte do proletariado, a miséria do exército de reserva, o aumento do desemprego e a descida rápida dos salários durante as crises, aumentam o potencial revolucionário. As organizações de trabalhadores vão adquirindo maior organização, junto ao aumento da consciência do proletariado. Estas circunstâncias possibilitam a realização da sociedade socialista. A Transcendência do Capitalismo Num primeiro estágio, a propriedade passaria a ser coletiva, e os salários seriam distribuídos de acordo com uma regra fixa. Nesta sociedade ainda haveria os princípios em que se baseava a sociedade burguesa, ou seja, continuaria considerando o trabalho como um valor de troca. Esse estágio intermediário seria o da ditadura do proletariado. O poder político só seria abolido após a realização deste estágio. Mas nota-se que essa idéia não eqüivale à anarquia: o fim do Estado seria gradual, simplesmente porque não seria mais necessário. Já os anarquistas encaram o Estado como um mal, que deve ser eliminado. A sociedade que sucederia o capitalismo definitivamente substituiria o trabalhador de hoje em dia pelo trabalhador plenamente desenvolvido, apto a executar várias tarefas. Na sociedade capitalista, cada homem tem uma esfera de trabalho particular. Na sociedade comunista, cada um poderia executar qualquer trabalho que desejasse. O trabalho humano deixaria de se confinar ao processo de produção: o homem apenas supervisionaria e controlaria a produção. Concluindo, a proposta principal de Marx em "O Capital" é demonstrar a relação antagônica entre o capital e o trabalho alienado e assalariado. Isso faz o capitalismo conter em si mesmo as contradições que o levariam à sua destruição, e por outro lado permitiriam a transição para uma sociedade mais justa e igual para todos.
Domínio de classes Estrutura de classes e as relações de mercado Comentado por Ruy Fausto em seu livro Marx, Lógica & Política Tomo II Introduzindo esse assunto tão debatido e analisado por Marx, deixaremos de lado as questões que concernem à prática política, a relação entre classes e os frutos dessa relação, e nos voltaremos, assim, apenas a classe em si. Apontaremos o que Marx disse sobre as classes, além de algumas das características desse sistema. "Os proprietários da simples força de trabalho, os proprietários do capital e os proprietários da terra, cujas fontes respectivas de ingresso são o salário, o lucro e a renda da terra, portanto trabalhadores assalariados, capitalistas e proprietários de terra, constituem as três grandes classes da sociedade moderna, que repousa sobre o modo de produção capitalista." Assim, Marx define as "três grandes classes", a partir da propriedade da força de trabalho, da do capital, e da propriedade de terra, e através dos rendimentos que lhes correspondem, o salário, o lucro, e a renda da terra. De acordo com ele, são essas formas de rendimento que nos conduzem à posição das classes, enquanto classes em inércia. Afirma também que essas três categorias são apenas parte das aparências do sistema, e considera errônea e absurda qualquer tentativa de separá-las em fontes independentes do valor. Assim sendo, Marx supõe que o capitalismo se desenvolveria por um processo de centralização e acumulação progressivas do capital, ou seja, os detentores desse capital passariam a acumulá-lo e multiplicá-lo, e esse processo seria acompanhado por um aumento absoluto do proletariado, ou seja, os não detentores dos meios de produção ou do capital, que vendem sua força de trabalho, mas redução relativa do proletariado empregado em relação à massa dos que são provisória ou definitivamente marginalizados. => Comentador O.V. Kuucinen , sobre o mesmo tema, em seu livro Fundamentos do Marxismo-Leninismo As relações sociais entre os homens caracterizam-se por sua complexidade e variedade, e, no decorrer da História, aspirações diferentes ou opostas de muitos homens originaram conflitos entre eles. A luta dentro da sociedade se completava com os choques entre grupos de homens. O marxismo foi a primeira ideologia que tentou formular leis que explicassem esse aparente labirinto e caos, que chamou de a teoria da luta de classes. Anteriormente a Marx, outros pensadores foram conduzidos pelas contradições e conflitos entre os homens de diferente situação social, mas sua concepção sobre as classes permanecia muito vaga e indeterminada, não podendo destacar a característica principal e decisiva que distingue os homens de diferentes classes sociais. Reconheciam que a sociedade era heterogênea, constituída por várias camadas e grupos sociais, mas não conseguiam chegar na base dessa estratificação. Marx, entretanto, observou que todas as diferenças materiais entre classes sociais dava-se ao lugar que essas classes ocupavam na produção social, se são proprietárias dos meios de produção ou se são oprimidas e exploradas. Assim, uma vez que o aspecto principal e decisivo da vida social é a produção material, a base da divisão da sociedade em classes deve ser procurada no lugar que tais ou quais grupos de homens ocupam no sistema da produção social, nas relações em que se encontram para com os meios de produção. A injustiça social, característica básica em uma sociedade exploradora, é, precisamente, fruto da existência de classes. No passado, tentavam justificar essas injustiças como se fossem vontade de Deus, ou conseqüência das habilidades individuais dos homens, mas o fato de se pertencer a uma determinada classe explica a situação dominante e privilegiada de uns, e a opressão e miséria de outros. Nos diversos tipos de sociedades que podem ser analisadas, dependendo de sua situação nela, uma classe pode ser considerada fundamental ou não fundamental. Serão chamadas de fundamentais aquelas que, sem as quais, é impossível ser concretizado o modo de produção que rege a sociedade. Em uma sociedade escravocrata, por exemplo, são classes fundamentais os senhores de escravos e os escravos; numa sociedade feudal, os senhores feudais e os servos; na sociedade burguesa, os capitalistas e os operários. Nota-se que em todos os exemplos dados, uma classe é proprietária dos meios de produção, encontrando-se no poder, enquanto a outra corresponde à massa dos explorados. As relações entre essas classes permanecem sempre antagônicas, baseadas em interesses opostos. Além dessas classes, em uma sociedade baseada na exploração, existem também outras classes, chamadas não fundamentais. Continuando com os exemplos dados, numa sociedade escravocrata, existiam também artesãos e camponeses livres; numa sociedade feudal, haviam pequenos comerciantes; na sociedade burguesa, existem pequenos proprietários de terras. E essas classes, possuindo seus interesses próprios, tornam o sistema de relações ainda mais complexo. Marx dirigiu seus estudos à sociedade capitalista burguesa, que possui como classes fundamentais os capitalistas, ou burguesia, e os operários assalariados, ou proletariado. A burguesia é detentora dos meios fundamentais de produção, e sobrevive às custas da exploração do trabalho assalariado dos proletários. Dessa forma, caracteriza-se como classe dominante da sociedade capitalista. A burguesia foi importantíssima para o rompimento das relações feudais e conseqüente desenvolvimento da sociedade. Como visava o lucro, e foi sempre impulsionada pela concorrência, criou diversos e poderosos meios de produção. Entretanto, com o aparecimento das contradições do capitalismo, seu domínio em relação ao proletariado se tornou o principal freio para o desenvolvimento da sociedade. Por sua vez, o operariado é a principal força produtiva da sociedade capitalista, criadora de enormes riquezas, que são apropriadas pela burguesia. Como não é proprietária dos meios de produção, se vê obrigada a vender sua força de trabalho ao capitalista. Entretanto, nunca, em nenhuma sociedade capitalista, observou-se o capitalismo em tão "pura forma" como descrito acima. Assim, em muitos países burgueses, conserva-se a grande propriedade agrária dos latifundiários. Esses regem suas terras à maneira capitalista, aderindo-se assim à parte mais reacionária da burguesia. Em contrapartida, encontra-se o campesinato como uma classe rural de explorados. A exploração dos camponeses se dá de diversas formas, desde arrendamento pago ao proprietário da terra até serem obrigados a realizar trabalhos suplementares nas terras dos latifundiários. Os camponeses, que trabalham em terra própria, fazem parte da chamada pequena burguesia, juntamente com artesãos e pequenos comerciantes. Possuem pequenos meios de produção, mas não vivem da exploração do trabalho alheio. Se enquadram em uma posição intermediária na sociedade, uma vez que, como a burguesia, são proprietários privados, e como o proletariado, são explorados por essa burguesia. Com o desenvolvimento da indústria, da técnica e da ciência, viu-se surgir na sociedade capitalista a camada da intelectualidade, ou seja, os trabalhadores intelectuais, engenheiros, técnicos, professores, cientistas, administradores de empresas, entre outros. Essa classe sobrevive às custas da venda do seu trabalho intelectual. Dependendo de sua situação material e modo de vida, aproxima-se dos capitalistas ou da massa de trabalhadores. De acordo com o autor, a porção avançada da intelectualidade, à medida que se desenvolve a luta de classes na sociedade capitalista, tende a passar para as posições do marxismo, e participar da luta revolucionária da classe operária. Ainda na sociedade capitalista burguesa, existe uma classe dos desclassificados, marginalizados, que Marx chama de lumpem-proletários. São esses os bandidos, ladrões, mendigos, prostitutas, entre outros. As condições do capitalismo faz com que, constantemente, indivíduos de outras classes sejam lançados à situação de marginalizados. Assim, a sociedade burguesa apresenta um quadro extremamente complexo e variado de diferenças e relações entre classes. E encontra-se como ponto chave para a compreensão do trabalho de Marx a identificação, atrás de toda essa diversidade, da principal contradição de classe da sociedade burguesa, que é a contradição antagônica entre a classe operária e a burguesia. Independente das mudanças sofridas pelo sistema, o capitalismo sempre foi e sempre será um sistema baseado na exploração. E numa sociedade assim, o principal ponto nas relações entre as classes continua a ser a luta inconciliável entre os exploradores e os explorados, debatida a fundo por Marx.
Comentário do autor de O Pensamento de Karl Marx ,David Mclellan Karl Marx apoderou-se dos conceitos dos economistas clássicos, mas tirou conclusões diferentes dos mesmos. O principal economista foi Ricardo, que fizera a distinção entre valor de uso e de troca. O valor de troca era algo separado do seu preço e consistia no total de trabalho corporizado nos objetos de produção, embora Ricardo pensasse que o preço tendia ao seu valor de troca. Com isso, Ricardo quis dizer que o valor de um objeto era determinado pelas circunstâncias de produção e não pelas de procura. Marx utilizou-se desses conceitos, mas para mostrar que o capitalismo era não um sistema estático, e sim de exploração, introduzindo o conceito de mais-valia. A mais-valia foi definida como a diferença entre o valor dos produtos do trabalho e o custo da produção desta forma de trabalho, que era normalmente muito inferior ao valor de troca dos produtos produzidos por essa força de trabalho. E diz, ainda, que a diferença entre uma sociedade baseada no trabalho escravo e outra no assalariado "reside apenas no moda pelo qual este mais-trabalho é, em cada caso, extraído do seu produtor real, o trabalhador". Marx , a partir desse pensamento, mostra que a mais-valia só podia provir do capital variável e não do constante, pois só o trabalho criava valor. E é por essa idéia que se consegue explicar porque Marx acreditava que a taxa de lucro decresceria: como a produção tenderia a ser mecanizada, a hora de trabalho humana diminuiria e, consequentemente, o lucro também . O volume I da obra O Capital pode ser dividida em três seções, sendo a primeira uma reformulação da Crítica da Economia Política na qual Marx estabeleceu 2 espécies de valor: valor de uso e de troca. A segunda é uma parte pequena em que Marx fala da transformação de dinheiro em capital. E foi na terceira seção que Marx introduziu o conceito de mais-valia. Também é possível afirmar que Marx foi pioneiro no uso de informações estatísticas oficiais, que passaram a estar disponíveis a partir de meados do século XIX. A conclusão do livro resume-se perfeitamente em um capítulo que retoma o tema de que a contradição entre extração da mais-valia e a crescente tendência para a acumulação de capital na forma de maquinaria levaria a um cataclismo, resultando no socialismo: "Juntamente com o número constantemente decrescente de magnatas do capital, que usurpam e monopolizam todas as vantagens deste processo de transformação, cresce a massa da miséria, a opressão, a escravatura, a exploração; mas, com isto, também cresce a revolta da classe trabalhadora, uma classe sempre a aumentar em número, e disciplinada, unida, organizada pelo próprio mecanismo do processo da própria produção capitalista. (...) A centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho chegam por fim a um ponto em que se tornam incompatíveis com seu tegumento capitalista. Este tegumento é despedaçado. Dobra o sino a finados pela propriedade privada capitalista. Os expropriadores são expropriados." Marx também fala da mais-valia nos três volumes de Teorias da Mais-Valia, que foi uma espécie de volume IV de O Capital, porém menos acabado do que qualquer dos outros três volumes. São apenas excertos dos economistas clássicos e seus discípulos, alternados com comentários
Comentário de Engels no escrito O Capital de Marx, a partir do estudo da obra I Desde em que há no mundo capitalistas e operários, jamais foi publicado um só livro que tenha para os operários a importância deste (referindo-se a O Capital de Marx). Nele se estuda cientificamente, pela primeira vez, a relação que existe entre capital e o trabalho, eixo em torno do qual gira todo o sistema da sociedade moderna, o que é feito com uma profundidade e um rigor só possíveis em um alemão. A economia política em uso nos ensina que o trabalho é a fonte de toda a riqueza e a medida de todos os valores, de tal modo que dois objetos cuja produção haja custado o mesmo tempo de trabalho encerram idêntico valor. Mas, ao mesmo tempo, nos ensina que há uma espécie de trabalho acumulado, ao qual essa economia dá o nome de capital, e que esse capital, graças aos recursos auxiliares que encerra, eleva cem e mil vezes a capacidade produtiva do trabalho vivo, em virtude do que existe uma certa do que existe uma certa remuneração, que se conhece com o nome de lucro. Todos sabemos o que acontece na realidade: enquanto os lucros do trabalho morto, acumulado, crescem em proporções cada vez mais assombrosas e os capitais dos capitalistas se tornam cada dia mais gigantescos, o salário do trabalho vivo se reduz cada vez mais, e a massa dos operários se torna cada vez mais pobre. Como se resolve essa contradição? Como é possível que o capitalista obtenha lucro, se ao operário é pago valor integral do trabalho que incorpora a seu produto? Diante dessas contradições, a economia usual se coloca numa posição de perplexidade e não sabe senão escrever ou balbuciar algumas frases confusas, que nada dizem. Ninguém conseguiu resolvê-las, até que Marx, por fim, analisou o processo de formação do lucro, reportando-se à sua verdadeira fonte e esclarecendo, desse modo, todo o problema. Em sua pesquisa sobre o capital, Marx parte do fato simples e notório de que os capitalistas aumentam o seu capital por meio da troca, comprando mercadorias com seu dinheiro para vendê-las, em seguida, por mais do que lhes custaram. Por exemplo: um capitalista compra algodão no valor de 1000 táleres (antiga moeda alemã) e o revende por 1100, "ganhando", portanto, 100 táleres. Esse excedente de 100 táleres, que vêm incrementar o capital primitivo, é o que Marx chama mais-valia. De onde nasce essa mais-valia? Apesar de comprar e vender as mercadorias pelo que valem, o capitalista extrai delas mais valor do que inverteu. Como se explica isso? Sob o regime social vigente, o capitalista encontra no mercado uma mercadoria que possui a singular qualidade de, ao consumir-se, engendrar novo valor, criar um novo valor: essa mercadoria é a força de trabalho. Qual é o valor da força de trabalho? Mede-se o valor de toda mercadoria pela quantidade de trabalho necessário para produzi-la. A força de trabalho existe sob forma do operário vivo, que precisa de uma quantidade determinada de meios de existência para viver e manter sua família. O tempo de trabalho necessário para produzir esses meios de subsistência representa, portanto, o valor da força de trabalho. O capitalista paga-o semanalmente ao operário, comprando assim o uso de seu trabalho durante uma semana. Suponhamos que o salário semanal de um operário eqüivale a três dias de trabalho; se o operário começa a trabalhar na segunda-feira, terá reembolsado ao capitalista na noite de quarta-feira o valor integral de seu salário. Mas deixa ele de trabalhar depois disso? Não. O capitalista lhe comprou o trabalho de uma semana : o operário tem, portanto, que continuar trabalhando os três dias que faltam para completar a semana. Esse sobretrabalho do operário, depois de cobrir o tempo necessário para reembolsar ao patrão o seu salário, é a fonte da mais-valia, do lucro, do incremento progressivo do capital. É importante ressaltar que, além do trabalho pago, o capitalista obtém do operário trabalho que não lhe retribui. E isso não é nenhuma suposição arbitrária, pois no dia em que o capitalista, a longo prazo, só obtivesse do operário o trabalho que lhe paga mediante o salário, fecharia a fábrica, uma vez que todo o seu lucro iria por água abaixo. Eis aí a resposta para todas aquelas contradições. A formação da mais-valia (de que uma parte importante constitui o lucro do capitalista) é, agora, completamente clara e natural. O que se dá é que esse valor é muito inferior ao que o capitalista consegue extrair dela, e a diferença, ou seja, o trabalho não pago, é o que representa precisamente a parte do capitalista, ou melhor, as classe capitalista. Assim, até o lucro que, no exemplo dado acima, era conseguido pelo comerciante algodoeiro ao vender o algodão, tem que provir, necessariamente, se a mercadoria não sobe de preço, do trabalho não pago. "Enquanto uma parte da sociedade possuir o monopólio dos meios de produção, o operário – seja livre ou não livre – não terá outro remédio se não acrescentar ao tempo durante o qual trabalha para o seu sustento próprio um tempo de trabalho adicional, ao longo do qual produz os meios de vida destinados aos possuidores dos instrumentos de produção". II Suponhamos que um operário trabalha durante três dias da semana para repor o seu salário e nos três dias restantes cria a mais-valia para o capitalista. O operário vende ao capitalista, pelo salário de um dia, uma jornada de trabalho. Mas o que é uma jornada de trabalho ? Ao capitalista interessa que a jornada de trabalho seja a mais longa possível. Quanto mais longa for, maior será a mais-valia produzida. O instinto do operário lhe diz que cada uma hora mais que trabalha, depois de repor o seu salário, é uma hora que lhe é ilegitimamente subtraída, sofrendo em sua própria carne as conseqüências do excesso de trabalho. Enquanto o capitalista luta por lucro, o operário luta por sua saúde, par um par de horas de descanso diário. Diremos, de passagem, que não depende da boa vontade de cada capitalista em particular lutar ou não por seus interesses, pois a concorrência obriga até os mais filantrópicos a seguir as pegadas dos demais, fazendo com que os seus operários trabalhem tanto tempo quanto os outros. A luta para conseguir que seja fixada a jornada de trabalho se prolonga desde o instante em que surgem na cena da história os operários livres até os nossos dias. (...) nos deteremos apenas no capítulo final da obra, que se refere à acumulação do capital. Nesse capítulo evidencia-se em primeiro lugar que o método capitalista de produção, isto é, o método de produção que pressupõe a existência de capitalistas, por um lado, e de operários assalariados, por outro, não só reproduz constantemente o capital para o capitalista, como também reproduz incessantemente a pobreza do operário, assegurando portanto que existam sempre, de uma parte, capitalistas que concentram em suas mãos a propriedade de todos os meios de subsistência, matérias-primas e instrumentos de produção e, de outra parte, a grande massa de operários obrigados a vender a esses capitalistas a sua força de trabalho por uma quantidade de meios de subsistência que, no melhor dos casos, dá apenas para mantê-los em condições de trabalhar e de criar uma nova geração de proletários aptos para o trabalho. O capital, porém, não se limita a reproduzir-se, mas aumenta e cresce incessantemente, com o que aumenta e cresce também o seu poder sobre a classe dos operários privados de toda propriedade. E, do mesmo modo que o capital se reproduz a si mesmo em proporções cada vez maiores, o moderno modo de produção capitalista reproduz igualmente, em proporções que aumentam sempre e numa quantidade que cresce sem cessar, a classe dos operários que nada possuem. "A acumulação do capital reproduz a relação do capital numa escala maior; a um número maior de capitalistas, em um pólo, corresponde, no outro pólo, um número maior de operários assalariados... A acumulação do capital significa, portanto, o crescimento do proletariado" Entretanto, como os progressos da maquinaria, o cultivo aperfeiçoado da terra, etc., exigem uma quantidade cada vez menor de operários para produzir, (...) o que se faz desse número, em incessante crescimento, de operários supérfluos? Eles passam a constituir um exército industrial de reserva, que nas épocas más ou médias recebe por seu trabalho menos do que vale e que trabalha só durante certo tempo, mas que é indispensável para a classe capitalista nas épocas de grande atividade, e que de qualquer maneira serve para vencer a resistência dos operários que trabalham normalmente e manter baixos os seus salários. "Quanto maior é a riqueza social... tanto maior é a superpopulação relativa ou exército industrial de reserva. E quanto maior é esse exército em comparação com o exército operário ativo, tanto maior é a massa de população consolidada ou as camadas operárias cuja miséria está na razão inversa de seus tormentos no trabalho. Finalmente, quanto mais extensos são na classe operária o setor da pobreza e o exército de reserva, tanto maior é também o pauperismo oficial. Tal é a lei absoluta, geral, da acumulação capitalista". Eis aí, evidenciadas com todo rigor científico, algumas das leis fundamentais do moderno sistema social capitalista. Com a mesma nitidez com que se destaca os lados maus da produção capitalista, Marx ressalta que essa formação social era necessária para desenvolver as forças produtivas sociais até um nível que torne possível um desenvolvimento igual e humanamente digno para todos os membros da sociedade.
Marta Harnecker, em seu livro "O Capital: Conceitos Fundamentais" , comenta e utiliza-se das idéias de Marx para explicação de alguns outros conceitos. O capitalista possui como única meta o lucro. E a única fonte de lucro é a mais-valia, conceito criado por Marx, que é produzida pelo operário no processo produtivo. O capitalista só pode se apropriar dessa mais-valia por ser o dono dos meios de produção, sem os quais o operário não pode empregar sua força de trabalho. E o segredo da produção da mais-valia está em que quando o capitalista compra a força de trabalho, paga ao operário apenas o valor dessa força, e não o valor que ela cria. Desse modo, essa força passa a ser vista como uma mercadoria, que encontra seu valor expresso geralmente por uma quantia em dinheiro, a qual se chama salário. No início da sociedade capitalista, o trabalhador não recebia seu salário em dinheiro, mas em parte de sua produção ou em bens necessários para sua manutenção e de sua família. Com o desenvolvimento do capitalismo, eliminou-se esse tipo de retribuição em espécie. Isso gerou uma contradição, ao passo que, por exemplo, dois trabalhadores que ganham a mesma quantia em dinheiro, mas moram em lugares onde o custo de vida é diferente, possuirão o mesmo salário nominal, mas poder aquisitivo diferente. Na sociedade capitalista distinguem-se duas formas essenciais de salário, o salário por tempo e o salário por peça. No primeiro, o trabalhador recebe uma quantia em dinheiro por um determinado período de trabalho, independentemente da quantidade produzida nesse período. No segundo, o trabalhador recebe seu salário em função da quantidade de mercadorias que conseguir produzir em um determinado período de tempo. Aparentemente, o salário por peça é favorável ao operário, que pode obter maior resultado dependendo de seu trabalho. Entretanto isso não é real. É possível deduzirmos que o salário pago por peça produzida seja a quantia diária necessária para a sobrevivência, dividida pela quantidade média produzida em um dia. Tomemos como exemplo uma fábrica, onde cada operária produza, em média, cinco camisas por dia, e que cada operária necessite de quatro reais por dia para sobreviver. Logo, o salário por camisa produzida será de oitenta centavos. Entretanto, com o intuito de aumentar sua renda, algumas operárias passarão a fabricar seis camisas por dia, e logo serão seguidas por todas. Assim, o número médio de camisas produzidas por dia será seis, reduzindo o preço pago por camisa para sessenta e seis centavos. Isso servirá apenas para desgastar mais os trabalhadores, e para aumentar a mais-valia apropriada pelos capitalistas. Encontram-se ainda na sociedade capitalista outros modos secundários de se calcular o salário, além desses apresentados. No sistema de prêmios, o operário tem um salário fixo por período, mas para cada item suplementar produzido que ultrapassa uma marca pré-determinada, recebe uma premiação. No sistema de participação nos lucros recebe, além de seu salário, uma soma complementar de dinheiro que representa, aparentemente, a parte dos lucros que o capitalista paga aos operários. No sistema da escala variável, o pagamento aos trabalhadores é feita de acordo com o preço da mercadoria no mercado. Esses sistemas têm como objetivo passar ao trabalhador a idéia de que seus interesses coincidem com os dos patrões, para que trabalhe mais. Mas, pelo contrário, mantém sua exploração e aumenta o lucro do capitalista. Dessa maneira, podemos classificar o salário como o preço de uma determinada mercadoria, que é a força de trabalho. O capitalista tem como interesse buscar no mercado de trabalho essa força de trabalho pelo menor preço que for possível, pois dessa forma obterá mais mais-valia. E interessa-lhe também que o fluxo da força de trabalho seja constante e não pare de se reproduzir. Se houvesse tantos operários quanto o capitalista necessita, cada operário receberia exatamente o valor de sua força de trabalho. Mas isso não ocorre, a oferta e a procura nunca estão equilibradas. Existe sempre um exército de reposição, de desempregados, que garante para o capitalista pagar aos trabalhadores salários injustos por seu trabalho, uma vez que sempre existem muitos desempregados almejando aquela vaga, dispostos a receber o que o capitalista pagar (tese da pauperização de Marx).
No decurso da História, nas diversas sociedades que se estabeleceram, sempre houve conflitos entre homens, ou grupos, que possuíam aspirações contrárias. E Karl Marx, no seu estudo aprofundado sobre o Capitalismo, foi o primeiro a obter sucesso na tentativa de explicar esse aparente caos, formulando a teoria da luta de classes. Os conflitos surgem a partir do momento em que as relações de produção geram uma divisão diferenciada do trabalho, a qual permite a acumulação dos excedentes da produção, apropriados por uma minoria. Assim ocorre a exploração do proletariado por parte dessa minoria detentora do capital. Além disso, a classe dominante é detentora da ideologia da sociedade, pois é ela que define o sistema legal e judicial, impondo seu domínio, e detentora da difusão das idéias vigentes. As idéias de grupos menores só serão aceitas se ajustadas aos interesses da classe dominante, ou no máximo, aos de uma classe com posição forte para contestar. No seu estudo sobre o capitalismo, Marx também criou o conceito de mais-valia, que definiu sendo o tempo de trabalho despendido pelo trabalhador além do necessário para a realização de uma tarefa. A partir desse conceito, conclui que a mais-valia, ou o lucro adquirido pelo proprietário dos bens de produção, é o motor do capitalismo, ou seja, o objetivo do trabalho não é satisfazer as necessidades determinadas, como ocorria nas sociedades pré-capitalistas, mas obter lucro. Porém, é a exploração que causa o fim do capitalismo, a partir das reivindicações da classe operária explorada, que busca outro sistema para substituir o capitalismo em que haja justiça na distribuição dos meios e resultados da produção. Ou seja, a luta de classe, para Marx, tem por motivação as reivindicações e por suporte a classe operária. Marx acreditava numa diminuição gradual da mais-valia a partir da mecanização do trabalho, mas não levou em conta outros fatores que poderiam fazer com que o lucro aumentasse, como aquisição de matéria prima mais barata. Porém, ele afirma existir um exército de desempregados que faz com que a mais-valia continue alta e a exploração também, pois os trabalhadores não podem exigir melhores salários ou seriam trocados pelos desempregados que aceitam trabalhar por quantias menores. Isso leva a um maior empobrecimento de grande parte da população, os não detentores dos meios de produção. Para substituir o Capitalismo, Marx acredita no socialismo como a próxima forma de sociedade, onde os bens de produção seriam igualmente distribuídos e não haveria classes e, portanto, exploração de uma sobre a outra e luta entre elas.
Bibliografia utilizada Livros: ALTHUSSER, Louis – "A Favor de Marx" – 2ªed. ; Zahar Editores ; Rio de Janeiro ; 1979 FAUSTO, Ruy – " Marx, Lógica & Política" Tomo II ; Ed. Brasiliense ; 1987 MARX, Karl e ENGELS, Friedrich – "Textos " vol. 2 ; Ed. Sociais ; São Paulo ; 1976 MCLELLAN, David – "O Pensamento de Karl Marx" ; Coimbra Editora ; Coimbra ; 1974 SANTOS, Laymert G. dos – "Alienação e Capitalismo" ; Ed. Brasiliense, 1982 KUUCINEM, O.V. – "Fundamentos do Marxismo-Leninismo" ; Ed. Vitória ; 1962 HARNECKER, Marta – "O Capital: Conceitos Fundamentais" ; Ed. Global ; 1978
http://www.aleph.com.br/puccampinas/filos/fmarx.htm http://www.abordo.com.br/nao/artigos/art22.html http://www2.rantac.com.br/users/lazaro/marx.htm
|