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Inflação

São Paulo – Junho de 2003


Introdução

Desde 1829 o Brasil convive com a inflação, porém, só a partir de 1920 iniciou-se o cálculo sistemático de índices de inflação no Brasil, embora os índices de preços mais antigos que se conhecem tenham surgido na época dos grandes Descobrimentos Marítimos.

Com a Independência do Brasil, o País precisou se endividar, pagando um preço alto pela liberdade, indenizando Portugal, além dos empréstimos realizados com a finalidade de desenvolver o País, principalmente para a construção de estradas, para o escoamento da produção de bens e dos produtos agrícolas brasileiros.

De forma indireta pode-se estimar os índices para os anos anteriores a 1920, baseando-se exclusivamente em registros históricos. Buescu, por exemplo, fez um levantamento dos índices brasileiros de 1560 a 1889.

Os índices que começaram a ser calculados em 1920, retroativo a 1912, eram divulgados pela Fazenda Nacional e vigoraram até 1939. Tratava-se, na realidade, da indexação dos gastos com a manutenção da família de Leo Affonseca Jr., pertencente à classe média, que era o responsável pelo seu cálculo e envio ao governo, para publicação.

A inflação mantém normalmente uma relação com a estrutura do mercado, quer seja, oligopolista, monopolista, monopsonista, etc., e são preponderantes em uma determinada economia.

Primeiramente devemos analisar o real significado deste termo no contexto econômico, de acordo com os seus agrupamentos, aspectos básicos, tipificação, velocidade, caráter monetário, abrangência, dinâmica, persistência, causas e efeitos, formas e intensidade, além de suas respostas aos tratamentos. É um fenômeno universal, comum a praticamente todos os países. 

DEFINIÇÕES: É a categoria predominante de variação do valor da moeda. Trata-se de um fenômeno universal, comum a praticamente todos os países, porém em alguns tornou-se uma ocorrência crônica com intensidade variada, que modifica estruturas, padrões de comportamento e regras transacionais. Corresponde a uma alta generalizada dos preços dos bens e serviços, expressos pelo padrão monetário corrente. A alta, que varia de intensidade de país para país e de época para época, implica desvalorização da moeda em relação aos demais ativos.

É o desequilíbrio econômico caracterizado por uma alta geral de preços e que se origina de diversos fatores, como por exemplo no excesso de poder aquisitivo da massa de consumidores (particulares, empresas, Estado) em relação ao volume de bens e dos serviços postos a sua disposição, excesso de emissão de moeda, deficiência de produção, etc.

A inflação deve ser distinguida de uma alta momentânea de preços que atinge certos serviços ou bens em determinados períodos do ano (por exemplo, quando há uma demanda de alojamento devido ao período de férias), alta que traduz apenas um desequilíbrio temporário e uma depreciação localizada do valor da moeda. A inflação real tem como sintoma – para todos os artigos constitutivos do custo de vida e durante um dado período – uma elevada taxa de erosão monetária.


INFLAÇÃO

"Conceito, Tipos, Correntes De Pensamento E Políticas De Combate".

A inflação é o processo de aumento generalizado dos preços dos bens e serviços transacionados na economia, resultado de uma contínua perda do poder aquisitivo da moeda.

A inflação é relativa, pois cada pessoa sofre uma taxa de inflação diferente em determinado período de tempo, os preços de produtos idênticos ou semelhantes variam de forma distinta em cada ponto de venda.

A inflação é causa de sérios distúrbios econômico-sociais que prejudicam certas classes de pessoas na medida em que beneficiam outras. O principal efeito da inflação é o da redistribuição da renda das pessoas que recebem formas fixas de remuneração (trabalhadores assalariados, aposentados e pensionistas) cujos rendimentos são corroídos diariamente pela inflação por aqueles que recebem rendas variáveis ou ajustáveis às alterações dos preços (empresários, rendeiros, profissionais liberais e trabalhadores autônomos) que com isso acabam provocando ou realimentando a inflação.

Outro efeito importante da inflação é a redistribuição da riqueza decorrente da perda de valor dos ativos financeiros face aos aumentos dos preços. Tal processo flui do devedor para o credor, pois durante o período da dívida, o valor real (poder aquisitivo) do débito diminui com a inflação. Para evitar que os valores reais dos títulos sejam menores na data de pagamento é necessário uma correção monetária plena do valor expresso em moeda.

A inflação provoca também a desvalorização da moeda e dos depósitos à vista emitidos pelos bancos aos seus clientes o que prejudica o indivíduo na medida em que beneficia o governo e os bancos, pois, o prejuízo dos possuidores dos meios de pagamentos corresponde aos lucros dos seus emitentes.

Quando a inflação atinge altas taxas (caso das inflações no Brasil e em outros países latinos americanos) as remarcações de preços ocorrem com tal freqüência que as pessoas perdem a noção exata dos preços dos bens e serviços e, especialmente, dos preços relativos prevalecentes nos mercados.

Tipos Básicos de Inflação

A inflação normalmente pode resultar de fatores estruturais (inflação de custos), monetários (inflação de demanda) ou de uma combinação de fatores. Além de ser tradicional na teoria econômica, esta classificação de inflação, baseada no modelo de oferta e procura agregada é a mais adequada a analise da complexa inflação brasileira.

Tipos de Inflação

Inflação de Custos

Processo inflacionário gerado pela elevação dos custos de produção, especialmente dos salários e/ou dos preços das exportações.

Inflação de Oferta

Processo de elevação persistente do nível de preços, provocada por retração da oferta agregada (insuficiência de oferta) e por retrações persistentes da oferta de bens e serviços, acompanhada de recessão e queda do nível de emprego.

Inflação Híbrida

Consiste de um aumento persistente no nível de preços provocado pela interação dos mecanismos de inflação de demanda e de oferta, em função da tentativa dos agentes econômicos de recuperar rendas corroídas pela inflação dos períodos anteriores.

Inflação Estrutural

Baseada na hipótese de inelasticidade ou rigidez da oferta de bens e serviços, especialmente nos setores de produção de alimentos e de importação, característica dos países subdesenvolvidos.

Inflação Inercial

O processo inflacionário é auto-alimentado, causado pelas expectativas de comportamento dos preços e/ou pelos mecanismos de reajustamento de renda desenvolvidos pelos agentes econômicos a fim de se protegerem contra os efeitos de uma inflação crônica.

Inflação de Demanda

Processo inflacionário gerado pela expansão dos rendimentos ocorre quando os meios de pagamento crescem além da capacidade de expansão da economia, ou antes, que a produção esteja em plena capacidade. Aumentando os preços e, por extensão, os salários e os rendimentos em geral dando origem a um espiral inflacionário.

 

Dentre os principais tipos de inflação temos:

Inflação de demanda: É considerado um tipo clássico de Inflação, e pode ser entendida como "dinheiro demais e procura de poucos bens". É o excesso de demanda decorrente do aumento da quantidade de moeda no sistema econômico, em relação à produção de bens e serviços por parte das empresas. Para equilibrar a demanda com a capacidade de produção, as empresas tendem elevar seus preços, sem qualquer razão relacionada a custos, causando desta forma a inflação de demanda. Quando esse tipo de causa inflacionária ocorre, o governo age no sentido de tomar medidas visando a redução da capacidade aquisitiva da população através da elevação dos impostos, criação de empréstimos compulsórios, aumento da taxa de juros, redução de prazo de financiamento e planos de consórcio. O resultado desta ação é o esfriamento da demanda, equilibrando oferta e demanda.

Inflação de custos: É um tipo de inflação contraditória a inflação de demanda. Neste caso a empresa tem seus custos de produção elevados por fatores como; salários, matéria prima, impostos; e se vêem pressionadas a elevar os preços de seus produtos a fim de compensar o aumento do custo e obterem as mesmas margens de lucro. Também com a redução da demanda, ocorre o aumento do custo de produção por unidade produzida, fazendo-se necessário elevar os preços para repassar estes custos. Neste caso o governo deveria intervir no sentido de estimular a demanda até o nível próximo a capacidade de produção das empresas.

Inflação estrutural: A inflação estrutural está estreitamente relacionada com a ineficiência de serviços fornecidos pela infra-estrutura de uma determinada economia. Essa ineficiência, obviamente eleva desnecessariamente os custos dos serviços prestados pelo governo, acarretando dessa maneira uma majoração dos custos de produção e em seguida o aumento dos preços dos produtos.

Se as estradas de um determinado país estão em péssimo estado de conservação, conseqüentemente os custos de transporte e distribuição ficarão mais elevados. Se os portos são ineficientes, as exportações acabarão ficando mais caras e o produto ficará pouco competitivo no mercado internacional. No Brasil este tipo de inflação onera os custos de produção, distribuição e comercialização., em virtude de um processo tecnológico lento e muitas vezes ultrapassado.

Inflação Inercial: Inflação Inercial na verdade pode ser considerada uma conseqüência de um processo inflacionário. Pode ser entendida como se fosse um efeito de manutenção da taxa inflacionária, seja pelos contratos, aluguéis, salários ou a prática generalizada de emissão de lista de remarcação de preços por parte das empresas. É uma realimentação automática da inflação corrente pela inflação passada.

Dentro de todo um segmento de mercado ou até mesmo de toda a economia, existe o efeito psicológico da inflação, tendendo ao repasse das expectativas de inflação do momento para os preços de seus produtos. Isso provoca a manutenção da taxa de inflação em determinado patamar ou até mesmo um crescimento acentuado tendendo para hiperinflação.

As causas básicas da inflação brasileira

Podemos associar as causas básicas da inflação no Brasil a três conjuntos básicos de fatores:

  • Conflito distributivo;
  • Déficit do setor público, e seu financiamento;
  • Mecanismos de indexação.

As questões distributivas envolvem inúmeras facetas, ainda que as relações entre o capital e trabalho sejam as mais importantes. Nesse sentido, o processo de crescimento econômico adotado no Brasil, após a Segunda Guerra Mundial, sustentado no crescimento industrial, foi gradativamente agudizando a questão distributiva, em virtude de ter provocado uma concentração de renda muito elevada. Assim, ainda que em termos de crescimento econômico todo programa de industrialização tenha sido um sucesso, em termos de distribuição de renda e outros indicadores sociais a situação é dramática. Basta observar que a apropriação de renda dos 25% mais pobres diminuiu durante o período 1960/80, sofrendo uma pequena alteração entre 1980 e 1985, quando a apropriação passa de 3,8% para 3,9% da renda. Por outro lado, a apropriação da renda dos 25% mais ricos vem se elevando: em 1960 este grupo se apropriava de 62,5% da renda, passando a apropriar-se de 70,5% em 1985.

Naturalmente, a questão distributiva no Brasil dificulta muito a condução da política econômica. É muito interessante notar que, em todos os programas de estabilização marcados por congelamentos de preços, o processo inflacionário se reinicia a partir de alguns setores mais competitivos. Tomemos por exemplo o Plano Collor I. Durante o período de 15 de março a 30 de julho de 1990, a inflação foi da ordem de 30 %. Nesse período, os preços de vestuário cresceram 104%; hortigranjeiros 56%; serviços pessoais 60%. E os produtos industrializados cresceram apenas 9% e das tarifas públicas 4%

Tais resultados indicam que, nos períodos de congelamento, existe uma pressão muito forte sobre os preços dos setores competitivos, especialmente aqueles mais ligados à produção de bens de salário. Isto demonstra que o excessivo grau de concentração de renda faz com que, nesses períodos de congelamento de preços, ocorra uma elevação na demanda por tais produtos, que acabam por iniciar a retomada do processo inflacionário.

Adicionalmente, as negociações salariais e o processo de formação de preços tendem a transcorrer num clima que impede a estabilidade. De um lado, os trabalhadores buscam recuperar os salários reais através de políticas salariais que simplesmente acabam ditando regras de reajuste de salários nominais. Por outro, as empresas, especialmente aquelas inseridas em mercados oligopolizados, têm a capacidade de repassar os acréscimos de salário aos preços, impedindo a recuperação dos ganhos reais dos trabalhadores.

O segundo fator importante na questão inflacionária refere-se ao desequilíbrio do setor público. Atualmente, em face da desconfiança que os agentes econômicos possuem na retenção de ativos financeiros, especialmente títulos públicos, a questão fundamental não é tanto a magnitude do déficit, mas sim seu financiamento. Torna-se necessário aprofundar as reformas que efetivamente possibilitem uma recuperação da saúde financeira do setor público.

A racionalização dos gastos públicos exige entre outras medidas a redução dos gastos ligados ao pagamento do pessoal. Entretanto, aqui existem barreiras legais que impedem a dispensa dos funcionários públicos devido à sua estabilidade no emprego. Adicionalmente, uma outra fonte de gastos reside na questão do pagamento de benefícios e pensões. Os esquemas de aposentadoria por tempo de serviço têm permitido que inúmeras pessoas se aposentem com idade inferior a 50 anos. Aqui reside uma distorção também, muito importante, pois, com a elevação da idade média de vida, isto representa um encargo oneroso para as contas públicas. A racionalização desses gastos está acima dos limites de competência dos responsáveis pela condução da política econômica, e depende fundamentalmente de aprovação de emendas constitucionais.

Dessa maneira, o saneamento das contas públicas, peça essencial para a execução de uma política fiscal e monetária compatível com a estabilização, exige um apoio político no sentido de que se aprovem as emendas constitucionais.

Finalmente, em face do crônico processo inflacionário desenvolveu-se na economia brasileira uma série de mecanismos de indexação que, em última análise, representam a reação dos agentes econômicos buscando preservar suas remunerações reais.

A indexação pode ser descomposta em dois grandes grupos: a indexação formal fixada por contratos tais como os acordos salariais, aluguéis, contratos financeiros, e a indexação informal, derivada dos reajustes do preço no comércio, indústria e preços públicos.

A indexação entre preços e salários tem sido tradicionalmente atacada nos diversos planos de estabilização, pois ela faz com que os tradicionais mecanismos de estabilização percam muito sua eficiência. Entretanto, o que se notou durante muito tempo na economia brasileira é uma resistência muito forte dos agentes econômicos em abandonar os salários reais, cada sindicato luta por essa regra, pois se apenas ele consegue essa cláusula, seus trabalhadores são protegidos de perdas e reais.

Mas o que prevaleceu no processo inflacionário brasileiro foi a indexação informal, pela qual as empresas e o governo reajustavam com freqüência seus preços. Entre as empresas, evidentemente os setores mais concentrados, com maior grau de oligopólio, conseguiam repassar aos consumidores as elevações de custos que sofriam.

Efetivamente, o fenômeno da inflação representa um desafio constante para a sociedade brasileira. A adoção de uma certa estratégia pode trazer resultados satisfatórios em determinadas situações, mas completamente ineficazes em outras. Tais fatos revelam a complexidade da questão inflacionária, particularmente no Brasil, em que não só os fatores econômicos, mas também os políticos, contribuem para a dificuldade de estancar o processo de elevação de preços.


Principais Índices de Inflação

Índice Geral de Preços do IBGE (IGP)

Começou a ser calculado em 1947, comparando preços do mês anterior com os do mês corrente, coletados em 18 capitais. Há três grupos de preços: os de produtos no atacado, baseado numa mostragem de cerca de 500 mercadorias, com 60 por cento de peso no índice final; os de preços ao consumidor, com base nas compras de famílias com renda de 1 a 33 salários mínimos, entra com 30%; preços da construção civil, com 10% de peso, baseado em planilhas de custo de empresas de engenharia. Um dos menos precisos índices, justamente pela sua abrangência, num quadro muito dispersivo de inflação. É divulgada em duas versões uma contendo apenas os preços do que é produzido internamente, (disponibilidade interna) e outra incluindo preços de importações.

Índice

Geral de Preços do Mercado (IGPM) da FGV

Criado a pedido da Federação dos Bancos com uma cláusula que impede sua modificação pelo governo e tinha como função, servir de corretor de contratos bancários aplicáveis já no dia 30 do mês em curso. É o primeiro a ser divulgado e tem como base os mesmos preços e a mesma ponderação do IGP, mas do dia 20 do mês anterior ao 20 do mês em questão.

Índice Quadrissemanal de Preços ao Consumidor da FIPE

Típico de uma economia hiperinflacionária é publicado toda semana, com a variação dos preços das quatro semanas anteriores. Restringe-se ao município de São Paulo e afere o custo de vida de famílias com rendas de 2 a 6 salários mínimos.Calcula os preços médios durante quatro semanas e divide pela mesma média de quatro semanas anteriores. Trata-se, portanto de uma medida rápida das tendências de base dos preços.No índice FIPE a comida pesa 37 por cento do custo de vida das pessoas e a habitação 18 por cento.

Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), do IBGE.

Para rendas de 1-8 salários mínimos, foi o índice oficial de inflação de 1979 a 1986.

Índice de Preços ao Consumidor (IPC)

Sucedeu ao INPC como índice oficial, até 1990 e difere apenas no período de coleta dos preços.

Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) IBGE

Para rendas até quarenta salários mínimos.

Índices de Custo de Vida do DIEESE

Para três classes de renda, 1-3 salários mínimos, 1-5 e 1-30. Esse índice se distingue dos demais por incluir como itens essenciais do custo de vida, despesas com recreação, comunicação, cultura e lazer.

Índice da Cesta Básica (PROCON/DIEESE)

Pesquisado em 70 supermercados em São Paulo, englobando 31 produtos essenciais para famílias com renda até 10,3 salários mínimos; mede a variação ponta a ponta.


História dos Índices de Inflação

Os índices são importantes instrumentos econômicos que interferem diretamente no bolso do cidadão, que tem por finalidade medir a inflação em termos médios através da coleta de preços de uma caderneta de vários itens.

Ao medirem os fenômenos econômicos, baseados em pesquisa de orçamento familiar, esses índices servem para o governo, trabalhadores, empresários e comunidade acadêmica estabelecerem juros e metas de inflação, aumentarem preços, medirem salários, pressionarem por vagas no mercado de trabalho.

A importância desses índices está em medir a vida econômica das pessoas permitindo que o governo faça um diagnóstico da situação e trace as medidas de política econômica adequadas. Segundo o economista e professor de Teoria Econômica da Universidade Católica de Salvador, Vítor Lopes, "essas medidas interferem diretamente na vida do cidadão ocorrendo, por exemplo, restrição do emprego, do consumo, etc. É importante para todos, principalmente para o trabalhador que, com os índices, pode Ter um controle sobre o seu poder de compra".

Segundo o economista, os índices permitem que, ao se detectar uma inflação alta, por exemplo, o governo tome as medidas restritivas necessárias na área monetária, contendo as demandas ou reduzindo a renda ou gastos públicos.

Nos países desenvolvidos existe apenas um, ou, no máximo dois índices, calculados por institutos de confiança dos cidadãos. No Brasil ocorre o oposto, onde cada segmento da sociedade tem o seu, ou seja, cada um utiliza um indicador diferente, pois, nos anos 70, em plena ditadura militar, quando era Ministro da Fazenda o atual deputado Antônio Delfim Neto, ocorreu um episódio fartamente denunciado pelo movimento sindical, em que o governo federal manipulou os índices da inflação. Surgiu no Brasil, então, o Movimento Contra a Carestia e, por força da sua contestação aos índices oficiais, surgiu também o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sociais (DIEESE), que montou o cálculo de um novo índice diferente do oficial, o Índice de Custo de Vida (ICV). Entre as medidas tomadas pelo governo citamos as seguintes:

  • Proibir a divulgação de qualquer informação que não a oficial;
  • Pressionar a FGV para manipular os índices, abaixando-os;
  • Colocar em dúvida os critérios utilizados pela FGV;
  • Transferir o cálculo dos índices para um órgão do governo, onde pudesse ser exercido um controle total (a FGV é um órgão privado);
  • Críticas, comentários ou editoriais desfavoráveis à situação econômico-financeira do País: Proibidos;
  • Comentário, transcrição, entrevista, comparações e outras matérias relativas à recessão econômica: Interditados.

Esse elenco de medidas fazia parte do "Plano Secreto para coibir a inflação", entregue pelo Ministro da Fazenda ao Presidente da República, cuja divulgação foi proibida através do Comunicado n.º 5 de 18/01/73 do Departamento de Censura da Polícia Federal, distribuído sigilosamente aos meios de comunicação do País.

Nos dias atuais o ICV permanece medindo o custo de vida no Brasil, apesar dos economistas garantirem que não existe mais manipulação. "As diferenças entre os índices não existem por manipulação ou porque um esteja certo e o outro errado. Elas são resultados de metodologias diferentes, de regionalismo, tipos de produtos pesquisados, períodos de coleta e de outras variáveis diferentes em cada caso", garante Vítor Lopes.

A sociedade utiliza o seguinte:

O movimento sindical usa o ICV-DIEESE (Índice de Custo de Vida); o governo usa o INPC/IPCA-IBGE (Índice Nacional de Preços ao Consumidor); os empresários usam os IGP/IGP-M/IGP-DI (Índices Gerais de Preços) medidos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a comunidade acadêmica usa o IPC-FIPE (Índice de Preços ao Consumidor), calculado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (USP).

IPC da FGV

Com a criação da Lei do Salário Mínimo, em 14/01/36, o índice de Leo Affonseca Jr., sofreu várias reformulações, passando a ser calculado pela Fundação Getúlio Vargas, sob a denominação de Índice de Custo de Vida (ICV).

Este índice já foi aperfeiçoado várias vezes, sendo a última em 1977, com a inclusão na fórmula do cálculo do "Efeito Substituição", sendo denominada de Índice de Preço ao Consumidor (IPC), e ela é mista, ou seja, utiliza a média geométrica para produtos alimentares e fórmula de Laspeyres para outras despesas.

INPC do IBGE

Conforme o Decreto-Lei n.º 399 de 30/04/38, que regulamenta a Lei do Salário Mínimo há a seguinte descrição:

"O Salário Mínimo estabelecido pela Lei deve corresponder às necessidades normais de alimentação, habitação, vestuário e transporte do trabalhador adulto", excluída, portanto, a idéia do salário profissional e afastada a do salário familiar.

Esse mesmo Decreto-Lei determina as rações tipo essenciais mínimas para as diferentes regiões do país.

Baseado nessas rações mínimas de subsistência, tornadas legais em 1938, já em 1935 o Serviço de Estatística da Previdência do Trabalho começou a calcular índices de custo de alimentação nos municípios das capitais. Esses índices foram calculados até 1949, quando o Ministério do Trabalho institui o primeiro sistema de índices de custo de vida para todo o País, com ponderações baseadas em uma pesquisa de orçamentos familiares realizada em 1948 e incluindo itens de despesas de alimentação, habitação, vestuário, higiene, transporte, luz e combustível. Esse índice teve suas ponderações e metodologias revistas em 1967 e 1977, e acabou sendo absorvido pelo IBGE, servindo de embrião para o estabelecimento do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

É calculado no rendimento monetário familiar entre 1 e 8 salários mínimos.

O INPC deu origem ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) e, posteriormente, ao IPC-IBGE.

O IPCA tem a mesma abrangência geográfica, ou seja, as dez regiões metropolitanas do País e mais Brasília, o mesmo sistema de coleta e utiliza a mesma fórmula do INPC, diferindo apenas na definição da estrutura e a classe social de referência, e é calculado a partir de uma cesta de itens representativos do consumo de famílias com renda entre 1 e 40 pisos salariais, sem distinção quanto a fonte de renda..

IPC da FIPE-USP

IPC (Índice de Preços ao Consumidor da FIPE) é um dos mais antigos índices de inflação existente no Brasil.

A Lei que instituiu o salário mínimo determinava a regionalização dos reajustes salariais e indicava, como referência, os menores salários pagos por empresas e outras entidades, inclusive serviço público, em cada região. Dentro desse espírito, foi instituído o primeiro índice regional de custo de vida no Brasil em 1936, pela Subdivisão de Documentação Social e Estatística da Prefeitura de São Paulo. Este índice refletia o padrão de consumo dos garis de limpeza urbana do município de São Paulo. Em 1970, o Instituto de Pesquisas Econômicas da USP passou a calcular esse índice, que foi então estendido, para abranger a "classe modal" da população da Grande São Paulo.

IGP da FGV

O Índice Geral de Preços (IGP) começou a ser calculado conjuntamente com os primeiros índices divulgados por Conjuntura Econômica. Até 1949, era calculado como média do Índice de Preços por Atacado (IPA) e Índice de Custo de Vida (ICV) no Rio de Janeiro. A partir de 1950, passou a contar com mais um componente: o Índice de Custo da Construção (ICC) no Rio de Janeiro.

Esse índice foi calculado, inicialmente, com finalidade bem específica: deflacionar o índice mensal da evolução dos negócios, que era um indicador obtido a partir da arrecadação do imposto sobre vendas e consignações (atual ICM) e da compensação de cheques.

Quando se introduziu a correção monetária no Brasil (meados dos anos 60), esse índice passou a ser usado para correção de conjunto bastante grande de operações, sobretudo correção de valores de contratos de obras públicas.

Os três componentes do índice são relacionados as atividades de operações em geral, preços de varejo e construção civil, que representam o conjunto de operações realizadas no País. A ponderação representa a importância relativa de cada tipo de operação na formação da despesa interna bruta: produção, transporte e comercialização a grosso de bens de consumo e de produção (representados por IPA): 60%; valor adicionado pelo setor varejista e pelos serviços de consumo (representados pelo índice do custo de vida): 30%; e valor adicionado pela indústria da construção civil: 10%.

O IGP é obtido a partir de uma média dos índices de preços de diversos produtos no atacado e no varejo. Desde a sua criação, o IGP passou por uma série de modificações e mais recentemente passou a calcular o Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M), para servir como indexador de títulos privados, voltado predominantemente para a comunidade financeira.


Conseqüências de altas taxas de inflação

Sobre o poder aquisitivo e distribuição de renda: É uma das mais sérias distorções provadas pela inflação. O desencadeamento de um processo inflacionário reduz o poder aquisitivo da moeda, diminuindo, sobretudo os rendimentos temporariamente fixos daqueles que não tem como se proteger da inflação através de uma aplicação financeira, sendo na sua maioria os assalariados e aposentados, que acabam encontrando dificuldade para reajustar seu poder de compra ao aumento do custo de vida.

Sobre a balança de pagamentos: Altas taxas de inflação, superiores ao aumento dos preços internacionais, encarecem os produtos nacionais, dificultando a exportação e facilitando a importação, desequilibrando a balança comercial.

O governo pode interferir no processo dificultando as importações, porém os produtos que necessariamente precisam ser importados, como combustível, fertilizantes, equipamentos; também tem seus preços elevados, aumentando os custos de produção das empresas que como conseqüência tendem a repassar aos preços.

Sobre investimentos produtivos – expectativas: As elevadas taxas de inflação diminuem as expectativas dos empresários em fazer novos investimentos, indo o capital para fins especulativos, induzindo a aplicações financeiras que possibilitem o lucro em curto espaço de tempo, protegendo o seu patrimônio.

Sobre o mercado de capitais: Num processo inflacionário intenso, a moeda perde o seu valor rapidamente, diminuindo os aplicadores do mercado de capitais, que ao invés de aplicar os seus recursos em aplicações financeiras, acabam investindo na compra de bens como; terras, imóveis, etc., que costumam valorizar-se durante o processo inflacionário. No Brasil este efeito é minimizado em função da correção monetária que é indexada as aplicações financeiras.

A longo prazo um processo inflacionário onera a todos, já que além de corroer os salários ocasionando o empobrecimento da população que acaba consumindo menos, fato negativo para as empresas e o próprio governo que acaba arrecadando menos impostos.


Conclusão

Apesar de vivermos numa economia estável, com inflação controlada e no patamar de um digito, a sociedade ainda não confia nos índices do governo, utilizando sempre um índice não oficial como parâmetro para as suas reivindicações e/ou aumento de preços, salários, juros, etc., para controlar o poder de compra, pois durante os anos de 1973, 1979, 1980 e 1983, houve a redução dos índices de inflação para quase metade de seu valor real, proporcionando aos trabalhadores a diminuição dos acréscimos salariais, no reajuste da caderneta de poupança, nos aluguéis, etc.

Como o governo pode utilizar de subterfúgios para expurgar algum item que possam influenciar no aumento da inflação, a sociedade ainda não confia totalmente nas autoridades, e portanto, continua utilizando os inúmeros índices existentes no Brasil.

O País já conviveu com todos os tipos de inflação, inclusive com a hiperinflação, nos últimos 92 anos, sendo que nesse período houve 10 anos de recessão, 35 anos de crescimento moderado do PIB e 47 anos de crescimento rápido do PIB. O brasileiro no tempo da hiperinflação tornou-se um expert, ou seja, aprendeu a sobreviver com a economia inflacionária e sérios desequilíbrios econômicos, mas ultimamente torce para que a economia fique estabilizada, com a inflação em apenas um dígito.


Bibliografia

ROSSETTI, José Pascoal – Introdução a Economia – Editora Atlas – 18ª Edição – 2000

LACERDA, Antônio Corrêa de – Economia Brasileira – Editora Saraiva – 2000

TROSTER, Roberto Luis – Introdução a Economia – Editora Makron Books – 1999

PROFESSORES, Equipes – Manual de Economia – Editora Saraiva – 3ª Edição – 1998

 

 

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