História Econômica
A queda do Império Romano provocou uma impressionante deterioração econômica na Europa ocidental. Vários séculos passariam antes de haver sinais de uma nova expansão. A população diminuiu, a vida urbana que tinha adotado as civilizações clássicas desapareceu por completo e o comércio foi interrompido pelas guerras. O Estado agrícola independente era quase em todo lugar a principal unidade econômica, com a manufatura se tornando puramente local e a troca de capital. Por fim, a sociedade como um todo se apoiou em uma agricultura de subsistência bastante primitiva. A Igreja foi uma força social dominante durante a Idade Média, possuindo uma grande quantidade de terras e administrando o campesinato como qualquer senhor feudal. Por quase toda a Idade Média os eruditos da Europa ocidental não deram muita atenção à ciência. Todos os estudos eram controlados pela Igreja, cuja preocupação era a busca da salvação na vida após a morte, e não a investigação da Natureza nesta vida.
Para os greco-romanos, bárbaros eram todos os povos que falavam língua incompreensível e cuja civilização podia ser considerada ainda primitiva. Constituíam cinco grupos principais: 1) celtas, povos de língua indo-européia que habitavam a Inglaterra, a Escócia, a Irlanda e a Bretanha; 2) germanos também indo-europeus, que povoavam a Escandinávia e a Germânia; 3) eslavos, igualmente indo-europeus, estabelecidos nas planícies da atual URSS; 4) árabes, povos de língua semita, povoavam a península arábica; 5) berberes, povoavam o norte da África. Em fins do séc. IV começou a grande ofensiva bárbara que quebrou a resistência imperial. Os principais protagonistas destas primeiras migrações foram os germanos. Viviam em pequenas aldeias, dedicando-se ao trabalho da terra, ã caça e ao cuidado dos rebanhos; possuíam indústria rudimentar e praticavam um comércio de trocas de produtos. A união de várias aldeias formavam uma tribo (cuja população atingia no máximo 40 a 50 mil indivíduos). O chefe da tribo era o rei (König), que tinha por principal função dirigi-la nas guerras. Os germanos eram dotados de alta estatura, olhos azuis e fartos cabelos louros. Sua religião era politeísta, de inspiração naturalista, pois seus deuses personificavam as forças da natureza. Não conhecendo a escrita, estavam na proto-história. As principais tribos germânicas eram os francos, estabelecidos nas margens setentrionais do Reno; os saxões, localizados às margens do mar do Norte; os vândalos, estabelecidos às margens do mar Báltico; os suevos encontrados às margens do rio Elba; os lombardos, localizados na região atravessada pelo rio Oder. Outras tribos germânicas que desempenharam importante papel nas migrações foram os godos e os ostrogodos. Eram os godos os mais civilizados dos germanos, pelos contatos constantes que mantinham com o mundo romano. Desde muitos séculos os germanos constituíam um perigo para os romanos. Assim, no séc. I a .C., Mário teve de lutar contra cimbros e teutões, e Júlio César enfrentou os germanos para fazer do Reno a fronteira da Gália. Mais tarde, Augusto pretendeu conquistar a Germânia, a fim de resolver de maneira radical o grande problema, mas o fracasso do general Varo fez com que os imperadores que o sucederam adotassem uma política defensiva, limitando-se a consolidar a fronteira do Reno e do Danúbio – daí a construção dos famosos limes. Tais medidas não impediram as infiltrações pacíficas dos germanos no mundo romano, na qualidade de escravos, de colonos, de soldados; em certos casos, bandos inteiros de germanos obtinham a permissão de se radicarem em terras do império, como federados. E assim o mundo romano sofreu lenta barbarização, antes mesmo da grande migração dos povos, de século IV. Quando em fins daquele século começaram as invasões violentas, que haviam de se prolongar por mais de cem anos. 2.1. GRANDES INVASÕES: A causa principal que deveria provocar tal avalanche sobre o mundo romano foi o deslocamento para a Europa dos povos tártaro-mongóis, provenientes da Ásia Central. Os godos foram os primeiros a sofrer o impacto dos hunos. Os ostrogodos a eles se submeteram, mas os visigodos atravessaram o Danúbio em busca de proteção, Os romanos lhes concederam terras nos Balcãs em troca de serviços militares. Dois anos após, os visigodos se sublevaram e na batalha de Andrinopla derrotaram os romanos (378). Teodósio o Grande, hábil político, aceitou-os como federados, instalando-os na Dácia, dando-lhes o exército e a administração. Após sua morte, os godos ocupam de fato o Império do Oriente. O visigodo Alarico, era igualmente temido. Para afastá-lo de Constantinopla, os romanos tiveram que lhe pagar forte tributo. Os visigodos abandonaram os Balcãs e sob a direção de Alarico invadiram a Itália e apoderaram-se de Roma (410). Após a morte de Alarico, os visigodos abandonam a Itália devastada e invadem a Gália, a Narbona, Toulouse e Bordeaux. A Aquitânia e o norte da Espanha são ocupados(414). Nesse período, mais de cem mil germanos invadiam o império, pelo norte, cruzando o Reno e os Alpes; foram sobretudo suevos, alanos e vândalos, arrasando tudo que encontravam no caminho; devastaram a Gália e passaram à Espanha, onde lutaram com os visigodos. Os vândalos ocuparam a Andaluzia e sob o comando de Genserico passaram à África ocupando Cartago e as ilhas do mar Tirreno. Dominaram terras outrora pertencentes ao antigo império cartaginês. Senhores de poderosa frota, devastaram e saquearam Roma(455). A Grande Migração possibilitou também o estabelecimento de várias tribos germânicas em regiões desguarnecidas do ocidente romano: os anglos e saxões se estabeleceram na Inglaterra, os burgúndios ocuparam as margens do Saona, os alamanos radicaram-se na Alsácia. No momento em que o império perdia a África, os hunos descem o Danúbio, tomam Belgrado, depois Nisch e em 450 voltam-se para o Ocidente. Ã frente de numeroso exército, seu chefe Átila destrói Metz, Reims, Troyes, voltando-se para o dul e para Orléans, porta meridional da Gália. Quem defende o Ocidente são os próprios bárbaros, alanos, burgúndios, francos e visigodos, sob a direção de Aécio e Teodorico.Os bárbaros já exerciam o poder de fato no império desde fins do séc. IV, tomam então plena consciência de sua força no Baixo Império. Quem dominou a Itália foi Teodoreico, chefe dos ostrogodos, que estabeleceu-se na península e aí fundou novo reino em 493. Em princípios do séc. VI, o que fora o império romano do Ocidente tornou-se um mosaico de pequenos reinos bárbaros: o dos visigodos, na Espanha; o dos ostrogodos, na Itália; o dos vândalos, no noroeste da África; o dos francos, na Grécia; os dos anglo-saxões, no sul, sudeste e leste da Inglaterra; o dos burgúndios, na média e alta bacia do rio Ródano. As últimas migrações dos germanos se verificaram na segunda metade do séc. VI, quando os lombardos, pressionados pelos ávaros, buscam refúgio na Itália. Três episódios fundamentais, marcaram o surgimento de três grandes reinos bárbaros:
Pouco a pouco foi se realizando nos reinos bárbaros uma ressurreição dos costumes, tradições e idéias romanas. Difundiu-se assim, no Ocidente, um novo tipo de civilização, com alguns elementos herdados de Roma e outros provenientes dos germanos. A igreja, através da conversão, não contribuirá apenas para a aproximação e fusão das populações no Ocidente. Ela será a herdeira da civilização latina; em dois séculos de constantes esforços imporá a todo Ocidente a unidade católica e a língua latina, os dois elementos fundamentais da civilização romana, herdados pelos bárbaros.
O Império Bizantino foi criado em 395 por Teodósio, com a divisão do Império Romano em dois, o do Ocidente e o do Oriente (Império Bizantino). Enquanto o império Romano do Ocidente com a capital em Roma é extinto em 476, o domínio Bizantino estende-se por vários séculos, abrangendo a península Balcânica, a Ásia Menor, a Síria, a Palestina, o norte da Mesopotâmia e o Nordeste da África. Termina apenas em 1453 com a tomada de Constantinopla pelos Turcos. O auge do Império ocorre no governo de Justiniano (483-565), que a partir de 527 estabelece a paz com os persas e concentra suas forças na reconquista dos territórios dos Bárbaros no Ocidente. Constrói fortalezas e castelos para firmar as fronteiras e também obras monumentais, como a Catedral de Santa Sofia. Ocupa o Norte da África, derrota os vândalos e toma posse da Itália. No Sul da Espanha submete os Lombardos e os Visigodos, estimula a arte Bizantina na produção de mosaicos e o desenvolvimento da arquitetura de igrejas que combina elementos orientais e romanos. Ravena, no norte da Itália, torna-se a Segunda sede do Império e o núcleo artístico de prestígio. Como legislador elabora o código de Justiniano que atualiza o direito romano para fortalecer juridicamente as bases do poder imperial. Em 532 instaura uma monarquia Despótica e teocrática. Nessa época, em virtude da elevação dos impostos, explode a revolta popular de Nica, abafada com violência. Mas o império começa a decair com o final de seu governo. Em 568, os Lombardos ocupam o Norte da Itália, Bizâncio cria governos provinciais para reforçar a defesa e divide o território da Ásia Menor em distritos militares. Apartir de 610, com a forte influência oriental, o latim é substituído pela língua grega. Em 717, diante das tentativas árabes de tomar Constantinopla, o Imperador Sírio Leão III, o Isauro (675-741) reorganiza a administração. Influenciado pelas seitas Iconoclastas orientais, Judaísmo e Islamismo, proíbe a adoração de imagens nas igrejas, provocando uma guerra religiosa com o papado. Em 867, a desobediência da Igreja bizantina, a Roma coincide com nova tentativa de expansão de Bizâncio, com a reconquista da Síria, Jerusalém, Creta, Bálcãs, e Norte da Itália. A Igreja Oriental rompe com a Ocidental, denominando-se Igreja Ortodoxa, em 1054, no episódio conhecido como Cisma do Oriente. O Império Bizantino estruturou e desenvolveu uma intensa atividade comercial marítima e terrestre, tornando-se assim a mais rica e urbanizada região medieval da Europa. A produção agrícola estava baseada nos latifúndios dominados por uma Aristocracia (Dinatas), pelo estado, e principalmente pelas igrejas e mosteiros. Lentamente as pequenas propriedades foram sendo absorvidas pelo estado e a aristocracia concentrou ainda mais a propriedade rural. O trabalho nessas terras era exercido por camponeses e em algumas áreas por escravos. Apesar da produção superior ao Ocidente, não havia grandes excedentes agrícolas, dificultando ainda mais a vida dos camponeses. A propriedade do Império Bizantino até o Século IX deveu-se principalmente ao comércio. Três fatores concorreram para esse desenvolvimento: a localização geográfica (ponto de união entre Europa e Ásia); os excelentes portos do Mediterrâneo e a forte Marinha Bizantina, que assegurava a paz para a efetivação das relações comerciais. Tais características tornaram Constantinopla o "grande império do mundo". 3.1. A RESISTÊNCIA ARMADA BIZANTINA Durante a sua existência o Império Bizantino encontrou pressão militar constante por todos flancos, vindos de adversários tais como os Sassânidas, Árabes Omíadas e Calífados Abássidas, Turcos seldjúcidas e otomanos, Búlgaros, Normandos, Francos, Russos e Sérvios, assim como de povos Nômades como os Ávaros e Pechenegues. Bizâncio se engajou em campanhas de reconquistas de seu próprio território muito freqüentemente: são exemplos a reconquista da Itália e o Norte da África, empreendida por Justiniano, muito mais tarde as guerras de Nicéforos Phocas e João Tzimiskes na fronteira leste; mas a doutrina militar do império era defensiva por natureza. A eficácia de suas táticas se comprova na prevalência de Bizâncio contra o poder do Califado Árabe, um estado que de longe excedia Bizâncio em riqueza, população e área territorial. 3.2. O SISTEMA DE THEMAS No século VII os árabes conquistaram o Egito, Norte da África, Palestina e Síria/Mesopotâmia. Tal conquista foi um severo choque para o Sistema Militar Bizantino. Os árabes estavam determinados a empenhar-se em sua luta pelo islã por todo o Oriente Médio e além. Em contraste, após uma sofrida mas bem sucedida luta contra os pérsas sassânidas, o exército Bizantino estava fragilizado e em uma má hora para se confrontar com os árabes. Em 640 uma grande armada bizantina foi destruída pelos árabes na batalha do rio Yarmuk, na Síria; e no fim de 640 os bizantinos foram empurrados de volta às montanhas Taurus e Anti Taurus. Constantinopla havia perdido cerca da metade de seu território nos últimos 30 anos, para um adversário que invadiu e tomou completamente o império da Pérsia sassânida. No período de 650 à 660 um sistema de defesa regional foi estabelecido, organizando a volta das unidades regionais do exército conhecida como Thema. O status profissional dos soldados incluídos neste sistema ainda é controverso entre os bizantinistas. A visão tradicional é a de que tais soldados recebiam por sua atuação no exército, mas obtinham a maior parte de sua renda de suas próprias terras. Acredita-se que os membros das comunidades locais contribuíam para a compra das próprias armas e equipamentos. Esperava-se que um pequeno fazendeiro e um pequeno proprietário em tempos de paz se armasse e se equipasse para um combate sempre que fosse requisitado por seu Strategos – o comandante, ou recrutador, no sistema de Themas. 3.3. TAGMATA Embora empregasse as tropas themáticas na defesa regional, o imperador bizantino procurava manter uma série de regimentos de soldados profissionais, conhecidos coletivamente como a Tagmata. Originária das unidades da guarda palaciana, mantida mais para exposição do que para luta, e composta por pessoas em busca de ascensão social. O imperador Justiniano, por exemplo, é lembrado por Ter incluído um destes regimentos, o Scholai, na lista de regimentos da ativa, causando pânico entre os "soldados-gentlemen", a quem não agradava nada a idéia de deixar a segurança de Constantinopla para se embrenhar no perigo de uma campanha militar. Por volta do século VIII, estes soldados de brinquedo foram incorporados ao corpo de elite do exército. A tagmata participou de campanhas pelo Imperador, e formou a elite das forças bizantinas em forças ofensivas contra exércitos invasores, junto a tática de atacar e correr, empregada pelos exércitos themáticos. 3.4. O DECLÍNIO E A DESTRUIÇÃO DO EXÉRCITO BIZANTINO Em muitos aspectos o sistema militar bizantino foi vítima de seu próprio sucesso. Devido ao retorno das regiões fronteiriças e ao menor perigo vindo da região hostis, as campanhas do século IX ao fim do século XI reduziram a necessidade de defesa local pelas forças themáticas. Estas se tornaram cada vez menos eficiente e começaram a ser vistas como excedentes para as necessidades do governo bizantino. Paralelamente, as forças profissionais entravam em igual decadência – aparentemente por pura falta de adversários. Em 1071 o império sofreu uma dupla derrota: a cidade bizantina de Barino Sudeste da Itália caiu nas mãos dos normandos e o imperador Romano Diógenes sofreu uma derrota catastrófica nas mãos dos turcos seldjúcidas. O exército bizantino ainda era grande, mas ineficiente: em dez anos a maior parte da Ásia Menor caiu nas mãos dos Turcos e os normandos se estabeleceram na costa da Grécia a Bálcãs. Os imperadores Alexius, João e Manuel Komnenus empregaram um diálogo com os Normandos e Turcos que misturava diplomacia e força militar. Mas as forças empregadas, crescentemente compostas por mercenários e bárbaros (não bizantinos), não foram capazes de atuar com a eficácia das forças de outrora.
O feudalismo europeu foi o produto do retrocesso da base econômica, partindo de um estágio avançado, o comercial, para um mais atrasado, o da agricultura de subsistência em seu estágio feudal. O feudalismo foi produto e ao mesmo tempo acelerador da desagregação das relações comerciais que caracterizavam as civilizações precedentes. Apesar disso, o comércio nunca chegou a desaparecer inteiramente, em parte porque o estágio de agricultura feudal, por si mesmo, exige alguma atividade econômica, ainda que marginal, mas também porque certos hábitos de consumo não desaparaeceram. Os Feudos: com seu sistema de subsistência e auto-suficiência não deixavam excedentes para acumulação de capital ou investimento em geral. No entanto, devemos evitar as teorias de catástrofe no comércio europeu. O quadro global que surge claramente, é que a Europa Ocidental era uma área subdesenvolvida, e apesar de não ter retrocedido completamente a uma economia "natural", certamente dispunha de pouco dinheiro em circulação, já que os pagamentos eram realizados em sua maioria, com mercadorias, a escolha do credor. Além disso, a sociedade medieval tendia a ser hostil às idéias de mudanças. Mesmo quando avanços técnicos eram realizados, surgiam oposições consideráveis. A economia feudal era agrário-camponesa, caracterizada pelo alto grau de auto-suficiência de cada comunidade e mesmo de cada família. Era também marcada pela relativa lentidão das mudanças técnicas e pelo papel relativamente insignificante das trocas medievais. Outro fator de atraso, sem cair de forma alguma, na posição antiquada de classificar a Idade Média como "Idade da Fé", é que a Igreja moldou a Europa Medieval. Até certo ponto, o povo estava orientado para o outro mundo e nesse sentido não estava interessado em aumentar a riqueza material, valores vinculados pela Igreja como perigo terreno, e em alguns casos, como pecado. Portanto, os sistemas de valores na maior parte da Europa não eram apropriados à expansão industrial ou comercial. As cidades: a vida urbana era limitada. A Europa Feudal não possuía grandes cidades. As maiores foram aquelas onde estava sediada a administração religiosa. Nelas localizavam-se também, a produção de manufaturas, destinadas ao próprio consumo urbano ou ao consumo santuário dos donos da terra. O mercado para esses produtos era inicialmente muito limitado, vindo a crescer ao longo do tempo. O que caracteriza a época feudal na produção manufatureira, tal como o feudo caracteriza na produção agrícola, é o sistema das corporações também chamadas grêmios ou guildas. Corporações nas cidades e vilas, feudos nos campos, esse é o quadro básico do feudalismo, mas nunca foi estático. Grandes mudanças ocorreram variando a intensidade de lugar e tempo. Nos feudos, a subsistência passou para excedentes; nas cidades manufaturas para "vizinhos" e para compra de comida passou para exportações através de feiras. Comércio Medieval: a medida em que a economia feudal prosperava, aumentando a população, aumentava também o excedente econômico apropriado pela classe dos senhores de terra. A medida em que a renda destes aumentava, seus hábitos de consumo tornavam-se mais variados, exigindo quantidades cada vez maiores de um número crescente de artigos santuários. Dessa forma o próprio sucesso da economia feudal estimulou o ressurgimento do comércio. Este, por sua vez, estimulou a concentração urbana. Foi um processo lento, ainda que mais rápido do que aqueles que haviam levado à formação de civilizações comerciais anteriores, pois a economia feudal européia partia de uma base mais elevada devido as suas origens. Nos primeiros séculos do feudalismo os elementos característicos do comércio são as feiras locais e os mercadores ambulantes. Nessa época apenas uns poucos produtos ficavam fora da capacidade dos feudos em se auto-abastecerem. Entre estes merecem destaque o sal, os metais, o peixe e alguns manufaturados. Por outro lado, certas regiões européias produziam constantemente excedentes de certos produtos agrícolas, ou os produziam com determinadas condições de qualidade, de modo que nelas havia sempre a possibilidade de comprar alguma coisa. As feiras locais eram acontecimentos freqüentes, realizados com certa regularidade nas vilas e pequenas cidades de toda a Europa. Os próprios agricultores traziam para elas os produtos de suas terras e seus artesanatos. Os artigos eram expostos em praça pública, às vezes em barracas, e grande parte das trocas eram feitas sem o intermédio de moedas. As feiras acolhiam produtores da áreas próximas, daí sua característica local, e nelas os servos vendiam, compravam ou trocavam tanto para si como para seus senhores. O mercador ambulante era um indivíduo que, sozinho ou com alguns acompanhantes, a pé ou com animais, ou mesmo carroças, ia de feira em feira, comprando em uma, vendendo em outra. Por muito tempo esses mercadores foram os principais elos da tênue rede comercial medieval. Com o tempo certa modificações foram sendo introduzidas nesse quadro. Alguns ambulantes passaram a se especializar em artigos seguros como sal e vinho, e em vez de comprar e vender, passaram somente a vender e voltar ao ponto de origem para refazer os estoques. Esse tipo de mercadores necessitavam de meios de transportes adequados às suas grandes cargas. Para muitos lugares o acesso só era possível por terra, daí a origem das carroças. Mas as estradas eram péssimas, sem ponte e com muitos salteadores, além de cada senhor feudal cobrar uma taxa pelo uso de suas estradas, o que as vezes era exorbitante, conhecido como pedágio ou portagem. As dificuldades do transporte por terra estimularam a utilização das vias fluviais, o que era facilitado pelo fato da maior parte da população viver próximo aos rios. O transporte fluvial também era onerado por taxas, mas aqui elas eram empregadas como fonte de recursos para a construção e conservação dos equipamentos e obras necessárias à navegação. A especialização dos mercadores ambulantes e seu enriquecimento trouxe outras modificações ao comércio europeu. As feiras locais permanecerão, assim como os pequenos ambulantes, mas seu papel será cada vez mais limitado ao comércio varejista, de atendimento direto ao consumidor. O grosso das atividades passará para as mãos dos atacadistas, especializados em alguns produtos e controlando determinadas regiões. Nos pontos de encontro das principais rotas desses atacadistas surgem as mundinae, ou grandes feiras, que caracterizavam o comércio europeu nos séculos XII e XIII. São muito pequenas as semelhanças entre as grandes e pequenas feiras. As grandes feiras são o ponto de encontro de grandes mercadores, negociam no atacado, seu raio de ação cobre toda a Europa Ocidental, realizam-se no máximo duas vezes ao ano e sua duração é de até seis semanas. A mais antiga das feiras é a de Saint-Denis, próximo a Paris, datando do século IX, mas elas somente passam a se desenvolver melhor com mercadores vindo de Gênova e Veneza com produtos do Império Bizantino e do Oriente Médio, três séculos depois. No período posterior a 1114 começam as grandes feiras de Champanha. Eram realizadas seis feiras por ano, sendo duas em Troyes no Sena, duas em Provins, uma em Lagny no Marna e uma em Bar-sur-Aube. Em Provins a primeira feira iniciava-se na Terça-feira antes do dia da Ascensão. A "Feira Quente" em Troyes era no dia 24 de Junho, a segunda de Provins era no dia 14 de Setembro e a "Feira Fria" de Troyes no dia 2 de Novembro. Todos os tipos de mercadorias estavam à venda: tecidos de lã de Flandres e do norte da França, sedas de Luca, artigos de couro da Espanha, África e Provença, peles da Alemanha e linhos da Champanha e da Alemanha. Os italianos traziam artigos de fora da Europa: especiarias, açúcar, alume, laca e madeiras corantes. Artigos de algodão também estavam a venda; o comércio de cereais e vinhos era intenso. Mas o mais importante eram os tecidos de lã. A magnitude do comércio realizado nas grandes feiras estimulou o desenvolvimento do crédito e de seus instrumentos. Muitas vendas eram feitas a prazo, contra títulos resgatados nas feiras do ano seguinte. A partir do século XIV as grandes feiras começaram a decair. O crescimento do comércio foi tornando cada vez menos econômico o transporte de grandes cargas apenas para expô-las. As feiras passaram a servir somente para exposição de amostras, sobre as quais faziam-se encomendas. Com a melhoria dos meios de transporte e comunicação, o comerciante deixa de ser viajante e passa a der sedentário, passando a negociar por correspondência, através da rede de agentes. Com isso as feiras foram pouco a pouco decaindo, e apesar de sobreviverem mais alguns séculos, passam a representar um papel secundário na evolução comercial da Europa. O comércio a longa distância ganha a sua vez.
Os atritos entre o Império e os povos ocupados desde cedo passaram para um campo sempre perigoso: o da religião. Como já foi referido, o novo Império Romano do Oriente, cristianizado, dependia deste monoteísmo para conseguir a união e não poderiam ser tolerados outros cultos. As heresias, doutrinas contrárias à ortodoxia católica, existiram sempre desde os primórdios do Cristianismo. Os ensinamentos de Jesus foram interpretados das mais variadas formas e o tema da natureza de Cristo sempre foi bastante polemico, tendo dado origem a discussões, excomunhões e cismas durante vários séculos. O arianismo, heresia estabelecida pelo bispo Ario, era uma das mais importantes. Esta doutrina negava a divindade de Jesus. O próprio Constantino empreendeu um esforço considerável na tentativa de unir uma Igreja dividida por esta heresia. Como é óbvio, não teve sucesso, pois o Arianismo continuou a atrair por vários séculos uma larga percentagem de cristãos. No século V, o papa não tinha nem metade da importância que viria a conquistar mais tarde. Aos olhos de uma grande parte de cristãos europeus, não era mais que o bispo de Roma. Os Gregos, bem como um grande número de povos orientais, adotaram avidamente o Cristianismo, e nos primeiros tempos a discussão teológica foi moda. Discutia-se principalmente a natureza de Cristo, mas esta discussão tornou-se rapidamente num motivo de divisões e guerras. Os povos helenizados não viam este tema com puro interesse teológico e adotaram as idéias gregas de um modo fundamentalista, o que cedo levou à intolerância e ao ódio. Os egípcios e os sírios, ocupados por um povo tão exigente em termos de credo oficial, logo encararam as novas heresias que foram aparecendo no século V como extremamente atraentes. O cerimonial ortodoxo chocava-os com todo o seu luxo e opulência que, na sua opinião, eram perfeitamente inapropriados quando um grande número de compatriotas seus viviam na miséria. As autoridades eclesiásticas eram vistas pela população como agentes ao serviço do Império. Crescia a desconfiança, gerando-se um ambiente propício para o aparecimento de heresias. Os patriarcas de Alexandria e de Antioquia não suportavam ser ultrapassados em autoridade pelos seus homólogos em Constantinopla. Assim, a heresia aliava-se aos sentimentos nacionalistas de revolta contra a autoridade imperial. No século V, já não havia nada que impedisse a propagação das heresias. Não obstante a força que o Arianismo já possuía a Oriente e a Ocidente, Nestório, o patriarca de Constantinopla, que era sírio de nascença, proclama uma nova heresia, que ficaria conhecida por nestorianismo, na qual se sublinha a humanidade de Cristo. Intolerável aos olhos da ortodoxia católica, esta heresia foi condenada no concílio em Éfeso, no ano de 431. Esta decisão ecumênica teve conseqüências importantes. Os nestorianos foram expulsos do império e receberam acolhimento no reino persa. O nestorianismo foi aceito pela igreja de Antioquia, que sempre havia simpatizado com a idéia da natureza humana de Cristo. Os seguidores desta heresia implantaram-se solidamente na Mesopotâmia e sob a proteção persa deram seguimento às suas intenções missionárias no Extremo Oriente. O nestorianismo espalhou-se até à Índia, ao Turquistão e mesmo até à China, tendo para isso contribuído a ajuda dos mercadores sírios e egípcios que viajavam freqüentemente para o oriente. No século VI e VII ainda existiam no Médio Oriente muitas igrejas nestorianas, nomeadamente na Síria e no Egito. Em Alexandria nascia uma doutrina no sentido oposto. Numa atitude de afronta declarada às autoridades eclesiásticas de Constantinopla e de Antioquia, os teólogos egípcios propunham uma doutrina em que negavam a humanidade de Cristo. Esta doutrina, o monofisismo, é declarada heresia pelo Quarto Concílio Ecumênico em Calcedônia no ano 451, levando assim a mais uma inevitável cisma, com a separação dos monofisistas da ortodoxia católica. Esta separação foi importante, pois o monofisismo já era seguido pela grande maioria dos cristãos do Egito, bem como por algumas congregações na Síria. A Igreja Armênia, que tinha chegado ao Concílio demasiado tarde para participar nas deliberações, decidiu opor-se à proclamação desta heresia, e juntou-se aos monofisistas. O Império Bizantino viu-se encurralado entre duas tomadas de posição bem opostas: de um lado, a Igreja de Roma, farta de compromissos e sem paciência para dialogar com os heréticos; de outro lado, as Igrejas orientais, seguidoras das novas doutrinas, sem grande vontade de ceder às suas opiniões só para regressar ao corpo principal da Igreja. O Concílio de Calcedônia deu início à separação definitiva entre os vários credos cristãos, pois nele foi seguido um texto, da autoria do papa Leão I (papa de 440 a 461), que pretendia ser a proclamação das verdades da fé. O papa achava que a decisão cabia ao sucessor de S. Pedro e não a um mal organizado concílio. Leão I, talvez um pouco a leste das sutilezas das idéias orientais, escreveu uma declaração, que ficaria conhecida pelo "Tomus do papa Leão I", na qual implantava um conjunto de verdades de fé, bastante claras e definitivas, sem qualquer hipótese de alteração. Ao usar este texto como base, os participantes do Concílio de Calcedônia tentavam obedecer à imposição papal, e devido à natureza definitiva do documento não atenderam às idéias das novas doutrinas e proclamaram-nas heréticas. Há que compreender aqui a posição imperial, porque obviamente, qualquer divergência com as idéias de Roma significaria um verdadeiro cisma oriente-ocidente, com óbvias conseqüências noutros campos que não o da teologia. O Império tinha interesses em Itália e nas terras a Ocidente e não havia nada pior que um cisma para estragar os planos de expansão do poder imperial. Consciente de que a perseguição às heresias iria provocar a instabilidade e a desagregação do Império, Bizâncio tentava conciliar a obediência às imposições de Roma com o respeito pelas novas doutrinas. Como seria de esperar, esta tentativa resultou numa posição imperial ambígua, na medida em que os heréticos ora eram perseguidos, ora eram protegidos e favorecidos. Entretanto, os movimentos nacionalistas no oriente forneciam força crescente às novas doutrinas. 5.1. O IMPERADOR JUSTINIANO O imperador Justiniano I (483-565) sucedeu ao seu tio Justino I em 527, e permaneceu no trono durante quase 40 anos, efetuando inúmeras reformas e conquistas que levaram a um aumento do poder imperial. Justiniano escolheu para imperatriz uma dançarina de circo, Teodora. Esta tinha uma forte influência em Justiniano, o que por um lado foi uma vantagem visto que a imperatriz era uma mulher inteligente e de forte caráter. Porém, como se verá mais adiante, as suas tomadas de posição no campo religioso seriam desastrosas. Justiniano tinha grandes planos: desejava a reconquista da totalidade do território imperial perdido com as invasões bárbaras. Apesar de ultra-ambicioso, o seu projeto de reconquista teve um sucesso considerável. Isto deveu-se em parte ao fato de Justiniano se ter rodeado de ministros e generais inteligentes e influentes. No plano militar, os sucessos foram alcançados com os generais Salomão, Germanus, Belisário e Narses. Os exércitos imperiais, sob o comando de Belisário e posteriormente Narses, venceram os Vândalos em África (533-534), e os Godos em Itália (535). O controle imperial foi restabelecido (apesar de por pouco tempo) na Gáulia e Hispânia. Justiniano deixaria, quando da sua morte, um Império forte como nunca tinha sido. A oriente, Justiniano manteve uma postura defensiva, criando uma paz perpétua com os Persas aos quais acordou pagar um tributo anual para manter as fronteiras estáveis e pacíficas. Ao nível administrativo, Justiniano atribuiu a uma academia de dez juristas, presidida por Triboniano, a reorganização das leis romanas. Esta enorme reestruturação foi de tal modo importante que ainda é vista hoje como a base da ciência jurídica européia. A verdadeira grande falha de Justiniano deu-se ao nível da Teologia. O imperador exerceu um forte protecionismo sobre Igreja de Roma. Perseguiu não-católicos e envolveu-se demasiado na controvérsia entre Roma e os movimentos monofisistas e nestorianos. A imperatriz Teodora veio complicar a situação tomando o partido dos monofisistas, auxiliando assim os movimentos heréticos, cuja influência se fazia sentir, sobretudo na Síria e no Egito. A ex-capital imperial, a cidade de Ravena, tinha permanecido nas mãos dos Ostrogodos durante a ausência bizantina. Em 476 o bárbaro Odoacro capturara a cidade, e Zenão, o imperador do Oriente na altura, decide enviar para lá o seu filho adotivo Teodorico, rei dos Ostrogodos. O cerco foi longo, mas a cidade cai nas mãos de Teodorico ao fim de três anos. Odoacro é morto. Datam do governo de Teodorico uma série de edifícios importantes em Ravena, como a Capela Episcopal e o Mausoléu de Teodorico. A heresia do bispo Ario conviveu durante todo o período Godo com o cristianismo ortodoxo praticamente sem problemas. Latinos e godos conviveram em paz durante quarenta anos, o que constituiu um feito notável por parte de Teodorico. Convém relembrar que praticamente todos os povos bárbaros cristianizados eram Arianos e que esta heresia abundava em toda a Europa Ocidental. Em Ravena encontram-se hoje edifícios deste período que foram inicialmente de culto ariano, como as igrejas de Sto. Apolinário Novo e do Espírito Santo, bem como o Batistério dos Arianos. Quando Justiniano sobe ao poder em 518 e decide dar início à sua ortodoxia quase fanática, Ravena será das primeiras cidades a sofrer. Desde a sua subida ao trono que Justiniano tenta reconquistar a península itálica. Sabendo ele que esta reconquista terá que estar apoiada na captura de Ravena, esta cidade torna-se alvo das suas perseguições por intermédio dos conselheiros latinos de Teodorico. Estes tornarão a vida na corte de Ravena num verdadeiro inferno. Teodorico responde da mesma forma mandando matar vários conselheiros, mas o problema é já insolúvel. Com a sua morte em 526, a sua filha Amalasunta tenta em vão controlar Ravena, mas é a sua vontade contra a de Justiniano. Ela governa durante terríveis nove anos antes de ser morta. Belisário chega a Ravena em 535 e toma a cidade cinco anos depois. A cidade voltara a ser bizantina e assim permaneceria até ao início do século VIII. Tomada a cidade, o sucessor de Belisário, o general Narses, parte para terminar a campanha itálica que acabará de vez com os Godos em 554. Com o poder bizantino restabelecido na península itálica, Justiniano impõe ao clero local o seu bispo Maximiano que irá cumprir exemplarmente a vontade do imperador, dedicando-se à imposição do credo ortodoxo e à eliminação do culto ariano. É Maximiano que termina a construção de um dos edifícios mais importantes de Ravena, a Basílica de S. Vital. Iniciada pelo bispo Ecclesius ainda sob domínio godo, em 527, ela será consagrada por Maximiano a 17 de Maio de 548. Resumindo, a situação religiosa no oriente no final do século VI era a seguinte: os monofisistas da Síria prosperavam, organizados numa força liderada por Jacob Baradeus da cidade de Edessa, e apoiados pela imperatriz Teodora. Doravante, graças ao seu líder, esta força religiosa passaria a ser conhecida por "jacobita". No Egito, os monofisistas tinham conquistado quase toda a população e passariam a ser conhecidos por "coptas". Como curiosidade, neste século foi descoberto um importante conjunto de documentos religiosos coptas no Egito, em Nag Hammadi. Tratou-se de uma das maiores descobertas arqueológicas do século. Entretanto, o nestorianismo progredia para oriente, protegido pelos persas. Os cristãos ortodoxos estavam cada vez mais em minoria, exercendo a sua função principalmente nas cidades da Palestina, onde eram conhecidos por "melquitas", ou seja, os "homens do imperador". 5.2. "A ALIANÇA ENTRE A ESPADA E A CRUZ." Surgiram como uma contra-ofensiva para romper o cerco muçulmano. Mas foram, ao mesmo tempo, uma forma de aliviar as pressões demográficas que ameaçavam destruir o feudalismo. A crise do sistema feudal refletira-se na cultura, acentuando o sentimento religioso. A sociedade medieval era essencialmente religiosa. Sendo incapaz de compreender e encontrar cientificamente os meios de superação da crise, interpretou-a de um ponto de vista religioso. Assim, fiel ao sentimento religioso, a sociedade procurou, nas Cruzadas, uma possível solução para seus problemas. Porém, a religião não explica por si mesma este movimento. A espiritualidade e o sentimento religioso do homem medieval eram muito fortes. Ele era antes de tudo um fiel servidor de Deus e da Igreja. E se as Cruzadas representavam para ele uma satisfação material, representavam também o cumprimento de uma obrigação religiosa. Combater o infiel muçulmano era uma ação santa e representava a possibilidade de salvação eterna, garantida pelas indulgências oferecidas pela Igreja aos cruzados. 5.3.CRUZADA:GUERREIROS CRISTÃOS CONTRA MUÇULMANOS Paralelamente às Cruzadas, que investiram para o Oriente, foram realizadas expedições chamadas Cruzadas do Ocidente, que tinham como objetivo expulsar os muçulmanos da Península Ibérica e do sul da Itália. Em 711, os árabes muçulmanos, comandados por Tarik, haviam conquistado a Península Ibérica. Submeteram toda a península, com exceção das Astúrias. Ali formaram-se os pequenos reinos cristãos de Leão, Castela, Aragão e Navarra. Estes reinos iniciaram, no século XI, a Guerra de Reconquista. Nobres franceses, como Henrique e Raimundo de Borgonha, em busca de terras e de glória, lideraram a luta contra os muçulmanos. Os reinos cristãos expandiram-se, passando a ameaçar o califado de Córdoba. Nas terras reconquistadas aos muçulmanos, doadas ao clero ou incorporados pela nobreza, implantou-se uma estrutura feudal de produção. Da Guerra de Reconquista resultou a formação das monarquias nacionais de Portugal e Espanha. Na Itália, os muçulmanos haviam conquistado a Sicília, a Córsega e a Sardenha. O Mediterrâneo fora bloqueado à navegação e ao comércio dos europeus. A Guerra de Reconquista teve início no século X. O contato entre cristãos e muçulmanos, de início bélico, assumiu lentamente um caráter mercantil. Entre comerciantes, fossem eles cristãos ou muçulmanos, sempre se encontrava uma forma de acordo. Em vez de desperdiçar o capital na guerra, procuravam reproduzi-lo pelo comércio. A Guerra de Reconquista na Itália levou à reabertura do Mediterrâneo para os europeus. As trocas foram ampliadas e diversificadas, facilitando o reatamento das relações entre Ocidente e Oriente. 5.4. MUÇULMANOS NUMA CRUZADA, SÉCULO XII Não eram raras as peregrinações de cristãos ao Santo Sepulcro. Os califas árabes não se opunham às visitas, que acabavam sendo lucrativas para os muçulmanos. No entanto, na segunda metade do século XI, os turcos dominaram grande parte da Ásia Ocidental. Este povo tinha como região natal o Turquistão, que a bem pouco tempo fazia parte das repúblicas que compunham a antiga União Soviética. Possuíam algum parentesco com os hunos, povo que invadiu a Europa no século V. Rapidamente, os turcos assimilaram a fé muçulmana. Uma de suas tribos, os seldjúcidas, ocupou a Mesopotâmia, a Síria, a Palestina, parte do planalto da Ásia Menor, chegando inclusive à Península dos Bálcãs. Na Terra Santa, os turcos seldjúcidas expulsaram os cristãos e proibiram suas peregrinações ao local. Sob o pretexto de libertar a Terra Santa e impedir o avanço muçulmano na Europa Oriental, o papa Urbano II incentivou a Primeira Cruzada. Mesmo assim o povo era unido por uma religião comum: A religião Cristã. Todos, dos nobres nos seus castelos aos camponeses nas suas rudimentares habitações, conformados à diária, semanal e anual adoração. O papa, sendo a cabeça da igreja, era representante de Deus na terra. Tinha suficiente poder para desafiar reis e imperadores. A palavra do Papa era lei. E esta podia alcançar a mais insignificante aldeia na Grã Bretanha rural, através de uma rede vasta de padres. Durante séculos uma sucessão de papas ousaram ter uma guerra de palavras com as casas reais de Europa numa tentativa de criar um império cristão unificado. Urbano compartilhava o sonho do predecessor de um reino cristão que se estenderia da costa atlântica até à ocidental Terra Santa, unificado sob a batuta papal. Haviam aqueles que viam a guerra como um ato anticristão, Urbano explicou que as palavras da Bíblia tinham sido mal interpretadas. Embora o sexto mandamento indique claramente, não matarás, agora era somente um pecado matar cristãos. Matar muçulmanos era perfeitamente aceitável. Além disso, Urbano prometia que qualquer um que morresse na batalha estaria perdoado de todos os seus pecados nesta vida e na seguinte seria garantido um bilhete ao para o céu. Mas advertiu também que quem desertasse seria excomungado pela sua covardia.
Após um longo período de estagnação, o século XI presenciou um renascimento da atividade econômica em toda a Europa. Embora evidentemente em ritmos diferentes, o crescimento populacional se acelerou em toda parte. Alemanha, Escandinávia, França e Inglaterra, tiveram triplicado o número de seus habitantes entre 1000 e 1300, mesmo depois de uma grande escassez de alimentos e de doenças. A agricultura tornou-se mais produtiva, porque novas terras foram cultivadas e porque houve uma melhoria nas técnicas de plantação e na variedade das safras. Pouco a pouco as instituições de uma sociedade feudal levaram a uma economia de capital, e os trabalhadores e servos do campo começaram a ganhar salários. Novos mercados foram propiciados pelo rápido crescimento das cidade, formadas ao redor de castelos, catedrais e universidades, ou a partir do comércio ou das rotas de peregrinos. Houve uma grande especialização no comércio, como transações bancárias, carpintaria, produção têxtil e olarias. As corporações de ofícios controlavam a produção e fiscalizavam qualidades, preços e o treinamento dos aprendizes. A nova importância dos mercadores e dos artesãos debilitou a tradicional estrutura social baseada na nobreza, no clero e no povo. Soberanos locais se beneficiaram com a expansão econômica, cobrando impostos e, em troca, oferecendo proteção aos súditos. À parte o aspecto espiritual, a igreja exerceu um controle quase completo sobre a educação, a cultura, a administração e a lei. O poder da religião, na diplomacia internacional e como fonte de inspiração espiritual, foi demonstrado pelas Cruzadas, uma série de campanhas militares que entre 1095 e 1291, tentaram libertar a Terra Santa do controle muçulmano. As Cruzadas resultaram em um considerável crescimento do comércio internacional. Esse fator desempenhou um papel no rápido aumento do conhecimento geográfico durante o final da Idade Média.
MORAES, José Geraldo Vinci de. Caminhos das Civilizações. São Paulo: Atual Editora, 1998. Enciclopédia Britânica do Brasil Publicações Ltda. Rio de Janeiro e São Paulo: 1987. V. 3, p. 473 – 475. MAGALHÃES, Francisco de B. B. Filho. História Econômica. 2. Ed. São Paulo: Sugestões Literárias S.A., 1973. HODGETT, Gerald A J. História social e economia da idade média. Rio de Janeiro: Zamar Editores, 1972. BROWNE, Alfredo Lisboa. Introdução à história econômica do Ocidente. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S. A ., 1970.
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