Ética na Economia
"Quiseram construir um mundo sem ética. E a ilusão se transformou em desespero" A ética ilumina a consciência humana, sustenta e dirige as ações do homem, norteando a conduta individual e social. É um produto histórico-cultural e, como tal, define o que é virtude, o que é bom ou mal, certo ou errado, permitido ou proibido, para cada cultura e sociedade. Dessa maneira, a ética é universal, enquanto estabelece um código de condutas morais válidos para todos os membros de uma determinada sociedade e, ao mesmo tempo, tal código é relativo ao contexto sócio-político-econômico e cultural onde vivem os sujeitos éticos e onde realizam sua ações morais.
O que é Ética? Ethos ética, em grego designa a morada humana. O ser humano separa uma parte do mundo para, moldando-a ao seu jeito, construir um abrigo protetor e permanente. A ética, como morada humana, não é algo pronto e construído de uma só vez. O ser humano está sempre tornando habitável a casa que construiu para si. Ético significa, portanto, tudo aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente para que seja uma moradia saudável: materialmente sustentável, psicologicamente integrada e espiritualmente fecunda. A ética não se confunde com a moral. A moral é a regulação dos valores e comportamentos considerados legítimos por uma determinada sociedade, um povo, uma religião, uma certa tradição cultural etc. Há morais específicas, também, em grupos sociais mais restritos: uma instituição, um partido político... Há, portanto, muitas e diversas morais. Isto significa dizer que uma moral é um fenômeno social particular, que não tem compromisso com a universalidade, isto é, com o que é válido e de direito para todos os homens. Exceto quando atacada: justifica-se dizendo-se universal, supostamente válida para todos. Mas, então, todas e quaisquer normas morais são legítimas? Não deveria existir alguma forma de julgamento da validade das morais? Existe, e essa forma é o que chamamos de ética. A ética é uma reflexão crítica sobre a moralidade. Mas ela não é puramente teoria. A ética é um conjunto de princípios e disposições voltados para a ação, historicamente produzidos, cujo objetivo é balizar as ações humanas. A ética existe como uma referência para os seres humanos em sociedade, de modo tal que a sociedade possa se tornar cada vez mais humana. A ética pode e deve ser incorporada pelos indivíduos, sob a forma de uma atitude diante da vida cotidiana, capaz de julgar criticamente os apelos a-críticos da moral vigente. Mas a ética, tanto quanto a moral, não é um conjunto de verdades fixas, imutáveis. A ética se move, historicamente, se amplia e se adensa. Para entendermos como isso acontece na história da humanidade, basta lembrarmos que, um dia, a escravidão foi considerada natural. Entre a moral e a ética há uma tensão permanente: a ação moral busca uma compreensão e uma justificação crítica universal, e a ética, por sua vez, exerce uma permanente vigilância crítica sobre a moral, para reforçá-la ou transformá-la.
A ética tem sido o principal regulador do desenvolvimento histórico-cultural da humanidade. Sem ética, ou seja, sem a referência a princípios humanitários fundamentais comuns a todos os povos, nações, religiões etc, a humanidade já teria se despedaçado até à auto-destruição. Também é verdade que a ética não garante o progresso moral da humanidade. O fato de que os seres humanos são capazes de concordar minimamente entre si sobre princípios como justiça, igualdade de direitos, dignidade da pessoa humana, <cidadania plena, solidariedade etc., cria chances para que esses princípios possam vir a ser postos em prática, mas não garante o seu cumprimento. As nações do mundo já entraram em acordo em torno de muitos desses princípios. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela ONU (1948), é uma demonstração de o quanto a ética é necessária e importante. Mas a ética não basta como teoria, nem como princípios gerais acordados pelas nações, povos, religiões etc. Nem basta que as Constituições dos países reproduzam esses princípios (como a Constituição Brasileira o fez, em 1988). É preciso que cada cidadão e cidadã incorpore esses princípios como uma atitude prática diante da vida cotidiana, de modo a pautar por eles seu comportamento. Isso traz uma conseqüência inevitável: freqüentemente o exercício pleno da cidadania (ética) entra em colisão frontal com a moral vigente... Até porque a moral vigente, sob pressão dos interesses econômicos e de mercado, está sujeita a freqüentes e graves degenerações.
O que é um Código de Ética? Um código de ética é um acordo explícito entre os membros de um grupo social: uma categoria profissional, um partido político, uma associação civil etc. Seu objetivo é explicitar como aquele grupo social, que o constitui, pensa e define sua própria identidade política e social; e como aquele grupo social se compromete a realizar seus objetivos particulares de um modo compatível com os princípios universais da ética. Um código de ética começa pela definição dos princípios que o fundamentam e se articula em torno de dois eixos de normas: direitos e deveres. Ao definir direitos, o código de ética cumpre a função de delimitar o perfil do seu grupo. Ao definir deveres, abre o grupo à universalidade. Esta é a função principal de um código de ética. A definição de deveres deve ser tal que, por seu cumprimento, cada membro daquele grupo social realize o ideal de ser humano. Como deve ser formulado um código de ética? O processo de produção de um código de ética deve ser ele mesmo já um exercício de ética. Caso contrário, nunca passará de um simples código moral defensivo de uma corporação. A formulação de um código de ética deve, pois, envolver intencionalmente todos os membros do grupo social que ele abrangerá e representará. Isso exige um sistema ou processo de elaboração "de baixo para cima", do diverso ao unitário, construindo-se consensos progressivos, de tal modo que o resultado final seja reconhecido como representativo de todas as disposições morais e éticas do grupo. A elaboração de um código de ética, portanto, realiza-se como um processo ao mesmo tempo educativo no interior do próprio grupo. E deve resultar num produto tal que cumpra ele também uma função educativa e exemplar de cidadania diante dos demais grupos sociais e de todos os cidadãos. Quais os limites de um código de ética? Um código de ética não tem força jurídica de lei universal. Mas deveria ter força simbólica para tal. Embora um código de ética possa prever sanções para os descumprimentos de seus dispositivos, estas sanções dependerão sempre da existência de uma legislação, que lhe é juridicamente superior, e por ela limitado. Por essa limitação, o código de ética é um instrumento frágil de regulação dos comportamentos de seus membros. Essa regulação só será ética se e quando o código de ética for uma convicção que venha do íntimo das pessoas. Isso aumenta a responsabilidade do processo de elaboração do código de ética, para que ele tenha a força da legitimidade. Quanto mais democrático e participativo esse processo, maiores as chances de identificação dos membros do grupo com seu código de ética e, em conseqüência, maiores as chances de sua eficácia.
Cabe sempre, quando se fala em virtudes profissionais, mencionarmos a existência dos códigos de ética profissional. As relações de valor que existem entre o ideal moral traçado e os diversos campos da conduta humana podem ser reunidos em um instrumento regulador. É uma espécie de contrato de classe e os órgãos de fiscalização do exercício da profissão passam a controlar a execução de tal peça magna. Tudo deriva, pois, de critérios de condutas de um indivíduo perante seu grupo e o todo social. Tem como base as virtudes que devem ser exigíveis e respeitadas no exercício da profissão, abrangendo o relacionamento com usuários, colegas de profissão, classe e sociedade. O interesse no cumprimento do aludido código passa, entretanto a ser de todos. O exercício de uma virtude obrigatória torna-se exigível de cada profissional, como se uma lei fosse, mas com proveito geral. Cria-se a necessidade de uma mentalidade ética e de uma educação pertinente que conduza à vontade de agir, de acordo com o estabelecido. Essa disciplina da atividade é antiga, já encontrada nas provas históricas mais remotas, e é uma tendência natural na vida das comunidades. É inequívoco que o ser tenha sua individualidade, sua forma de realizar seu trabalho, mas também o é que uma norma comportamental deva reger a prática profissional no que concerne a sua conduta, em relação a seus semelhantes. Toda comunidade possui elementos qualificados e alguns que transgridem a prática das virtudes; seria utópico admitir uniformidade de conduta. A disciplina, entretanto, através de um contrato de atitudes, de deveres, de estados de consciência, e que deve formar um código de ética, tem sido a solução, notadamente nas classes profissionais que são egressas de cursos universitários (contadores, médicos, advogados, etc.) Uma ordem deve existir para que se consiga eliminar conflitos e especialmente evitar que se macule o bom nome e o conceito social de uma categoria. Se muitos exercem a mesma profissão, é preciso que uma disciplina de conduta ocorra.
Ética e Justiça Social A moral tradicional do liberalismo econômico e político acostumou-nos a pensar que o campo da ética é o campo exclusivo das vontades e do livre arbítrio de cada indivíduo. Nessa tradição, também, a organização do sistema econômico-político-jurídico seria uma coisa "neutra", "natural", e não uma construção consciente e deliberada dos homens em sociedade. Por isso acostumamo-nos a julgar que não seja parte de minha responsabilidade ética a situação do desempregado, do faminto, do que migrou por causa da seca, do que não teve êxito na escola etc., só porque esses males não foram produzidos por mim diretamente. Um sistema econômico-político-jurídico que produz estruturalmente desigualdades, injustiças, discriminações, exclusões de direitos etc., é um sistema eticamente mau, por mais que seja legalmente (moralmente) constituído. Em conseqüência, pelo outro lado: o fato de existirem injustiças sociais obriga-me eticamente a agir de modo a contribuir para a sua superação. Ética e sistema econômico. O sistema econômico é o fator mais determinante de toda a ordem (e desordem) social. É o principal gerador dos problemas, assim como das soluções éticas. O fato de o sistema econômico parecer ter vida própria, independente da vontade dos homens, contribui para ofuscar a responsabilidade ética dos que estão em seu comando. O sistema econômico mundial, do ponto de vista dos que o comandam, é uma vasta e complexa rede de hábitos consentidos e de compromissos reciprocamente assumidos, o que faz parecer que sua responsabilidade ética individual não exista. A globalização (falsa universalidade) do sistema econômico cria a ilusão de que ele seja legítimo. As multidões crescentes de desempregados, famintos e excluídos, entretanto, são a demonstração dessa ilusão. A moral dominante do sistema econômico diz que, pelo trabalho, qualquer indivíduo pode ter acesso à riqueza. A crítica econômica diz que a reprodução da miséria econômica é estrutural. A ética diz que, sendo assim, exigem-se transformações radicais e globais na estrutura do sistema econômico.
Ética reivindicada em todos os setores Na segunda metade do século 20, é impressionante o volume de publicações sobre ética, em todas as partes do mundo e em todos os setores do conhecimento. Ética na política, no direito, na indústria, no comércio, na administração, na justiça, nos negócios, no esporte, na ciência, na economia, na comunicação. Esses fatos revelam - no campo da produção intelectual e do comportamento social - um incontestável retorno às exigências de ética. Quiseram construir um mundo sem ética. No campo do direito, da economia, da política, da ciência e da tecnologia, as grandes expectativas de um sucesso pretensamente neutro, alheio aos valores éticos e humanos, tiveram resultado desalentador e muitas vezes trágico.
Ética na economia "Não podemos deixar que o mundo se transforme num mercado global, sem outra lei que a do mais forte". "Economia e desenvolvimento são assuntos complexos demais para ficar apenas em mãos de economistas e financistas", lembrava um dos participantes do encontro. "Tanto nos Estados Unidos como na Comunidade Européia cerca de 15% da população vive abaixo do limiar da pobreza", diz textualmente o Documento de Antecedentes da Reunião de Copenhague. Na conclusão e síntese de todos os debates, o Documento Final da Conferência recomenda, como ponto fundamental de uma nova visão do progresso: "Pôr o ser humano no centro do desenvolvimento e orientar a economia para satisfazer mais eficazmente as necessidades humanas".
Economia de mercado e ética: O enfoque ético da economia Há algum tempo, temas relacionados com a ética vêm merecendo particular atenção. Desde sempre, atribuições de culpa moral fazem parte do debate público. Não se trata apenas da liberdade formal. Ética de responsabilidade e ética moral constituem uma unidade. Por estes motivos é necessário e útil examinar questões de ética e economia de mercado. Não se trata de limitação unilateral da atividade econômica por diretrizes éticas, mas do fato do relacionamento entre um sistema econômico e seus efeitos sobre cidadãos e sociedade representar uma área de problemas e conflitos. Inicialmente, gostaria de examinar mais de perto o tema da atividade econômica. Freqüentemente se fala de ordem econômica, constituição econômica, sistema econômico, de economia de mercado e economia social de mercado. Precisamos partir primeiro do fato simples que toda sociedade humana tem de resolver problemas econômicos, oriundos das necessidades da vida. Entretanto, há discrepâ ncias entre a necessidade e a satisfação da mesma. Uma imagem do homem faz parte da atividade econômica humana. Não é a única imagem do homem, mas uma imagem, uma noção da atividade humana na economia que precisa ser desenvolvida. É preciso saber quais os elementos básicos do comportamento econômico do homem que entram em jogo. Onde homens convivem, é preciso ordenar sua convivência, mormente na economia e política. Conseqüentemente podemos falar, para o conjunto da sociedade, de ordem jurídica do Estado, ordem cultural, ordem econômica e social. A atividade econômica é baseada na ordem econômica, que abrange o conjunto de regras e normas necessárias para a estrutura organizacional da economia e os processos econômicos. No sentido instrumental, a noção não faz referência a valor por apenas descrever uma ordem existente da economia nacional. A interdependência se intensifica precisamente na fase atual do desenvolvimento internacional. A divisão internacional do trabalho é elemento da maior relevância nas relações econômicas internacionais. Numa ordem econômica organizada para a divisão do trabalho ocorre constantemente a troca de inúmeros bens e serviços por dinheiro. Esta troca somente se torna possível na presença de instituições apropriadas, os mercados, da feira da esquina à bolsa de valores. O meio de troca é o dinheiro, condição da divisão do trabalho na economia. A ordem jurídica comporta juizos de valores, determina direitos individuais e regras de comportamento da sociedade. Questões como o regime da propriedade privada, regras de concorrência ou grau de proteção jurídica são elementos importantes da economia de mercado, o que, entretanto, implica grande número de problemas éticos. É realmente uma função das mais importantes de uma ordem econômica. Resulta outra vez relação entre sistema político e ordem econômica. Este relacionamento não resulta somente dos requisitos objetivos da atividade econômica, mas ainda do fato que somente juntas política e economia podem garantir a estabilidade de uma ordem social. A aprovação da democracia, o consenso democrático, nasce da sensação de ser tratado com razoável grau de justiça e de participar em grau razoavelmente equitativo dos êxitos e resultados de democracia e economia de mercado. Numa ordem de economia social de mercado, por exemplo, é evidente que a parte preponderante da propriedade dos meios de produção não pode pertencer ao Estado. A ação econômica é livre nas suas decisões econômicas. A situação é diferente quando a maior parte dos meios de produção se encontra nas mãos do Estado. Uma ordem econômica também inclui influência política. A falta de liberdade de consumo e produção limita o desenvolvimento da personalidade. A uma ordem econômica ainda cabe atribuição na configuração política da sociedade. A ordem econômica é parte da ordem social global. Em outras palavras: a economia social de mercado é a ordem de atividade econômica num sistema de democracia liberal. Se compõe de instituições e normas que contribuem à realização de metas econômicas e de política social por intermédio da atividade econômica. Ludwig Erhard, cuja contribuição tem sido essencial para a implementação bem sucedida da economia social de mercado na Alemanha, assim formulou este relacionamento confessadamente algo árido e complexo: A finalidade da economia social de mercado é criar prosperidade para todos. Eis uma definição geral dos objetivos de uma ordem econômica. Ao mesmo tempo define as relações entre política, economia e ética. Determinar os objetivos da ordem é tarefa política. A própria ordem econômica rege o cumprimento da tarefa da atividade econômica. Entretanto, determinar normas de comportamento e juizos de valor para a atividade econômica do indivíduo e a colaboração da comunidade é tarefa ética. É um campo da ética econômica. A ética é reflexão teórica a respeito. Assim sendo, a ação do homem é determinada substancialmente pela interação. O homem sempre age com referência a outros e no contexto da sociedade. Surge assim o étos da ação. Resulta a reflexão a respeito desta situação, que passa a se expressar na ética. Evidentemente se trata também da relação funcional econômica bem como das demais relações do econômico com outros elementos da sociedade. A ética econômica diz respeito ao conteúdo moral de decisões em situações de interação econômica. Enfim, a ética econômica somente se torna concreta quando comportamento e ação precisam determinar moralmente problemas e situações concretos. Na economia, uma ética do dever pode ter relação com ética de bens ou ética de virtude. A ética individual precisa ser vista em relação à ética social. Num caso se trata do próprio indivíduo, num outro, da sociedade. Na ética do dever trata-se de saber qual a orientação moral a adotar para determinado comportamento. Na ética de bens trata-se da decisão moral de saber se determinada qualidade ou untuosidade de um produto, talvez também seu custo de fabricação, é compatível com a própria reflexão ética. Antes de mais nada pretende a ética econômica contribuir ao exame da qualidade ética do sistema de regras que prevalece numa ordem econômica existente de fato. O decisivo na avaliação ética da economia social de mercado é saber se ela garante os princípios fundamentais de justiça nas condições de poder, distribuição e concorrência. Entretanto, é preciso que a ética seja calculável. Economia e ação econômica não podem prescindir da moral. É legítimo falar de ética da empresa. Em última análise não se trata apenas do comportamento do empresário, mas também de ética estrutural. Se refere à própria empresa. Para tanto, as indicações que seguem: A ética de virtude é responsabilidade dos executivos. Precisam, por exemplo, estudar a aplicação correta da legislação. A ética de virtude ainda precisa ser vista no contexto da cultura da empresa. O primeiro se caracterizaria por lógica própria da ética econômica. Trata-se das finalidades gerais que presidem à configuração concreta da natureza humana. Na sua formulação, reside neste nível o imperativo segundo o qual "o bem comum é superior ao bem próprio". No segundo nível da ética econômica se pergunta pela tendência efetiva de comportamentos do homem ao lidar com bens inerentes à economia. Na opinião de A. F. Utz, somente depois de esclarecidas estas questões é possível tratar de problemas isolados, entre eles o posicionamento do trabalhador e do capitalista na economia. Questões da parceria social, livre negociação salarial, formação de preços justos e problemas monetários e do crédito são problemas isolados relevantes para a organização do processo econômico. Cabe referir-se a mais um aspecto ligado à ética econômica, ou seja, o de modelos de ética econômica atual. Estes modelos se orientam por uma imagem do homem. O homem se coloca no centro da atividade econômica. Uma ética econômica da vida precisa de novas tônicas que vão além das finalidades e condições convencionais da atividade econômica. Trata-se hoje também da proteção do meio ambiente natural e da preservação de ambientes sociais. Na qualidade de pessoa cabe ao homem dignidade particular. Na ação experimenta sua própria identidade. Decorre daí a liberdade de decisão, centrada não somente no ambiente imediato mas substancialmente determinável pela necessidade ética da ação. Autodeterminação, consciência de si e responsabilidade própria são características inconfundíveis da dignidade pessoal inerente do homem. Uma ordem econômica que aceita esta dignidade pessoal também precisa tratar de problemas da qualidade de vida do homem no contexto econômico. Uma distribuição extremamente desigual da riqueza econômica é desafio ético. Leva a questões de justiça na sociedade, que exigem respostas que não transformam a justiça em matemática, mas formulam condições de vida derivadas da dignidade pessoal do homem.
Ética no Brasil Por que se fala tanto em ética hoje no Brasil? Não só no Brasil se fala muito em ética, hoje. Mas temos motivos de sobra para nos preocuparmos com a ética no Brasil. O fato é que em nosso país assistimos a uma degradação moral acelerada, principalmente na política. Ou será que essa baixeza moral sempre existiu? Será que hoje ela está apenas vindo a público? Uma ou outra razão, ou ambas combinadas, são motivos suficientes para uma reação ética dos cidadãos conscientes de sua cidadania. O tipo de desenvolvimento econômico vigente no Brasil tem gerado estruturalmente e sistematicamente situações práticas contrárias aos princípios éticos: gera desigualdades crescentes, gera injustiças, rompe laços de solidariedade, reduz ou extingue direitos, lança populações inteiras a condições de vida cada vez mais indignas. E tudo isso convive com situações escandalosas, como o enriquecimento ilícito de alguns, a impunidade de outros, a prosperidade da hipocrisia política de muitos etc. Afinal, a hipocrisia será de todos se todos não reagirem eticamente para fazer valer plenamente os direitos civis, políticos e sociais proclamados por nossa Constituição:
"Constituem objetivos
fundamentais da República Federativa do Brasil : construir uma sociedade
livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a
pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor,
idade e quaisquer outras formas de discriminação"
Exemplo de ética Visitando um antigo cemitério, impressionou-me a inscrição, na lápide de uma mulher, de um epitáfio colocado por sua família. Dizia: "Ela fez o que pôde". Acho que não existe melhor resumo para uma vida bem vivida, uma vida eticamente vivida. Ela fez o que pôde. Mais não fez, porque mais não podia fazer. Mas, e principalmente isso, não fez menos do que podia fazer. Com o quê, ganhou o respeito, a admiração e afeto de sua família e, certamente, de muitas outras pessoas. Somos éticos quando fazemos, pelos outros, tudo o que podemos fazer, tudo o que está ao nosso alcance fazer. Ética é isso, é a prática do bem até o limite de nossas forças. Quando atingimos esse limite, temos a satisfação do dever cumprido. Que é a primeira condição para chegarmos à felicidade. Por que e a quem a falta de ética prejudica? A falta de ética mais prejudica a quem tem menos poder (menos poder econômico, menos poder cultural, menos poder político). A transgressão aos princípios éticos acontece sempre que há desigualdade e injustiças na forma de exercer o poder. Isso acentua ainda mais a desigualdade e a injustiça. A falta ou a quebra da ética significa a vitória da injustiça, da desigualdade, da indignidade, da discriminação. Os mais prejudicados são os mais pobres, os excluídos. A falta de ética prejudica o doente que compra remédios caros e falsos; prejudica a mulher, o idoso, o negro, o índio, recusados no mercado de trabalho ou nas oportunidades culturais; prejudica o trabalhador que tentar a vida política; prejudica os analfabetos no acesso aos bens econômicos e culturais; prejudica as pessoas com necessidades especiais (físicas ou mentais) a usufruir da vida social; prejudica com a discriminação e a humilhação os que não fazem a opção sexual esperada e induzida pela moral dominante etc. A atitude ética, ao contrário, é includente, tolerante e solidária: não apenas aceita, mas também valoriza e reforça a pluralidade e a diversidade, porque plural e diversa é a condição humana. A falta de ética instaura um estado de guerra e de desagregação, pela exclusão. A falta de ética ameaça a humanidade. Em que e onde, no Brasil, está mais fazendo falta a ética? A falta e a quebra da ética ameaça todos os setores e aspectos da vida e da cultura de um país. Mas não há como negar que, na vida política, a falta ou quebra da ética tem o efeito mais destruidor. Isto se dá porque o político deve ser um exemplo para a sociedade. A política é o ponto de equilíbrio de uma nação. Quando a política não realiza sua função, de ser a instância que faz valer a vontade e o interesse coletivo, rompe-se a confiabilidade e o tecido político e social do país. O mesmo acontece quando a classe política apóia-se no poder público para fazer valer seus interesses privados. A multiplicação de escândalos políticos no Brasil só não é mais grave que uma de suas próprias conseqüências: a de converter-se em coisa banal, coisa natural e corriqueira, diante da qual os cidadãos sejam levados a concluir: "sempre foi assim, nada pode fazer isso mudar", ou coisa ainda pior: "ele rouba, mas faz". Do outro lado, uma vida política saudável, transparente, representativa, responsável, verdadeiramente democrática, ou seja, ética, tem o poder de alavancar a autoconfiança de um povo e reerguer um país alquebrado e ameaçado pela desagregação. "A ética é um comportamento social, ninguém é ético num vácuo, ou teoricamente ético. Quem vive numa economia a-ética, sob um governo antiético e numa sociedade imoral acaba só podendo exercer a sua ética em casa, onde ela fica parecendo uma espécie de esquisitice. A grande questão destes tempos degradados é em que medida uma ética pessoal onde não existe ética social é um refúgio, uma resistência ou uma hipocrisia. Já que ninguém mais pode ter a pretensão de ser um exemplo moral sequer para o seu cachorro, quando tudo à sua volta é um exemplo do contrário." Luis Fernando Veríssimo
"Fetichismo da Mercadoria" O valor econômico analisado por Marx, acabou originando as características essenciais do valor em geral. Assim podemos concluir que o termo valor, usado em todos os setores da humanidade, é derivado da economia. Mesmo que este valor, o econômico, possua um conteúdo distinto dos demais valores. Um objeto de valor como a mercadoria por exemplo, possui valor de uso pois este objeto útil é definitivamente utilizado, satisfaz uma necessidade humana, independente do fato de ser natural ou fruto do trabalho humano. Porém quando este mesmo objeto pode ser trocado, ou seja, se torna uma mercadoria, adquire um duplo valor, o de uso e o de troca. Sendo que o valor de troca depende do valor de uso, visto que somente um objeto útil tem valor de troca. O valor de uso e o valor de troca não são propriedades do objeto em si, são propriedades do objeto somente com relação ao homem, sem o qual tal objeto jamais existiria, mas verifica-se que quando o produto do trabalho humano se transforma em um fetiche, em alguma coisa alheia ao homem, o valor de troca aparece sem relação com o homem e sim como uma propriedade do próprio objeto. Esta transformação do objeto em mercadoria, onde o valor de troca apresenta-se sem relação com o homem foi caracterizado por Marx como "fetichismo da mercadoria". Isto acontece porque vivemos em uma sociedade que produz para o mercado e se comparam os produtos conforme suas propriedades úteis materializando assim esta relação social.
ESPINOSA, Baruch.
Ética. São Paulo, Abril, 1973.
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