A DEMANDA INTERNACIONAL
Essa questão foi continuamente posta em xeque pela evidência empírica e a teoria econômica ampliada para incluir vários aspectos concernentes à demanda internacional. Guillochon (1970) destacou alguns estudos que priorizaram a relação existente entre técnica produtiva e perfis de demanda como fator explicativo das trocas internacionais. Um dos primeiros estudos significativos foi elaborado por John, H.G. (1966). O avanço técnico incidente no comércio poderia não caracterizar a intensidade das trocas: se a introdução do progresso técnico ocorrer na produção, cujo consumo nacional cresce mais do que o mundial, os efeitos da mudança técnica sobre o comércio são neutros; se a participação das exportações na renda aumentar, a mudança técnica será favorável ao comércio. Inversamente, se com a mudança técnica a participação das exportações na renda diminuir, ela será desfavorável ao comércio. Bhagwati (1958), anteriormente, já havia apontado essa qualificação entre progresso técnico e comércio exterior. Face à restrição adicional de deterioração nos termos de troca, o progresso técnico pode, em verdade, exercer uma pressão nas importações desfavorável ao país, quando a renda nacional aumenta. Apesar da relevância dessas considerações, os autores entenderam o progresso técnico como poupador de fatores. Não é possível, com este instrumental analítico, captar uma das principais implicações do nexo existente entre comércio exterior e progresso técnico, que é justamente a inexorável tendência à globalização das economias nacionais, que reunifica países, honogeneizando padrões de consumo em escala mundial. Essa tendência ganhou contornos cada vez mais definidos em função do avanço técnico originado pela Segunda Guerra Mundial. Potencialmente os países poderiam produzir excedentes consideráveis e a idéia de livre comércio entre eles foi ganhando contornos definidos para adequar o mercado externo à crescente produção dos países beligerantes4. A existência de excedente produtivo, contudo, é necessária para o comércio internacional, mas não é uma condição suficiente. Como alertou Linder, S.(1961), em artigo consagrado pela literatura especializada, a colocação de produtos nos mercados externos depende também das preferências, gostos, disponibilidade financeira dos parceiros comerciais e do efeito demonstração que certos produtos/países possuem. Neste sentido, a competição através da diferenciação de produtos - homogeneizando o consumo - representa forças competitivas para as empresas que os fabricam em mercados de concorrência imperfeita - homogeneizando a produção. Helpman & Krugman (1988) consideraram a possibilidade de estar presente no mercado internacional atividades produtivas com rendimentos de escala crescente, moldando mercados que seriam caracteristicamente de concorrência imperfeita. Guardadas as devidas proporções, se o progresso técnico é o principal causador dos rendimentos diferenciados então a ele deve ser atribuído a resultante: mercados internacionais pautados em concorrência imperfeita. Quando os rendimentos de escala aumentam com o comércio exterior, os respectivos pagamentos aos fatores de produção se modificam e, porque os perfis de demanda se alteraram, podem pôr em marcha mudanças técnicas. Como os autores reconhecem, a conceituação baseada nos diferenciais de custos sob concorrência perfeita tem implicações que correspondem a um diagnóstico inadequado do papel que deva ser desempenhado pelo comércio exterior. Este enfoque pode ter relevância para um mercado internacional competitivo com bens relativamente homogêneos e de elevada elasticidade preço de demanda, cujo custo é o principal fator de competitividade. Não é o enfoque adequado, no entanto, para parcela cada vez mais significativa do mercado internacional, que corresponde a condições de concorrência imperfeita e a uma especialização intersetorial apoiada na diferenciação de produtos. A ênfase no aspecto produtivo privilegiou, a partir dos anos 70, modelos organizacionais diferentes dos preconizados no início do século por Taylor e Fayol. A tônica passou a ser o aumento dos valores adicionados ocasionado por ganhos de produtividade através de novos processos de trabalho e flexibilidade manufatureira com redução de custos. A competitividade das empresas dependia essencialmente de sua capacidade temporal de resposta produtiva aos estímulos da demanda. Como evidenciou Cohen & Zysman (1988), as estruturas de mercado estariam seguindo um caminho diferente dos esquemas convencionais de vender o já pronto (excedente) e tomando o rumo do produzir o já comprado (demanda). De fato, o perfil de demanda é um fenômeno de curto prazo determinado pela distribuição dos pagamentos aos fatores de produção. De outra parte, entretanto, o progresso técnico requer avaliações dos investimentos que evocam a noção de longo prazo e capital fixo. Uma vez iniciado o comércio, a maneira de lidar simultaneamente com fluxo (renda) e estoque (capital), dentro da estrutura teórica das vantagens comparativas, afigurou-se um desafio muito grande para a teoria econômica. Essa questão só foi retomada no começo dos anos 60, com a noção das vantagens comparativas dinâmicas. Até então a teoria econômica limitou-se a considerar as vantagens comparativas como um conceito ex-post de resultado, esquivando-se do problema de fluxo e estoque através da diferença existente entre os países nas dotações relativas dos fatores de produção (estoques). Taussig (1927), não obstante, foi um dos primeiros estudiosos a destacar a vinculação entre distribuição de renda e estoque de capital na teoria das vantagens comparativas através de características eminentemente estáticas. Como a produtividade do trabalho registra diferentes níveis entre países e entre setores produtivos, variações absolutas no salário real implicam variações relativas nos preços das mercadorias, alterando o padrão das vantagens comparativas. Quando as faixas salariais num país são demasiado díspares em relação às de outros países, os salários baixos correspondentes a uma função específica agem como substituto de uma vantagem comparativa "real"5.A relação predominante para explicar os fluxos comerciais na concepção das vantagens comparativas é a disparidade dos salários pagos entre setores produtivos domésticos em relação a disparidades verificadas em outros países. Constitui, pois, no mínimo, uma grande falácia atribuir à competitividade externa as diferenças absolutas nos níveis salariais entre os países.
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