AUGUSTO COMTE
A Sociologia, desde o seu início, tem se preocupado com tudo o que acontece no interior da sociedade, principalmente com os conflitos entre as Classes Sociais. O seu surgimento aconteceu a partir da necessidade de se realizar uma reflexão sobre as transformações, crises e antagonismos de classes, experimentados pela então nascente sociedade industrial. Isso vem possibilitar uma nova forma de pensar, que se caracterizou como Positivismo, cuja preocupação básica consistiu na organização e reestruturação da sociedade, buscando a preservação e manutenção da nova ordem capitalista. Augusto Comte, criou o que chamou de "religião da humanidade", culto não-teísta, no qual Deus seria substituído por uma humanidade racional e evoluída que atingiria esse estágio "mais elevado" conduzida por "homens mais esclarecidos". Para Comte, a melhor forma de governo era a ditadura republicana - um "governo de salvação nacional exercido no interesse do povo".
Comte, apesar de pouca idade, sempre fazia progressos nos estudos, o que causava admiração entre seus professores. A memória era tão prodigiosa que bastava ler uma única vez uma página para repeti-la de cor, até mesmo começando do final para o princípio. E assim seguiu sua formação escolar, sendo que ao findar cada ano, recebia sistematicamente prêmios pelos seus notáveis valores intelectuais: ora de matemática, ora de retórica, quer de latim, quer de humanidades. Em Outubro de 1814, Augusto Comte com a idade de 16 (dezesseis) anos, ingressou na Escola Politécnica de Paris, escola esta que havia sido fundada em 1794 como fruto da Revolução Francesa e do desenvolvimento da ciência e da técnica resultante da Revolução Industrial. O cálculo infinitesimal, o corte de pedras, a física, a química, a literatura francesa, o desenho, entre outros, empolgavam o estudioso e inteligente aluno. Poinsot, o ilustre geômetra era o professor que mais o entusiasmava. O fator mais marcante para sua ideologia foi o estudo do Esboço: o de um Quadro Histórico dos Progressos do Espírito Humano, de Condorcet (1743 - 1794), ao qual se referiria, mais tarde, como "meu imediato predecessor". A obra de Condorcet traça um quadro do desenvolvimento da humanidade, no qual os descobrimentos e invenções da ciência e da tecnologia desempenham papel preponderante, fazendo o homem caminhar para uma era em que a organização social e política seriam produto das luzes da razão: Essa idéia tornar-se-ia um dos pontos fundamentais da filosofia de Comte. Após um protesto assinado por todos os alunos na escola Politécnica devido a um manifesto inconveniente de um professor, Comte é excluído do grupo por ser o único a discordar. Tal incidente originou seu licenciamento da escola, e Comte perdeu as esperanças de realizar sua tão sonhada formatura naquela escola. Permaneceu apenas 02 (dois) anos nesta instituição, mas foi o suficiente para que ele indicasse a Politécnica como modelo de educação superior. Augusto Comte volta para casa em Montpellier, onde passa 04 (quatro) meses freqüentando assiduamente a Escola de Medicina, mas resolve tocar sua vida em Paris, retornando e decidindo desenvolver seus conhecimentos e habilidades por lá.
Augusto Comte, filho de um fiscal de impostos, nasceu em Montpellier (França) em 19 de Janeiro de 1798 e morreu inesperadamente em 05 de Setembro de 1857, em Paris. Apesar de ter todos os cuidados de seus anjos: Sofia Bliaux, (empregada que Comte adotara como filha devido a suas grandes qualidades morais) e Rosália Boyer (sua piedosa mãe), os últimos anos de sua vida transcorreram-lhe grande solidão e desencanto, pois sobretudo, foi abandonado por Littré (seu mais famoso discípulo) que não concordava com sua idéia de uma nova religião. Augusto Comte deixa sua última Obra ("Síntese Subjetiva" ou "Sistema Universal das Concepções Próprias ao Estado Normal da Humanidade") em execução, mas seu testamento traz normas a serem seguidas por seus sucessores, orientando-lhes a continuidade da Obra. Seu enterro ocorre em 08 de Setembro de 1857, de forma simples, tocante e respeitosa, com pequeno cortejo, vizinhos, alguns convidados e discípulos que se encontravam em Paris.
As obras de Comte guardam estreitas relações com os acontecimentos de sua vida. Em 1817, ele conhece Saint-Simon: O Organizador, o Sistema Industrial, e concebe, a partir daí, a criação de uma ciência social e de uma política científica. Ambos eram de temperamentos muito diversos e não conseguiram trabalhar juntos por muito tempo. A separação entre os dois ocorre em 1824, mesmo ano em que Comte casa-se com Caroline Massin. Não tendo mais relações profissionais com Saint-Simon, passa a ganhar a vida dando aulas particulares de matemática. Dois anos depois, exatamente em Abril de 1826, Comte abre em sua casa, na Rua do Faubourg Montmartre, um Curso do qual resultou uma de suas principais obras, o "Curso de Filosofia Positiva" - rapidamente interrompido por uma depressão nervosa e melancólica - que lhe vale ser internado durante algum tempo no serviço de Esquirol. Retoma o ensino em 1829. A publicação do Curso inicia-se em 1830 e se distribui em 6 volumes até 1842. Em 1838, as relações com a esposa Caroline Massin pioram sensivelmente até a completa separação em 1842. Em 1844, Comte publicou o "Discurso sobre o Espírito Positivo", ao mesmo tempo em que perde o posto de examinador de admissão devido a exclusão definitiva da Escola Politécnica. Com a perda de seu meio de sobrevivência, Augusto Comte passa a ser sustentado por amigos e admiradores como o filósofo John Stuart Mill e o dicionarista Littré, seu entusiasmado discípulo. Neste mesmo ano, Comte conhece a mulher que iria transformar sua vida e dar nova orientação ao seu pensamento: Clotilde de Vaux. Mas Clotilde era casada e o relacionamento entre eles não passou apenas de uma íntima amizade. Comte apaixonou-se perdidamente por ela, que lhe permitia expressar todos seus sentimentos e necessidades emocionais. A afeição tornou-se ainda maior, 01 ano depois – 1845, com a morte de Clotilde. A parir de então, Comte transformou-a num gênio inspirador de uma nova religião, cujas idéias se encontram numa extensa obra em 04 volumes publicados entre 1851 e 1854: "Política Positiva" ou "Tratado de Sociologia Instituindo a Religião da Humanidade". Em 1852, Augusto Comte publica também outra Obra: "Catecismo Positivista" ou "Exposição Sumária da Religião Universal", trabalho este, onde se prepara fazendo uma "higiene cerebral", por ele entendida como abstenção de quaisquer leituras e aprofundamento na meditação solidária. Pretendia, assim, afastar-se de todos os elementos perturbadores e assegurar unidade ao projeto de constituição das doutrinas da nova religião: Nesse mesmo período, dedicou-se ao estudo da música, à poesia italiana e espanhola e à leitura da Imitação de Cristo, obra que considerava um grande poema sobre a natureza humana. A palavra "Deus" do texto da Imitação de Cristo deveria, segundo Comte, ser entendida como significado da humanidade em geral. Depois de 80 (oitenta) horas de meditação, Augusto Comte formula a célebre "Lei dos três Estados": "O espírito humano está sujeito na sua marcha espontânea a passar por três estados".
IDÉIAS PRINCIPAIS E SECUNDÁRIAS LEI DOS TRÊS ESTADOS O núcleo da filosofia de Comte é a idéia de que a sociedade só pode ser convenientemente reorganizada através de uma completa reforma intelectual do homem: Comte achava que antes de pregar a ação imediata, seria necessário fornecer aos homens novos hábitos de pensar de acordo com o estado da ciência de seu tempo. Por essa razão, o sistema Comteano estruturou-se em torno de 03 (três) temas básicos. Em primeiro lugar, uma filosofia da história com o objetivo de mostrar as razões pelas quais uma certa maneira de pensar (chamada por ele filosofia positiva ou pensamento positivo) deve imperar entre os homens. Em segundo lugar, uma fundamentação e classificação das ciências baseadas na filosofia positiva. Finalmente, uma sociologia que, determinando a estrutura e os processos de modificação da sociedade permitisse a reforma prática das instituições. À esse deve-se acrescentar a forma religiosa assumida pelo plano de renovação social, proposto por Comte nos seus últimos anos de vida. A filosofia da história – primeiro tema da filosofia de Comte – pode ser sintetizada na sua célebre Lei dos Três Estados: todas as ciências e o espírito humano, como um todo, desenvolvem-se através de 03 (três) fases distintas: a teológica, a metafísica e a positiva.
O positivismo representa uma reação contra o formalismo, o idealismo, exigindo maior respeito para a experiência e os dados positivos. A diferença ideal entre idealismo e positivismo é a seguinte: o primeiro procura uma interpretação, uma unificação da experiência mediante a razão; o segundo, ao contrário, quer limitar-se à experiência imediata, pura, sensível, como já fizera o empirismo. O positivismo teve impulso, graças ao desenvolvimento dos problemas econômico-sociais, que dominaram o século XIX. Sendo grande valorizada a atividade econômica produtora de bens materiais, é natural que se procure uma base filosófica positiva, naturalista, materialista, para as ideologias econômico-sociais. Ele admite, como fonte única de conhecimento e critério de verdade, a experiência, os fatos positivos, os dados sensíveis. Nenhuma metafísica portanto, como interpretação, justificação transcendente ou imanente da experiência. A filosofia é reduzida à metodologia e à sistematização das ciências. A lei única e suprema que domina o mundo concebido positivamente, é a evolução necessária de uma indefectível energia naturalista, como resultado das ciências naturais. Através de um conflito mecânico de seres e de forças, mediante a luta pela existência, determina-se uma seleção natural, uma iluminação do organismo mais imperfeito, sobrevivendo o mais perfeito. Daí acreditar o positivismo firmemente no progresso – como nele já acreditava o idealismo. No âmbito do positivismo, a única realidade existente, é a realidade física, o que se pode atingir cientificamente.
A Classificação das Ciências – segundo tema básico da filosofia Comteana – vincula-se à filosofia da história. As ciências no decurso da história, não se tornaram "positivas" na mesma data, mas numa certa ordem de sucessão que corresponde a célebre classificação matemática, astronomia, física, química, biologia, sociologia. Estas ciências classificam-se de acordo com a maior ou menor simplicidade de seus objetos respectivos. As matemáticas possuem o maior grau de generalidade e estudam a realidade mais simples e indeterminada. A astronomia acrescenta a força ao puramente quantitativo, estudando as massas dotadas de forças de atração. A física soma a qualidade ao quantitativo e às forças, ocupando-se do calor, da luz, etc, que seriam forças qualitativamente diferentes. A química trata de matérias qualitativamente distintas. A biologia ocupa-se dos fenômenos vitais, nos quais a matéria bruta é enriquecida pela organização. Finalmente, a sociologia estuda a sociedade, onde os seres vivos se unem por laços independentes de seus organismos. A sociologia é vista por Comte como "o fim essencial de toda a filosofia positiva". Matemática, astronomia, física, química e biologia, atingem o estado positivo antes da sociologia, mas permanecendo ligadas a parcelas do real, não conseguem instaurar a filosofia positiva em sua plenitude. A totalização do saber somente poderia ser alcançada através da sociologia, na qual culminaria a formulação de "um sistema verdadeiramente indivisível", onde toda decomposição é radicalmente artificial (...), tudo se relacionando com a humanidade, única concepção completamente universal. A sociologia é entendida por Comte no mais amplo sentido da palavra, incluindo uma parte essencial da psicologia, toda a economia política, a ética e a filosofia da história. Comte opõe-se ao isolamento da política e da ética em relação à teoria geral da sociedade. Ele ressaltou ainda que os objetos das ciências sociais não devem ser tratados independentemente do curso de desenvolvimento revelado pela história. O objeto próprio da sociologia é a humanidade e é necessário compreender que a humanidade não se reduz a uma espécie biológica; há na humanidade uma dimensão suplementar – a história – o que faz a originalidade da civilização (da "cultura" diriam os sociólogos do século XIX). O homem, diz-nos Comte, é "um animal que tem uma história", porque é ao mesmo tempo um inventor e um herdeiro. A herança do passado só torna possíveis os progressos do futuro e a "humanidade compõe-se mais de mortos que de vivos". Aspecto fundamental da sociologia Comteana, é a distinção entre a estática e a dinâmica social. A primeira, estudaria as condições constantes da sociedade; a segunda, investigaria as leis de seu progressivo desenvolvimento. A idéia fundamental da estática é a ordem; a da dinâmica, o progresso. Para Comte, a dinâmica social subordina-se à estática, pois o progresso vem da ordem e aperfeiçoa elementos permanentes de qualquer sociedade: religião, família, propriedade, linguagem, acorda entre poder espiritual e temporal, etc.
A reforma das instituições – terceiro tema básico da filosofia de Comte – tem seus fundamentos teóricos na sociologia que ele concebeu. A sociologia conduziria à política, cumprindo-se, assim, o desígnio que Comte sempre se propôs de fazer da filosofia positivista um instrumento para a reforma intelectual do homem e, através desta, a reorganização de toda a sociedade. Os anseios de uma reforma intelectual e social de Comte, contudo, não se limitaram a uma política e se desenvolveram no sentido da formulação de uma religião da humanidade. Isso aconteceu nos últimos 15 anos de sua vida, quando estabeleceu os princípios fundamentais dessa nova religião. Formulou um novo calendário, cujos meses receberam nomes de grandes figuras da história do pensamento, como Descartes. Redigiu ainda um novo catecismo, cuja idéia central reside na substituição do Deus cristão pela Humanidade. A doutrina positivista de Comte é um sistema de vida moralizador, um regime conveniente para todas as raças, todos os povos, todas as classes sociais, de convivência sem conflitos, sempre oriundos dos excessos egoístas, e que desaparecem quando se subordina o egoísmo do altruísmo. Seu lema fundamental é "O amor por princípio e a Ordem por Base; o Progresso por Fim". Suas regras básicas são "Viver para outrem" e "Viver as claras" Ser positivista é amar e servir à família, à pátria, à humanidade.
O positivismo de Augusto Comte exerceu larga influência nos mais variados círculos. As primeiras manifestações do positivismo no Brasil datam de 1850, quando Manuel Joaquim Pereira de Sá apresentou tese de doutoramento em ciências físicas e naturais, na Escola Militar do Rio de Janeiro. A esse trabalho viriam juntar-se à tese de Joaquim Pedro Manso Sayão sobre corpos flutuantes e a de Manuel Pinto Peixoto, sobre os princípios do cálculo diferencial. Em todos encontram-se inspirações da filosofia Comteana. Passo mais importante, contudo, foi dado por Luís Pereira Barreto, com a Obra "As três Filosofias", na qual a filosofia positivista era apontada como capaz de substituir vantajosamente a tutela intelectual exercida no país pela Igreja Católica. Em 1876 fundou-se a primeira sociedade positivista do Brasil, tendo a frente Teixeira Mendes, Miguel Lemos e Benjamin Constant. Depois de uma viagem à Paris, Miguel Lemos fundou a Sociedade Positivista do Rio de Janeiro, que constitui a origem do apostolado Positivista do Brasil e da Igreja Positivista do Brasil, cuja finalidade era "formar crentes e modificar a opinião por meio de intervenções oportunas nos negócios públicos". Entre essas intervenções, sem dúvida, foi importante a participação dos positivistas no movimento republicano, embora seja um exagero dizer-se que foram eles que proclamaram a República, em 1889. Incluíram, é verdade, na Constituição de 1891 e a bandeira brasileira passou a ostentar o lema Comteano: "ORDEM E PROGRESSO".
Na atualidade ainda são encontradas características do positivismo de Comte, como o mito da cientificidade (o único conhecimento perfeito é o científico), o mito do especialista (cabe aos especialistas o papel de comando sobre a prática dos homens), o mito da tecnocracia (justificação do poder da técnica e dos tecnocratas) e o mito do progresso, (através das ciências e das técnicas, o progresso será sempre crescente na sociedade). Outro aspecto que convém salientar na Sociologia de Comte é a idéia do "Grande-Ser", ou seja, da Humanidade no seu apogeu e totalidade, em que a Religião passa a ser a religião positiva da Humanidade, aceite e unificadora de todos e com o princípio da finalidade comum, que levaria a que fosse atingido o designado por mim estado "utópico adquirido". Fazendo uma reflexão geral sobre a obra, Comte procura a unidade e junção do saber, a legalidade e harmonia do mundo, devendo-se para tal abdicar da metafísica e de tudo o que não seja positivo, aproximando-se o seu método ao de Descartes. Sendo assim, o Positivismo deve ser encarado não só como uma filosofia, uma sociologia ou uma epistemologia, mas como um sistema de saber, unificado e ramificado, coerente e generalizado, o qual aplicado à realidade social contribuirá para o enriquecimento social com vista ao progresso. 10. BIBLIOGRAFIA Comte, Augusto – "Opúsculos de Filosofia Social 1" – 1972 Lakatos, Eva Maria – "Sociologia Geral" 5ª edição - 1986 Sites consultados: www.augustocomte.com.br www.mundociencia.com.br www.culturabrasil.pro.br www.zemoleza.com.br www.filosofos.com.br www.permanencia.org.br http:// educaterra.com.br
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