Mineiros hp
 
 Home  FAAP  Smoke Kills  Fotos  e-m@i
                 !!!  FAAP vs. FGV  Trabalhos de ADM  Mude                  !!!

 

A Corrosão do Caráter

 


1
- O novo capitalismo é marcado pelo mercado global. Outra característica é o uso maciço de novas tecnologias que tornam a vida mais dinâmica obrigando as pessoas a se preparar para freqüentes mudanças, incluindo trocas de emprego. A nova forma do capitalismo também se caracteriza pela quebra de tabus antigos - podemos citar o maior número de mulheres que passam a trabalhar, algumas até mesmo com a responsabilidade de sustento do lar.

Porém, o capitalismo atual trouxe efeitos indesejados, como o medo de perder o controle de própria vida, pois o mercado cada vez mais é motivado pelo consumidor, e, para não ficar para trás as empresas, os autônomos, se tornam em maior grau subservientes aos horários das pessoas (clientes). O medo da perda de controle refere-se ao controle de tempo. Como outras conseqüências do novo capitalismo podemos citar a vida emocional que passa a estar em 2º plano, o afastamento dos amigos e declínio das carreiras tradicionais.

O mundo se tornou mais dinâmico e as mudanças de emprego, ou mesmo de carreira durante a vida se tornam cada vez mais comuns. O mercado se torna mutável como antes nunca visto, passando cada vez mais a se pensar no "curto prazo", refletindo isto na carreira, no emprego... As empresas se caracterizam pela "força dos laços fracos", o emprego passa a ser de curto prazo, há uma falta de perspectiva de compromisso duradouro com a empresa gerando assim uma certa falta de lealdade institucional. Os empregados tendem a ficar "negociáveis" assim que descobrem que não podem contar com a empresa.

Enfim, o mundo anterior ao "novo capitalismo" era mais burocrático, previsível. O atual tem a marca da flexibilidade e do dinamismo, mas também do curto prazo.

2 - Para Diderot, a rotina no trabalho não era degradante, ao contrário, era igual a qualquer outra forma de aprendizado. Diderot ia além afirmando que a rotina estava em constante evolução, pois repetindo a operação se descobre como acelerar ou modelar a atividade, desenvolver novas práticas, etc.

Já Smith via a rotina de forma negativa, algo degradante, fonte de ignorância mental por não fazer ou falta de conhecimento de como fazer a mudança. A rotina, portanto se tornava autodestrutiva porque os trabalhadores perdiam o controle sobre seus próprios esforços.

No capitalismo atual a rotina passa a dar lugar cada vez mais ao dinamismo, porém dentro desse dinamismo existe a rotina: A rotina da falta de segurança no emprego, do futuro incerto, da costumeira reavaliação da carreira, e essa "rotina dinâmica" é tão ou mais destrutiva quanto à rotina sob o ponto de vista de Smith.

3 - A criação de instituições mais flexíveis é uma forma da sociedade amenizar o lado negativo da rotina. Existem três elementos das modernas formas de flexibilidade: Reinvenção descontínua das instituições, a Especialização flexível de produção e a concentração de poder sem centralização.

A especialização flexível da produção nada mais é que um sistema de inovação permanente. A finalidade é por cada vez mais rápido no mercado produtos mais variados. Seria uma forma de adaptação à mudança permanente e não uma forma de controlar essa mudança. Os requisitos necessários que a organização deve ter para implementar essa técnica são as rápidas tomadas de decisão, alta tecnologia, rapidez nas comunicações e fundamentalmente ter disposição de deixar que as demandas de mercado externo determinem a estrutura da empresa, que obviamente poderá ser mutante ao sabor do mercado.

A concentração de poder sem centralização é uma técnica moderna de dar liberdade, mas ao mesmo tempo manter o controle é muito utilizada para grupos de trabalhos, empresas com filiais ou agências, etc. Na maioria dos casos é imposta uma meta a ser atingida e é dada liberdade para o grupo atingir essa meta da forma que achar mais conveniente. Geralmente essas metas estão além do que normalmente seria alcançável e o controle se dá através de planilhas ou mapas de acompanhamento. Essa é uma forma de dar mais controle às pessoas sobre as suas atividades e ao mesmo tempo é uma técnica empregada para desmontar os colossos burocráticos. Porém o controle é dado aos administradores da empresa através de sistemas de informação oferecendo total controle sobre os atos "independentes" do grupo. Na verdade é uma nova forma de poder aparentemente libertador, mas na realidade desigual, pois aumenta os poderes da alta administração.

4 - O trabalho se torna ilegível no capitalismo flexível porque há perda da identidade do trabalhador, não do trabalhador, a pessoa em si, mas da classe trabalhadora de modo geral. Não há emoção na forma de "fazer", o trabalho passa a ser frio, existe alienação e indiferença no que se refere ao produto do trabalho, o trabalhador não tem mais o domínio do processo, não sabe mais o ofício original o que acarreta em identificação fraca com o trabalho. Outro aspecto observado quando o trabalho se torna ilegível é a falta de solidariedade dentro do grupo, o trabalho passa a ser individualizado, há menor troca de emoções entre os trabalhadores.

5 – No capitalismo flexível observamos a necessidade de mudar de posição, de busca de novas alternativas, mesmo que com incertezas, onde as instituições induzem os indivíduos a mudanças de vida. A instabilidade das organizações flexíveis impõe esta necessidade de mudança de vida aos trabalhadores. Como forma de caminhada às incertezas observamos as mudanças laterais ambíguas, onde as pessoas se movem lateralmente, acreditando estar subindo; perda retrospectiva, onde as pessoas se arriscam sobre as mudanças que podem vir a implicar em novas posições, onde os retrospectos poderão dizer sobre decisões negativas que foram tomadas, são tomadas de decisão inúteis oriundas de dados da própria organização; ou ainda os resultados salariais imprevisíveis, onde calculam quanto podem vir a ganhar com mudanças de posição dentro das organizações ou até mesmo na mudança de empresas.

6 – A nova ética do trabalho se estabelece no trabalho em equipe onde se destaca a solidariedade no grupo, a sensibilidade aos outros com capacidade de ouvir e de se adaptar as diversas circunstâncias exigidas no ambiente interno e externo, sendo necessário maior cooperativismo. Evita-se as questões difíceis, pessoais e partilhadas, onde os grupos tendem a manter-se juntos na superfície das coisa.

"O trabalho em equipe deixa o reino da tragédia para encenar as relações humanas como uma farsa".

7 - O fracasso não é mais a perspectiva normal, apenas dos pobres ou desprivilegiados, tornou-se mais conhecido como um fato regular na vida da classe média.

O que deve orientar as pessoas é o exercício de uma carreira, com isso criava-se o antídoto do fracasso. Hoje o desejo de status e carreira não é novo, vem do século XIX, a narrativa de vida de uma carreira é uma história de desenvolvimento interior, que se desenrola por habilidade e luta, o desenvolvimento do caráter só é possível pelo esforço organizado em longo prazo.

Hoje a burocracia de Lippman e Weber poderiam ser diferentes, com o tempo de curto prazo, tempo flexível, com o novo capitalismo.

Sennett descreve que alguns profissionais da IBM acreditavam que suas carreiras seriam em longo prazo, depois de demitidos descobriram no próprio fracasso uma certa revelação da carreira de suas vidas.

A IBM era administrada por Thomas Watson Sr., onde parecia mais com um feudo pessoal, a empresa era dirigida como um exército, com emprego vitalício para a maioria dos empregados e uma espécie de contrato social entre administração e mão-de-obra, em 1956 Thomas Watson Jr, assumiu o lugar do pai, ele sabia delegar mais e ouvir melhor, proporcionando maiores benefícios aos empregados, após 1980 houve grandes perdas para o mercado da IBM, Thomas Watson Jr. se aposentou, entrando outros presidentes em seu lugar. Em 1993, a IBM procurou substituir as rígidas estruturas hierárquicas por formas mais flexíveis de organização, e com uma produção flexível orientada para pôr mais produtos no mercado com maior rapidez. A estabilidade dos 400 mil trabalhadores mudou, onde muitos foram embora.

Depois de algum tempo os trabalhadores que foram demitidos sentavam-se em um café em Nova York para discutir o fracasso. Quando Sennett se junta a eles, no começo todos se achavam vítimas passivas da empresa, mas depois mudaram o foco para seu próprio comportamento, esses trabalhadores acreditavam que tinham sido traídos pela IBM, um funcionário disse a um jornalista em 1990 que havia muito mais nervosismo sem a segurança, a lealdade à empresa havia morrido.

A IBM passou a contratar mão-de-obra indiana, onde pagava muito menos do que aos americanos. Esses homens que se juntavam num bar reconheceram a qualidade de trabalho que vinha da Índia, esses trabalhadores passaram a pensar no que deveriam ter feito antes de suas carreiras chegarem ao ponto que chegara, só que o tema das discussões era mais o fracasso que o controle. Eles julgavam que estiveram errados em não se qualificar em computadores pessoais, pois foi o que alguns arriscaram acreditando na internet, acreditavam que deveriam ter corridos os riscos.

Sennett percebeu que seus vizinhos abandonaram a busca dos cargos de vereadores e membros de conselhos escolares para ter o compromisso comunitário na participação de suas igrejas locais, eles haviam se voltado para dentro.

Os programadores queriam enfrentar seus fracassos, entendê-lo em termos de seus próprios caracteres, eles precisam enfrentar a realidade do fracasso e de seus próprios limites. Para eles o que importa não é o que aconteceu, mas o que eles deveriam ter feito a alguns anos, que deveriam ter tomado suas vidas em suas mãos, isso se torna responsabilidade deles, só quando aceitarem isso é que podem começar a enfrentar o fato de que fracassaram nas suas carreiras.

Após algum tempo a interpretação quanto a IBM tornou-se de forma mais realista.

Hoje há necessidade de um eu maleável, uma colagem de fragmentos em incessante vir a ser, sempre aberto a novas experiências, são essas as condições adequadas ao trabalho de curto prazo, a instituições flexíveis e ao constante correr riscos.

Por fim os programadores falavam com um ar mais de resignada finalidade que de raiva sobre o fato de estarem passados, de terem destruído suas chances, se sentiram desobrigados de continuar lutando. Quem provou profundamente um fracasso reconhecerá o impulso: diante da destruição da esperança e do desejo, a preservação de nossa voz ativa é a única maneira de torná-lo suportável, assim a narrativa deles tentou uma espécie de autocura. O trabalho curativo do criar uma narrativa não limita seu interesse a fazer os fatos saírem da maneira certa, em vez disso, uma boa narrativa reconhece e sonda a realidade de todas as formas erradas que a vida pode produzir e produz, a moral da narrativa está na forma, não no conselho.

Esses homens enfrentaram o fracasso no passado, elucidaram os valores de suas carreiras, mas não encontraram meio de ir em frente. No presente flexível e fragmentado, talvez pareça possível criar narrativas apenas sobre o que foi, e não mais narrativas previsivas a sobre o que será.

O regime flexível talvez pareça gerar uma estrutura de caráter constantemente em recuperação. Exige-se um senso maior de comunidade, e um senso mais pleno de caráter, do crescente número de pessoas que, no capitalismo moderno, estão condenados a fracassar.

8 - As propostas práticas mais convincentes que existe para enfrentar os problemas do novo capitalismo concentram-se nos lugares onde ele opera, por receio de provocar a IBM e ir-se embora de vez, muitas localidades no Vale do Hudson recusaram de contestar a decisão da empresa em devastar a vida de trabalho de cidadãos como os programadores. O lugar tem poder, e a nova economia pode ser restringida por ele.

Apenas a contenção é a questão errada. Deve-se perguntar o valor da empresa para a comunidade, como ela serve mais a interesses cívicos que apenas o livro-caixa de lucros e perdas, o objetivo de tornar as empresas melhores cidadãos, embora digno, também tem seus limites.

Um país pode constituir uma comunidade quando nele as pessoas traduzem crenças e valores partilhados em práticas diárias concretas. Uma das conseqüências não pretendidas do capitalismo moderno, é que fortaleceu o valor do lugar, despertou o anseio da comunidade. O desejo de comunidade é defensivo, muitas vezes manifestado como rejeição a imigrantes e outros marginais, é quase uma lei universal que o "nós" pode ser usado como defesa contra a confusão e a deslocação. Esse "nós" fictício retornou à vida, como defesa contra uma vigorosa nova forma de capitalismo.

Hoje a dependência é uma condição vergonhosa: o ataque à rígida hierarquia burocrática quer libertar estruturalmente as pessoas da dependência; o assumir riscos destina-se mais a estimular a auto-afirmação que a submissão ao que existe, várias economias políticas trata os dependentes do estado com desconfiança de que são parasitas sociais, mais do que desvalidos de fato. A ideologia do parasitismo social é um instrumento no local de trabalho; o trabalhador precisa mostrar que não está se aproveitando do trabalho dos outros.

O contraste entre sucesso e fracasso, achata a realidade. Em muitas sociedades havia pouca vergonha de depender de outras pessoas, onde o fraco precisa do forte, na sociedade indiana e japonesa isso não era humilhação. No mercado moderno de mão-de-obra a maioria trabalha para os outros.

A vergonha da dependência tem uma conseqüência prática, corrói a confiança e o compromisso de qualquer empreendimento coletivo. Os laços de confiança são testados quando as coisas dão errado e a necessidade de ajuda se torna aguda. A falta de confiança também pode ser criada pelo exercício flexível do poder. Veja o caso de Rose, sentia-se envergonhada quanto às mulheres mais jovens quando foi trabalhar na parte alta, Sennett não acha que se trata apenas de orgulho ferido.

Confiança, responsabilidade mútua, compromisso são palavras do movimento "comunitarismo", que quer fortalecer os padrões morais, exigir dos indivíduos que se sacrifiquem por outros, prometendo que, se as pessoas obedecerem a padrões comuns, encontrarão uma força e realização emocional mútua que não podem sentir como indivíduos isolados, para o autor o comunitarismo enfatiza falsamente a unidade como fonte de força de uma comunidade, e teme erroneamente que, quando surgem conflitos, os laços sociais sejam ameaçados. As pessoas são mais ligadas pelo conflito verbal que pela concordância verbal. Não há comunidade enquanto não se reconhecem diferenças dentro dela.

No trabalho em equipe supõe-se que todos partilham da mesma motivação, e é essa suposição que enfraquece a verdadeira comunicação, fortes laços entre as pessoas significam enfrentar com o tempo suas diferenças. A comunidade pejada de conflito é exatamente o que um regime flexível deveria inspirar.

Para imaginar comunidades dispostas a enfrentar o novo capitalismo, devemos também pensar na força do caráter. Alguns filósofos franceses buscaram definir a disposição de permanecer na luta estabelecendo distinção entre manutenção de si e fidelidade de si. A manutenção de si é uma atividade mutável, a fidelidade de si, deve ser constante, independentemente do lugar ou idade em que nos encontramos.

A grande questão no capitalismo moderno é: "Quem precisa de mim?", isso reduz o senso de que somos necessários, a falta de responsividade é uma reação lógica ao sentimento de que não somos necessários. As redes e equipes enfraquecem o caráter. Há história, mas não narrativa partilhada da dificuldade, e, portanto tampouco destino compartilhado. Nessas condições, o caráter se corrói.

Sennett termina dizendo que (2000, p.176): "um regime que não oferece aos seres humanos motivos para ligarem uns para os outros não pode preservar sua legitimidade por muito tempo".

 

 

Hosted by www.Geocities.ws

1