Navalha na carne

Ana Carolina canta muito. E muito bem. A voz da vez é mineira e poderosa. No rádio, no CD ou no show, é impossível não ser mobilizado por sua garganta afiada.

Atitude ela tem de sobra. E voz. No palco ainda escuro, Ana começa a mostrar serviço com improvisos vocais para introduzir Retrato em branco e preto, de Chico Buarque e Tom Jobim, que ela leva sozinha na guitarra. Entre o impacto inicial, gritos e aplausos característicos ela recebe a banda: Mac William na bateria, Firmino na percussão, Marcos Nimirichter no teclado, Luciano Leal no baixo e por uma guitarra esperta. Juntos eles partem para Tô saindo, de Totonho Villeroy, que Ana ataca de violão de aço, numa versão mais "pesada" que a do CD. Tudo é muito forte, não resta dúvida.

Mão na luva: do topo das ondas do rádio para a boca do povo é o que acontece com a balada A canção tocou na hora errada, da própria Ana, seguida por Nada pra mim, de John. A primeira que ela canta sem instrumento e ensaia uma performance mais agressiva é Perder tempo com você, de Alvin L. Lá pelo meio do show Ana saca uma bela carta da manga: a moça é fera no pandeiro. E ela dá uma surra no instrumento, para se acompanhar em Armazém.

Informal e direta, ela se vale dos seus 20 e poucos anos para aproximar a MPB clássica de seu público jovem, que já se mostra fiel, nos mesmos moldes do de Zélia Duncan. É aí que entra um solo de guitarra para Villa Lobos, Alguém me disse, de Evaldo Gouveia e Jair Amorim e Beatriz, de Chico Buarque e Edu Lobo – não se pode dizer que ela não é corajosa. De seu primeiro CD, Ana Carolina, vão ainda para o palco: Tubo bem, de Lulu Santos, Trancado e O avesso dos ponteiros, que Ana compôs sozinha. Seu primeiro sucesso radiofônico, Garganta, de Totonho Villeroy, está lá ao lado de uma inédita dele: Será que dá pra seguir, que encerra o show. O momento light fica por conta de Joanna, canção inédita e engraçadinha que conta a história de uma garota problemática que estuda física e matemática e, surpreendentemente, de Vampiro, de Jorge Mautner. No bis, com Vaca profana, de Caetano, Ana Carolina, ora tímida ora espalhafatosa, derrama uma chuva de leite bom sobre os caretas.

 

 

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