Ana canta as mulheres
As peculiaridades do universo feminino dão o tom do novo CD da mineira Ana Carolina
Está escrito na contracapa Ana Rita
Joana Iracema e Carolina: ''Concebido por Ana Carolina.'' A frase rara hoje em
dia - ''produzido por'' e ''direção artística'' são muito mais comuns - dá
ao ouvinte do segundo disco da mineira Ana Carolina a certeza de que o trabalho
foi todo muito bem controlado por ela. ''É um disco
conceitual. Fala do universo feminino, o meu'', confirma a moça de 26 anos e de
voz forte que, no encarte, fez questão de não dispensar elementos que
preenchem esse mundo: anéis, cabelos, lábios cobertos por batom, um amontoado
de esmaltes ao lado dos apetrechos de uma manicura, bicho de pelúcia.
O universo feminino e de Ana é mais convidativo quando está iluminado, longe
da escuridão das canções com interpretação melancólica que predominam no
disco, que teve como produtores Nilo Coelho, Marcelo Sussekind e Dunga.
Implicante, faixa raivosa composta por ela mesma e que, de início, fica ótima
graças ao diálogo de voz com o pandeiro enfurecido de Marcos Suzano. ''Essa música
eu fiz num dia'', diz Ana Carolina. Não se deixe impressionar por esta marca. Há
melhores: Dadivosa, parceria dela com Adriana Calcanhotto e Neusa Pinheiro,
levou só 25 minutos para ficar pronta. ''Quando a letra é boa...'', explica e
comemora a moça sobre a música que começa assim: ''Que bom se eu fosse uma
diva/ Daquelas bem dadivosas/ Que
sai vida entra vida/ Ficasse ali verso e prosa.''
Como falar do universo das fêmeas não
é das coisas mais simples do mundo, houve partos mais difíceis. A câmera que
filma os dias, uma das três parcerias dela com Totonho Villeroy, demorou dois
meses e meio para ficar pronta. ''Mas o disco como um todo foi feito num
impulso. Em três meses estava pronto'', diz a cantora. Com Villeroy ela também
fez a animadinha Confesso e a mais-para-balada Que se danem os nós, que
funciona melhor. Como contraponto não só a esta balada, mas a toda
feminilidade que colore o trabalho, Ana Carolina
quis gravar uma música de Alvin L, Eu nunca te amei idiota, do primeiro LP do
grupo Sex Beatles. ''É mais um momento da minha inconstância. É o contraponto
a todas as canções românticas do disco'', explica. ''Cinzeiros voando livros
rasgados/ Discos quebrados no chão/ Desta vez é pra sempre/ Até... alguém
implorar por perdão'', escreveu Alvin.
Não é o único momento, digamos,
raivoso do disco. A bolacha tem também Joana, da própria Ana Carolina. ''Eu
tinha acabado de ler O pelicano, um livro de Adélia Prado'', diz a cantora,
para explicar por que dedicou a música à escritora. Explica aí também de
onde tirou inspiração para dar um tom bluesy à interpretação e para falar
de Billie Holiday.
A única participação especial do disco fica por conta de Alcione, com quem
Ana Carolina fez uma experiência em Violão e voz, outra composição sua. ''A
intenção era ver como ela funcionava com uma roupagem mais moderna. Eu tinha
certeza de que ia gostar. Alcione é uma referência, é uma cantora que canta
à vera. Quem canta com emoção sempre me interessa'', diz entusiasmada. Duas
outras coisas também a interessam: declamações bem feitas e gravar músicas
que já foram consagradas noutras vozes. Por isso sampleou Maria Bethânia
(trecho em Dadivosa) e investiu no clássico Que será (Marino Pinto/Mário
Rossi), gravado por Dalva de Oliveira em 1950.
Ana Rita Joana Iracema e Carolina tem ainda uma regravação, a de Pra terminar,
do paralama Herbert Vianna, originalmente gravada pelo Biquini Cavadão. Apesar
de ser uma canção feita por um homem, Ana achou que casaria bem com o conceito
do disco: ''Tem a coisa da dor feminina. Quando alguém vai questionar a relação,
geralmente é a mulher. Há muito tempo queria regravar essa.''