Álvares de Azevedo
Poema do Frade
Canto II
i
Dorme! ao colo do amor, pálido amante,
Repousa, sonhador, nos lábios dela!
Qual em seio de mãe, febril infante!
No olhar, nos lábios da infantil donzela
Inebria teu seio palpitante!
O murmúrio do amor em forma bela
Tem doçuras que desmaiam no desejo
Dos sonhos ao vapor, na onda de um beijo!
ii
Que importa a perdição manchasse um dia
A alvura virginal das roupas santas
E o mundo a esse corpo que tremia
Rompesse o véu que tímido alevantas?
E à noite lhe pousasse a fronte fria
Nesse leito em que trêmulo te encantas,
E ao bafejo venal murchasse flores,
Flores que abriam a infantis amores?
iii
Que importa? se o amor teu rosto beija,
Se a beijas nua e sobre o peito dela
Teu peito juvenil ama e latejar
Se tua langue polidez revela
Que tua alma febril sonha e deseja
Desmaiar-lhe de amor, gemer com ela,
Ebrio de vida, a soluçar d'enleio,
Pálido sonhador morrer-lhe ao seio?
iv
Que importa o mundo além? teu mundo é esse
Onde na vida o coração te alegra!
Teu mundo é o serafim que às noites desce
E que lava no amor a mancha negra!
É a névoa de luz onde não lê-se
Escrita à porta vil a infame regra
Que assinala o bordel à mão poluta
E diz nas letras fundas - prostituta!
v
A essa pobre mulher na fronte bela
Anátema escreveu a turba fria!
Banhe o remorso o travesseiro dela,
Corram-lhe a mil da pálpebra sombria
Prantos do coração! Não há erguê-la
A eterna maldição! E quem diria
A solitária dor, da noite ao manto
Que lavra o seio à cortesã em pranto?
vi
Ah! Madalenas míseras! ardentes
Quantos olhos azuis se não inundam
Nos transes do prazer em prantos quentes
Quando os seios febris em ais abundam,
Que o amante nos ósculos trementes
Crê sonhos que do amor no mar se afundam!
Que suspiros no beijo que delira
Que são lágrimas sòl que são mentira!
vii
E quantas vezes na cheirosa seda
Da longa trança desatada, solta,
Onde o moço de gozos embebeda
A fronte à febre juvenil revolta;
Quando a vida, o frescor, a limagem leda
De esperança que morreu ao leito volta;
As lágrimas na dor ferventes correm...
Como em céu de verão estrelas morrem?
viii
Ah! não chores! que valem perfumadas
Do Oriente as manhãs e céus e lua
E a natureza a vir entre alvoradas
E a láurea do porvir que sangue sua,
O vai deserto, as noites estreladas
Quando lânguida a vida em ais flutua!
Quando um suspiro as lágrimas apaga
E o lábio treme, e em beijos se embriaga?
ix
Amar uma perdida! que loucura!
Mas tão bela! que seio de Madona!
Nunca amará tão nívea criatura
Como aquela mulher que ali ressona!
A lâmpada no leito que murmura
Sobre a amante que nua se abandona,
Envolta nos seus lúcidos cabelos
Semelha um querubim pálido ao vê-los!
xxiii
Do mais eu nada sei. Senti somente
À noite duas almas suspirando:
Ouvi na brisa um hálito fremente,
Qual de um seio em prazer se dilatando:
Ouvi a jura efêmera, demente
Passar como um suspiro desmaiando,
Vi a lua celeste e vagarosa
Num leito derramar a luz saudosa!
xxiv
Depois o véu do leito estremecendo
Vi duas criaturas soerguidas
Como dois anjos, pálidas gemendo!
Invocavam as virgens consumidas
Em desejos de amor, a Deus se erguendo:
As folhas que se beijam rescendidas,
Que palpitam à luz, e em fogo lento
Murcham de gozo ao hálito do vento!
xxv
Místico beijo se escoou sentido,
Como de pombos cândidos que adejam
O sussurro'de vôo estremecido!
E sobre os peitos que febris latejam
Sufocava-se o túmido gemido
Como donzelas que de amor se beijam!
Almas cheias de vida! pareciam
Que as vidas numa vida confundiam!
xxvi
D'aurora a doce luz, as brisas calmas
A lhes passar nos úmidos cabelos
Era o sopro de Deus! As duas almas
De suave himeneu nos doces elos
Tremiam como no deserto as palmas
Quando à noite nos cachos amarelos,
Entre os florões o vento perfumado
Do pólen lhes derrama o pó doirado!
xxvii
Se quereis, meu leitor, saber agora
O que a isto seguiu-se - eu não o digo,
Por que senão minha leitora cora:
E obro nisto por certo qual amigo:
E também porque a musa me descora
Quando nestas visões a idéia sigo.
Demais findou-se de licor meu copo
E a seco poetar jamais eu topo!
xxviii
Importa-vos porém saber que a cena,
Que descrevi primeiro neste canto,
Veio desta ao depois. - A Madalena
Por quem ali eu desatei em pranto
Foi a presente criatura amena,
Que, certo, é digna que eu fizesse tanto!
E pois que a meus heróis Morfeu namora
Também cansado vou dormir agora! |