Cecilia Meireles

CANTAR

Cantar de beira de rio:

Agua que bate na pedra,

pedra que não dá resposta.

Noite que vem por acaso,

trazendo nos lábios negros

o sonho de que se gosta.

Pensando no caminho

pensando o rosto da flor

que pode vir, mas não vem

Passam luas - muito longe,

estrelas - muito impossíveis,

nuvens sem nada, também.

Cantar de beira de rio:

o mundo coube nos olhos,

todo cheio, mas vazio.

A água subiu pelo campo,

mas o campo era tão triste...

Ai!

Cantar de beira de rio.

DESPEDIDA

Por mim, e por vós, e por mais aquilo

que está onde as outras coisas nunca estão,

deixo o mar bravo e o céu tranquilo:

quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.

E como o conheces? - me perguntarão.

- Por não ter palavras, por não ter imagens.

Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.

Viajo sozinha com o meu coração.

Não ando perdida, mas desencontrada.

Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.

Voou meu amor, minha imaginação...

Talvez eu morra antes do horizonte.

Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.

(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!

Estandarte triste de uma estranha guerra...)


 

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