Luís Vaz de Camões

Eu cantarei de amor tão docemente,


Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados.
Faça sentir ao peito que não sente.
Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.
Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.
Porém, para cantar de vosso gesto,
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.



Amor é fogo que arde sem se ver.



É ferida que dói e não se sente.
É um contentamento descontente.
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer.
É solitário andar por entre a gente.
É nunca contentar-se de contente.
É cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade.
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor.
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

 

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