| INTRODU��O Produzir e executar um programa de r�dio alternativo direcionado � mulher em Alagoas foi nossa proposta de projeto experimental, no per�odo 1987-1988, para a conclus�o do curso de Comunica��o Social - habilita��o em Jornalismo, considerada uma id�ia desafiadora posto que a mulher, apesar dos grandes avan�os conseguidos ao logo dos s�culos, ainda � marginalizada, discriminada e at� exclu�da de alguns setores da sociedade, principalmente � �poca estudada. Trabalhar um programa de r�dio para a categoria feminina buscando sempre o lado questionador e a sua conscientiza��o, representou o nosso principal interesse. E a comunica��o alternativa, por assumir uma posi��o cr�tica em rela��o aos acontecimentos, destacando as not�cias "esquecidas" que a grande imprensa n�o julga de interesse p�blico, e ainda situando-se na oposi��o questionadora, foi o par�metro mais adequado que encontramos para formular o programa. A id�ia inicial tinha como objetivo conseguir um espa�o em uma r�dio convencional. A� contou nossa inexperi�ncia, pois fomos surpreendidas com o desinteresse dos diretores das emissoras procuradas, que pareciam ser as mais promissoras por n�o terem (� �poca) uma programa��o solidamente estruturada, a R�dio Clube de Rio Largo e a Macei�-FM (pertencentes ao mesmo grupo), que demonstraram claramente o descaso com que � vista a quest�o feminina. A proposta, neste sentido, n�o foi a diante. "Temos aqui um programa para as 'piniqueiras' ( termo pejorativo utilizado nas classes populares do Nordeste, para denominar as empregadas dom�sticas). Se voc�s quiserem podem aproveitar esse espa�o" disse, o diretor administrativo da R�dio Clube de Rio Largo, Jos� Lima. A partir de declara��es desse n�vel, entendemos ser extremamente dif�cil a realiza��o do programa numa r�dio convencional. Caso o fiz�ssemos, estar�amos reproduzindo t�o somente a ideologia dominante, transmitida 'verticalmente' atrav�s dos meios de comunica��o de massa, onde se inclui o r�dio convencional. Pretend�amos usar o r�dio n�o apenas como uma forma de circula��o de not�cias entre as mulheres, mas tamb�m como um elemento de conscientiza��o dessa categoria. Nossa proposta era tentar conseguir com que os ouvintes, no caso as mulheres, fossem participantes daquele processo e que n�o s� escutassem mas tamb�m falassem; que n�o ficassem isoladas, mas em rela��o com outras mulheres e suas lutas espec�ficas. E ainda, que o r�dio n�o servisse apenas como um canal de sentido �nico, unilateral, e sim, como afirma S�rgio Caparelli citanto Berttold Brecht, "representasse o grande discurso dos governados sobre atos dos governantes". Um programa de r�dio alternativo para a parcela feminina n�o poderia deixar de seguir tais par�metros, at� porque pretend�amos n�o apenas informar a mulher sobre os principais problemas e decis�es do Pa�s, mas tamb�m discutir com elas a discrimina��o e a marginaliza��o a que est�o submetidas, diariamente, contribuindo desta forma para um processo de conscientiza��o. Tanto as mulheres quanto os membros de outras minorias consideradas marginais e inferiores, s�o descartados da possibilidade de criar uma vis�o de mundo pr�pria pela repress�o que sofrem por parte da ideologia de sexo e da ra�a dominante. Segundo Branca Moreira Alves, "cada categoria suporta uma opress�o espec�fica, e n�o h� d�vida que a mulher � oprimida ainda dentro de sua pr�pria classe e ra�a pelo homem que, apesar de dominando, � para ela dominante". (1) Assim, ainda conforme Branca Moreira Alves, "da mesma forma pela qual o proletariado deve gerar sua consci�ncia de classe, sua vis�o globalizadora da sociedade, a fim de concretizar sua estrat�gia de luta, tamb�m os movimentos de liberta��o de sexo e de ra�a devem criar sua teoria, buscar sua especificidade e sua identidade, 'limpando-se' das marcas deixadas pela ideologia que lhes foi imposta"(2). O r�dio seria nosso alvo principal porque acredit�vamos ser o ve�culo de maior penetra��o nas camadas mais baixas da popula��o, n�o exigindo qualquer alfabetiza��o para o seu uso. Pretend�amos ainda utilizar o r�dio como um ve�culo cultural para a popula��o feminina, tentando quebrar de alguma forma, junto a essa mesma popula��o, a cren�a de que o Pa�s tem uma cultura pobre e que "mamar na teta cultural de outros povos" � a solu��o mais imediata � nossa popula��o. Quer�amos deixar clara a id�ia de que o poder est� revestido por uma capa que o tenta obscurecer e que este mesmo poder se torna transparente quando se trata da discrimina��o a que est� submetida a mulher, discriminada triplamente caso seja tamb�m pobre e negra. Usando o r�dio alternativo, tentar�amos desmistificar este poder que discrimina e p�e a mulher � margem, condenando-a a manter-se como um "bibel�" nas m�os do homem. E, dessa forma, pud�ssemos contribuir com discuss�es sobre os direitos da mulher e a sua emancipa��o. O r�dio convencional n�o mostrava interesse por tal quest�o. Al�m do mais, nossa proposta era ampla e os temas n�o se enquadravam nos padr�es t�picos dessas r�dios. O que pens�vamos era justamente despertar uma parcela de mulheres, que estariam envolvidas e seriam ouvintes e participantes do programa, para a rela��o domina��o-submiss�o de que s�o objeto. Nosso objetivo era, tamb�m, desmistificar todo o machismo a que est�o condenadas essas mulheres, mesmo nas sociedades mais avan�adas, atrav�s de discuss�es amplas ou, quando necess�rio, participarmos partilhando com essas mulheres parte dos nossos conhecimentos. Antonio Gramsci observa que "os intelectuais org�nicos s�o os sustent�culos das classes e operam dentro de suas organiza��es no sentido de analisar, descobrir e defender os seus interesses e objetivos". (3) O conceito de intelectual org�nico pode ser utilizado para a an�lise da luta de liberta��o dos grupos oprimidos pela sociedade de classe. Assim, para Branca Moreira Alves, "devem tamb�m eles gerar os seus intelectuais, criar sua ideologia, rompendo com a ideologia do grupo (sexo e ra�a) dominante. Devem buscar a sua pr�tica, a partir da consci�ncia de suas potencialidades e de suas possibilidades. Descobrir quais os seus verdadeiros interesses, tra�ar a sua estrat�gia, construir a confian�a e a solidariedade que formam a base da capacidade de luta (...) o objetivo �ltimo das classes e das categorias sociais oprimidas", diz Branca Alves, "� a sua liberta��o de um sistema opressor. O processo de ruptura ideol�gica deve ocorrer tanto numas quanto nas outras". (4) No contexto do racismo e do sexismo, entretanto, as classes se diluem at� certo ponto nesta discrimina��o, que liga todos os indiv�duos entre si. A necessidade de recupera��o ideol�gica atinge a todos, em todas as classes, atrav�s da experi�ncia comum da opress�o. Neste caso, um homem branco - ainda que oper�rio - � o portador da ideologia do sexo e da ra�a dominantes, da mesma forma que o burgu�s tamb�m o �. "Da� a necessidade, para o sexo feminino e os grupos �tnicos discriminados, de gerarem seus pr�prios intelectuais org�nicos. O papel destes intelectuais ser� o de elaborar a estrat�gia de supera��o da contradi��o interna � situa��o de sexo e ra�a dominados: a rela��o de poder homem-mulher, branco-negro, etc., " salienta Branca Alves. (5) Heleieth Safioti, em seu livro Mulher Brasileira: Opress�o e Explora��o, afirma que "opress�o e explora��o n�o s�o propriamente fen�menos distintos. Antes, eles se apresentam como dimens�es espec�ficas de um mesmo processo multidimensional". Para a autora, "ainda que sua raiz seja de natureza econ�mica, este processo apresenta outras dimens�es: pol�tica, cultural, social, sexual, etc. Nas sociedades pr�-capitalistas", diz Saffioti, "gra�as ao disfarce jur�dico-religioso do qual se reveste a base econ�mica, as faces da opress�o e da explora��o deste processo de subordina��o da mulher aparecem inextrincavelmente ligados". (6) Em �ltima inst�ncia � preciso atentar para o fato de que a opress�o e explora��o est�o enraizadas nas economias, ainda que a dimens�o opress�o se fa�a revestir de evidentes elementos ideol�gicos. ___________________________________ (1) - ALVES, Branca Moreira - Ideologia e Feminismo, a Luta da Mulher pelo Voto no Brasil. Petr�polis, Vozes. 1980. p. 40 (2) - Ibdem, Idem (3) - GRAMSCI, Antonio - Os Intelectuais e a Organiza��o da Cultura. Rio de Janeiro, Ed. Civiliza��o Brasileira, p. 03 (4) - ALVES, Branca Moreira -- Op. Cit. p. 44/55 (5) - Ibdem, Idem. p. 45 (6) - SAFFIOTI, Heleieth - Mulher Brasileira: Opress�o e Explora��o. Rio de Janeiro, Achiam� Editora. 1984 |