| Cr�nica da inf�ncia perdida Ol�via de C�ssia Correia de Cerqueira (O Rel�mpago, de 16 a 31.10.95) Ser adolescente nas d�cadas de 60 e 70 em Uni�o dos Palmares era conviver com a febre do modismos, era n�o se importar com o que acontecia no Pa�s. Foi assim durante a nossa adolesc�ncia, onde viv�amos preocupados com os amigos e com tudo aquilo que pod�amos fazer em se tratando de divers�o e �arte�. Para n�s era �proibido proibir�, e se nosso proibissem de fazer algo, a� sim, nos empenh�vamos em desobedecer. �ramos os filhos da ditadura militar e n�o t�nhamos consci�ncia de como a nossa aliena��o agradava �queles que estavam no poder. Na escola, n�o nos informavam sobre o que estava ocorrendo no Pa�s e vivemos um per�odo de total desinforma��o. O Brasil atravessava um dos seus piores momentos em termos de falta de liberdade, mas a juventude da nossa gera��o, em Uni�o dos Palmares, se rebelava pregando a paz e o amor do modelo hippie e a liberdade acima de tudo, num gesto muitas vezes inconsciente de contesta��o. A liberdade que preg�vamos era aquela do tudo poder fazer, sem a interven��o dos nossos pais, que de certa forma se preocupavam em n�o nos ver metidos com os �comedores de criancinhas�, id�ia transmitida pelo regime para definir as pessoas ligadas a movimentos pol�ticos, os comunistas e libert�rios, homens e mulheres, que sacrificaram suas pr�prias vidas para verem o Pa�s livre da falta de liberdade de manifesta��o. Assim nos foi transmitida a id�ia do que era ser comunista. Evidente que n�o acredit�vamos em t�o fantasiosa hist�ria, al�m do mais, como t�nhamos a id�ia da contesta��o na cabe�a, n�o lig�vamos muito para tais preocupa��es, mesmo sem ter a clareza do que fossem tais ideais. Mas essa n�o era a nossa quest�o, pelo menos n�o era a da maioria da juventude interiorana, da gera��o nascida em 60, da pequena cidade de Uni�o dos Palmares, terra de Zumbi, her�i da liberdade. Nasci de fam�lia oriunda de ex-camponeses, que como muitos vieram para a cidade em busca de dias melhores. Sendo a ca�ula fui a mais problem�tica da prole de Jo�o Correia de Cerqueira e Ant�nia Correia de Cerqueira. Os dez primeiros anos da inf�ncia foram de muito conv�vio com meus av�s, que me faziam todos os gostos, principalmente meu av�, que encobria sempre as minhas malcria��es e impedia que minha m�e me batesse quando cometia algum desfeito. Relembrando a inf�ncia perdida, tenho uma vaga lembran�a de uma das boas que fiz. Um certo dia cometi n�o sei qual o mal feito e minha m�e me jurou uma boa surra. N�o pensei duas vezes: escondi-me debaixo da cama e l� fiquei o dia inteiro, chegando a dormir. Causei o maior reboli�o e meus pais j� achavam que tivesse morrido afogada nas �guas do rio Munda�. Meu irm�o mais velho, desesperado, foi para o quarto chorar meu desaparecimento, quando percebeu o meu esconderijo. A� todos festejaram o achado e eu me livrei de uma boa surra. A chegada da adolesc�ncia me trouxe muitas incertezas e muitas tristezas. Al�m do mais as diverg�ncias e os conflitos de gera��es se acentuavam cada dia mais e a partir dos meus 14 anos eu n�o suportava que algu�m me dissesse o que devia fazer. Tinha sonhos de transformar o mundo com meus ideais, enfrentei ou pelo menos tentei enfrentar, todas as barreiras que surgiam. E elas n�o foram poucas. Ach�vamos, eu e a maioria das meninas e meninos da minha idade, que a nossa juventude e o nosso amor pela liberdade e pelos amigos seriam capazes de derrubar os preconceitos da �poca. Havia de nossa parte uma necessidade de afirma��o, uma busca constante do novo, do inusitado, do desconhecido. Percorremos caminhos diversos e antag�nicos e cada um foi pro seu lado. Os sonhos, as vontades, os amores, tudo nos era proibido. Quanta priva��o alguns tiveram que passar para encontrar os seus caminhos, as suas dire��es? Em Uni�o vivi os mais importantes dias da minha vida. Aqui nasci, me criei, estudei, fiz amizades, conquistei muito espa�o. Tive meus sonhos, meus amigos, meus amores de juventude e as viv�ncias mais profundas. Na nossa �nsia de viver cada minuto da vida, o mundo l� fora n�o nos incomodava, a n�o ser quando sonh�vamos com lugares ex�ticos e distantes, onde pud�ssemos desfrutar da liberdade que quer�amos alcan�ar a qualquer pre�o. |