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| 3- O CONTEXTO DO TABULEIRO A transforma��o das empresas artesanais fabris modernas constitui fator de expuls�o da m�o-de-obra feminina que, em geral, vai se localizar nas ocupa��es desenvolvidas a domic�lio ou nas fun��es desprivilegiadas do setor terci�rio. Com efeito, os dados hist�ricos revelam que o ritmo de absor��o de mulheres por parte da ind�stria de transforma��o n�o apenas se desacelera com o desenvolvimento tecnol�gico, como tamb�m se torna negativo em certos per�odos, como observa Heleieth Saffioti, em Mulher Brasileira: Opress�o e Explora��o. (1) Na transi��o do artesanal para o industrial a mulher perde sua �nica vantagem, ou seja, sua qualifica��o domesticamente adquirida. Assim, as fun��es econ�micas da mulher s�o relativamente mais numerosas e importantes quando a produ��o est� organizada em moldes artesanais. Decaem em import�ncia e em n�mero relativo � medida que o artesanal vai cedendo lugar ao industrial. H� que se considerar que a condi��o feminina potencia a condi��o de oper�ria e esta aumenta a discrimina��o de que � alvo a mulher. Na mulher oper�ria est�o presentes fatores reciprocamente potenciados de discrimina��o. Neste contexto, a dupla jornada de trabalho p�e-se como desafio � capacidade feminina de produzir diariamente e reproduzir a for�a de trabalho necess�ria � reprodu��o do capital em escala ampliada. � neste desafio, e na busca de super�-lo, que a mulher oper�ria re�ne as for�as necess�rias para enfrentar corajosamente seu cotidiano extenuante e amea�ador. � assim que ela reproduz a classe oper�ria. O final do S�culo XIX ficou caracterizado, em Alagoas, por ser um dos per�odos onde a participa��o feminina no mercado da produ��o t�xtil, principalmente de tecidos e bordados, ocupou espa�o em larga escala nas muitas f�bricas que aqui se instalaram. Cada uma dessas f�bricas, ainda funcionando, de certo modo, artesanalmente, representou para uma parcela de mulheres absorvidas pelo mercado de trabalho a chance de deixarem o lar, onde j� exerciam o trabalho artesanal, para venderem sua m�o-de-obra a um patr�o. As f�bricas iam surgindo de canto a canto no Estado de Alagoas, trazendo esperan�as de dias melhores e mais pr�speros � popula��o da regi�o onde se instalavam. A primeira que aqui chegou foi sem d�vida a de propriedade de Jos� Ant�nio de Mendon�a (mais tarde Bar�o de Jaragu�), Companhia Uni�o Mercantil, de fiar e tecer algod�o, instalada em Macei� em 31 de janeiro de 1857. Foi apenas em 1863, "ap�s superadas algumas dificuldades, que se acabou de montar a f�brica na localidade de Fern�o Velho (Macei�) funcionando pela primeira vez os seus teares no ano seguinte, ficando assim implantada a ind�stria t�xtil em Alagoas". (2) Diferente de algumas vers�es correntes, os primeiros trabalhadores da f�brica n�o foram moradores do Tabuleiro, que ainda n�o existia. "An�ncio da Companhia Uni�o Mercantil, de 5 de abril de 1864, informava que o referido estabelecimento precisava de rapazes de 14 anos acima, a fim de aprenderem a arte de fiar e tecer algod�o, esclarecendo que al�m do sal�rio, pago conforme a aplica��o e o desenvolvimento de cada um, forneceria sustento e vestu�rio". (3) � s� em 1910 que Jo�o Martins, fornecedor de lenha para a f�brica, agora j� de propriedade do grupo Othon Bezerra de Melo, e conhecida como F�brica Carmem, de Fern�o Velho, "resolve sair de Rio Largo com a fam�lia para morar mais perto do local de trabalho. Jo�o Martins instala-se, ent�o, onde � hoje a Rua do Tel�grafo e, por exig�ncia de dona Stela Cavalcante, sua mulher, que n�o suportava o isolamento, constr�i e doa casas. Esse pequeno aglomerado de casas � denominado por Martins de Vila Cord�lia em homenagem a sua primog�nita, mais tarde primeira professora do bairro. Os moradores da Vila, por terem recebido suas casas de Jo�o Martins e pelo local ser alto e plano, chamam-no de Tabuleiro do Martins". (4) Foi s� a partir da� que as pessoas que ali chegavam para fazer parte do Tabuleiro do Jo�o Martins, passaram a trabalhar no transporte da lenha atrav�s de cavalos ou no tear e fia��o de algod�o na pr�pria f�brica. Hist�rias a respeito dos primeiros moradores do Tabuleiro ainda hoje s�o conhecidas. Jo�o C�ndido, que at� 1987 era um dos moradores mais antigos no local, residente, � �poca, na Avenida Macei�, contou que "em 1930, �poca em que chegou ao bairro com a m�e, oper�ria da F�brica Carmem, Fern�o Velho n�o dispunha de acomoda��es para seus quase cinco mil oper�rios", dos quais grande parte eram mulheres. "Dois mil destes trabalhadores moravam com suas fam�lias no Tabuleiro, de acordo com outro morador aposentado da f�brica, M�rio Jos�". (5) "Nessa �poca as terras do Tabuleiro pertenciam ao governo. Os trabalhadores apropriavam-se desses terrenos, exemplo seguido pelos donos da F�brica Carmem, os Bezerra de Melo, que possu�ram sozinhos grande parte do Clima Bom". (6) S� ent�o � que se nota o deslocamento desses moradores para o trabalho em Fern�o Velho. "Apesar de morar no Tabuleiro, essas pessoas viviam em fun��o de Fern�o Velho, onde tudo acontecia: com�rcio, bailes, carnaval, casamentos, batizados. At� �gua para beber era conseguida l�. Geralmente os trabalhadores ou familiares desciam a ladeira em dire��o a Fern�o Velho, atravessando lama e mato com latas para o transporte d'�gua nos ombros, cabe�a, carro�as puxadas por burros e at� uma esp�cie de 'caminh�o puxado a corrente, que nem bicicleta'- segundo Jo�o C�ndido". (7) Nessa �poca a f�brica estava em plena produ��o. Em 1874, dez anos ap�s o in�cio de seu funcionamento, contava com apenas "um apontador, um maquinista e 59 oper�rios"(...) (8) "Em 1876 a f�brica manufaturava tecido de primeira qualidade, para roupa de escravos e outros misteres de fam�lia, com seis palmos de largura e 13 metros por pe�a, e pano de segunda qualidade, para ensacamento de g�neros, com 27,5 metros por pe�a, ocupando 74 oper�rios, nesse n�mero inclu�dos 12 aprendizes e nove meninos �rf�os". (...) (9) No ano de 1878 j� possu�a uma tinturaria e, afora o pano que tecia para ensacamento de g�neros e roupa de escravos, manufaturava, em menor escala, len��is, toalhas, redes e brins para cal�as. Nela funcionava uma escola noturna de primeiras letras, destinada aos �rf�os e oper�rios. (10) Apesar de ter sido inicialmente planejada para trabalhar com 70 teares, trinta anos ap�s o in�cio de seu funcionamento, em 1884, apenas utilizava 60, possuindo grande n�mero de m�quinas recentemente importadas da Inglaterra e da B�lgica. (11) Passado mais de um s�culo de sua funda��o, a antiga f�brica do Bar�o de Jaragu� ainda funciona na localidade de Fern�o Velho, onde cada morador daquele distrito conta com nostalgia o que foi a f�brica em seus tempos �ureos. N�o h� um s� morador, dos mais velhos, que n�o tenha sido oper�rio da f�brica. Contam esses moradores que antigamente havia uma boa assist�ncia m�dica, creche para os filhos dos oper�rios que ali trabalhavam mais de oito horas por dia e distribui��o de um litro de leite para cada uma dessas crian�as, al�m de enfermeira. No final de 1987 a situa��o estava bem diferente. Depois de passar por 'v�rios per�odos de crise, principalmente a partir de 1964, com o regime militar, a F�brica Carmem funcionava com apenas 200 teares, dois mil existentes antes, onde uma s� mulher trabalhava com 18 teares. Ali existia apenas um ambulat�rio para atender a 504 oper�rios, dos quais 220 mulheres. A creche, antes bem assistida, estava sendo administrada pela Febem - Funda��o Para o Bem-Estar do Menor, e a maioria das crian�as n�o recebia as m�nimas condi��es de assist�ncia. As mulheres trabalhadoras naquele distrito industrial, antes vindas principalmente dos arredores do Tabuleiro e Rio Largo, eram quase todas filhas dessas trabalhadoras, que apesar de j� estarem aposentadas preferiram continuar morando em Fern�o Velho, lugar que consideravam tranq�ilo e de onde guardam boas recorda��es, al�m de terem ali suas ra�zes. A faixa et�ria das mulheres que at� 1987 eram tecel�s da f�brica era a partir dos 14 anos aproximadamente, verdadeiras meninas. O grupo Othon Bezerra de Melo, para quem a antiga Companhia Uni�o Mercantil cedeu lugar, tamb�m agia com uma pr�tica bastante assemelhada � de outros. Para ser empregado na f�brica o trabalhador devia passar por um teste. Caso fosse mulher a dose era dupla. Um exame de urina decidia se a trabalhadora ficaria ou n�o. Caso estivesse gr�vida o emprego n�o seria seu. Ou ent�o a mulher deveria apresentar atestado m�dico de que estava operada, isto �, com ligadura de trompas. Os sal�rios geralmente n�o ultrapassavam a um m�nimo e meio, com rar�ssimas exce��es, que atendiam a alguns cargos de chefia, caso de Carlos de Freitas, gerente-geral da f�brica. Em toda a f�brica existia apenas uma mulher ocupando cargo de chefia, Ver�nica Gomes, respons�vel pelo setor de expedi��o - verifica��o e embalagem de tecidos para serem exportados. Apesar de tudo estar ligado � f�brica, n�o havia grande entrosamento entre os oper�rios e os l�deres sindicais, que afirmaram n�o haver participa��o por parte dos mais jovens nas lutas sindicais da categoria. A� ficava restrito apenas aos mais antigos, que temiam perder seus empregos por n�o terem condi��es, devido � idade, de conseguir coloca��o em outros locais. Nas conversas mantidas com l�deres sindicais de Fern�o Velho ficou bem claro o paternalismo ali existente, onde as tr�s mulheres que participavam da diretoria estavam apenas assegurando seus empregos. Foi o caso de Rosa Leite Oliveira, que faltando apenas quatro anos para se aposentar, e sendo amea�ada de demiss�o, se inseriu na diretoria, como suplente, apenas para assegurar a imunidade sindical. Por temor ou por descaso, a verdade � que n�o havia renova��o de lideran�as e o presidente da entidade j� estava h� 16 anos na mesma fun��o. A diretoria era quase a mesma e os sindicalistas afirmaram que "seu Ver�ssimo � o �nico que entende e que est� por dentro de tudo, por isso que � reeleito". Para o vice-presidente Hugo Bezerra, a raz�o do afastamento dos oper�rios se deu principalmente pelo medo de perder o emprego. Esta diretoria foi empossada em janeiro de 1988 e contava com 12 integrantes. O fato de estar h� tanto tempo frente ao Sindicato foi explicado por Jos� Ver�ssimo: "atuo como presidente h� seis gest�es. Quero me afastar, mas as pessoas n�o querem. Elas dizem que n�o t�m uma pessoa que consiga levar � frente o sindicato. N�o existem novas lideran�as". E � neste ponto que estava a forte depend�ncia em torno do presidente. N�o existia novos l�deres. Constitu�do por 12 integrantes, que pouca ou nenhuma consci�ncia sindical possu�am o Sindicato dos Trabalhadores T�xteis realizava um trabalho onde assistencialismo e paternalismo se misturavam. Ao mesmo tempo que atuava na comunidade de Fern�o Velho, promovendo cursos de flores, pintura, culin�ria e enfermagem, auxiliava de modo paternalista alguns oper�rios em quest�es de amea�as e demiss�es, como foi o caso de Rosa Leite, que amea�ada de demiss�o e faltando apenas quatro anos para se aposentar, contou com o aux�lio do "seu Ver�ssimo" no sentido de participar da diretoria do Sindicato. Os oper�rios da F�brica Carmem mantinham-se afastados das reuni�es, ficando � parte do que ocorria e das decis�es que eram tomadas. Para o vice-presidente da ent�o diretoria, Hugo Bezerra, "o pessoal tem medo de comparecer, de estar ligado ao sindicato e depois ser mal visto dentro da f�brica". Isso se explica, segundo Jos� Ver�ssimo, "pela inexist�ncia de consci�ncia sindical". Para ele, "o pessoal mal tem o primeiro grau, n�o possui esclarecimento, apesar da orienta��o que tentamos dar", salientou. � medida em que n�o havia uma grande participa��o por parte dos mais velhos, havia desinteresse ainda maior dos mais jovens, que na faixa de 14 a 20 anos representavam mais de 50% do total de oper�rios da F�brica Carmem. O medo, a falta de consci�ncia sindical e principalmente a inexist�ncia de novas lideran�as s�o os principais fatores que ir�o contribuir para a decad�ncia, a curto prazo, do Sindicato dos Trabalhadores da Ind�stria T�xtil de Fern�o Velho, um dos mais antigos de Alagoas. 3.1 - PERFIL DA MULHER DO TABULEIRO Alexandra Kollontai em A Nova Mulher e a Moral Sexual busca caminhos novos e mais felizes para a mulher, tentando encontrar a mulher moderna. Para esta autora, "a realidade capitalista contempor�nea parece esfor�ar-se em criar um tipo de mulher, que, pela forma��o de seu esp�rito, se encontra incomparavelmente mais pr�xima do homem do que da mulher do passado". (12) A transforma��o da mentalidade da mulher, da sua estrutura interior, espiritual e sentimental, realizou-se, segundo a autora, "primeiro e principalmente, nas camadas mais profundas da sociedade" ou seja, diz Kollontai, "onde se produz necessariamente a adapta��o do trabalho �s condi��es transformadoras da sua exist�ncia". (13) Isto se d� principalmente quando "ao arrancar do lar milhares de mulheres submissas e passivas, escravas obedientes de seus maridos, num ex�rcito que luta pelos seus direitos e pelos direitos e interesses da comunidade humana, "o capitalismo converte essas mulheres despertando o esp�rito de protesto e educando a vontade; colaborando para que se desenvolva e fortale�a a individualidade da mulher". (14) Quanto � sa�da para desviar do caminho da mulher a pesada carga do capitalismo, Kollontai acredita apenas nas fileiras de mulheres combativas que passar�o a representar as mulheres do novo tipo, criadoras de valores morais e sexuais e eliminadas dos velhos "princ�pios na alma das mulheres que ainda n�o se aventuraram a empreender a marcha pelo novo caminho". (15) A autodisciplina, em vez de um sentimento exagerado; a aprecia��o da liberdade e da independ�ncia, em vez da submiss�o e da falta de personalidade; a afirma��o do direito a gozar dos prazeres terrenos e n�o a m�scara hip�crita da "pureza", e finalmente, a subordina��o das aventuras do amor a lugar secund�rio na vida. � assim como deve ser definida, para a autora, a mulher moderna. A realidade da mulher brasileira, marcadamente a alagoana, contradiz o que, para Kollontai, aparece como sendo algo n�o muito distante dos nossos dias: a total liberta��o da mulher de todos os la�os de subordina��o que a prende. Depois de pesquisar e analisar o retrato da alagoana, constatamos que em se tratando das propostas de liberta��o apresentadas por Alexandra Kollontai, para a realidade em que est� inserida a mulher-individual trata-se para a grande maioria da camada feminina em Alagoas como sendo meramente futurologia. Mais distante ainda deste contexto est� a mulher do Tabuleiro do Martins. Conservadora na maioria das vezes, passiva quase sempre, submissa e acima de tudo escrava obediente do marido. � assim que se comporta at� mesmo a mulher trabalhadora, no contexto abordado, que por total desinforma��o ou aus�ncia de consci�ncia critica de sua condi��o, permanece passiva e subordinada ao homem, ainda que este n�o seja seu marido ou companheiro. A mulher do Tabuleiro est� dentro de um contexto de explora��o e submiss�o, tendo como caracter�stica espec�fica o fato de que muitas foram oper�rias t�xteis da F�brica Carmem, de Fern�o Velho, e sua import�ncia no movimento oper�rio alagoano � relevante. Estas mulheres, como tantas outras de �reas perif�ricas, vivem de trabalhos mal remunerados - quando trabalham fora - e quase sempre em situa��o inferior em rela��o ao homem. A situa��o fica ainda mais dif�cil ao observarmos o baixo padr�o econ�mico de parte da comunidade da regi�o, predominante nos setores de educa��o, acarretando, com isso, uma grande desinforma��o. Esta aus�ncia do fator educacional conseq�ente do baixo n�vel econ�mico � respons�vel tamb�m pela falta de consci�ncia sobre alguns dos principais direitos que a mulher possui por lei. Aparecida Lima, 29 anos, trabalhava, � �poca, como gar�onete em uma das lanchonetes no Centro do Tabuleiro Velho, de 06 das manh� �s 06 da noite. Suas duas filhas passavam todo o dia - per�odo em que Aparecida estava trabalhando - sozinhas. "Na creche eu n�o confio n�o, minhas filhas j� ficaram doentes umas duas vezes, mas trabalhando o dia todo eu n�o tenho outro jeito". A consci�ncia de que a creche n�o deve atuar apenas como um dep�sito de crian�as passa desapercebida da maioria das mulheres. Para Josefa Ferreira, dom�stica, 42 anos, que � �poca era residente na Santa Am�lia, "l� n�o tem lugar, � muito menino e as pessoas pra cuidar s�o poucas". Ela acreditava que "no Tabuleiro creche n�o adianta, s� se for grande. O menino se cria na rua mesmo". Apesar de quase todo ano engravidarem, as mulheres do Tabuleiro pouco ou nada conheciam sobre o tema maternidade. Na maioria das vezes a desinforma��o chegava a ser total, ao ponto de nem mesmo saberem se estavam gr�vidas ou n�o. Ou ainda, muitas vezes, considerarem a gravidez uma doen�a. "Eu s� tomo ch�, garrafada e olho os dias, conto. Num tomo nenhuma 'pi�la', n�o", foi o que disse T�nia Souza da Silva, 39 anos, dom�stica, residente na entrada de Fern�o Velho. Para a maioria dessas mulheres os m�todos anticonceptivos pouco ou nada eram conhecidos, e menos ainda discutidos. Ficavam apenas no "ouvi dizer". As conversas sobre o assunto eram carregadas de preconceitos e se restringiam �s pr�prias mulheres da comunidade, de vez que as organiza��es ditas feministas n�o tinham nenhuma atua��o na �rea. Maria C�cera Ribeiro da Silva, 37 anos, moradora do Tabuleiro Velho, trabalhava como lavadeira e acanhadamente falou que "quase todo o ano � um menino. O que eu posso fazer? J� tomo todos os cuidados, mas quando dou f� t� buchuda e opera��o � muito caro. Tenho mais cinco filhos e quando esse nascer eu n�o sei como � que vai ser", lamentou. A desinforma��o n�o p�ra por a�. Josefa Martins da Silva, 54 anos, residente na Pra�a da Feirinha, - trabalhava como costureira em sua pr�pria casa e afirmou que "esse neg�cio de p�ula e gravidez eu num sei n�o. Conversa assim � s� da pessoa". Assim � como pensava tamb�m Aparecida Lima, 29 anos, gar�onete no Tabuleiro Velho: "tenho duas filhas, mas n�o operei ainda. Agora, n�o uso nada. Meu marido me deixou faz seis meses". As mulheres t�m sido, estatisticamente, as maiores v�timas de companheiros perturbados pelo descontrole emocional e, freq�entemente, por graves desequil�brios ps�quicos. O descr�dito da popula��o frete � pol�cia ou a vergonha de expor pequenas trag�dias do cotidiano ao julgamento dos vizinhos cala as den�ncias. "O sil�ncio das v�timas, por sua vez, aumenta a impunidade, impede o efeito do rem�dio, afasta a possibilidade de resolu��o do problema, alimenta o c�rculo vicioso dos desrespeito aos mais elementares direitos do ser humano. Isso ocorre freq�entemente nos casos de estupro, raramente denunciados � pol�cia porque suas v�timas temem ficar expostas aos preconceitos nas delegacias", relata Cec�lia Pires em A Viol�ncia no Brasil. (16) Observamos os efeitos deste descr�dito na comunidade do Tabuleiro do Martins, em especial nas mulheres, que se mostravam amedrontadas a cada passo que tinham que dar nas ruas da localidade, principalmente pela falta de seguran�a resultante da prec�ria infra-estrutura da Pol�cia de Alagoas. Para Jane Meyre, 25 anos, estudante e moradora da Rua do Arame, "no Tabuleiro todo dia tem crime. De noite faz medo andar nas ruas; tem muito tarado e a pol�cia � pouca", sem contar com o precar�ssimo sistema de ilumina��o p�blica, disse ela. D. Ivanise Nascimento, � �poca, vice-presidenta da Amotam (Associa��o dos Moradores do Tabuleiro do Martins), num debate sobre a viol�ncia com a ent�o presidenta da UMMa - Uni�o das mulheres de Macei�, Ta�s Normande, disse que a viol�ncia no Tabuleiro "� muita", e que apanhou do marido, mas "se � ruim com ele, pior sem ele", o que revela o quadro de submiss�o e machismo predominante na comunidade, introjetada na pr�pria mulher. As moradoras do Tabuleiro "percebem" os problemas vividos pela comunidade, no entanto n�o se organizam de forma efetiva para super�-los. No per�odo de nossa participa��o na Associa��o - agosto a dezembro de 1987 - o n�mero de mulheres que compareciam �s reuni�es era consider�vel (em torno de 50), mas a participa��o era limitada e em busca do assistencialismo, como enxovais e tickets de leite distribu�dos pela Associa��o e em conv�nio com a LBA - Legi�o Brasileira de Assist�ncia - e o Projeto Rondon (extintos pelos governos estadual e federal). Nesse per�odo, D. Josefa Martins se destacou perante a comunidade por ter organizado um mutir�o de limpeza na Pra�a da Feirinha, no Tabuleiro, e �ngela da Silva por ter sido a primeira mulher da comunidade a participar do mutir�o de constru��o de casas populares no Jacintinho. Entretanto, problemas de cunho pessoal afastaram essas mulheres da Associa��o, que j� estava quase desarticulada quando chegamos ali. Apesar da mulher do Tabuleiro do Martins haver ingressado no mercado de trabalho j� no final do s�culo passado, a consci�ncia de si mesma como mulher e trabalhadora no geral n�o avan�ou significativamente. N�o muito diferente da maioria das mulheres alagoanas a do Tabuleiro do Martins, no per�odo estudado, ainda guarda e reproduz fortes ran�os de machismo, marcado pela submiss�o, o conservadorismo, o preconceito e tantos outros la�os de discrimina��o passados para elas pelos mais antigos. Apesar da for�a e coragem com que enfrentam passo a passo o cotidiano extenuante, violento e amea�ador em que est� inserida, essa mulher do Tabuleiro est� muito longe de ser o que Alexandra Kollontai conceituou como mulher-individual: "a autodisciplina, em vez de um sentimento exagerado; a aprecia��o da liberdade e da independ�ncia, em vez da submiss�o e da falta de personalidade (...). (17) _________________________ (1) - SAFFIOTI, Heleieth. Mulher Brasileira: Opress�o e Explora��o. Rio de Janeiro. Ed. Achiam�. 1984 - p. 128 (2) - SANTANA, Moacir Medeiros de. Contribui��o � Hist�ria do A�ucar em Alagoas. Recife. Ed., Universit�ria - UFPE. p. 64 (3) - Ibdem, Idem (4) - SALINGNAC, Carla e OLIVEIRA, Eunides Lins de. Tabuleiro do Martins: Uma Experi�ncia de Comunica��o Popular. Macei�. COS/UFAL. 1987. Projeto Experimental em Jornalismo. (5) - Op. Cit. p.17 (6) - Ibdem, Idem (7) - Ibdem, Idem (8) - SANT''ANA, Moacir, Op. Cit. p. 65 (9) - Ibdem, Idem (10) - Ibdem, Idem (11) - Ibdem, Idem (12) - KOLLONTAI, Alexandra. A Nova Mulher e a Moral Sexual. (13) - Ibdem, Idem (14) - Ibdem, Idem (15) - Ibdem, Idem (16) - PIRRES, Cec�lia. A Viol�ncia no Brasil. S�o Paulo - Ed. Moderna. Cole��o Pol�mica. 1985. p. 12 (17) - KOLLONTAI, Alexandra. A Nova Mulher e a Moral Sexual.. S�o Paulo. Global Editora. 1980. p.15 |