3- O CONTEXTO DO TABULEIRO

A transforma��o das empresas  artesanais fabris modernas constitui fator de expuls�o da m�o-de-obra feminina que,  em geral,  vai se localizar nas ocupa��es desenvolvidas a domic�lio ou nas  fun��es  desprivilegiadas do setor terci�rio.
Com efeito, os dados hist�ricos revelam  que o ritmo de  absor��o de mulheres por parte  da ind�stria  de transforma��o n�o apenas se desacelera com  o desenvolvimento tecnol�gico, como tamb�m  se torna  negativo em certos per�odos, como observa Heleieth Saffioti, em Mulher Brasileira: Opress�o e Explora��o. (1)
Na  transi��o do artesanal para o industrial a mulher  perde sua �nica  vantagem,  ou seja,  sua qualifica��o domesticamente adquirida. Assim, as fun��es econ�micas da mulher s�o relativamente  mais  numerosas e importantes quando a produ��o est� organizada em moldes  artesanais.  Decaem em import�ncia e em n�mero relativo  � medida que o  artesanal vai cedendo lugar ao industrial.
H� que se considerar que a condi��o  feminina potencia a  condi��o de oper�ria e esta aumenta a discrimina��o de que � alvo a mulher.  Na mulher oper�ria est�o presentes fatores  reciprocamente potenciados de discrimina��o. Neste contexto, a dupla  jornada  de trabalho p�e-se como desafio � capacidade feminina de produzir diariamente e  reproduzir a for�a  de trabalho necess�ria � reprodu��o do capital em  escala ampliada.  � neste desafio,  e na busca de super�-lo, que a mulher  oper�ria re�ne  as for�as  necess�rias  para  enfrentar corajosamente  seu cotidiano extenuante e amea�ador. � assim que ela reproduz  a classe  oper�ria.
O final do S�culo XIX ficou  caracterizado,  em Alagoas,  por ser  um dos per�odos onde a participa��o  feminina  no mercado  da produ��o  t�xtil, principalmente de tecidos  e bordados,  ocupou espa�o  em larga escala nas muitas f�bricas que aqui  se instalaram.
Cada  uma dessas  f�bricas, ainda  funcionando, de certo  modo,  artesanalmente, representou para uma parcela  de mulheres  absorvidas pelo mercado de trabalho a chance  de deixarem o lar,  onde j�  exerciam  o trabalho artesanal,  para venderem  sua m�o-de-obra a um patr�o.
As f�bricas iam surgindo de canto a canto no Estado de Alagoas, trazendo esperan�as de dias melhores e mais pr�speros � popula��o da regi�o  onde se instalavam. A primeira que aqui chegou  foi sem d�vida a de propriedade de Jos� Ant�nio de Mendon�a (mais tarde Bar�o de Jaragu�),  Companhia Uni�o Mercantil, de fiar e tecer  algod�o, instalada  em Macei� em 31 de janeiro de 1857.
Foi apenas em 1863, "ap�s superadas algumas dificuldades, que se acabou de montar a f�brica na localidade de Fern�o Velho (Macei�) funcionando pela primeira vez os seus teares no ano seguinte, ficando assim implantada a ind�stria t�xtil em Alagoas". (2)
Diferente de algumas vers�es correntes,  os primeiros trabalhadores da f�brica n�o foram moradores do Tabuleiro, que ainda n�o  existia.  "An�ncio da  Companhia Uni�o Mercantil, de  5 de abril de 1864,  informava que o referido estabelecimento precisava de rapazes  de 14 anos acima, a fim de aprenderem  a arte  de fiar e tecer algod�o,  esclarecendo que al�m  do sal�rio, pago  conforme a aplica��o e o desenvolvimento de cada um, forneceria sustento  e vestu�rio". (3)
� s� em 1910 que Jo�o Martins,  fornecedor  de lenha para  a f�brica, agora j�  de propriedade do grupo Othon Bezerra de Melo,  e  conhecida como F�brica Carmem, de Fern�o Velho, "resolve sair  de Rio Largo com a fam�lia para morar mais perto do local de trabalho. Jo�o Martins instala-se, ent�o,  onde � hoje a Rua do Tel�grafo e, por  exig�ncia de dona Stela Cavalcante, sua mulher,  que n�o suportava  o isolamento, constr�i  e doa casas. Esse pequeno aglomerado de casas � denominado por Martins de Vila Cord�lia em homenagem a sua primog�nita, mais tarde  primeira professora  do bairro. Os moradores da Vila,  por terem recebido suas casas de Jo�o Martins e pelo local ser  alto e plano, chamam-no de Tabuleiro  do Martins". (4)
Foi s� a partir da� que as pessoas que ali chegavam para fazer parte  do Tabuleiro do Jo�o Martins, passaram a trabalhar no transporte  da lenha atrav�s  de cavalos ou no tear e fia��o de algod�o  na pr�pria f�brica.
Hist�rias a respeito dos primeiros moradores do Tabuleiro ainda hoje s�o conhecidas. Jo�o C�ndido, que at� 1987 era um dos moradores mais antigos  no local,  residente, � �poca,  na Avenida Macei�, contou que  "em 1930, �poca em que chegou  ao bairro com a m�e, oper�ria da F�brica Carmem, Fern�o Velho n�o dispunha de acomoda��es para seus quase cinco mil oper�rios",  dos quais grande parte eram mulheres. "Dois mil destes trabalhadores moravam com suas fam�lias no Tabuleiro, de acordo com outro morador aposentado da f�brica, M�rio Jos�". (5)
"Nessa �poca as terras do Tabuleiro  pertenciam ao governo. Os trabalhadores apropriavam-se desses terrenos, exemplo seguido pelos donos da F�brica Carmem, os Bezerra de Melo, que possu�ram sozinhos grande parte do Clima Bom". (6)
S� ent�o � que se nota o deslocamento desses moradores para o trabalho em Fern�o Velho. "Apesar de morar no Tabuleiro, essas pessoas viviam em fun��o de Fern�o Velho, onde tudo acontecia:  com�rcio, bailes, carnaval, casamentos, batizados. At� �gua para beber era conseguida l�. Geralmente os trabalhadores ou familiares desciam a ladeira em dire��o a Fern�o Velho, atravessando lama e mato  com latas para o transporte d'�gua nos ombros, cabe�a, carro�as puxadas por burros e at� uma esp�cie  de 'caminh�o puxado a corrente,  que  nem bicicleta'- segundo Jo�o C�ndido". (7)
Nessa �poca a f�brica estava em plena produ��o. Em 1874, dez anos ap�s o in�cio de seu funcionamento, contava com apenas "um apontador, um maquinista e 59 oper�rios"(...) (8) "Em 1876 a f�brica manufaturava tecido de  primeira qualidade, para roupa de escravos e outros  misteres de fam�lia, com seis palmos de largura e 13 metros por pe�a, e  pano de segunda qualidade, para ensacamento de g�neros, com 27,5 metros por pe�a, ocupando 74 oper�rios, nesse n�mero inclu�dos 12 aprendizes e nove meninos �rf�os". (...) (9)  No ano de 1878 j� possu�a  uma tinturaria e, afora o pano que tecia para  ensacamento de g�neros e roupa de  escravos,  manufaturava, em menor escala, len��is, toalhas, redes e  brins para cal�as. Nela funcionava uma escola noturna de primeiras  letras, destinada aos �rf�os e oper�rios. (10)
Apesar de ter sido inicialmente planejada para trabalhar  com 70 teares, trinta anos ap�s o in�cio  de seu funcionamento, em  1884, apenas  utilizava  60, possuindo grande n�mero de m�quinas recentemente importadas da Inglaterra e da B�lgica. (11)
Passado mais de um s�culo de sua funda��o, a antiga  f�brica do Bar�o de Jaragu� ainda funciona na localidade de Fern�o Velho, onde cada morador daquele distrito conta com nostalgia o  que foi  a f�brica em seus tempos �ureos.
N�o h� um s� morador, dos mais velhos, que n�o tenha sido  oper�rio  da f�brica. Contam esses moradores que antigamente havia uma boa assist�ncia m�dica, creche para os filhos dos oper�rios que ali trabalhavam mais de oito horas por dia e distribui��o de um litro de leite para cada uma dessas crian�as, al�m de enfermeira.
No final de 1987 a situa��o estava bem diferente. Depois  de passar por 'v�rios per�odos  de crise, principalmente a partir de 1964, com  o regime militar, a F�brica Carmem funcionava com apenas 200 teares, dois mil existentes antes, onde uma s� mulher  trabalhava com 18 teares. Ali existia apenas  um ambulat�rio para atender a 504 oper�rios,  dos  quais 220 mulheres. A creche, antes bem assistida, estava sendo administrada pela Febem - Funda��o Para o Bem-Estar do Menor, e a maioria  das crian�as  n�o recebia as m�nimas condi��es de assist�ncia.
As mulheres trabalhadoras naquele distrito industrial,  antes vindas principalmente dos arredores do Tabuleiro e Rio Largo,  eram quase todas filhas dessas trabalhadoras, que apesar de j�  estarem aposentadas preferiram continuar morando em Fern�o Velho, lugar que consideravam tranq�ilo e de onde guardam  boas recorda��es, al�m de terem ali suas ra�zes.  A faixa et�ria das mulheres que at� 1987 eram tecel�s da f�brica  era a partir dos 14 anos aproximadamente, verdadeiras meninas.
O grupo Othon Bezerra de Melo, para quem  a antiga Companhia Uni�o Mercantil cedeu lugar, tamb�m agia com uma pr�tica bastante assemelhada � de outros. Para ser empregado na f�brica o trabalhador  devia passar por um teste. Caso fosse mulher a dose era dupla.  Um exame  de urina decidia se a trabalhadora ficaria  ou n�o. Caso estivesse gr�vida o emprego n�o seria seu. Ou ent�o a mulher deveria  apresentar atestado m�dico de que estava operada, isto �, com ligadura de trompas.
Os sal�rios  geralmente n�o ultrapassavam a um m�nimo e meio, com rar�ssimas exce��es, que atendiam a alguns cargos de chefia, caso de Carlos de Freitas,  gerente-geral da f�brica. Em toda a f�brica existia apenas uma mulher ocupando cargo de chefia, Ver�nica  Gomes,  respons�vel  pelo setor de expedi��o - verifica��o e embalagem de tecidos para serem exportados.
Apesar de tudo estar ligado � f�brica, n�o havia  grande entrosamento  entre os oper�rios e os l�deres sindicais,  que afirmaram  n�o haver participa��o por parte dos mais jovens nas lutas sindicais da categoria. A� ficava  restrito apenas aos mais antigos,  que temiam perder seus empregos por n�o terem condi��es, devido � idade, de conseguir coloca��o  em outros locais.
Nas conversas mantidas com l�deres sindicais de Fern�o Velho ficou bem claro o paternalismo ali existente, onde as tr�s mulheres  que participavam da diretoria estavam apenas assegurando seus empregos. Foi o caso de Rosa Leite Oliveira, que faltando  apenas quatro anos  para se aposentar, e sendo amea�ada  de demiss�o, se inseriu na diretoria, como suplente, apenas para assegurar a imunidade sindical.
Por temor ou por descaso, a verdade � que n�o havia renova��o de lideran�as e o presidente da entidade j� estava h� 16 anos na mesma  fun��o. A diretoria era quase a mesma e os sindicalistas afirmaram  que "seu Ver�ssimo � o �nico  que entende e que est� por dentro de tudo, por isso que � reeleito". Para o vice-presidente Hugo Bezerra,  a raz�o do afastamento dos oper�rios se deu principalmente pelo medo de  perder o emprego. Esta diretoria foi empossada em janeiro  de 1988 e contava com 12 integrantes.
O fato  de estar h�  tanto tempo frente ao Sindicato foi explicado por Jos� Ver�ssimo: "atuo como presidente h� seis gest�es. Quero me afastar, mas as pessoas n�o querem. Elas dizem que n�o t�m uma pessoa que consiga levar � frente o sindicato.  N�o existem  novas lideran�as". E  � neste ponto que estava a forte depend�ncia em torno  do presidente. N�o existia novos l�deres.
Constitu�do por 12 integrantes, que pouca ou nenhuma  consci�ncia  sindical  possu�am  o Sindicato dos Trabalhadores T�xteis  realizava um trabalho onde assistencialismo e paternalismo se misturavam. Ao mesmo tempo que atuava na comunidade de Fern�o Velho, promovendo  cursos de flores, pintura, culin�ria e enfermagem, auxiliava de  modo paternalista alguns oper�rios em quest�es de amea�as e demiss�es, como foi o caso de Rosa Leite, que amea�ada de demiss�o e faltando  apenas quatro anos para se aposentar,  contou com o aux�lio do  "seu Ver�ssimo" no sentido de participar da diretoria do Sindicato.
Os oper�rios  da F�brica Carmem mantinham-se afastados  das reuni�es, ficando � parte do que ocorria e das decis�es que eram tomadas. Para o vice-presidente da ent�o diretoria, Hugo Bezerra,  "o pessoal tem medo de comparecer,  de estar ligado  ao sindicato e depois ser mal visto dentro da f�brica". Isso se explica, segundo Jos� Ver�ssimo, "pela inexist�ncia  de consci�ncia sindical". Para ele,  "o pessoal mal tem o primeiro grau, n�o possui esclarecimento, apesar da orienta��o que tentamos dar", salientou.
� medida  em que n�o havia  uma grande participa��o por parte dos mais velhos,  havia desinteresse ainda maior dos mais jovens,  que na faixa de 14 a  20 anos representavam mais de 50% do total de oper�rios da F�brica Carmem.
     O medo, a falta de consci�ncia sindical e principalmente a inexist�ncia de novas lideran�as s�o os principais  fatores que ir�o contribuir para a decad�ncia, a curto prazo,  do Sindicato  dos Trabalhadores da Ind�stria T�xtil de Fern�o Velho, um dos mais antigos de Alagoas.

3.1 - PERFIL DA MULHER DO TABULEIRO

     Alexandra Kollontai em  A Nova Mulher e a Moral Sexual  busca caminhos novos e mais felizes para a mulher,  tentando encontrar a  mulher moderna. Para esta autora, "a realidade capitalista contempor�nea parece esfor�ar-se em criar um tipo de mulher, que, pela forma��o  de seu esp�rito, se encontra incomparavelmente  mais pr�xima do homem  do que da mulher do passado". (12)
     A transforma��o  da mentalidade da mulher,  da sua estrutura interior, espiritual e sentimental, realizou-se, segundo a autora, "primeiro e principalmente, nas camadas mais profundas da sociedade" ou seja, diz Kollontai, "onde se produz necessariamente a adapta��o do trabalho �s condi��es transformadoras da sua exist�ncia". (13)
     Isto se d� principalmente quando "ao arrancar do lar milhares de mulheres submissas e passivas,  escravas obedientes de seus maridos, num ex�rcito que luta pelos seus direitos e pelos  direitos  e  interesses da comunidade humana,  "o capitalismo converte essas mulheres despertando  o esp�rito  de protesto e educando a vontade; colaborando  para que se desenvolva e fortale�a a individualidade da mulher". (14)
     Quanto � sa�da para desviar do caminho da mulher a pesada  carga do capitalismo, Kollontai acredita apenas nas fileiras de mulheres combativas que passar�o a representar as mulheres do novo tipo, criadoras de valores morais e sexuais e eliminadas dos velhos "princ�pios na alma das mulheres que ainda n�o se aventuraram  a empreender a  marcha pelo novo  caminho". (15)
     A autodisciplina, em vez de um sentimento exagerado; a aprecia��o da liberdade e da independ�ncia, em vez da submiss�o e da  falta de personalidade; a afirma��o do direito a gozar dos prazeres terrenos e n�o a m�scara hip�crita da "pureza", e finalmente,  a subordina��o  das aventuras do amor a lugar secund�rio na vida. � assim como  deve ser definida, para a autora, a mulher moderna.
  A realidade da mulher brasileira, marcadamente a alagoana, contradiz o que, para Kollontai, aparece como sendo algo n�o muito distante dos nossos dias: a total liberta��o da mulher de todos os la�os de subordina��o que a prende.
Depois de pesquisar e analisar o retrato da alagoana, constatamos que em se tratando das propostas de liberta��o apresentadas por Alexandra Kollontai, para a realidade em que est� inserida a mulher-individual trata-se para a grande maioria da camada feminina em Alagoas como sendo meramente futurologia.
Mais distante ainda deste contexto est� a mulher do Tabuleiro do Martins. Conservadora na maioria das vezes, passiva quase  sempre, submissa e acima de tudo escrava obediente do marido. � assim  que se comporta at� mesmo a mulher trabalhadora, no contexto abordado, que por  total desinforma��o ou aus�ncia de consci�ncia critica de sua condi��o, permanece passiva e subordinada ao homem, ainda que este n�o seja seu marido ou companheiro.
A mulher do Tabuleiro est� dentro de um contexto de explora��o e submiss�o, tendo como caracter�stica espec�fica o fato de  que muitas  foram oper�rias  t�xteis da F�brica Carmem, de Fern�o Velho, e sua import�ncia  no movimento oper�rio alagoano � relevante. Estas mulheres, como tantas outras de �reas perif�ricas, vivem  de trabalhos mal remunerados - quando trabalham fora - e quase sempre  em situa��o inferior em rela��o ao homem.
A situa��o fica ainda mais dif�cil ao observarmos o baixo padr�o econ�mico de parte da  comunidade da regi�o, predominante nos  setores de educa��o, acarretando, com isso, uma grande desinforma��o.
Esta aus�ncia do fator educacional conseq�ente  do baixo  n�vel econ�mico � respons�vel tamb�m pela falta de consci�ncia  sobre  alguns dos principais  direitos que a mulher possui por lei. Aparecida  Lima, 29 anos, trabalhava, � �poca, como gar�onete em uma das lanchonetes no  Centro do Tabuleiro Velho, de 06 das manh� �s 06 da noite. Suas duas filhas  passavam todo o dia - per�odo em que Aparecida estava trabalhando - sozinhas. "Na creche eu n�o confio n�o, minhas filhas j�  ficaram doentes umas duas vezes, mas trabalhando o dia todo eu n�o tenho outro jeito".
A consci�ncia de que a creche n�o deve atuar apenas como um  dep�sito de crian�as passa desapercebida da maioria  das mulheres. Para  Josefa Ferreira, dom�stica, 42 anos,  que � �poca era residente na Santa Am�lia,  "l� n�o tem lugar, � muito menino e as pessoas pra cuidar s�o poucas".  Ela acreditava que "no Tabuleiro creche n�o adianta, s� se for grande. O menino se cria  na rua mesmo".
Apesar de quase todo ano  engravidarem, as mulheres do Tabuleiro pouco ou nada conheciam sobre o tema  maternidade. Na maioria  das vezes a desinforma��o chegava a ser total, ao ponto  de nem mesmo saberem se estavam gr�vidas ou n�o. Ou ainda,  muitas vezes, considerarem  a gravidez uma doen�a.  "Eu s� tomo ch�, garrafada e olho os dias, conto. Num tomo nenhuma 'pi�la', n�o", foi o que disse T�nia Souza da Silva, 39 anos, dom�stica, residente na entrada de Fern�o Velho.
Para a maioria dessas mulheres os m�todos anticonceptivos pouco ou nada eram conhecidos, e menos ainda discutidos. Ficavam apenas  no "ouvi dizer". As conversas sobre  o assunto eram carregadas de preconceitos e se restringiam �s pr�prias mulheres da comunidade, de vez que as organiza��es ditas feministas n�o tinham nenhuma atua��o na �rea.
Maria C�cera Ribeiro da Silva, 37 anos, moradora do Tabuleiro Velho, trabalhava como lavadeira e acanhadamente falou que "quase  todo o ano � um menino. O que eu posso fazer? J� tomo todos os cuidados, mas quando dou f� t� buchuda e opera��o � muito caro. Tenho mais  cinco filhos e quando esse nascer eu n�o sei como � que vai ser", lamentou.
A desinforma��o  n�o p�ra por a�. Josefa Martins da Silva, 54 anos, residente na Pra�a da Feirinha,  - trabalhava como costureira em  sua pr�pria casa e afirmou que "esse neg�cio de p�ula e gravidez eu num  sei n�o. Conversa assim � s� da pessoa". Assim �  como pensava tamb�m Aparecida Lima, 29 anos, gar�onete no Tabuleiro Velho: "tenho duas filhas, mas n�o operei ainda.  Agora,  n�o uso nada. Meu marido me deixou  faz seis meses".
As mulheres t�m sido, estatisticamente, as maiores v�timas de companheiros perturbados pelo descontrole emocional e, freq�entemente, por graves desequil�brios ps�quicos.
O descr�dito da popula��o frete � pol�cia ou a vergonha  de expor pequenas trag�dias do cotidiano ao julgamento dos vizinhos  cala as den�ncias. "O sil�ncio das v�timas,  por sua  vez, aumenta a impunidade, impede o efeito do rem�dio, afasta a possibilidade de resolu��o do problema, alimenta o c�rculo vicioso dos desrespeito aos mais elementares direitos do ser humano. Isso ocorre freq�entemente nos casos de estupro, raramente denunciados � pol�cia porque suas v�timas temem ficar  expostas aos preconceitos nas delegacias", relata Cec�lia Pires em A Viol�ncia no Brasil. (16)
Observamos os efeitos deste descr�dito  na comunidade do  Tabuleiro do Martins, em especial nas mulheres, que se mostravam amedrontadas a cada passo que tinham que dar nas ruas da localidade, principalmente  pela falta de seguran�a resultante da prec�ria infra-estrutura da  Pol�cia de Alagoas.
Para Jane Meyre, 25 anos, estudante e moradora da Rua do Arame, "no Tabuleiro todo dia tem crime. De noite faz medo andar nas ruas;  tem muito tarado e a pol�cia � pouca", sem contar com o precar�ssimo  sistema de ilumina��o p�blica, disse ela.
D. Ivanise Nascimento, � �poca, vice-presidenta da Amotam (Associa��o dos Moradores do Tabuleiro do Martins), num  debate sobre  a viol�ncia com a ent�o presidenta da UMMa - Uni�o das mulheres de Macei�, Ta�s Normande, disse que a viol�ncia no Tabuleiro "� muita", e que apanhou do marido, mas "se � ruim com ele, pior sem ele", o  que revela o quadro de submiss�o e machismo predominante na comunidade, introjetada na pr�pria mulher.
As moradoras do Tabuleiro "percebem" os problemas vividos pela comunidade,  no entanto n�o se organizam de forma efetiva para super�-los. No per�odo de nossa participa��o na Associa��o - agosto  a dezembro de 1987 - o n�mero de mulheres que compareciam �s reuni�es  era consider�vel (em torno de 50), mas a participa��o era limitada e em busca do assistencialismo, como enxovais e tickets de leite distribu�dos pela Associa��o e em conv�nio com a  LBA - Legi�o Brasileira de Assist�ncia - e o Projeto Rondon (extintos pelos governos estadual e federal).
     Nesse per�odo, D. Josefa Martins se destacou perante a comunidade por ter organizado um mutir�o de limpeza na Pra�a da Feirinha, no Tabuleiro, e �ngela da Silva por ter sido a primeira mulher da comunidade a participar do mutir�o de constru��o de casas populares no Jacintinho. Entretanto, problemas  de cunho pessoal afastaram  essas mulheres da Associa��o, que j�  estava quase desarticulada quando chegamos ali.
     Apesar da mulher do Tabuleiro do Martins haver ingressado  no mercado de trabalho j� no final do s�culo passado,  a consci�ncia  de si mesma como mulher e trabalhadora no geral n�o avan�ou significativamente.
     N�o muito diferente da maioria das mulheres alagoanas a do Tabuleiro do Martins, no per�odo estudado, ainda guarda e reproduz fortes ran�os de machismo, marcado pela submiss�o, o conservadorismo, o preconceito e tantos outros la�os de discrimina��o passados para elas pelos mais antigos.
     Apesar da for�a e coragem com que enfrentam  passo a passo o cotidiano extenuante, violento e amea�ador em que est� inserida, essa mulher do Tabuleiro est� muito longe  de ser o que Alexandra Kollontai conceituou como mulher-individual: "a autodisciplina, em vez de um sentimento exagerado; a aprecia��o da liberdade e da independ�ncia, em vez da submiss�o e da falta de personalidade (...). (17)












_________________________
(1) - SAFFIOTI, Heleieth. Mulher Brasileira: Opress�o e Explora��o. Rio de Janeiro. Ed. Achiam�. 1984 - p. 128
(2) - SANTANA, Moacir Medeiros de. Contribui��o � Hist�ria do A�ucar em Alagoas. Recife. Ed., Universit�ria - UFPE. p. 64
(3) - Ibdem, Idem
(4) - SALINGNAC, Carla e OLIVEIRA, Eunides Lins de. Tabuleiro do Martins:   Uma Experi�ncia de Comunica��o Popular.
                                 Macei�. COS/UFAL. 1987. Projeto Experimental em Jornalismo.
(5) - Op. Cit. p.17
(6) - Ibdem, Idem
(7) - Ibdem, Idem
(8) - SANT''ANA, Moacir, Op. Cit. p. 65
(9) - Ibdem, Idem
(10) - Ibdem, Idem
(11) - Ibdem, Idem
(12) - KOLLONTAI, Alexandra.  A Nova Mulher e a Moral Sexual.
(13) - Ibdem, Idem
(14) - Ibdem, Idem
(15) - Ibdem, Idem
(16) - PIRRES, Cec�lia.  A Viol�ncia no Brasil. S�o Paulo - Ed. Moderna. Cole��o Pol�mica. 1985. p. 12
(17) - KOLLONTAI, Alexandra.  A Nova Mulher e a Moral Sexual.. S�o Paulo. Global Editora. 1980. p.15
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