| 2 - O CONTEXTO NACIONAL E ALAGOANO No Brasil, a participa��o feminina no mercado de trabalho cresceu nos ano de 1950 e desenvolveu-se na d�cada de 60 com a implanta��o de um modelo econ�mico calcado no arrocho salarial, que exigiu da mulher uma contribui��o decisiva para a amplia��o nominal da renda familiar, na tentativa de manter o poder aquisitivo da fam�lia, o que n�o quer dizer que a partir da� o preconceito tenha acabado, como esclarece o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher em seu caderno Mulher e Trabalho. (1) Mas a participa��o da mulher nos movimentos de reivindica��o de seus direitos n�o se inicia nessa fase, e sim com o chamado movimento sufragista, importado dos Estados Unidos por Bertha Lutz, que nele teve grande destaque. Mas, foi a professora Loeolinda Daltro quem primeiro projetou no Brasil, de forma organizada, a id�ia do sufr�gio feminino, como assinala Branca Moreira Alves em Ideologia e Feminismo, A Luta da Mulher Pelo Voto no Brasil (2) , acrescentando que Leolinda organizou uma passeata em novembro de 1917, com 84 mulheres, que surpreendeu a popula��o do Rio. No in�cio do s�culo XX, no Brasil, considerava-se a participa��o da mulher na vida econ�mica como desvio do normal, como infra��o da ordem natural das coisas. A imensa transforma��o que sofreram as condi��es da produ��o no decurso das primeiras d�cadas do s�culo obrigou a mulher a adaptar-se �s novas circunst�ncias criadas por essa realidade. E � na ind�stria, principalmente a ind�stria t�xtil, que ocorre o maior crescimento da m�o-de-obra feminina. A inclus�o da mulher no mercado de trabalho gerou achatamento salarial, ficando de todo modo em fun��es menos qualificadas, impedida de ser promovida e de ter acesso a cargos de chefia, como constata a hist�ria. (3) Al�m da n�o aplica��o, concretamente, de "sal�rio igual para trabalho igual", acresce para a mulher trabalhadora o empecilho de n�o qualifica��o profissional, que a coloca em desvantagem, invalidando este direito. A participa��o no mercado de trabalho transformou a mentalidade da mulher quando foi arrancada do lar, despertando nela a consci�ncia de seu papel na sociedade, seu esp�rito de protesto e a luta por seus direitos. Com a mudan�a de uma economia baseada na agricultura para uma sociedade urbana industrializada, desapareceram as peculiaridades de fun��es tradicionais (principalmente a partir da Revolu��o Industrial) e mulheres e homens desempenham fun��es que ultrapassam a barreira do sexo. Da� a necessidade de que, com refer�ncia �s mulheres em geral e as trabalhadoras em particular, sejam eliminados os pretextos em nome dos quais ainda � dificultado o acesso a algumas profiss�es. Apesar dos avan�os conquistados, a m�o-de-obra feminina ainda constitui uma reserva em v�rios setores da divis�o social do trabalho. J� a participa��o das mulheres nos sindicatos, tem se acentuado; uma pesquisa do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher revela que os congressos de mulheres realizados a partir de 1978 jogaram um papel muito importante no processo de crescimento da participa��o das mulheres, ocupando inclusive cargos diretivos em alguns sindicatos, conforme assinala o caderno do Conselho. (4) A luta persistente da mulher tem tornado sua presen�a marcante no mercado de trabalho, at� mesmo naqueles setores antes privativos dos homens como a avia��o, a diplomacia, constru��o civil, entre outras atividades. Ana Maria Rocha, da Dire��o Nacional pela Frente de Mulheres do PCdoB - Partido Comunista do Brasil, salienta que "nos �ltimos anos a participa��o da mulher brasileira no mercado de trabalho cresceu numa velocidade surpreendente e o contingente de trabalhadoras passou de 6 milh�es para 18,5 milh�es em 1985", o que fez com que participasse mais nos movimentos de contesta��o. (5) A partir de 1975, com a institui��o do Ano Internacional da Mulher pela ONU - Organiza��o das Na��es Unidas, ainda segundo Ana Rocha, ocorreu "um novo impulso na mobiliza��o das mulheres por seus direitos espec�ficos e por uma maior participa��o na defini��o dos rumos pol�ticos da na��o". Essa mobiliza��o gerou amplas conquistas na lei, como as que asseguram � mulher a igualdade de direitos, com as possibilidades semelhantes aos do homem no campo da instru��o e da forma��o profissional. Outro aspecto a ser considerado, no que diz respeito �s conquistas do movimento de mulheres, � que a promulga��o da Constitui��o facultou-lhe a igualdade nas atividades s�cio-pol�ticas e culturais, determinando, por exemplo, os 120 dias de licen�a-maternidade, reconhecendo-a como uma fun��o social; aprovou a licen�a-paternidade de oito dias, entre outros itens. Mas apesar desses avan�os na lei, muito do que foi aprovado na Constitui��o de 1988 � descumprido por algumas empresas no Pa�s, que se recusam a cumprir a lei. Um exemplo foi a den�ncia na imprensa de que algumas f�bricas no Sul do Pa�s estavam exigindo atestado de laqueadura e exame de xixi, no sentido de detectarem se a mulher estava gr�vida ou em fase reprodutiva. Nesse aspecto, � necess�rio que haja desempenho pol�tico para que os direitos adquiridos na lei sejam garantidos, na pr�tica, como a que determina a instala��o de creches nos locais de trabalho para as empresas que tenham mais de 50 funcion�rias. 2.1 - O MOVIMENTO DE MULHERES EM ALAGOAS A participa��o das mulheres na hist�ria de Alagoas n�o ficou desapercebida. Observamos que em muitos momentos, ainda que em pequena escala, houve mulheres que se destacaram, muitas vezes isoladamente e poucas de forma organizada. Algumas das mais antigas informa��es datam de 1602 e fazem refer�ncias �s quilombolas, que al�m de ajudar os homens na planta��o e na ca�a, empreendiam r�pidas fugas e lutavam contra os invasores (fazendeiros, bandeirantes e capit�es do mato) dos quilombos. Dentre elas, uma se destaca de forma mais expressiva: Alquatune, m�e de Ganga Zumba, primeiro chefe o Quilombo dos Palmares. Princesa na �frica, foi transformada em escrava e vendida para um dos engenhos de a��car da capitania de Pernambuco (que abrangia o territ�rio alagoano). Pertencia � tribo dos Ardas, que se destacavam pela intelig�ncia, talento art�stico e principalmente pela rebeldia. A agilidade nas fugas e a disposi��o para a guerra, quando se tratava de defender a Rep�blica Negra , era o que mais chamava a aten��o em Alquatune e a distinguia das outras mulheres do quilombo. (6) Outras informa��es s�o do s�culo XIX, quando duas alagoanas, B�rbara de Alencar e Ana Lins, esta natural de S�o Miguel dos Campos, lutaram nos campos de batalha da Confedera��o do Equador, numa �poca em que a mulher mal ousava sair de casa e a discrimina��o era bastante acentuada. (7) No entanto, � somente no s�culo XX que tem in�cio a luta da mulher em busca de um espa�o efetivo na sociedade. Em Alagoas a organiza��o de mulheres atrav�s de associa��es � iniciada na d�cada de 30, quando foi fundada a FAPF - Federa��o Alagoana Pelo Progresso Feminino, funcionando como n�cleo estadual da Federa��o Brasileira, liderada pela feminista Bertha Lutz. Aqui a entidade esteve ligada � figura da m�dia Lily Lages, sua fundadora e presidenta por quase duas d�cadas. A Federa��o Alagoana, tal como a Brasileira, era formada por mulheres da burguesia, o que a tornou bastante elitizada. A primeira diretoria estava constitu�da da seguinte forma: presidenta de honra, No�mia L�cio (pianista); presidenta efetiva, Lily Lages (m�dica); secret�ria, Linda Mascarenhas (atriz); tesoureiras, Georgina Casado e Maria Alice Braga Neto; oradora; Flora Ferras (escritora); bibliotec�ria, Hilda Calheiros e Miriam Lima. Em entrevista concedida � nossa equipe, � �poca das pesquisas para este trabalho, Lily Lages disse que o principal objetivo da federa��o era coordenar e orientar os esfor�os da mulher, elevando seu n�vel cultural e evidenciando suas atividades na vida p�blica, intelectual, dom�stica e pol�tica, e tamb�m obter garantias legislativas e pr�ticas para o trabalho feminino e assegurar os direitos pol�ticos que a Constitui��o confere. (8) Apesar disso n�o havia na federa��o uma percep��o maior sobre o papel da mulher na sociedade, como tamb�m n�o havia clareza na quest�o da opress�o do sexo feminino, especificamente, no modo de produ��o capitalista. Se por um lado a Federa��o Alagoana se preocupava com a participa��o efetiva da mulher no �mbito cultural e pol�tico, por outro lado desenvolvia um assistencialismo claro na periferia, como festas de m�es, natal dos velhinhos e distribui��o de enxovais, por exemplo, evidenciando que a pr�tica era diferente para segmentos distintos. Ou seja, a luta n�o era conjunta; a oper�ria, a dom�stica e outras mulheres de classe social mais baixa apenas recebiam (verticalmente), n�o tendo acesso ao interior e ao processo de trabalho da FAPF, que exigia dedica��o plena, n�o dando oportunidade de participa��o � mulher trabalhadora. Ao mesmo tempo em que se reconhece a necessidade de uma participa��o maior na sociedade, mant�m-se as responsabilidades dom�sticas intactas, ao lado do surgimento de um certo tipo de solidariedade para com as mulheres oper�rias, advogando-se meias solu��es, baseadas no assistencialismo. A Federa��o Alagoana nas d�cadas de 30 e 40 teve uma "exist�ncia marcante", segundo Solange Lages (9). O principal trunfo das s�cias era justamente sua posi��o social, que lhes facilitava o acesso tanto aos pol�ticos quanto � imprensa. A quest�o pol�tica era discutida de federa��o para federa��o e o objetivo mais buscado era a aprova��o do voto feminino e sua inclus�o na Constitui��o, o que aconteceu em 1932. Acreditava-se que o voto seria a principal arma na trajet�ria da mulher na sociedade. Grande parte das integrantes da FAPF colaboravam nos jornais da �poca, com colunas pr�prias, e atuavam tamb�m no r�dio, onde divulgavam as atividades e objetivos da Federa��o. Fato importante no r�dio alagoano foi a implanta��o de um programa para a mulher em 1934, liderado por Rosa do Carmo Pereira (integrante da Federa��o) e intitulado Eva em A��o. Entrevistas, receitas culin�rias, bate-papo com ouvintes sobre sa�de, trabalho e artes eram os quadros do programa, transmitido pela Difusora, r�dio oficial do Estado. (10) Na pol�tica, a atua��o da Federa��o foi significativa nas elei��es de 1934, quando elegeu Lily Lages a primeira deputada estadual alagoana, com 13.891 votos. Sua atua��o na Assembl�ia Legislativa foi uma extens�o do trabalho realizado na FAPF. Os maiores entraves encontrados foram a discrimina��o e persegui��o por parte de alguns parlamentares que n�o aceitavam sua elei��o, por ser mulher. Na d�cada de 50 duas outras alagoanas, Rosa do Carmo Pereira e Maria Jos� Palmeira, concorreram � Assembl�ia Legislativa, mas n�o conseguiram se eleger. (11) A Federa��o Alagoana pelo Progresso Feminino esteve ativa at� meados da d�cada de 50, esvaziando-se em conseq��ncia do desinteresse das associadas. Em 1945 houve troca de diretoria e a presid�ncia passa de Lily Lages para Linda Mascarenhas, que permaneceu na dire��o at� a conclus�o deste trabalho (setembro de 1988) e veio a falecer no in�cio dos anos 90. Depois da FAPF, at� o final dos anos 60, n�o houve nenhuma manifesta��o nem forma��o de associa��es de mulheres em Alagoas. Somente no final da d�cada de 70 � que ocorreu um ressurgimento do movimento feminista, com o aparecimento das organiza��es. At� 1987 existem em Alagoas seis associa��es de mulheres: Centro da Mulher Alagoana - CEMA, Uni�o de Mulheres de Macei� - UMMa, Pr�-Mulher, Conselho Estadual de Defesa dos Diretos da Mulher - Cedim, Clube da Mulher do Campo e Womens's Club. Havia tamb�m grupos feministas independentes, como o F�rum de Mulheres Aut�nomas e o N�celo Tem�tico de Mulheres, composto de professoras e alunas de Servi�o Social da Universidade Federal de Alagoas. Contudo, apenas as quatro primeiras atuavam como organiza��es ditas feministas. Entre o movimento feminista da d�cada de 30 e o at� ent�o estudado, n�o se pode afirmar que n�o existem diferen�as acerca da concep��o da opress�o da mulher como fator fundamental de qualquer trabalho de conscientiza��o a ser desenvolvido e o entendimento de que � na rela��o de poder homem-mulher, conforme refletido na estrutura familiar, que se encontra o cerne da opress�o do sexo. O movimento da d�cada de 30 n�o teve alcance entre as mulheres da classe baixa. Ficou restrito a segmentos da elite, principalmente no que se refere � participa��o nas associa��es. Nesse ponto n�o h� muita diferen�a entre essas associa��es feministas do Estado, estudadas at� o ano de 1987. As entidades de mulher que atuavam em Alagoas estavam separadas fortemente pela ideologia, onde as principais diverg�ncias eram oriundas de quest�es pol�tico-partid�rias. Para Wedna Miranda, � �poca presidenta do Cema, "a partidariza��o atrapalha sensivelmente o trabalho das associa��es, pois a quest�o da mulher � �nica e n�o pode estar atrelada a partidos pol�ticos". (12) J� Ta�s Normande, que exerceu a presid�ncia da UMMa e em 1987 atuava na Associa��o dos Docentes da Ufal, contestou esta afirma��o: "Acredito que a quest�o pol�tica e a partidariza��o das feministas � importante no processo de organiza��o das mulheres, para transforma��es mais profundas na sociedade". (13) Os m�todos de trabalho de cada associa��o, apesar de se assemelharem em alguns pontos, divergiam em outros. A Associa��o Pr�-Mulher atuava principalmente no bairro do Jacintinho, realizando um trabalho de "conscientiza��o". Sua presidenta, Heli�nia Ceres, nos disse que "a mulher n�o deve ser conscientizada apenas politicamente, mas principalmente como mulher". Esse trabalho consistia na realiza��o de palestras peri�dicas sobre sa�de, trabalho, viol�ncia, etc. Nessa forma de atua��o, o maior problema era a depend�ncia assumida pelas mulheres daquele bairro em rela��o ao Pr�-Mulher, pois os questionamentos e a discuss�o sobre os problemas delas s� eram discutidos quando aconteciam os encontros entre as mulheres e a associa��o. O Centro da Mulher Alagoana tamb�m trabalhava com mulheres da periferia, no bairro Salvador Lyra. A atua��o do Cema partia de conversa individual com a mulher, para s� ent�o, a partir da experi�ncia de cada uma, socializar e discutir as principais quest�es que envolvem o sexo feminino. Para a Uni�o de Mulheres de Macei�, a preocupa��o maior estava em organizar as mulheres, dando oportunidade para que elas pr�prias pudessem tomar decis�es. Desse modo, em cada �rea que atuava, como Vergel do Lago, Ponta Grossa, Vila Aratu, Ch� de Jaqueira e Bebedouro, a UMMa organizava entre as moradoras uma diretoria pr�pria, onde discutiam seus principais problemas, tentando resolv�-los sem o aux�lio cont�nuo da associa��o. Quando entrevistada nessa �poca, a presidenta Ta�s Normande afirmou que "esse trabalho � importante, pois ir� dar oportunidade de iniciativa e organiza��o �s mulheres das camadas mais baixas". (14) O Cedim, por sua vez, n�o tinha um trabalho dirigido especificamente para a periferia. Sua atua��o estava pautada principalmente nas den�ncias de vol�ncia contra a mulher e a discrimina��o de um modo geral, atrav�s de �rg�os da imprensa e junto ao governo estadual. Para Terezinha Ramires, � �poca presidenta do Cedim, "� muito dif�cil trabalhar dentro do Conselho, pois as diverg�ncias ideol�gicas s�o fortes entre as conselheiras, n�o havendo espa�o para objetivos transformadores". (15) As duas �ltimas associa��es, Clube da Mulher do Campo e Women's Club, possu�am uma linha de trabalho que pouca ou nenhuma semelhan�a tinha com as anteriores. O assistencialismo funcionava como sua marca registrada. Pertencente � elite da sociedade alagoana, as integrantes do Clube da Mulher do Campo t�m sua origem principalmente nos latif�ndios do Estado, cuja presid�ncia nos idos de 1987 estava nas m�os de integrante do grupo Toledo, Sr� L�gia Toledo (propriet�ria da Usina Capricho, um dos maiores conglomerados do a��car no Estado). O Women's Club, semelhante ao Clube da Mulher do Campo, tinha como principal objetivo a distribui��o de alimentos, roupas, cal�ados, al�m de realizar festinhas para m�es, crian�as e natal dos pobres. Suas integrantes eram senhoras da sociedade ou profissionais liberais como m�dicas, advogadas e psic�logas. N�o havia lugar, em ambas as organiza��es, para a mulher da classe baixa. Ficou clara a falta de identifica��o destes dois grupos com uma linha feminista; a preocupa��o maior era essencialmente assistencialista. "Nosso trabalho � importante, pois a mulher do campo n�o tem vez para reivindicar nada", disse � �poca, L�gia Toledo, demonstrando que para o grupo a mulher camponesa n�o tem capacidade de lutar por seus direitos. O F�rum de Mulheres Aut�nomas e o N�celo Tem�tico de Mulheres da Universidade Federal de Alagoas se tratava de grupos abertos, compostos basicamente por integrantes de outras entidades feministas, como Terezinha Ramires, Belmira Magalh�es, Wedna Miranda, N�dia Regina, entre outras, que se reuniam para discutir assuntos variados, como: trabalho, sexualidade, maternidade, viol�ncia. Essa discuss�o ocorria semanalmente envolvendo temas diferentes. Nos grupos como Cema, Cedim e Pr�-Mulher havia uma preocupa��o de se melhorar as condi��es de vida da mulher (preocupa��o principal com o sexo feminino, nunca � categoria como um todo) dentro de uma abordagem que n�o chegava a analisar o funcionamento da sociedade no n�vel das rela��es de produ��o. J� a Uni�o de Mulheres de Macei� - UMMa seguia uma linha que aparentava preocupa��o no questionamento da opress�o da mulher, a cultura patriarcal e mais precisamente com a sociedade como fator principal dessas quest�es. No entanto, como a entidade estava ligada a uma agremia��o pol�tico-partid�ria, a preocupa��o que demonstrava "tentando organizar as mulheres, para que elas pr�prias pudessem tomar suas decis�es" era meramente com objetivos de fortalecer o partido nessas comunidades. As mulheres, particularmente as sem vez e voz dos setores oprimidos, necessitam falar de si mesmas para si mesmas. Em outras palavras: a percep��o que as mulheres t�m de sua situa��o, complementada em outras fontes de informa��o e de an�lise da realidade, necessita, em �ltima inst�ncia, ser revertida em benef�cio das pr�prias mulheres. Mas participa��o ampla atrav�s da percep��o de si mesmo n�o � bem o que observamos nos ditos "conselhos de defesa da mulher" aqui em Alagoas, durante o per�odo pesquisado e na maioria dos outros estados. Ao contr�rio, geralmente formados por uma equipe de conselheiras dirigidas ou subordinadas a uma presidenta, essas entidades, que deveriam atuar com os mais diversos segmentos de mulheres, acabaram perdendo o interesse pela discuss�o, participa��o e transforma��o da realidade discriminat�ria a que ainda est� submetida a mulher. Essas entidades funcionavam, na maioria das vezes, como reprodutoras n�o s� do machismo, mas tamb�m de outras formas de discrimina��o. Compunham, quase sempre, suas diretorias mulheres brancas, n�o coincidentemente da pequena burguesia - classe m�dia- alta. Ter voz e vez nesses conselhos de mulheres se restringia basicamente em fazer parte da diretoria, o que est� limitada a uma pequena parcela. O mais comum foi observarmos nas assembl�ias dessas entidades uma participa��o pequena, quando n�o nula, das mulheres trabalhadoras, que se limitavam a ouvir o resultado das discuss�es, nem sempre favor�veis a elas. N�o se trata de recolher depoimentos numa tentativa basista, ainda comum em educa��o popular e onde, n�o raro, se ouvem afirma��es do tipo: "as mulheres trabalhadoras n�o necessitam que se lhes explique a realidade; elas vivem, elas conhecem; o povo j� tem as respostas". A situa��o de depend�ncia, de subordina��o e de falta de organiza��o adequadas nas quais estamos, questionam fortemente afirma��es como estas. As entidades ligadas � mulher no Estado alagoano, no referido per�odo, no geral, castram a participa��o das camadas s�cio-econ�micas mais baixas, atuando apenas como instrumento assistencialista da ideologia dominante. Por seus padr�es elitistas, essas entidades criavam uma certa barreira entre as mulheres trabalhadoras e suas diretoras. N�o raro, as conselheiras apareciam nas reuni�es trajando a �ltima moda das grandes cidades do Sul do Pa�s. Afirmando n�o concordar com determinadas posi��es pol�ticas e ideol�gicas assumidas por outras entidades, a Uni�o das Mulheres de Macei� - UMMa, que era presidida pela arquiteta Ta�s Normande, tentava manter uma linha "diferente" das outras associa��es: a entidade era ligada ao PCdoB - Partido Comunista do Brasil, e suas integrantes quase sempre n�o faziam parte das outras entidades. Ficou evidente para n�s que fazer parte desta ou daquela entidade de defesa dos direitos da mulher era apenas um instrumento de status. E os interesses da mulher trabalhadora mantidos em segundo plano, quando n�o, esquecidos. 2.3 - MULHER X TRABALHO A participa��o da mulher alagoana no mercado de trabalho, embora em escala menor que na maioria dos outros estados do Pa�s, teve import�ncia consider�vel. A princ�pio esse mercado se deu no �mbito dom�stico, quando as mulheres, vindas da zona rural, e sem m�o-de-obra qualificada, se submetiam a trabalhos n�o remunerados, apenas em troca da alimenta��o e das vestes. Um exemplo t�pico � o da situa��o da empregada dom�stica, que em Alagoas e em outro estados do Nordeste consegue ser mais grave do que em outras regi�es, visto que ainda existe uma marca muito forte do regime colonial e escravagista, principalmente no interior, onde h� mulheres, em sua maioria meninas, que "residem" na casa dos patr�es como empregadas, sendo submetidas a toda sorte de viol�ncia, inclusive n�o recebendo sal�rio, apenas roupas e comida. No geral fazem servi�os de bab� e dom�stica ao mesmo tempo, sem que suas tarefas sejam remuneradas. Existe tamb�m a desvaloriza��o por parte da pr�pria empregada dom�stica, que se envergonha da profiss�o, tem medo de reclamar os seus direitos e muitas vezes se submete ao desconforto, � agressividade e � viol�ncia dos filhos dos patr�es e deles pr�prios, incluindo a viol�ncia sexual e a dificuldade de ter vida privada. Na zona rural, a trabalhadora do campo � tamb�m mais exclu�da de seus direitos. No setor agr�cola n�o s� � elevada a presen�a das n�o remuneradas (39% da popula��o ativa brasileira em 1980), como � quase nulo o acesso �s garantias trabalhistas m�nimas. Em 1983, no Brasil, menos de 7% das trabalhadoras rurais tinham carteira assinada. Em Alagoas esse �ndice � muito mais baixo. Elas trabalham no campo na maioria das vezes para ajudar na economia do lar, no caso das b�ias-frias, e ainda se submetem a outra jornada de trabalho quando chegam em casa no final da tarde e t�m que dar conta dos afazeres dom�sticos. E, quando n�o s�o b�ias-frias, s�o mulheres que colaboram com os companheiros sem que seu trabalho seja remunerado. Essa mulher, explorada e violentada, vive num Estado onde a seca no alto sert�o e o desemprego na zona canavieira castigam de forma t�o violenta os trabalhadores da zona rural quanto a legi�o de favelados que vivem nas encostas de Macei�, como denunciou o extinto jornal-revista �ltima Palavra em abril de 1988, acrescentando que os dados fornecidos pela Delegacia Especial de Defesa da Mulher em Alagoas "s�o dram�ticos e servem, sobretudo, de alerta num momento em que as lideran�as sindicais e os partidos pol�ticos de esquerda cobram do governo a��es administrativas concretas e imediatas contra os altos �ndices de criminalidade, contra os graves problemas sociais que aviltam as condi��es de vida da popula��o e contra a viol�ncia de uma forma geral", destaca o jornal. A discrimina��o contra a mulher se faz sentir quando se trata de assegurar � trabalhadora condi��es adequadas de trabalho e garantias trabalhistas. Em Alagoas a situa��o se agravou com o fechamento das f�bricas de Delmiro Gouveia e Rio Largo e da diminui��o do quadro de funcion�rios da F�brica Carmem, em Fern�o Velho, principal fonte para a m�o-de-obra da mulher t�xtil no Estado. Espa�os diminu�dos e condi��es desfavor�veis de trabalho s�o a marca registrada da presen�a feminina no mercado de trabalho no Estado e no Pa�s, tendo sido despedidas e despejadas, no caso das trabalhadoras da F�brica Carmem, que tiveram que passar a residir na periferia da cidade, aumentando o contingente das favelas, da prostitui��o e da viol�ncia. Apesar do aumento significativo da participa��o das mulheres, o mercado de trabalho brasileiro ainda � um espa�o masculino por excel�ncia, no qual a trabalhadora sofre todo tipo de discrimina��o, concentrada em pequeno n�mero de ocupa��es, em cargos inferiores e recebendo baixos sal�rios, descreve o Caderno do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, n� 01. (16) Segundo esta entidade, embora tenha havido um crescimento na participa��o das mulheres no mercado de trabalho, tanto formal como informal, e, principalmente, nas lutas sociais desencadeadas no Pa�s ao longo dos anos, "os resultados ainda n�o foram suficientemente absorvidos nem pelo Estado nem pela sociedade civil, e nem mesmo pelo conjunto dos trabalhadores". (17) A desigualdade da inser��o da mulher no mercado de trabalho ainda n�o � percebida claramente. "A discrimina��o ocorre e os pr�prios trabalhadores nem sempre se d�o conta dessa situa��o, o que se reflete nas pautas de reivindica��es e nos acordos coletivos". (18) __________________________ (16) - Caderno do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Mulher e Trabalho, n� 01, p. 4 (17) - Ibdem, idem. p. 47 (18) - Ibdem, Idem. p.48 |