2 - O CONTEXTO NACIONAL E ALAGOANO

No Brasil, a participa��o feminina no mercado de trabalho cresceu nos ano de 1950 e desenvolveu-se  na d�cada de 60 com a implanta��o de um modelo econ�mico calcado no arrocho salarial, que  exigiu da mulher uma contribui��o decisiva para a amplia��o nominal  da renda familiar, na tentativa de manter o poder aquisitivo da fam�lia,  o que n�o quer dizer que a  partir da�  o preconceito tenha acabado, como esclarece o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher em seu caderno Mulher e Trabalho. (1)
Mas a participa��o da mulher nos movimentos de reivindica��o de seus direitos n�o se inicia nessa fase,  e sim com o chamado  movimento sufragista, importado  dos Estados Unidos por Bertha Lutz,  que nele  teve grande destaque. Mas,  foi a professora Loeolinda Daltro quem primeiro projetou no Brasil, de forma organizada,  a id�ia  do sufr�gio feminino, como assinala Branca Moreira Alves em Ideologia e Feminismo, A Luta da Mulher Pelo Voto no Brasil (2) , acrescentando  que Leolinda organizou uma passeata em novembro de 1917, com  84 mulheres, que surpreendeu a popula��o do Rio.
No in�cio do s�culo XX, no Brasil, considerava-se a participa��o  da mulher na vida econ�mica como desvio do normal, como infra��o da ordem natural das coisas. A imensa  transforma��o que sofreram  as condi��es da produ��o no decurso das primeiras d�cadas do s�culo obrigou a mulher a adaptar-se �s novas  circunst�ncias criadas  por essa realidade. E � na ind�stria, principalmente  a ind�stria t�xtil, que ocorre  o maior crescimento da m�o-de-obra feminina.
A inclus�o da mulher no mercado de trabalho gerou achatamento  salarial, ficando de todo modo em fun��es menos qualificadas,  impedida de ser promovida  e de ter acesso a cargos de chefia,  como  constata a hist�ria. (3)  Al�m  da n�o aplica��o, concretamente, de "sal�rio  igual  para trabalho igual",  acresce para a mulher trabalhadora  o empecilho de n�o qualifica��o profissional, que a coloca em desvantagem, invalidando este direito.
A participa��o no mercado de trabalho transformou a mentalidade  da mulher quando foi arrancada  do lar,  despertando nela a  consci�ncia  de seu papel na sociedade,  seu esp�rito de protesto e a  luta por seus direitos.
Com a mudan�a de uma economia baseada na agricultura para  uma sociedade  urbana industrializada,  desapareceram as peculiaridades  de fun��es tradicionais (principalmente a partir  da Revolu��o Industrial) e mulheres e homens desempenham  fun��es que ultrapassam a  barreira do sexo. Da� a necessidade  de que, com refer�ncia �s mulheres em geral e as trabalhadoras em particular,  sejam eliminados os  pretextos em nome dos quais ainda � dificultado o acesso a algumas profiss�es. Apesar dos avan�os conquistados, a m�o-de-obra feminina ainda constitui uma reserva em v�rios  setores  da divis�o social do trabalho.
J� a  participa��o das mulheres nos sindicatos, tem se acentuado; uma pesquisa do Conselho  Nacional dos Direitos da Mulher revela que os congressos de mulheres  realizados a partir  de 1978 jogaram um  papel muito importante no processo  de crescimento da participa��o das mulheres, ocupando inclusive cargos diretivos em alguns sindicatos, conforme assinala  o caderno do Conselho. (4)
A luta persistente  da mulher tem tornado sua presen�a  marcante  no mercado de trabalho, at� mesmo naqueles setores  antes privativos dos homens como a avia��o, a diplomacia,  constru��o civil, entre outras atividades.
  Ana Maria Rocha, da Dire��o  Nacional pela Frente de Mulheres do PCdoB - Partido Comunista do Brasil, salienta que "nos �ltimos anos a participa��o da mulher brasileira no mercado de trabalho cresceu numa velocidade  surpreendente e o contingente de trabalhadoras passou de 6 milh�es  para 18,5 milh�es em 1985", o que fez  com que participasse mais nos  movimentos de contesta��o. (5)
  A partir de 1975, com a institui��o do Ano Internacional  da Mulher pela ONU - Organiza��o das Na��es Unidas, ainda segundo  Ana Rocha, ocorreu "um novo impulso  na mobiliza��o  das mulheres por  seus direitos espec�ficos e por uma maior participa��o na defini��o  dos rumos pol�ticos da na��o". Essa mobiliza��o gerou amplas conquistas na lei, como as que asseguram  � mulher a igualdade de direitos, com as possibilidades semelhantes aos do homem no campo da instru��o e da forma��o  profissional.
Outro aspecto a ser considerado, no que diz respeito �s conquistas do movimento de mulheres, � que a promulga��o da Constitui��o facultou-lhe a igualdade nas atividades s�cio-pol�ticas e culturais, determinando, por exemplo, os 120 dias de licen�a-maternidade, reconhecendo-a como uma fun��o  social; aprovou a licen�a-paternidade de oito dias, entre outros itens.
Mas apesar desses avan�os na lei,  muito do que foi aprovado na Constitui��o de 1988 � descumprido por  algumas empresas no Pa�s, que se recusam a cumprir a lei. Um exemplo foi a den�ncia na imprensa de que algumas f�bricas no Sul do Pa�s estavam exigindo atestado de laqueadura e exame de xixi, no sentido de detectarem se a mulher estava gr�vida ou em fase reprodutiva. Nesse aspecto, � necess�rio que haja desempenho pol�tico para que os direitos adquiridos na lei sejam garantidos, na pr�tica, como a que determina a instala��o de creches nos locais de trabalho para as empresas que tenham mais de 50 funcion�rias. 

2.1 - O MOVIMENTO DE MULHERES EM ALAGOAS

A participa��o das mulheres na hist�ria de Alagoas n�o ficou desapercebida. Observamos que em muitos momentos,  ainda que em  pequena escala, houve mulheres que se destacaram,   muitas vezes isoladamente e poucas de forma organizada.
Algumas das mais antigas informa��es datam de 1602 e fazem refer�ncias �s quilombolas, que al�m  de ajudar os homens na planta��o  e na ca�a,  empreendiam r�pidas fugas e lutavam  contra os invasores  (fazendeiros, bandeirantes e capit�es do mato) dos quilombos.  Dentre elas, uma se destaca de forma mais expressiva: Alquatune,  m�e de Ganga  Zumba, primeiro chefe o Quilombo dos Palmares. Princesa  na  �frica, foi transformada em escrava e vendida para um dos engenhos de a��car da capitania de Pernambuco (que abrangia  o territ�rio  alagoano). Pertencia � tribo dos Ardas, que se destacavam  pela  intelig�ncia, talento art�stico e principalmente pela rebeldia. A agilidade  nas fugas e a disposi��o para a guerra,  quando se tratava  de defender a Rep�blica Negra , era  o que mais chamava a aten��o em Alquatune e a distinguia das outras mulheres do quilombo. (6)
Outras informa��es s�o do  s�culo  XIX, quando duas alagoanas, B�rbara de Alencar e Ana Lins, esta natural de S�o Miguel dos Campos, lutaram  nos campos de batalha da Confedera��o do Equador, numa �poca em que a mulher mal ousava sair de casa e a discrimina��o era bastante  acentuada. (7)
No entanto,  � somente  no s�culo XX que tem in�cio  a luta  da mulher em busca de um espa�o efetivo na sociedade.  Em Alagoas a organiza��o de mulheres atrav�s  de associa��es � iniciada na d�cada de 30, quando foi fundada a FAPF - Federa��o Alagoana Pelo Progresso  Feminino, funcionando como n�cleo estadual da Federa��o Brasileira, liderada  pela feminista Bertha Lutz. Aqui a entidade  esteve ligada � figura  da m�dia Lily Lages, sua fundadora e presidenta por quase  duas d�cadas.
A Federa��o Alagoana, tal como  a Brasileira, era formada  por mulheres da burguesia, o que a tornou bastante  elitizada. A primeira  diretoria estava constitu�da da seguinte  forma: presidenta de  honra, No�mia L�cio (pianista); presidenta efetiva, Lily Lages (m�dica); secret�ria, Linda Mascarenhas (atriz); tesoureiras, Georgina  Casado e Maria Alice Braga Neto; oradora; Flora Ferras (escritora);  bibliotec�ria, Hilda Calheiros e Miriam Lima.
Em entrevista concedida � nossa equipe, � �poca das pesquisas para este trabalho, Lily Lages disse que o principal  objetivo da federa��o era coordenar e orientar os esfor�os  da mulher, elevando  seu n�vel cultural  e evidenciando suas atividades na vida p�blica, intelectual, dom�stica e pol�tica, e tamb�m  obter  garantias legislativas  e pr�ticas para o trabalho feminino e assegurar  os direitos pol�ticos que  a Constitui��o confere. (8)
Apesar disso n�o havia na federa��o uma percep��o maior  sobre o papel da mulher na sociedade, como tamb�m  n�o havia clareza  na quest�o da opress�o do sexo feminino, especificamente, no modo  de produ��o capitalista.
Se por um lado a Federa��o Alagoana se preocupava com a  participa��o efetiva da mulher no �mbito cultural e pol�tico, por  outro lado desenvolvia um assistencialismo claro na periferia,  como  festas de m�es,  natal dos velhinhos e distribui��o de enxovais, por exemplo,  evidenciando que a pr�tica era diferente  para segmentos  distintos. Ou seja, a luta n�o era conjunta; a oper�ria, a dom�stica e outras mulheres de classe social mais baixa apenas recebiam (verticalmente), n�o tendo acesso ao interior e ao processo de trabalho da FAPF, que exigia dedica��o plena,  n�o dando oportunidade de participa��o  � mulher trabalhadora. Ao mesmo tempo em que se reconhece  a necessidade de uma participa��o maior na sociedade, mant�m-se  as responsabilidades dom�sticas intactas,  ao lado do surgimento de um  certo tipo de solidariedade para com as mulheres oper�rias, advogando-se meias  solu��es, baseadas no assistencialismo.
A  Federa��o Alagoana nas d�cadas  de 30 e 40 teve uma "exist�ncia marcante", segundo Solange Lages (9). O principal trunfo das  s�cias era justamente  sua posi��o social, que lhes facilitava o acesso  tanto aos pol�ticos quanto � imprensa. A quest�o pol�tica  era discutida de federa��o para federa��o e o objetivo   mais buscado  era a  aprova��o do voto feminino e sua inclus�o na Constitui��o, o que  aconteceu  em 1932. Acreditava-se que o voto seria  a principal  arma na  trajet�ria  da mulher na sociedade.
Grande parte das integrantes da FAPF colaboravam  nos jornais da �poca, com colunas pr�prias, e atuavam tamb�m no r�dio, onde divulgavam as atividades e objetivos da Federa��o. Fato importante  no r�dio alagoano foi  a implanta��o de um programa  para a  mulher em 1934, liderado  por Rosa do Carmo Pereira (integrante  da Federa��o) e intitulado Eva em A��o. Entrevistas, receitas culin�rias,  bate-papo com ouvintes sobre sa�de,  trabalho e artes eram os quadros do programa, transmitido pela Difusora, r�dio  oficial  do Estado. (10)
Na pol�tica, a atua��o da Federa��o foi significativa nas  elei��es de 1934, quando elegeu Lily Lages a primeira deputada  estadual alagoana, com 13.891 votos. Sua atua��o na Assembl�ia  Legislativa foi uma extens�o do trabalho realizado na FAPF. Os maiores  entraves  encontrados  foram a  discrimina��o e persegui��o por parte de  alguns parlamentares que n�o aceitavam sua elei��o, por ser mulher.  Na d�cada  de 50 duas outras  alagoanas, Rosa do Carmo Pereira  e Maria Jos�  Palmeira, concorreram � Assembl�ia Legislativa,  mas n�o conseguiram  se eleger. (11)
A Federa��o Alagoana pelo Progresso Feminino esteve ativa  at� meados da d�cada  de 50,  esvaziando-se  em conseq��ncia do desinteresse  das associadas.  Em 1945 houve troca  de diretoria e a presid�ncia  passa de Lily Lages para Linda Mascarenhas, que permaneceu na dire��o at� a conclus�o deste trabalho (setembro de 1988) e veio a falecer no in�cio dos anos 90.
Depois da FAPF, at� o final dos anos 60, n�o houve  nenhuma  manifesta��o nem forma��o de associa��es de mulheres em Alagoas. Somente no final da d�cada  de 70  �   que ocorreu um ressurgimento  do  movimento feminista,  com o aparecimento das organiza��es.
At� 1987 existem em  Alagoas  seis associa��es  de mulheres:  Centro da Mulher Alagoana -  CEMA, Uni�o de Mulheres de Macei� - UMMa, Pr�-Mulher, Conselho Estadual de Defesa dos Diretos da Mulher - Cedim,  Clube da Mulher do Campo e Womens's Club.  Havia tamb�m  grupos feministas  independentes, como o F�rum de Mulheres Aut�nomas e o N�celo  Tem�tico de Mulheres,  composto  de professoras e alunas de Servi�o Social da Universidade Federal de Alagoas. Contudo, apenas as quatro primeiras atuavam como organiza��es ditas feministas.
Entre o movimento feminista da d�cada de 30 e o at� ent�o estudado, n�o se  pode afirmar que n�o existem diferen�as  acerca  da concep��o da opress�o  da mulher como fator fundamental de qualquer trabalho de conscientiza��o a ser desenvolvido e o entendimento de que � na rela��o de poder  homem-mulher, conforme refletido na estrutura  familiar, que se encontra  o cerne da opress�o do sexo.
O movimento da d�cada  de 30 n�o teve alcance entre as mulheres  da classe baixa. Ficou restrito a segmentos  da elite,  principalmente  no que se refere � participa��o nas associa��es.  Nesse ponto  n�o  h� muita diferen�a  entre essas associa��es feministas do Estado, estudadas at� o ano de 1987.
As entidades de mulher que atuavam em Alagoas estavam separadas fortemente pela ideologia, onde as principais  diverg�ncias  eram oriundas  de quest�es pol�tico-partid�rias. Para Wedna Miranda, � �poca presidenta do Cema, "a partidariza��o atrapalha sensivelmente o trabalho das associa��es,  pois a quest�o da mulher � �nica e n�o pode estar  atrelada  a partidos  pol�ticos". (12) J� Ta�s Normande,  que exerceu a presid�ncia da UMMa e em 1987 atuava na Associa��o dos Docentes da Ufal,   contestou esta afirma��o: "Acredito  que a quest�o pol�tica e a partidariza��o  das feministas � importante  no processo  de organiza��o das mulheres, para  transforma��es mais profundas na sociedade". (13)
Os m�todos  de trabalho de cada associa��o, apesar de se  assemelharem em alguns pontos, divergiam em outros.  A Associa��o Pr�-Mulher atuava  principalmente  no bairro do Jacintinho, realizando  um trabalho de "conscientiza��o". Sua presidenta, Heli�nia Ceres, nos  disse que "a mulher n�o deve ser conscientizada apenas politicamente,  mas principalmente  como mulher". Esse trabalho consistia  na realiza��o de palestras  peri�dicas sobre sa�de,  trabalho,  viol�ncia, etc.  Nessa forma  de  atua��o,  o maior problema era a depend�ncia  assumida  pelas mulheres daquele bairro em rela��o ao Pr�-Mulher, pois os questionamentos e a  discuss�o sobre os problemas  delas s� eram discutidos quando aconteciam os encontros  entre  as mulheres e a associa��o.
O Centro da Mulher Alagoana tamb�m trabalhava com mulheres  da  periferia, no bairro  Salvador Lyra. A atua��o do Cema partia de  conversa individual com a mulher,  para s� ent�o, a partir da experi�ncia  de cada uma,  socializar e discutir  as principais  quest�es que envolvem o sexo feminino.
Para a Uni�o de Mulheres de Macei�, a preocupa��o maior  estava em  organizar  as mulheres, dando oportunidade para que elas  pr�prias  pudessem tomar  decis�es. Desse modo, em cada �rea que atuava,  como Vergel do Lago,  Ponta Grossa, Vila Aratu, Ch� de Jaqueira e Bebedouro, a  UMMa organizava entre as moradoras uma diretoria  pr�pria,  onde  discutiam seus principais  problemas, tentando resolv�-los sem o aux�lio cont�nuo da associa��o.  Quando entrevistada nessa �poca,  a presidenta Ta�s Normande afirmou que "esse trabalho  � importante,  pois ir�  dar oportunidade de iniciativa  e organiza��o �s  mulheres das camadas  mais baixas". (14)
O Cedim, por sua vez, n�o tinha um trabalho dirigido  especificamente para a periferia. Sua atua��o estava pautada principalmente nas den�ncias de vol�ncia contra a mulher e a discrimina��o  de um modo geral, atrav�s  de �rg�os da imprensa e junto ao governo estadual.
Para Terezinha Ramires, � �poca presidenta  do Cedim, "� muito  dif�cil trabalhar  dentro do Conselho, pois as diverg�ncias  ideol�gicas  s�o fortes entre as conselheiras, n�o havendo espa�o para objetivos transformadores". (15)
  As duas  �ltimas  associa��es, Clube da Mulher do Campo e Women's Club, possu�am  uma linha  de trabalho  que pouca ou nenhuma  semelhan�a  tinha com   as anteriores.  O assistencialismo funcionava como sua marca  registrada. Pertencente � elite da sociedade alagoana,   as integrantes  do Clube da Mulher do Campo  t�m sua origem  principalmente nos latif�ndios do Estado, cuja presid�ncia nos idos de 1987 estava  nas m�os de integrante do grupo  Toledo, Sr� L�gia Toledo (propriet�ria  da Usina  Capricho, um dos maiores conglomerados do a��car no Estado).
O Women's Club, semelhante ao Clube da Mulher do Campo,  tinha como  principal objetivo a distribui��o  de alimentos,  roupas,  cal�ados, al�m de realizar  festinhas  para m�es,  crian�as  e natal dos pobres.  Suas integrantes eram senhoras da sociedade ou profissionais liberais como m�dicas, advogadas e psic�logas.  N�o havia lugar, em ambas as organiza��es, para a mulher  da classe baixa.
Ficou clara a falta  de identifica��o destes dois grupos  com uma linha feminista; a preocupa��o maior era essencialmente assistencialista. "Nosso trabalho � importante, pois a  mulher do campo  n�o tem  vez para reivindicar nada", disse � �poca, L�gia Toledo,  demonstrando que para  o grupo  a mulher  camponesa  n�o tem  capacidade de lutar  por  seus direitos.
O F�rum  de Mulheres  Aut�nomas e o N�celo Tem�tico de Mulheres  da Universidade Federal  de Alagoas  se tratava de grupos abertos, compostos basicamente por integrantes  de outras entidades feministas, como Terezinha Ramires, Belmira  Magalh�es, Wedna Miranda, N�dia Regina, entre outras, que se reuniam para discutir  assuntos  variados, como:  trabalho, sexualidade, maternidade, viol�ncia.  Essa discuss�o ocorria semanalmente envolvendo  temas diferentes.
Nos grupos como Cema, Cedim e Pr�-Mulher havia uma   preocupa��o  de se melhorar  as condi��es  de vida da mulher (preocupa��o principal com o sexo feminino, nunca � categoria como um todo) dentro de uma abordagem que n�o  chegava a analisar o funcionamento  da sociedade no n�vel  das rela��es de produ��o.
J� a  Uni�o de Mulheres de Macei� - UMMa seguia uma linha que  aparentava  preocupa��o no questionamento  da opress�o da mulher, a cultura patriarcal e mais precisamente com a sociedade como fator principal dessas quest�es. No entanto, como a entidade estava ligada a uma agremia��o pol�tico-partid�ria, a preocupa��o que demonstrava "tentando organizar as mulheres, para que elas pr�prias pudessem tomar suas  decis�es" era meramente com objetivos de fortalecer o partido nessas comunidades. 
As mulheres, particularmente as sem vez  e voz dos setores  oprimidos, necessitam  falar de si mesmas para si mesmas. Em outras palavras: a percep��o que as mulheres  t�m de sua situa��o, complementada em outras  fontes de informa��o e de an�lise da realidade, necessita, em �ltima inst�ncia, ser revertida em benef�cio das pr�prias mulheres.
Mas participa��o ampla atrav�s  da percep��o de si mesmo n�o � bem o que observamos nos ditos "conselhos de defesa da mulher" aqui em Alagoas, durante o per�odo pesquisado e na maioria dos outros estados.  Ao contr�rio,  geralmente formados por uma equipe de conselheiras dirigidas ou subordinadas a uma presidenta, essas entidades, que deveriam atuar com os mais diversos segmentos de mulheres, acabaram perdendo  o interesse pela discuss�o, participa��o e transforma��o da realidade discriminat�ria a que  ainda est� submetida a mulher.
Essas entidades funcionavam, na maioria das vezes, como reprodutoras n�o s� do machismo, mas tamb�m de outras formas de discrimina��o. Compunham, quase sempre,  suas diretorias mulheres brancas, n�o coincidentemente da pequena burguesia - classe  m�dia- alta.
Ter voz e vez nesses conselhos de mulheres se restringia basicamente em fazer parte  da diretoria,  o que est� limitada a uma pequena parcela. O mais comum foi observarmos  nas assembl�ias dessas entidades uma participa��o pequena, quando n�o nula, das mulheres  trabalhadoras, que se limitavam  a ouvir o  resultado das discuss�es, nem sempre  favor�veis a elas.
N�o se trata de recolher depoimentos numa tentativa basista, ainda comum  em educa��o popular e onde,  n�o raro, se ouvem afirma��es do tipo: "as mulheres trabalhadoras  n�o necessitam que se lhes explique a realidade; elas vivem, elas conhecem; o povo j�  tem as respostas".  A  situa��o de depend�ncia, de subordina��o e de falta de organiza��o adequadas nas quais estamos, questionam fortemente afirma��es como estas.
As entidades ligadas � mulher no Estado alagoano, no referido per�odo,  no geral,  castram a participa��o das camadas  s�cio-econ�micas mais baixas,  atuando apenas como instrumento  assistencialista da ideologia dominante.
Por seus padr�es elitistas,  essas entidades criavam uma certa barreira entre as  mulheres trabalhadoras e suas diretoras. N�o raro, as conselheiras apareciam nas reuni�es trajando  a �ltima moda das grandes cidades do Sul do Pa�s.
Afirmando n�o concordar  com determinadas posi��es pol�ticas  e ideol�gicas assumidas por outras entidades, a Uni�o das Mulheres de Macei� - UMMa,  que era  presidida  pela arquiteta Ta�s Normande, tentava  manter  uma linha  "diferente" das outras associa��es: a entidade era ligada ao PCdoB - Partido Comunista do Brasil, e suas integrantes quase sempre  n�o faziam parte  das outras entidades.
Ficou evidente para n�s que fazer parte desta ou daquela entidade de defesa  dos direitos da mulher era apenas  um instrumento de status. E os interesses da mulher trabalhadora mantidos  em  segundo plano, quando n�o, esquecidos.

2.3 - MULHER X TRABALHO

A participa��o da mulher alagoana no mercado de trabalho, embora em escala menor que na maioria dos outros estados do  Pa�s,  teve import�ncia consider�vel.  A princ�pio esse  mercado se deu  no �mbito dom�stico,  quando as mulheres, vindas da zona rural,  e sem  m�o-de-obra qualificada, se submetiam a trabalhos n�o remunerados, apenas em troca  da alimenta��o e das vestes.
Um  exemplo t�pico � o da situa��o da empregada  dom�stica, que em Alagoas e em outro estados do Nordeste consegue ser mais grave do que em outras regi�es, visto que ainda existe  uma marca  muito forte  do regime colonial e escravagista, principalmente no interior,  onde h�  mulheres,  em sua maioria meninas,  que "residem" na casa dos patr�es como empregadas, sendo submetidas  a toda sorte  de viol�ncia, inclusive  n�o recebendo sal�rio,  apenas roupas e comida.  No geral fazem servi�os de bab� e dom�stica ao mesmo tempo,  sem que suas  tarefas sejam  remuneradas.
Existe tamb�m a desvaloriza��o por parte da pr�pria empregada dom�stica, que  se envergonha da profiss�o, tem medo de reclamar os seus  direitos e muitas vezes se submete ao desconforto, � agressividade e � viol�ncia dos filhos dos patr�es e deles pr�prios,  incluindo  a viol�ncia sexual e a dificuldade de ter vida privada.
Na zona rural,  a trabalhadora do campo � tamb�m  mais exclu�da de seus direitos. No setor agr�cola n�o s� � elevada a presen�a  das  n�o remuneradas (39% da popula��o ativa brasileira em 1980), como �  quase nulo o acesso  �s garantias trabalhistas m�nimas.  Em 1983, no  Brasil,  menos de 7%  das trabalhadoras  rurais tinham   carteira assinada. Em Alagoas esse �ndice � muito mais baixo.
Elas trabalham  no campo na maioria das vezes para ajudar  na economia do lar,  no caso  das b�ias-frias, e ainda  se submetem a outra  jornada  de trabalho quando chegam em casa no final  da tarde e t�m  que dar conta dos afazeres dom�sticos. E, quando n�o s�o b�ias-frias, s�o mulheres que colaboram  com os companheiros sem que seu trabalho seja remunerado.
Essa mulher,  explorada  e violentada, vive  num Estado onde a seca no alto sert�o e o desemprego na zona canavieira castigam  de forma t�o violenta os trabalhadores da zona rural quanto a legi�o de favelados que vivem  nas encostas de Macei�,  como denunciou o extinto jornal-revista �ltima Palavra em abril de 1988, acrescentando que os dados  fornecidos pela Delegacia Especial  de Defesa da Mulher em Alagoas  "s�o dram�ticos e servem,  sobretudo,  de alerta num momento em que as lideran�as  sindicais e os partidos pol�ticos de esquerda cobram do  governo a��es administrativas concretas e imediatas contra os altos  �ndices  de criminalidade, contra os graves problemas  sociais que aviltam  as condi��es  de vida  da popula��o  e contra a viol�ncia de uma  forma geral", destaca o jornal.
A discrimina��o  contra a mulher se faz  sentir quando se trata de assegurar � trabalhadora condi��es  adequadas de  trabalho e garantias trabalhistas. Em Alagoas a situa��o se agravou com o fechamento das f�bricas de Delmiro Gouveia e Rio Largo e da diminui��o do quadro de funcion�rios da F�brica Carmem, em Fern�o Velho, principal fonte para a m�o-de-obra da mulher t�xtil no Estado.
Espa�os diminu�dos e condi��es desfavor�veis de trabalho s�o a marca registrada da presen�a feminina no mercado de trabalho no Estado e no Pa�s, tendo sido despedidas e despejadas, no caso das trabalhadoras da F�brica Carmem, que tiveram  que passar a residir na periferia  da cidade, aumentando o contingente  das favelas, da prostitui��o e da viol�ncia.
Apesar do aumento significativo da participa��o das mulheres, o mercado de trabalho brasileiro ainda � um espa�o masculino por excel�ncia, no qual a trabalhadora sofre todo tipo  de discrimina��o, concentrada em pequeno n�mero de ocupa��es, em cargos inferiores e recebendo baixos sal�rios, descreve o Caderno do Conselho Nacional dos Direitos  da Mulher, n� 01. (16)
Segundo esta entidade,  embora tenha havido um crescimento na participa��o das mulheres  no mercado  de trabalho, tanto  formal  como informal, e, principalmente, nas lutas sociais desencadeadas no Pa�s ao longo dos anos, "os resultados ainda  n�o foram suficientemente absorvidos nem pelo Estado nem pela sociedade civil,  e nem mesmo pelo conjunto dos trabalhadores". (17)
A desigualdade da inser��o da mulher no mercado de trabalho ainda n�o � percebida claramente. "A discrimina��o ocorre e os pr�prios trabalhadores nem sempre se d�o conta dessa situa��o, o que se reflete nas pautas de reivindica��es e nos acordos coletivos". (18)



















__________________________
(16) - Caderno  do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Mulher e Trabalho, n� 01,  p. 4
(17) - Ibdem, idem. p. 47
(18) - Ibdem, Idem. p.48
Hosted by www.Geocities.ws

1