| Mem�rias de mim Ol�via de C�ssia Correia de Cerqueira Escrever minhas mem�rias foi um desejo que sempre mantive dentro de mim. Esta tarefa � a de escrever sobre o que se passa comigo -, exerci por muito tempo, durante a adolesc�ncia e muito depois, mas o h�bito foi minguando e ficou restrito apenas �queles momentos de infort�nio e desilus�o amorosas e depois sobre as decep��es no trabalho e fui abandonando-o aos poucos, � medida que as coisas iam se acomodando na vida, s� lembrando de faz�-lo quando ficava em situa��o de conflito interior, de solid�o ou ang�stia e n�o encontrava com quem desabafar. Tenho consci�ncia de que �s vezes carrego um pouco nas tintas e chego a acreditar que estou � beira do desespero e do abismo, angustiada e sozinha, talvez para escapar da tal ang�stia interior que os analistas poderiam explicar melhor do que eu. Mas esse n�o � o caso, agora. N�o estou me sentindo s�, apesar de estar acompanhada apenas do meu c�o de estima��o, o Nestor, e da minha gatinha, a doce Juventina. Como ando �s voltas e entusiasmada com a perspectiva de que um certo projeto alternativo venha a dar certo, sinto-me estimulada para escrever e a inspira��o me anda � solta. Resolvi voltar a escrever sobre a vida, sobre tudo e sobre mim, perder o medo e deixar de pensar que os outros v�o achar meu texto ruim. Se eu tivesse que escrever as minhas mem�rias, acho que teria que come�ar l� pela minha inf�ncia, em Uni�o dos Palmares, minha terra natal, onde est�o fincadas as minhas ra�zes. Mas j� n�o tenho a mem�ria agu�ada de antes, mesmo assim retomo alguns fatos e opini�es que j� emiti em outras ocasi�es, em outros escritos, particulares ou n�o. Na �Cr�nica da inf�ncia perdida�, publicada no extinto jornal O Rel�mpago, de Uni�o dos Palmares, escrevi que ser adolescente nas d�cadas de 60 e 70 em Uni�o era conviver com a febre dos modismos, era n�o se importar com o que acontecia no Pa�s. Foi assim durante a nossa adolesc�ncia, onde viv�amos preocupados com os amigos e com tudo aquilo que pod�amos fazer em se tratando de divers�o e �arte�. Para n�s era �proibido proibir�, e se nos proibissem de fazer algo, a� sim, nos empenh�vamos em desobedecer. �ramos os filhos da ditadura militar e n�o t�nhamos consci�ncia de como a nossa aliena��o agradava �queles que estavam no poder. Na escola, n�o nos informavam sobre o que estava ocorrendo no Pa�s e vivemos um per�odo de total desinforma��o. O Brasil atravessava um dos seus piores momentos em termos de falta de liberdade, mas a juventude da nossa gera��o se rebelava pregando a paz e o amor e a liberdade acima de tudo, num gesto muitas vezes inconsciente. A liberdade que preg�vamos era aquela do tudo poder fazer sem a interven��o dos nossos pais, que de certa forma preocupavam-se em n�o nos ver metidos com os �comedores de criancinhas�, id�ia transmitida pelo regime militar para definir as pessoas ligadas a movimentos pol�ticos, os comunistas e libert�rios, homens e mulheres, que sacrificaram suas pr�prias vidas para verem o Pa�s livre da falta de liberdade de manifesta��o. Assim nos foi transmitida a id�ia do que era ser comunista. Evidente que n�o acredit�vamos em t�o fantasiosa hist�ria; al�m do mais, como t�nhamos a id�ia da contesta��o na cabe�a, n�o lig�vamos muito para tais preocupa��es, mesmo sem ter a clareza do que fossem tais ideais. Mas essa n�o era a nossa quest�o, pelo menos n�o a da maioria da juventude interiorana, da gera��o nascida em 60, da pequena cidade de Uni�o dos Palmares, terra de Zumbi, her�i da liberdade. Os dez primeiros anos da inf�ncia foram de muito conv�vio com meus av�s, que me faziam todos os gostos, principalmente meu av� materno que encobria sempre as minhas malcria��es e impedia que minha m�e me batesse, quando cometia algum desfeito. Relembrando a inf�ncia perdida, tenho uma vaga lembran�a de uma das boas que fiz. Um certo dia cometi n�o sei qual o mal feito e minha m�e me jurou uma boa surra. N�o pensei duas vezes: fiquei escondida debaixo da cama e l� fiquei o dia inteiro, chegando a dormir. Causei o maior reboli�o e meus pais j� achavam que tivesse morrido afogada nas �guas do rio Munda�. Meu irm�o mais velho, desesperado, foi para o quarto chorar o meu �desaparecimento�, quando percebeu o meu esconderijo. A� todos festejaram o achado e eu me livrei de uma boa surra. A chegada da adolesc�ncia me trouxe muitas incertezas e muitas tristezas. Al�m do mais, as diverg�ncias e os conflitos de gera��es se acentuavam cada dia mais e a partir dos meus 14 anos eu n�o admitia que algu�m me dissesse o que devia fazer. Tinha sonhos de transformar o mundo com meus ideais, enfrentei ou pelo menos tentei enfrentar todas as barreiras que surgiam. E elas n�o foram poucas. Ach�vamos, eu e a maioria das meninas e meninos da minha idade, que a nossa juventude e o nosso amor pela liberdade e pelos amigos seriam capazes de derrubar os preconceitos da �poca. Havia de nossa parte uma necessidade de afirma��o, uma busca constante do novo, do inusitado, do desconhecido. Percorremos caminhos diversos e antag�nicos e cada um foi pro seu lado. Os sonhos, as vontades, os amores, tudo nos era proibido. Quanta priva��o alguns tiveram que passar para encontrar os seus caminhos, as suas dire��es!? Em Uni�o dos Palmares vivi os mais importantes dias da minha vida. Ali nasci, me criei, estudei at� o antigo gin�sio, fiz amizades, conquistei muito espa�o, cultivei meus sonhos, meus amigos, vivi meus amores de juventude e, � �poca, as viv�ncias mais profundas. Na nossa �nsia de saborear cada minuto da vida, o mundo l� fora n�o nos incomodava, a n�o ser quando sonh�vamos com lugares ex�ticos e distantes, onde pud�ssemos desfrutar da liberdade que quer�amos alcan�ar a qualquer pre�o. Ainda rememorando Uni�o, os finais de semana na cidade, na d�cada de 70, eram ricos em op��es para n�s, juventude da �poca. Aos s�bados e domingos todos os jovens e adultos tinham como refer�ncia as se��es do saudoso Cine Imperatriz onde �amos arriscar uma paquera. A maioria das adolescentes da turma paquerava o mesmo garoto e cada uma reservava uma poltrona do cinema do seu Armando, � espera de ser a escolhida pelo tal rapaz. Aos s�bados, nosso lazer da tarde, isso no in�cio dos anos 70, era assistir ao programa do saudoso Luiz Tojal, �S�bado Maior�, transmitido pela rec�m-criada TV Gazeta, na casa de Eliane Godoy, hoje Aquino. L�, em casa de Eliane, form�vamos um grupo de amigos queridos e quando terminava o programa nos junt�vamos nas escadarias do Grupo Escolar Rocha Cavalcante, para conversar sobre amenidades e ouvir as nossas m�sicas preferidas ou fazer outra brincadeira qualquer, pr�pria da idade. Eliane, j� �quela �poca, tinha na veia a verve da escrita e escrevia hist�rias de amor com cada uma de n�s, nos colocando como personagem principal dos romances, sempre realizando as nossas doces fantasias. Um circo, tipo lona furada, foi durante um certo tempo a atra��o de Uni�o dos Palmares. Ficava armado no p�tio da Esta��o Ferrovi�ria, hoje quadra municipal e sede da Prefeitura do munic�pio. O circo tinha duas atra��es principais: o palha�o Facilita e o gal� Iran, que despertava nas adolescentes uma certa atra��o. E l� ia Eliane Godoy escrevinhar contos de amor, onde o pr�ncipe encantado era o Iran ou era o Facilita. Tive o prazer de conviver em Uni�o dos Palmares com v�rias gera��es e delas tirei ensinamentos. Em cada �poca surgia uma turma que se destacava mais na sociedade palmarina, fosse pela rebeldia, pela falta do que fazer, ou por outro motivo qualquer. Fui participante de quase todas elas da minha faixa et�ria. No col�gio Santa Maria Madalena, as meninas driblavam a diretora de disciplina, Isaurinha Oliveira; os meninos tamb�m aprontavam das suas. Costumavam ficar perto do tanque que abastecia o col�gio, para ver as calcinhas das meninas, quando passavam por perto do tanque, pois nossas saias eram muito curtinhas. Os bailes da Palmarina (o clube da cidade) encantavam a todos n�s e atra�am pessoas da redondeza, jovens e adultos de outros munic�pios, de Macei� e de Recife. Era a oportunidade de fazermos novos amigos, ampliarmos nossos gostos musicais, enfim, de conviver em sociedade. O ponto culminante, no entanto, sempre foi a festa da padroeira, Santa Maria Madalena, em que nas nove noites se davam os encontros festivos e animados. Tempo de rever os amigos que ficavam ausentes durante todo o ano, de falar do passado, de falar da vida, falar de n�s. Como disse o colega Iremar Marinho, em artigo publicado no extinto jornal O Rel�mpago, � doce lembrar Uni�o, num tempo em que n�o havia tanta viol�ncia, n�o havia tanta maldade e os relacionamentos eram puros e fraternos. Mas a minha j� distante adolesc�ncia n�o se pautou apenas em momentos doces como os que acabo de relatar. Tive muitos conflitos de gera��es com meus familiares, em especial com a minha m�e, quando comecei a me interessar pelos rapazes. Atravessar a fase da adolesc�ncia foi muito dif�cil e at� hoje essas quest�es se refletem no dia-a-dia da minha vida, como se n�o tivessem ficado bem resolvidas, sem os esclarecimentos devidos. Vivi muitas �desilus�es amorosas� e, na minha ingenuidade de �menina-mo�a�, acreditava nas pessoas, nos amigos, e pensava que tinha encontrado o �pr�ncipe encantado�, o �verdadeiro amor�. E quanto mais me proibiam de amar e de viver aquele sentimento, mais eu me apaixonava. Estava com 17 anos, no come�o da vida, na �flor da idade�, como diziam l� no interior. N�o cheguei ao fundo do po�o porque tive muito apoio das m�es das minhas amigas, das pr�prias amigas e da f� que sempre tive e tenho em Deus. Ainda guardo o carinho fraterno e materno de pessoas como d. Zefinha, d. Maria, D. Sebastiana, d. Rosa e tantas outras m�es como posteriormente e muito depois, a saudosa dona Jacy, a quem eu devo um grande carinho. Essas mulheres a quem presto homenagem aqui, souberam me ouvir, me aconselhar e me encaminhar para os caminhos da verdade, da vida e de Deus. Ler muito e escrever poemas e di�rios sempre foi uma v�lvula de escape diante de tudo o que j� passei. Tenho quase certeza de que at� a escolha da minha profiss�o tenha sido um reflexo disso tudo. A op��o por Jornalismo foi por gostar muito a profiss�o, por achar que a carreira me libertaria de alguns traumas da inf�ncia e da adolesc�ncia, sonhando um dia ser reconhecida pelos meus esfor�os, apesar de achar que esse dia ainda n�o chegou. Quando escolhi fazer jornalismo, n�o recebi muito apoio familiar. Pelo contr�rio. Minha m�e, quando eu cheguei em casa me achando a �vitoriosa� por ter entrado na faculdade de Comunica��o Social, depois do resultado das provas, afirmou secamente e sem no��o do que estava dizendo: �o curso � t�o ruim que foi o �ltimo a sair o resultado na televis�o�. A �retumbante� frase me soa nos ouvidos at� hoje e me marcou profundamente. Diferente da maioria dos meus colegas, n�o ingressei na profiss�o da forma que sonhava, em reportagem. Quando estava no �ltimo ano do curso consegui meu primeiro emprego em jornal na fun��o de revisora, no jornal Gazeta de Alagoas, em 1987. Esta fun��o do jornalismo, estranhamente, n�o tem valor para a maioria dos profissionais, o que me fez perder um pouco o tal �tes�o�, n�o pela profiss�o, mas pelo que ela significava para mim. Comecei a ter medo de escrever e medo de que meu texto pudesse ser reprovado pela maioria da categoria. E me deixei ficar temerosa em escrever, mesmo sabendo que tenho potencial a ser explorado e que no mercado e em grandes jornais est�o profissionais que escrevem muito ruim. Muito, mas muito pior que eu, �mod�stia �s favas�. Me angustio e prometo a mim mesmo que vou voltar a escrever com mais freq��ncia, pelo menos para desabafar, como estou fazendo agora, no sentido de recuperar as minhas mem�rias e o tempo perdido, j� que considero importante registrar cada momento da vida. Lastimo o ato impensado que cometi, num momento de muita raiva, quando em uma das brigas que tive com mam�e, queimei todos os meus di�rios, porque eles tinham sido violados por ela e por um dos meus irm�os, que era um verdadeiro �c�o de guarda� na vigil�ncia serrada que fazia dos meus passos de adolescente. O tempo passou e hoje, apesar de tudo, posso afirmar que compreendo certas atitudes tomadas contra(?) mim apesar de ainda carregar muita ang�stia de tudo aquilo que me fizeram (?). Mas preciso soltar esses bichos que insistem em viver dentro de mim. � preciso descarregar todo esse peso do meu ombro, do cora��o e da mente. � preciso desanuviar os maus press�gios. Preciso me libertar e partir para v�os mais altos na minha carreira e s� conseguirei, eu sei, quando me libertar dos problemas do passado. |