4. AN�LISE DO TRABALHO DE CAMPO

Nosso projeto teve como objetivo o lan�amento e execu��o de um programa de r�dio na comunidade do Tabuleiro do Martins (Tabuleiro Velho) voltado para a mulher daquela �rea, abordando  os problemas da comunidade e principalmente daquela  mulher,  provocando debates e trocando id�ias  sobre assuntos do seu interesse.
No entanto, ao inv�s  de utilizar uma r�dio convencional, utilizamos  um  sistema de alto-falante, ( tipo corneta - utilizados antigamente nas pra�as do interior). A id�ia inicial era realizarmos esse trabalho junto a uma r�dio comercial, mas ao sondarmos  as perspectivas de viabilidade da proposta, n�o encontramos espa�o nem interesse por parte dos dirigentes das emissoras procuradas (R�dio Clube  de Rio Largo e Macei�-FM). Desse modo, optamos  pelo sistema de  corneta no pressuposto de ser um ve�culo eficaz para atingir os moradores daquela �rea, em especial a mulher.
O trabalho lastreou-se numa proposta alternativa e objetivou despertar a consci�ncia  cr�tica das mulheres da  comunidade,  sem querer impor id�ias, mas  antes,  tentando sentir o que pensava, sentia e esperava a mulher  do Tabuleiro a respeito da proposta e do programa.
Entendemos consci�ncia cr�tica como "o processo pelo qual uma classe social chega a  extrapolar os limites estabelecidos � sua vis�o de mundo pelos condicionamentos de sua situa��o espec�fica e sua percep��o da realidade (...). A consci�ncia cr�tica de classe surge pela desmistifica��o da ideologia dominante e vem determinar a praxis revolucion�ria" como coloca Branca Moreira Alves. (1)
"A an�lise marxista do conceito de ideologia focaliza o  processo de conscientiza��o sob o ponto de vista das rela��es de  classe. Entretanto a pr�pria  complexidade da sociedade moderna exige que ampliemos os conceitos a fim de incluir na an�lise aqueles  grupos humanos cuja  experi�ncia de vida n�o se explica unicamente atrav�s de sua posi��o nas rela��es de produ��o, embora sejam  eles tamb�m v�tima da sociedade de classe.  Uma dessas categorias � a mulher", destaca Branca.
Partindo dessa concep��o tentamos despertar nas mulheres  da comunidade (Tabuleiro Velho) a necessidade  de participar para  transformar a realidade em que estavam inseridas.
Quando pensamos em realizar o trabalho, sab�amos que ir�amos encontrar dificuldades, mas n�o cont�vamos com a falta de est�mulo das mulheres e com o descaso da diretoria da associa��o, que  via o nosso trabalho com um certo grau de desd�m.
Pens�vamos que  ter�amos  melhor rela��o com a diretoria  e que, com o tempo, superar�amos o machismo; a falta de consci�ncia e at� nossas defici�ncias ou outras barreiras que pudessem aparecer. N�o conseguimos sequer que  as mulheres da diretoria  da associa��o  participasse do programa que levamos ao ar aos s�bados. Talvez nossa t�cnica n�o tenha dado certo.
Na porta de um abatedor de aves, o Galeto da Quit�ria, levamos  ao ar a maioria  dos programas e convidamos a diretora do posto de sa�de para  prestar  esclarecimentos sobre  o atendimento e o programa de sa�de encampado pelo governo do Estado, sobre o qual a  popula��o n�o estava bem informada. Levantamos quest�es que estavam  sendo debatidas na Assembl�ia Nacional Constituinte, bem como os problemas do bairro, associando-os aos problemas nacionais.
Apesar disso, acreditamos  que o projeto contribuiu como forma de participa��o das moradoras do Tabuleiro do Martins, que j� no final do projeto se afastaram da associa��o.
Estas mulheres chegaram  a participar de forma efetiva na luta pela limpeza do bairro em regime de mutir�o,  ou na distribui��o de tickets de leite e em cursos de corte e costura e de cabeleireiro oferecidos pela Amotam, junto  com a LBA - Legi�o Brasileira de Assist�ncia. A� tiveram a contribui��o das estagi�rias do curso de Servi�o Social da Ufal, que desenvolveram um trabalho com as gestantes e com as crian�as.
Nosso programa para a mulher ficou sem um tema definido, at� o final, mas teve uma proposta  inovadora, por tentar  fugir dos programas femininos convencionais. Teve como meta principal  a participa��o ativa da mulher, atrav�s  de suas den�ncias e relatos de experi�ncia vividas.
A id�ia desse programa esteve ligada basicamente numa troca de experi�ncia entre as mulheres ligadas a setores sociais, pol�ticos e de comunica��o e as moradoras do bairro. Este contato foi feito  por meio do debate que surgiu a partir de den�ncias de problemas  comuns como viol�ncia  contra as mulheres e a comunidade (freq�entes na  �rea), discrimina��o no trabalho e na vida dom�stica.
O programa de r�dio em alto falante - corneta  foi  veiculado dentro da programa��o das tamb�m formandas de Comunica��o Social - habilita��o Jornalismo,  Eunides Lins e Carla Salingnac, que desenvolveram  o  projeto alternativo denominado "Tabuleiro do Martins: Uma Experi�ncia de Comunica��o Popular", e teve dura��o entre 15 minutos e uma hora, dependendo da programa��o delas.
  A abertura do programa para a mulher do Tabuleiro  era feita com a m�sica Maria Maria, de Milton Nascimento,  interpretada por Simone.  Durante a programa��o se dedicou uma  �nfase especial � situa��o da  viol�ncia  contra a mulher,  utilizando  dados fornecidos  pela delegada  Maria Aparecida Ara�jo, da Delegacia  da Mulher e obtidos de jornais di�rios.

4.1. OS PROGRAMAS

Com o papel rascunhado sobre o assunto a ser discutido, no caso as principais reivindica��es das mulheres na Constituinte, come�amos a nossa primeira experi�ncia de programa de r�dio alternativo, com um editorial escrito em papel comum, no dia 15 de dezembro de 1987.
A falta de planejamento e de um script mais elaborado gerou inseguran�a, raz�o de n�o ter acontecido a reciprocidade que esper�vamos por parte das ouvintes, as mulheres compradoras da Feirinha. A inexist�ncia de uma cabina e o contato direto, frente a frente com o  p�blico, nos deixou inibidas.
O hor�rio de in�cio do programa tamb�m contribuiu para n�o termos alcan�ado plenamente o nosso objetivo. No dia do primeiro  programa iniciamos �s 9h15, quando as mulheres, em sua  maioria, j� haviam  ido para casa cuidar dos "afazeres dom�sticos". A raz�o do nosso atraso  foi o retardo da programa��o  das colegas Eunides e Carla, nos restando um  tempo reduzido.
Nossa falha nesse primeiro programa foi  n�o termos elaborado um script com anteced�ncia e ter nos limitado a falar das reivindica��es  das mulheres para a Constituinte e das  propostas aprovadas na primeira etapa da Comiss�o de Sistematiza��o no Congresso Nacional.
Por falta de experi�ncia de nossa parte n�o fomos  at� as mulheres na feira, e ficamos na  porta do Abatedor da Quit�ria,  esperando que as feirantes fossem at� n�s.  A inseguran�a aumentava  � medida que sent�amos o desinteresse das mulheres em chegar at� o microfone. Algumas paravam, olhavam e faziam cara de espanto. Outras,  cara de d�vida. Era como  se estiv�ssemos  perguntando o tempo todo: "O que � isso? Outras nem mesmo olhavam. E por  a� seguimos. Parecia que est�vamos com medo de continuar "pregando no deserto".
No segundo  programa tivemos atraso  de uma hora � espera  dos membros da Amotam, que nos trariam  os equipamentos para colocarmos  o programa no ar (as cornetas, o amplificador e o microfone), sem contar com meia hora a mais para podermos iniciar o programa e a inseguran�a  e nervosismo de todas n�s.
A manh�  tinha se tornado mais longa.  N�s trem�amos na  base e t�nhamos uma sensa��o de p�nico. O dia prometia novamente.
Outra vez contamos com a indiferen�a das mulheres. "Algo estava errado no reino da Babil�nia". Voltamos a fazer apelos  para  que as mulheres fossem at� n�s denunciar a situa��o de viol�ncia  e seus problemas. Novamente ficamos  no discurso e no convite. Pensamos em n�o continuar.
Na semana seguinte (terceiro programa) o clima melhorou e, com a programa��o nas m�os e falas mais organizadas, tivemos  algum saldo positivo. Fizemos um relato da nossa visita � Delegacia  de Defesa da Mulher  e nesse dia tivemos v�rios depoimentos, inclusive de homens.
Embora o nosso microfone tivesse o fio muito curto, tentamos ir at� as mulheres e entrevist�-las. Esta iniciativa  teve um  retorno positivo, pois havia agora uma  reciprocidade, misto de curiosidade e ansiedade por parte  das pessoas em denunciar, falar,  participar, o que n�o ocorreu  nas semanas anteriores.
O quarto programa foi elaborado com um cuidado maior, script preparado e tempo previamente controlado n�o davam margem para  o improviso (marca dos programas anteriores). Sa�de foi o tema escolhido e contamos com a presen�a de convidados que atuavam  na �rea abordando  temas como gravidez, higiene e a gestante e o trabalho, principalmente.
A presen�a  da respons�vel pelo Posto de Sa�de do Tabuleiro do Martins, m�dica Edilene Lima, acompanhada da enfermeira Eliane Souza e a assistente social Rita Guimar�es, criou uma certa expectativa. Neste dia,  05 de dezembro de 1987, as mulheres, principalmente, se aproximaram e falaram, ora fazendo cr�ticas,  ora fazendo elogios ao atendimento, � dire��o e ao pessoal do Posto de Sa�de. Muitas  foram as mulheres, naquele dia, que passaram  pelo microfone, como era  nosso  objetivo  inicial.
Contudo, com a chegada das convidadas - que discorreram  sobre a implanta��o do Sistema Unificado e Descentralizado de Sa�de  e esperavam dissipar d�vidas acerca do funcionamento do mesmo - houve uma inibi��o geral por parte das pessoas que antes falavam  desenvoltas. De repente n�o apareceu mais ningu�m  para reclamar ou simplesmente falar. Sentimos a� o temor pela figura da autoridade, comum nas  chamadas camadas baixas da sociedade.
Neste programa vencemos a inibi��o  que tanto nos prejudicou nas primeiras semanas,  como tamb�m  nos tornamos  mais habilidosas no comando da programa��o, o que serviu de apoio �s  semanas posteriores.
Com um editorial curto sobre o tema Mulher e Trabalho, semelhante �s outras vezes, come�amos o quinto programa no dia 12 de  dezembro de 1987, com uma hora de atraso, aproximadamente. No entanto est�vamos  mais seguras e apesar de toda a demora  conseguimos  realizar  o programa, obtendo resultado positivo.
Neste dia t�nhamos  a certeza de que apenas o tema mulher n�o seria o suficiente para atrair a aten��o das pessoas da comunidade e provocar debates entre elas.  Escolhemos o assunto  Mulher e Trabalho  por se tratar de um dos mais  discutidos naquele momento, inclusive na Constituinte, quando algumas quest�es espec�ficas haviam sido votadas  e aprovadas na primeira etapa da Comiss�o de Sistematiza��o: os 120 dias de licen�a-maternidade e oito dias de licen�a-paternidade, ap�s o nascimento da crian�a,  assim como  direitos iguais no que diz respeito ao registro dos filhos, dentre outros.
Nossa proposta de inserir temas que n�o fossem o espec�fico deu certo em parte,  pois conseguimos atrair as mulheres para o debate. Com o fio  do microfone aumentado conseguimos maior mobilidade para  atravessar a rua e chegarmos at� as feirantes, do outro lado. Nosso  desempenho havia melhorado sensivelmente.  J� n�o preg�vamos no deserto. As  mulheres  participavam  das quest�es que pareciam  empolg�-las, embora esta participa��o ainda deixasse a desejar.
Finalizamos o programa daquele dia discutindo a quest�o das greves que estavam acontecendo naquele per�odo: aerovi�rios, trabalhadores da Sucam e funcion�rios das universidades federais de todo o  Pa�s.
Partimos para o sexto e �ltimo programa, que seria uma  retrospectiva dos anteriores e fizemos uma breve passagem sobre o  Natal que se aproximava, com a certeza de que este �ltimo seria um dos melhores.
Nos enganamos ao pensar assim. A prepara��o de equipamentos  - gravadores,  fitas cassete, m�quina fotogr�fica e o segundo boletim da Amotam, al�m do sistema de alto-falante, que havia  sido reparado e consertado - n�o foram o suficiente.  O programa n�o foi realizado. C�cero N. Silva - diretor de Comunica��o da Amotam - e o presidente Tadeu Jatob� n�o apareceram com o material.
As horas se passavam e nossas esperan�as tamb�m. Notamos, em frente ao Abatedor de Aves da Quit�ria, que as pessoas  que costumavam nos ouvir todas as semanas estavam l�, discretamente esperando  por n�s. Observamos tamb�m uma certa expectativa por parte delas. O  que estaria acontecendo? 'Cad�' o som?
Fomos at� o abatedor e falamos com a filha da Quit�ria, explicando que havia acontecido  um imprevisto e que talvez o programa  fosse transferido para o dia seguinte, o domingo.
Nem mesmo a vice-presidenta, D. Ivanise Nascimento, sempre bem informada, sabia onde se encontrava o diretor de Comunica��o da Associa��o, C�cero.  A esposa dele, demonstrando  um certo receio, tamb�m n�o nos acrescentou grandes informa��es. J� est�vamos nos sentindo cansadas e sem est�mulo.  Resolvemos ent�o tentar encerrar nossa programa��o na semana seguinte, afinal  precis�vamos  voltar ali para dar satisfa��o aos nossos  poucos  mas cativos  ouvintes,  que todos os s�bados nos esperavam  na "Feirinha do Tabuleiro". No entanto, n�o pudemos voltar para terminar a programa��o proposta, pois a  associa��o se desmembrou e parou de fazer reuni�es, o que separou alguns membros da comunidade que haviam  se empenhado em organiz�-la.

4.2. PROGRAMA LOCAL

Existe uma disparidade enorme entre a nossa proposta de  programa de r�dio para a mulher e as programa��es ditas femininas, � �poca estudada, em Alagoas. Estas se limitavam a preencher o hor�rio  com assuntos muito  distantes da alagoana,  pelo menos da maioria.
Assim era o  Mulher Atual, programa apresentado pela radialista  Beatriz  Bargen, na R�dio Educativa-FM, que durante todo o hor�rio - das 9 �s 11 horas - fazia coment�rios publicados em revistas como Sa�de, Sele��es, Mulher de Hoje, Carinho  e outras do g�nero, sem que a fonte fosse mencionada,  dando a entender que eram id�ias pr�prias ou mat�rias feitas  por jornalistas do Estado.
No in�cio do programa a apresentadora lia o notici�rio  local e,  depois de um intervalo, fazia a leitura de uma poesia qualquer que estivesse em  suas m�os, seguida de uma m�sica, que nem sempre tinham  a ver  com a poesia.
As entrevistas do programa n�o eram planejadas, em sua  maioria,  e a apresentadora aproveitava algum visitante na r�dio  ou os pr�prios funcion�rios para entrevist�-los, quase sempre sobre variedades. Era um misto de assuntos do interesse da pr�pria Beatriz, com recadinhos e fofocas, reproduzindo a discrimina��o e o preconceito  existentes na comunidade. "A mulher alagoana �  totalmente desinformada,  por esse motivo  o meu  programa tem preocupa��o em orient�-la", disse  Beatriz � nossa equipe.
Segundo ela, o homem deveria ser segurado pelo est�mago  e a mulher tem que estar sempre de bom humor,  disposta para ouv�-lo, sendo carinhosa e compreensiva, para domin�-lo na cama.  � essa id�ia de mulher oprimida pelo sexo que ela deixava passar nos seus  programas,  onde ousava dar conselhos sobre posi��es estrat�gicas e varia��es  na cama. "� importante a mulher estar em igualdade com o homem, no entanto, essa igualdade, na pr�tica, funciona apenas em  termos", observou Beatriz.
Mulher Atual  diferia do g�nero e qualidade do programa  que levamos ao ar na Feirinha do Tabuleiro e da nossa proposta de programa��o  alternativa para a mulher,  que teve uma linha bem definida.
Sendo praticamente o �nico programa existente  para a mulher em Macei�,  o Mulher Atual  deixava uma lacuna e a mulher alagoana sem uma programa��o s�ria,  planejada, onde a quest�o feminina n�o fosse separada das demais quest�es do Pa�s,  e a mulher tratada como cidad�, em iguais condi��es  e direitos com os homens.
Em 1986, este programa saiu do ar durante um  certo tempo, porque estava fugindo da proposta inicial de programa para a mulher, segundo Orlando Lins Dias,  ex-diretor de programa��o  da R�dio Educativa, acrescentando que "seria um programa para a mulher, que abordasse  temas   s�rios e que pudesse ser ouvido e n�o fugisse da proposta de  uma R�dio Educativa".
     Entretanto, a proposta inicial n�o foi abordada e a  apresentadora misturava os seus problemas  com a programa��o, chegando  a falar de viv�ncias pessoais que n�o condiziam com o hor�rio  do  programa. Nesse sentido o Mulher Atual foi suspenso, tendo sido rediscutidas as formas de sua apresenta��o. Com a sa�da de Orlando, mentor da proposta,  o programa voltou ao ar, esquecendo das discuss�es  e do projeto proposto. Tempos depois o programa  saiu do ar, definitivamente.
     Neste mesmo ano, 1986, estava no ar o programa Floracy Cavalcante, que abordava variedades. Tratava de quest�es gerais com leitura de poesias e m�sicas. As entrevistas eram reduzidas e a opini�o da apresentadora prevalecia.

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(1) - ALVES, Branca Moreira. Ideologia e Feminismo, A Luta da Mulher Pelo Voto no Brasil. Petr�polis. Vozes. 1980 - p.32
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