INSTINTO DOMESTICADO
Havia um cheiro agradável que lembrava aconchego, e uma espécie de frescor como a névoa das manhãs "umedecidas" das fazendas, embora o sol já estivesse alto, encurtando as sombras das árvores que margeavam a cerca próxima ao galpão; e o calor - que vai chegando sorrateiro, antes do solstício de verão - já as tornava disputadas pelos peões, nos momentos de folga, quando podiam fingir que tinham a vida folgada de um patrão.
Eu sorvia a frescura da espuma do leite recém tirado, e meu paladar me deliciava enquanto uma sensação de negligência, quase anestesiante, me engolfava, maternalmente, me distanciando dos medos da noite anterior, pois que me alienava, novamente, por mais um dia, do inevitável retorno da apreensão causada pela possibilidade de me enredar em algum dos costumeiros pesadelos que, certamente, me agarrariam pelas vísceras na noite seguinte; também amenizava a apreensão de que alguma dessas incompreensíveis situações (ou vivências?) adquirissem concretude - tornando-se relativamente compreensíveis - na forma de um imprevisto desagradável, que o dia poderia trazer.
Nessa manhã, que parecia com tantas outras, uma estranha lucidez cortou o barato que o leite me brindava rotineiramente. De repente perdi as sensações de descontração, abandono, com uma pitada da "plenitude" de um "iniciado", oriundas do prazer infantil de beber o leite, como se a minha alma o sugasse de um seio invisível que, pontualmente, me abastecia duma espécie de placidez ou sonolência e simplicidade, como algo que me impressionava no olhar do gado quando estava ruminando. O berro de um bezerro pareceu mais forte do que os cocorocós das galinhas e os róinc-róinques dos porcos; e, de um modo estranho, pareceu "ecoar" dentro de mim. Dando vazão a um impulso irracional, saí de casa, desci as escadas de terra batida e segui beirando a horta em direção ao galpão de ordenha; movia-me um sentimento de urgência, como se houvesse uma obrigação inadiável para cumprir, o qual me indicou aonde deveria ir e me apontou o que deveria observar. Deparei com o bezerro cujo berro chacoalhara o meu interior. Ele fora separado da mãe - certamente da mesma forma truculenta com que o gado, em geral era tratado - e não concordou com essa separação. O espaço onde eu estava era muito pequeno, se comparado aos campos cobertos de pasto baixo, com pontuais capões de mato (pinheiros rodeados de outras árvores nativas) como ilhas verde-escuras espalhadas num oceano de coxilhas, mas era um local bastante amplo para a sua função, porque esta consistia, essencialmente, numa área de trabalho dos peões. Ou melhor, num "palco" separando dois potreiros, onde se realizavam "espetáculos" que demonstravam, cruamente, o poder da tecnologia sobre a força, e reafirmavam a supremacia humana sobre as espécies ditas "irracionais" (apesar desta ser controlada por uma ética desumana). Se ressaltou a vulnerabilidade dos seres simplórios como os bovinos. Vi, naquele momento, de um modo "agudo" o cenário que eu conhecia (e não gostava): rolos de cordas, uma fogueira aquecendo um ferro que tinha um desenho numa das pontas, peões excitados, adrenalina, olhares implacáveis e um tanto sádicos... O "show" já havia iniciado. Um par de olhos arregalados era carregado, enquanto vários outros pares de olhos maiores e assustados se agitavam pressionados junto a uma das cercas de arame farpado. Um berro sobressaiu do coro de berros, gritos e gargalhadas. Foi o clímax duma das cenas, o qual deixou no ar o cheiro de pêlo queimado e, na minha boca, um gosto de cobre e ovo que, gradativamente, foi apodrecendo, até explodir num jorro de leite e angústia, que subiu em meu peito. Os sons ficaram distantes e tudo tornou-se alaranjado. Após não sei quanto tempo em que eu não existi, vi rostos preocupados que logo sorriram e fui erguido enquanto alguém me esfregava um pano de cheiro desagradável.
Ouvi o berro novamente. Me desvencilhei das mãos distraídas que me seguravam e corri. Eu queria - agora muito mais do que na vez anterior - chegar até a sua origem. Contornei o gado e mergulhei por baixo da cerca, para cortar caminho até a estrada de terra que ligava a fazenda a carros, muita poeira, muita gente, luzes e tantas outras coisas estranhas... Lotado de pares de olhos assustados aí estava um caminhão; próximo da cerca havia outros pares de olhos apreensivos. Os berros dos bezerros, presos na carroceria do caminhão, entremeados aos de suas mães junto à cerca, foram acelerando o ritmo, e se "mesclando" até formar um único lamento, o qual permaneceu ininterrupto atrás dos meus olhos. Minha visão se modificou. Não que as imagens estivessem diferentes, apenas eu as via de modo inusitado. Notei, então, na borda da carroceria, um dos bezerros com o qual brincara no dia anterior, antes de o levarem, como de costume, para junto de sua mãe, com o propósito de induzi-la a soltar o leite no interior do ubre, seguindo ao impulso instintivo de alimentar o filhote; assim que ele começou a mamar, foi apartado dela; o leite foi tirado e, posteriormente, servido em casa. Portanto eu - em vez do bezerro - bebi boa parte do alimmento a ele destinado... que, conforme uma lei natural (logo, legítima), era dele por direito!
Olho no olho, quis conta-lhe essa constatação. Corri e gritei para que ele ouvisse, mas o caminhão o fez sumir, deixando ali, em seu lugar, uma nuvem de pó; e, em mim, uma decisão. Olhei para a vaca-mãe ainda junto à cerca e assimilei os seus berros agudos e vi que ela sofria. Também vi quão falsas e sórdidas eram algumas idéias que me introjetavam desde há muito tempo: "tu tem que comê carne, tomá leite, pra crescê forte, guri!" Finalmente eu estava crescendo e encaixando muitas coisas no seu devido lugar, substituindo outras...
Aproximei-me da cerca; todos os animais se afastaram. Lembrei-me de quando, brincando com o bezerro, num certo momento, eu não sabia mais que era humano e ele tampouco parecia se importar com o que eu fosse. Pensei no caminhão e o vi desembarcando alguns bois no frigorífico; senti o pesar de suas mortes sobre os meus ombros... eu comi as suas carnes tantas vezes! ... após assistir ao tratamento diário que roubava as suas vidas aos poucos... revi o sacrifício que lhes era imposto e que sempre vira como algo normal...
De repente algo áspero e úmido deslizou sobre a
minha mão e ela relaxou soltando o fio de arame da cerca que estava
segurando apertado; a vaca-mãe havia se aproximado e me lambera
a mão. Olhei para ela, chorei e lhe afaguei a cabeça. Agradeci.
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