Era uma quinta-feira, inicio de noite. O fluxo de veículos fluía livremente pela avenida. Eu estava sentado num banco dentro de um ônibus e cobrando a devida tarifa dos passageiros, quando observei à minha frente, sentada em um banco atrás do motorista, uma moça aparentando menos de trinta, que usava uma calça branca apertada, um sapato preto e um blazer azul. Seus cabelos longos eram ondulados e sua pele era morena. Àquele primeiro momento, a moça não cativava meu olhar; tanto era, que não a considerei bela, nem sequer bonita.
Naquele dia, sentia-me nas trevas da angústia, sem saber o motivo. E, via-me impossibilitado de sair daquela penumbra, não pela ausência de força de vontade, mas pela maldita cegueira do espírito, que dificultava a fuga daquele labirinto.
Foi num ato de coragem que abri um livro (de Alberto Manguel) e comecei a ler. Mergulhei fundo na leitura, a fim de abstrair-me do momento tedioso. Lembro então, que após alguns minutos de leitura, invadiu-me um largo e generoso sentimento de prazer, acompanhado de uma sensação de paz. Nesta hora, passávamos pelo parque do Ibirapuera e observei de longe as árvores escurecidas pela noite e o grande lago iluminado artificialmente. Não parecia-me o lago dos dias anteriores: negro, abandonado, sem vida. Agora, a luz refletia e espalhava uma suavidade por toda a superfície do lago. Vi uma leve neblina delicada, que fazia cortina à vegetação rasteira. A moça, transformou-se em uma mulher com rosto e formas perfeitas; suas roupas exibiam um brilho próprio. A moça e lago tornaram-se belos. |