Santa Clara e São Francisco de Assis

Duas Legendas Inseparáveis

1. A visita que o Santo Padre João Paulo II fez às clarissas do proto-mosteiro de Assis no dia 12 de março de 1982 vai passar para a história também por aquele discurso, que ele mesmo disse que improvisou e que, portanto, corresponde a uma sua intuição pessoal, pois nele fez algumas afirmações jamais ditas por um Papa nem sobre Francisco, nem sobre Clara, nem, menos ainda, sobre o relacionamento entre os dois.

 ... É verdadeiramente difícil  disse o Papa  separar estes dois nomes: Francisco e Clara. Estes dois fenômenos: Francisco e Clara. Estas duas legendas: Francisco e Clara... Quando celebrardes o Aniversário de Santa Clara devereis faze-lo com grande solenidade. 

É difícil separar os nomes de Francisco e Clara. Há entre eles alguma coisa profunda que não dá para compreender senão através dos critérios da espiritualidade franciscana, cristã, evangélica; que não pode ser compreendida com os critérios humanos.

O binômio Francisco-Clara é uma realidade que se compreende só através de categorias cristãs, espirituais, celestes; mas é também uma realidade desta terra, desta cidade, desta Igreja.Tudo teve corpo aqui. Não se trata de puro espírito. Mas na viva tradição da Igreja, do cristianismo inteiro, da humanidade não sobrou só a legenda. 

Ficou o modo como Francisco via sua irmã, o modo como ele desposou Cristo; via a si mesmo à imagem dela, esposa de Cristo, esposa mística com que ele se formava sua santidade. Via a si mesmo como um irmão, um pobrezinho à imagem da santidade desta autêntica esposa de Cristo na qual encontra a imagem da perfeitíssima esposa do Espírito Santo, Maria Santíssima...

Eis o lugar em que há oito séculos chegam tantas peregrinações para contemplar a legenda divina de Clara junto a Francisco, legenda que influiu muito na vida da Igreja e na história da espiritualidade cristã.

Em nossa época é preciso repetir a descoberta de Santa Clara, porque é importante para a vida da Igreja; é necessária a redescoberta daquele carisma da legenda divina de Francisco e Clara.

2. A partir desta palavra  única na história franciscana  podemos intuir a fundamental unidade e reciprocidade da vida evangélica, encarnada por Francisco e Clara Para seguir, no Espírito, o Senhor e sua Mãe, nas Igrejas e pela Igreja, a serviço de toda humanidade e do cosmo inteiro: aos pés de todos, como convém a frades menores, a irmãs pobres, a fiéis penitentes. 

Ora, essa vida evangélica única, por mais que seja concretizada em pluriformidades de modos, de acordos com pessoas, os tempos e os lugares, exige que não se separe o que o próprio senhor uniu.

Desde o inicio, de fato, o Crucificado que falou com Francisco no famoso ícone oriental-sírio de São Damião, Já previu, segundo o testamento de Clara, as futuras clarissas junto dele para renovar a Casa-Igreja, seguindo o Cristo Pobre e crucificado, como Maria, movidos pelo Espírito Santo. 

Esta perspectiva da identificação com a pessoa de Cristo e de Maria é tão forte e totalizante que todos se sentem pessoalmente interpelados a dever ser, junto com todos os fiéis penitentes forma e exemplo (Francisco) ou espelho (Clara) de Cristo e de Maria na Igreja e no Mundo; a tornar presente a própria pessoa de Cristo e de Maria entre os homens e as criaturas fraternamente reconciliados. 

Francisco e Clara dão assim a medida certa de sua vida evangélica com Deus, com a humanidade, com o universo, quase personalizando de modo cósmico, o único Filho de Deus encarnado, primogênito de muitos irmãos.

O mesmo João Paulo II, na conclusão do dia de Orações em Assis, aos 27 de outubro de 1986, lembrava a lição permanente de Francisco e Clara, a todos os homens e a todas as mulheres de nosso tempo, como homem de paz e mulher de oração a serviço da pacificação universal na justiça e na caridade

3. Portanto, sentir-se uma só família no céu e na terra ao redor de Cristo e de Maria, vivendo a fraternidade universal, como convém a servos e servas submissos a toda criatura: esta é a experiência substancial da vida evangélica e eclesial vivida não só por Francisco, o pobrezinho, mas também por Clara, a sua plantinha pobrezinha, e por toda a família como anúncio da libertação dos pobres e dos humildes e da nossa própria irmã e mãe Terra.

Mas, ao mesmo tempo que queremos repropor ao nosso tempo esta mensagem franciscana clariana, sentimos todos, frades menores, irmãs pobres, fiéis penitentes da nossa pluriforme fraternidade, que devemos confessar com sinceridade que somos servos inúteis, pois até agora vivemos pouco o ideal evangélico no espírito e na verdade. 

Nós o confessamos no espírito daquela conversão continua a que fomos chamados por Francisco que nos quer incansável no propósito de uma santa renovação e dispostos a começar de novo, desde o começo.

Só com esta confissão sincera e só com esta disposição de ser os primeiros a percorrer outra vez, decididamente, os caminhos da intimidade com Deus e do serviço aos irmãos, ousamos voltar-nos a todos para repropor o testemunho de Clara, plantinha de Francisco.

 

Clara de Assis, Mulher Nova,

Documento de Proclamação do Oitavo Centenário do Nascimento de Santa Clara de Assis

Tradução: Frei José Carlos Pedroso, Ofm Cap

CEFEPAL, Petrópolis, 1992

 

 

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