| Segunda-feira, Junho 13, 2005 JOS� MARCELO SIVIERO Hist�rias de S�o Benedito Ningu�m lembra o ano em que o S�o Benedito da Matriz fora feito; s� sabiam que ele era uma imagem alta, metro e pouco de altura, representando um negro taludo, com os m�sculos e a constitui��o avantajada salientados no h�bito esfarrapado de franciscano, levando um Menino Jesus de cabe�os encaracolados e cor de pimenta nos bra�os de estivador. O santeiro autor da est�tua, conta-se, era um beberr�o dos mais exagerados, homem que vivia de bar em bar e que por v�rias vezes dormia com os sapos e os grilos, geralmente na sarjeta da padaria. Mas era um artista habilidoso e dedicado; os outros santeiros das redondezas, em geral, esculpiam Sagrados Cora��es de m�os maiores do que a cabe�a e S�o Teodoros com cimitarras moles que quebravam ao primeiro p�-de-vento. O santeiro b�bado uma vez fora convocado urgentemente a corrigir um Santo Andr� que n�o tinha a sua indefect�vel cruz. Mas, um dia depois de enxugar v�rias garrafas de conhaque barato, o �brio escultor esmurrou o balc�o pu�do do boteco e exclamou que faria um S�o Benedito de um metro e pouco, para pendurar no �pice do altar da Matriz. - Vai s� um baita dum S�o Binidito, mais preto qui quarqu� nego malandro qui tem por a�! Logicamente, n�o apreciaram a sua compara��o racista. Mas naquele tempo ningu�m tinha medo de falar a cor da pele. Suspeitaram que o santeiro andava de amores com uma negra de cintura fina, por isso tanta era a admira��o pelo santo negro. Conversou com o padre, o p�roco agradeceu, pois realmente faltava um S�o Benedito em sua igreja, especialmente para os dias de feijoada, pois as beatas andavam preparando um caldo de feij�o magro e ralo demais, quase sem gosto. E ent�o o santeiro foi buscar o barro e o saibro da beira do rio, e a� as hist�rias se embaralham e se atravessam. Diz ele que, afundando o p� no lodo e sujando as unhas com os montes que ia recolhendo, um raio partiu o C�u e pipocou como um roj�o de chuva de prata sobre as �guas barrentas. Ent�o do meio delas apareceu uma negra, mas n�o era uma negra qualquer, esta tinha os cabelos lisos, os olhos azuis igual � de uma alem�, o corpo cor da noite e lustroso como um diamante, emoldurada com uma cintura de dan�arina espanhola, umas ancas de dan�arina brasileira e um busto de dan�arina americana. Veio at� ele descal�a, coberta somente com um sobretudo azul. Era Ians�, uma daquelas deusas africanas que lhe botavam medo quando era crian�a, de ouvir o av� contar dos negros que tocavam zabumba e fumavam charutos de folhas secas no meio do cafezal. Mas esta Ians�, com voz de cantora francesa, chamou o santeiro, estendendo-lhe a m�o e abrindo a vestimenta, deixando saltar os seios. O santeiro deixou o que fazia, jogou o casaco, o embornal, a cal�a e os sapatos e se engalfinhou com a morena na �gua avermelhada do rio. Num momento, quando ela estava debru�ada sobre a margem, deixando que o sol secasse a pele, ele, contemplando suas curvas, pediu: - � n�ga, eu s� sant�ro i priciso faz� um S�o Binidito pra Matriz! Oc� poderia servi di modelo pr�eu faz� o santo? Ians� respondeu que sim, e antes que o escultor, ainda despido, pegasse a talhadeira para delinear o taumaturgo, o corpo da negra j� se tinha inchado e perdido as curvas, coberto de p�los e m�sculos, perdido a sua delicadeza. Assustou-se quando viu que algo tinha brotado da capa de p�los no meio de suas pernas. E da� saiu o S�o Benedito, que o santeiro teve o devido cuidado de vestir com a t�nica de monge, de p�r o Menino Jesus em seus bra�os e de raspar-lhe a cabeleira lisa. Contou essa hist�ria ao padre, e o sacerdote perdeu a cabe�a, deu-lhe com a B�blia at� rachar-lhe o superc�lio e passou uma penit�ncia de subir e descer morros com uma rocha maci�a amarrada nas costas. Que o santeiro compensou com as doses de cacha�a e rabo-de-galo. O menino tinha o pai pe�o de boiadeiro, que vivia sumindo pelo mundo, a av� doente, a um passo do cemit�rio, e a m�e trabalhando como escrava nas casas dos abastados. Desesperado, recorreu a Deus, especialmente a um dos santos que mais gostava dos pobres: S�o Benedito. - Olha, �seu� S�o Benedito, n�o queria incomodar o senhor que vive ocupado l� no C�u com os problemas da Terra- rezava ele, m�os unidas, ajoelhado na igreja escura- mas d� uma ajuda l� pra n�is em casa, que t� feio! A gente precisamo pelo menos duns trocados pra comprar arroz e feij�o! Se o senhor emprestar uns trocados a gente paga, juro! N�o vamos ficar devendo! O delegado tamb�m estava ali, nos bancos, e compadeceu-se ao ouvir a reza em voz alta do moleque aflito. Esperou que ele sa�sse sem o ver e, calmamente, abriu a carteira e depositou duas notas de cem reais sob a base da imagem. No dia seguinte, o menino n�o se continha de alegrias: a fam�lia, gra�as a Deus e a S�o Benedito, n�o passaria aquela semana com a barriga roncando. Um dia, em plena segunda-feira �s duas da tarde, na pra�a, o delegado o encontrou. E n�o se conteve de perguntar: - E o dinheiro do S�o Benedito? C� pagou o santo? - Filho da puta! exclamou o menino, dando um tapa na pr�pria testa- aquele n�go malandro deu parte na pol�cia! T� ferrado! Ele criava cabras e bodes para vender, e aconteceu que justamente o Bode Jece (homenagem a Jece Valad�o), o reprodutor do s�tio, especialista em montar nas cabras, pai de uma dinastia de caprinos, rompeu a alvorada gritando de dor e cavando o mato com os pr�prios chifres. O dono viu uma mancha roxa que subia da pata at� metade da perna que cheirava a carni�a. Uma bicheira muito inflamada poderia levar Jece � morte. Desesperado, ele recorreu a S�o Benedito: - Olha, S�o Benedito, si oc� cur� o Jece, eu trago ele aqui na igreja e deixo ele com o senhor durante um dia inteiro! O senhor vai ser dono do meu melhor bode desde quando nascer o sol at� cair a noite! No dia seguinte, a bicheira j� estava seca, o fedor n�o estava t�o penetrante. Dois dias depois, Jece j� atacava a cabra mais nova do confinamento. O criador amarrou um la�o de boi no furo do chifre do animal e o levou at� a igreja, amarrando-o nas pernas de S�o Benedito. E assim passou o dia. Quase na hora da Ave-Maria, o animal se cansou do altar e come�ou a se mexer, tentando se soltar. Derrubou um vaso e, assustado, saiu em disparada, levando o S�o Benedito junto. Um b�bado, que vomitava sobre o canteiro atr�s do banco onde se sentava, viu o caprino arrastando a imagem pela pra�a. - Sigura na grama, neguim! Sigura na grama i puxa forte, qui da� o bode amansa i oc� pode lev� ele! Vai, neguim, sigura na grama! O padre n�o ag�entava mais as feijoadas das beatas. Aquilo era �gua quente com tinta preta sem gosto e uns gr�os de isopor, pois n�o tinha gosto de nada. O paio, as costelas, a calabresa, as orelhas, a l�ngua, os p�s de porco, nada engordava o caldo do feij�o. A solu��o ent�o era apelar para S�o Benedito, o padroeiro dos cozinheiros, o santo da cozinha. Dava gosto ver o caldeir�o, fumegante, os temperos voando pelo ar e entrando pelas narinas, para logo depois fazerem c�cegas no est�mago. Na imensid�o do feij�o, boiava um porco inteiro. A couve parecia at� mesmo mais verde, um tom esverdeado mais profundo do que o verde da Amaz�nia. Os torresmos gordos, mais as laranjas descascadas, conforme disse o padre num dos serm�es, completavam aquela que talvez seria a melhor feijoada da hist�ria da par�quia. Os fi�is da comunidade n�o deixaram sobrar nem as manchas no caldeir�o e nos pratos. Meses depois, o moleque que o pr�prio padre batizara e depois casara aparecia com a mulher, levando nos bra�os um beb� gordo, para que o p�roco aben�oasse na pia batismal. Bons resultados a feijoada dera, ali tinha ela o seu herdeiro. Um dia, entraram quase arrombando a porta da casa paroquial: - Padre, o S�o Benedito preto t� brigando com o S�o Benedito branco! T� o maior barraco! O S�o Benedito branco era mais conhecido como S�o Bento, mas os velhos italianos ainda o chamavam de �San Benedetto�. A luta foi t�o feia que ambas as imagens se quebraram. O mundo est� perdido, disse o padre, guerras, terrorismo, doen�as, traficantes e assassinos, daqui a pouco os irm�os v�o estar se estrangulando, pois, se os conflitos chegaram at� os santos, � porque o �dio j� era epid�mico. No serm�o, comentando sobre a briga dos dois santos, o padre aproveitou e falou sobre o mundo, que hoje em dia tinha gente que punha bomba no pr�prio corpo e se matava para machucar crian�as. Os homens andavam t�o ruins que at� mesmo jogavam avi�es nos pr�dios dos outros. No cruzeiro do cemit�rio, junto �s outras imagens despeda�adas, os dois conversaram e se entenderam, de fato sua luta fora uma besteira. E voltaram a ser amigos, como sempre, pois n�o se podia deixar a amizade terminar por uma bobeira daquelas. |
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