S�bado, Dezembro 20, 2003

JOS� MARCELO SIVIERO

Desejando desde j� um FELIZ NATAL a todos os colaboradores desse site e que em 2004 O FOLHETIM possa crescer ainda mais, a� vai um conto especial de Natal, que inclusive j� deu as caras no meu blog, o Viajante dos Sonhos. Com voc�s,

A ESTRELA DE PLUT�NIO NA LAPA RADIOATIVA

No princ�pio, havia o nada. Nem o c�u, nem a terra. Um grito ecoava pelo abismo.
Foi tudo isso que Juca viu no momento daquele flash s�bito, ef�mero, que n�o chegou a durar nem um segundo. O term�metro de merc�rio pendurado na parede explodiu, n�o suportou um mil�simo de segundo com quarenta graus Celsius, para logo depois cair subitamente para dois. At� mesmo o merc�rio sente enj�o nesse sobe-e-desce na coluna de vidro.
Quando a espessa fuma�a branca que cobria tudo se dissipou um pouco, melhorando a visibilidade, Juca arriscou sair de casa. N�o era l� muito dif�cil, pois o que restava de sua casa era um monte disforme de tijolo exposto, sem porta, todo esburacado. O reboco e a cal n�o tinham resistido �s energias invis�veis que circulavam em correntes pelo ar grosso. Pisou o asfalto com seus t�nis rasgados, desgastados, os cal�ados de toda hora, com os quais ia sempre para a escola, para os bares e lanchonetes, para os bailes daquela cidadezinha interiorana.
- Tem algu�m a�?
Nenhuma resposta. Os cr�nios brancos n�o moviam seus sorrisos sarc�sticos nem um mil�metro. As montanhas de ossos j� eram verdadeiras torres, sobressaindo-se no meio das ru�nas das casas, do Pa�o Municipal, da Igreja Matriz e da Associa��o Comercial. As min�sculas fogueiras que ardiam nas esquinas eram azuis, fosforescentes. E cad�veres, Juca quase vomitou ao ver aquele corpos queimados derretendo, aquele cheiro de carne podre.
- Tem algu�m vivo a�? Tem algu�m vivo a�?
Seu grito ecoou pela terra devastada. A explos�o tinha chacoalhado tanto o solo que uma nuvem de poeira, fuligem e part�culas s�lidas tinha sido lan�ada para cima, estacionando-se bem acima da cidade, como uma pel�cula isolante. Era noite ao meio-dia. Ou n�o, afinal o rel�gio do campan�rio tinha parado nesse hor�rio, e j� fazia um tempo desde o baque. Contudo, Juca recebeu a resposta. Algo se mexia debaixo das paredes ca�das da igreja.
- Calma a�, calma a�, eu te ajudo- Juca foi socorrer a pessoa ferida. Pelos cabelos longos e levemente avermelhados, tratava-se de uma mulher. Uma m�o macia e de pele alva pegou em seu bra�o. Ela tinha uma tatuagem tribal bem no antebra�o.
- Voc�?
- Mariana? Voc� sobreviveu � trag�dia?
- N�o t� morta, t� apodrecendo, n�o t� percebendo n�o? respondeu ela, grosseira. Saiu do meio dos escombros. Mariana deveria ter um �dio radical do mundo, da vida e do seu munic�pio. Tinha fama de louca varrida, com suas tatuagens, seus an�is cromados, suas roupas pretas, seu impulso louco pelo fumo e sua mania de beber como uma m�quina. Tanto que tinha j� uma leve sali�ncia no ventre, fruto do excesso de cevada. Suas olheiras eram tanto atribu�das �s suas poucas horas de sono e tamb�m a um suposto gosto por maconha. Mas ningu�m confirmava nada.
- N�o precisa ser mal-educada tamb�m- retrucou Juca- estou te ajudando, e pelo jeito n�o sobrou ningu�m na cidade. T� tudo arrebentado. Voc� viu o avi�o passando?
- Todo mundo viu, queridinho. A diferen�a � que foi muito r�pido. N�o teve nem tempo de reagir, logo tudo explodiu. E pelo visto n�o sobrou ningu�m, viu, que essa cidade t� mais quieta que um caix�o!
- S� n�s dois.
- Mas n�o � por muito tempo! Logo nossos cabelos v�o come�ar a cair, v�o aparecer feridas, a gente vai tombar no ch�o, e pronto! O c�ncer vai fazer mais uma v�tima!
- Parece que voc� quer morrer, Mariana! O que afinal � isso?
- Por mim, tudo bem. N�o vejo gra�a nessa porra de vida mesmo. Morrer pra mim vai ser at� um favor. Assim pelo menos eu n�o vou precisar fazer mais nada, eu j� sei que n�o vou pra lugar nenhum. S� vou apodrecer a c�u aberto. Tamb�m n�o me importo de feder e ficar cheia de moscas, porque todo mundo acaba assim! � a �nica certeza!
- Pra onde ser� que a gente vai agora? E se a gente morrer mesmo em pouco tempo?
- Olha, Juca, de uma coisa voc� pode ter certeza: n�o vamos ver C�u, nem coros de anjos, nem a Virgem Maria, nem os esp�ritos de luz. Agora, d� licen�a que eu vou fumar um cigarro. Tem fogo, maluco?
- N�o, nem fumo.
- Perde, n�o sabe o que � bom. Puta merda, meu isqueiro quebrou na explos�o. Vou procurar no bolso de algum defunto pra ver se eu acho um que funcione.
Encontrar um isqueiro em �timo estado no meio daquele entulho era como procurar uma agulha numa montanha de palha. Mariana saiu em sua busca, in�til. Tinha um certo receio de usar as chamas at�micas, aquelas chamas frias que nunca apagavam.
Juca examinou as �rvores e a grama. Tudo morto, a maioria das �rvores agonizava no ch�o, as que tinham se mantido em p� definhavam e secavam, suas folhas eram um farelo fino. Os arbustos eram um mingau verde. Mas ali no meio da pra�a parecia haver um vegetal que ele nunca parecia ter visto nas suas v�rias andan�as pelas redondezas. Uma sar�a. Uma sar�a sendo consumida pelo fogo at�mico.
- Mariana, olha isso, uma sar�a pegando fogo!
- Deixa a coitada queimar, p�, todo mundo tem o direito de morrer em paz!
- �, mas sar�as na nossa cidadezinha � foda! Aqui n�o � um deserto...
- E nem loca��o de filme do Zefirelli! Talvez a explos�o tenha sido um efeito especial, eles devem estar filmando a hist�ria da B�blia, e essa foi a cena do Apocalipse. E s� os espertos aqui n�o ficaram sabendo! Tamb�m, quem iria avisar essa doida aqui! E voc� tamb�m � muito bonzinho, certinho, o povo que cafajeste!
- Bom, depois de tudo se explodir, n�o sei mais o que me espera.
Como numa cena de sonho, Juca viu uma constru��o que parecia nunca ter estado ali. Um verdadeiro arranha-c�u, um pr�dio quase tocando as nuvens, batendo na camada negra de poeira em suspens�o. Ainda estava em constru��o, com os andaimes, tapumes, lonas, betoneiras e sacos de cimento. Uma placa enorme indicava a poss�vel empreiteira respons�vel, e se lia Hodesh no painel enorme. Juca cutucou Mariana, e esse lhe deu um tapa na m�o, irritada, reclamando de ter sido chamada.
- Puta que pariu, eu odeio ser cutucada! Parece mala! Vai, fala!
- D� uma olhada no pr�dio que apareceu a�! Isso a� n�o existia, e ningu�m pode ter erguido ele na explos�o! O que afinal � isso?
- Parece o Empire State Building. Sabe, quando eu fui l� pros EUA, eu e meus pais fomos conhecer. Mas � uma pura perda de tempo, puro bando de capitalista do caralho! Por mim o Osama poderia derrubar esse tamb�m. E matar mais gente!
- Tem uma placa na entrada...parece que t� escrito �Babel�. Vamos l� pra ver o que � isso?
- Bom, vamos. N�o tenho o que fazer mesmo.
Mariana e Juca entraram na constru��o e come�aram a subir pelas escadas sem reboco do pr�dio. Suas pernas se curvavam de tanto cansa�o. Estranho, eles subiram muito, mas parecia que os andares nunca acabavam. Um edif�cio infinito? Poderia ser, porque parecia que os andares clonavam a si pr�prios a cada lance que eles subiam. Quando n�o ag�entaram mais o cansa�o, ca�ram sentados numa sacada.
- Cara, n�o ag�ento mais- queixou-se Mariana- t� com fome, sede, cansada, suada e com as costas doendo! Tudo por causa dessas suas id�ias de jerico!
- Id�ia de jerico n�o! Veja l�...n�o pise tanto em mim, s� estou tentando ajudar!
- Bela ajuda! Valeu, gente boa!
- Desculpa ent�o...eu tamb�m estou cansado...com fome...n�o ag�ento mais ficar em p� tamb�m. Putz, eu quero uma cama, uma �gua, por favor.
Flocos de neve come�aram a cair sobre eles, pequenos pontos brancos que salpicavam o c�u enegrecido. Como um p� brilhante, v�rias h�stias de uma alvura que machucava os olhos formaram-se aos p�s deles. E, misteriosamente, elas se transformaram em sandu�ches, em jarras de um suco doce e gelado, em compotas de doces que pareciam de outro planeta, e at� numa garrafa de cerveja com um lindo r�tulo diferente de todos do mundo, escrito �Man� Beer�.
- Meu, essa coisa caindo do c�u...tem algu�m que parece que est� tentando nos ajudar! exclamou Mariana, mordendo um dos lanches.
- �...mas como isso pode cair l� de cima? Ser� que � algum avi�o, ou helic�ptero, de algum ex�rcito nos ajudando?
- N�o custa, viu, cara. Mas com esse c�u escuro n�o d� pra ver nada l� em cima.
Foi quando os dois viram que se encostavam a uma arca de ouro maci�o. Distra�dos, n�o perceberam que ela estava l� desde o in�cio. Ou talvez n�o estava, visto as coisas esquisitas que aconteciam uma atr�s da outra. Mariana, saciada depois de um copo de suco, um lata de cerveja e dois sandu�ches, puxou o tampo pesado da caixa, onde havia duas est�tuas de anjos. L� dentro s� havia um pergaminho empoeirado, que fez a garota espirrar.
- O ARREPENDIMENTO � UMA VIRTUDE. O PERD�O � UMA D�DIVA. Vije, isso aqui parece panfleto de crente.
- Deixa ver- Juca olhou. Examinou demoradamente o rolo. No verso tinha tamb�m uma mensagem, e ela dizia: �ARREPENDAM-SE ENQUANTO � TEMPO, ANTES DA PRAGA DA CHUVA DE SAPOS�.
- Esse da� deve ser um obcecado por Magn�lia- comentou ela.
- Chuva de sapos? Juca olhou para cima- Mas como isso poderia acontecer...
Ele duvidava, mas realmente aconteceu. Anf�bios escuros come�aram a cair, aterissando com as duas patas traseiras no ch�o, pulando ativamente para todas as dire��es e coaxando como loucos. Tinha de todas as esp�cies l�, de r�s marrons at� o exagerado sapo-boi ou sapo-montanha.
- Que nojo, agora eu quero saber quem foi o filho da puta que soltou essa sapaiada!
- � sinal que a gente tem que se arrepender...porque algo pode acontecer...
- Que se arrepender o qu�? Eu quero mais � que se foda...
O peso dos trilh�es e mais trilh�es de anf�bios foi cruel com os alicerces da torre. Suas funda��es n�o ag�entaram e ele foi implodido. Feridos, os dois se arrastaram pelos destro�os. Os ferimentos eram leves, embora suas m�os estivessem todas ensang�entadas, as costas e as testas cheias de cortes, os flancos com equimoses e os p�s ardendo.
- Porra, eu vou cair! N�o vou ag�entar! T� passando mal! Juca, me ajuda!
Ele percebeu que os olhos dela estavam rasos de l�grimas. Na superf�cie, Mariana era durona, brutal, grossa, seca, fria. Mas no fundo seu cora��o chorava de agonia. Amparando-a, levou-a at� um rio que havia ali perto.
Mas suas ondas estavam revoltas, j� invadiam e inundavam a cidade com seu volume hom�rico. Mariana iria se afogar. Juca segurou-a pela m�o.
- Eu vou morrer! Juca, por favor, foge, pode me deixar, n�o quero que voc� morra por minha causa! Vai, eu n�o mere�o seus esfor�os, n�o me mere�o sua vida, sua ajuda, seu carinho!
- Eu vou te salvar! A f� move montanhas...eu vou mover essa montanha que atrapalha seu caminho!
Uma linha se tra�ou pro entre o aguaceiro espumante. Duas por��es do rio se dividiram e se distanciaram, criando um estreito caminho de terra �mida por entre as muralhas de �gua.
- Vai, Mariana, foge, vai por outro lado, r�pido!
- Mas Juca, e voc�?
Mariana correu e atravessou o rio, ao mesmo tempo em que os muros aqu�ticos desabavam e as ondas tragavam. Juca. Ela gritou pelo seu amigo, e caiu em prantos no ch�o ao v�-lo ser engolido por uma baleia que surgiu do nada.
Ela chorava convulsivamente. Era como se o pranto lavasse seu cora��o maculado. S�bito, uma estrela passou, cruzando o c�u. Mais parecia um is�topo de plut�nio, pelo seu brilho verde-lim�o. Ela parou bem em cima de um est�bulo, onde um casal cuidado de uma crian�a rec�m-nascida.
- Mas...como?
Mariana n�o acreditou no que viu. Uma nuvem de areia se levantou e encobriu a manjedoura. Um homem apareceu, carregando um embornal de couro, jogando sementes na areia gelada. Ao ver a garota, ele lhe beijou no rosto e se despediu. As feridas sumiram, a dor parecia nem ter existido. Um sopro de vento varreu uma duna ao seu lado, e revelou uma baleia ca�da. O ventre do cet�ceo se abriu e, depois de uma cachoeira de sangue, linfa, tecidos, tripas e m�sculos, apareceu Juca, respirando desesperadamente, como um afogado.
- Juca! Mariana o abra�ou.
- Eu...n�o...sei...como...estou...vivo! Eu...nasci de novo!
- Juca, me explica, por favor, o que t� acontecendo? Me explica, quem � esta que avan�a como a aurora, tem�vel como um ex�rcito em ordem de batalha, brilhante como o Sol e como a Lua?
Juca ia explicar, mas apagou subitamente. Acordou em sua cama. Fora tudo um sonho. Mas os sonhos eram importantes, pois foi neles que se revelaram as vacas gordas e as vacas magras. Levantou-se de um salto e correu para o hospital municipal.
Burlando a seguran�a do necrot�rio, ele puxou uma gaveta onde erroneamente tinha marcado o nome �L�zaro�. Encontrou Mariana l�, ela tinha sido dada como morta por overdose. Ela estava nua, somente toalhas cobriam seus seios e seu ventre. Juca a chamou tr�s vezes, e na terceira ela abriu os olhos e respirou profundamente, assustando a todos os legistas.
- Voc� est� viva! Juca pegou em sua m�o gelada.
- �...voc� sonhou a mesma coisa que eu?
- Acho que sim.
- H� algu�m no cosmos que nos criou...que nos protege...que nos ama...e que vem sempre em nosso socorro! l�grimas rolaram pelo seu rosto- Juca, eu te amo!
Os dois se beijaram. A luz do sol rompeu as janelas do necrot�rio e seus raios banharam Mariana. Ela agora estava vestida de Sol.
Era a manh� do dia 24 de dezembro.
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