| Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005 JOS� MARCELO SIVIERO INC�NDIO NA CAIXA D'�GUA E ent�o aconteceu o que nem o leitor vai acreditar: a caixa d'�gua do s�tio pegou fogo. Sim, � verdade o que est� grafado nestas linhas. Al�m do qu�, tudo come�ou bem cedo, quando faziam um churrasco de domingo. Os cozinheiros sofriam para acender a churrasqueira, tentavam de todas as maneiras, j� tinham tentado com uns p�es duros de quinze dias, mas o m�ximo que conseguiam era dar banho de �lcool no carv�o. Daquele jeito n�o dava, as mulheres j� reclamavam, as crian�as choravam de fome e os demais convivas reclamavam de prato na m�o, n�o conseguiam mais se manter s� na farofa, no p�o com vinagrete e na cerveja, eles queriam picanha, ling�i�a, costela, queriam mastigar, queriam carne assada. Enquanto lutava-se para ati�ar nem que fosse uma fraca chama ali na churrasqueira, na caixa d'�gua, postada no alto dum poste acima do banheiro, desprendia um cheiro de queimado. Come�ou com o odor da fuligem, depois evoluiu para uma fina fuma�a, um fumo acinzentado que se enrolava nos ares, e ent�o apareceram as primeiras brasas. Delas, levantou uma chama fina, contorcendo-se como uma cobra cega envenenada. Alimentada pela brisa, a chama logo virou fogueira. Come�ou ent�o o corre-corre. Os av�s e tios-av�s foram removidos �s pressas do ambiente, a fuma�a poder-lhes-ia atacar a asma, comprometer o enfisema, dar um ataque do cora��o e inflamar os joanetes, embora ningu�m tivesse um embasamento cient�fico claro sobre isso. Depois foram as crian�as, elas poderiam se machucar naquele inc�ndio, mas as mesmas come�aram a pular, gritar e chorar, escapando de sua prote��o com mordidas, pontap�s, belisc�es e pisadas, pois elas queriam ver a caixa d'�gua pegando fogo. Numa assembl�ia informal entre as mulheres, ficou decidido em unanimidade que a parcela masculina deveria se responsabilizar pelo fogar�u. O tio mais novo, rec�m-sa�do do semin�rio, h� poucas semanas ordenado padre, pegou do seu crucifixo e tentou exorcizar a caixa, argumentado que aquilo s� poderia ser uma artimanha de L�cifer. Um dos cunhados chatos, pastor protestante, falou que o culpado era o padre, aquele inc�ndio sobrenatural era culpa deles e de todos os cat�licos, aqueles pulhas que viviam adorando imagens e seguindo um falso profeta vestido de branco que morava no Vaticano. Brigaram os dois. Uma das cunhadas, esp�rita essa que comprava todos os lan�amentos em livros psicografados, disse que aquilo era normal, que existiam esp�ritos zombeteiros que viviam soltos pela terra, pregando pe�as nos encarnados. Tanto padre quanto pastor argumentaram que aquilo era bobagem. O tio cientista, f�sico professor da UNICAMP, dizia que aquilo n�o tinha como acontecer, era inconceb�vel que a �gua n�o apagasse o fogo. Ao que a sobrinha adolescente, uma ametista pendurada no pesco�o, an�is nos dedos e incensos no bolso, afirmou categoricamente que aquele fen�meno era poss�vel sim, pois bem poderia a �gua da caixa estar mais energizada que o fogo, e por isso ela o repelia, segundo princ�pios duma f�sica m�stica que parecia n�o fazer sentido. Consumida pelas labaredas, a tampa tombou na gramado da casa, quebradi�a, quase um peda�o esturricado de carv�o. E as chamas continuavam avan�ando, sem medo da sua maior inimiga desde o in�cio dos tempos. Uma nuvem de vapor d'�gua agora emergia do inc�ndio, misturada � fuma�a. A �gua ali ilhada pelo fogo chiava como uma panela de press�o cozinhando feij�o, fervilhava com colinas e mais colinas de bolhas. - Ei, t� fazendo barulho de panela de press�o! Parece at� que t�o cozinhando uma panela inteira de feij�o...epa, mas t�o cozinhando feij�o! Sente s� o cheiro! Um aroma apetitoso de feij�o bem temperado inundou o s�tio inteiro. Mas como, ser� que algum engra�adinho tinha jogado uns gr�os l� dentro para ver se cozinhava? A caixa d'�gua se assemelhava tanto a uma panela de press�o que, pelos seus in�meros remendos, cuspia um jato de vapor quente. O cunhado b�bado e chato(todas as fam�lias tem um, at� a do leitor, aposto), acordando do seu sono �brio, levantou-se tran�ando as pernas e alisando o bigode frondoso, ignorando totalmente a caixa d'�gua em chamas. Dirigiu-se ao banheiro, alheio � confus�o. - �i, oceis s�o tudu uns bosta, uns medroso! Afin� prum neg�cio desse? Eu num tenho medo di nada dessas bosta, i v� no banh�ro i nem � pra caga di medo! Mas a cerveja e as caipirinhas deixaram sua vis�o de tal maneira obscura que ele n�o percebeu a n�voa que escapulia por entre a fechadura e as frestas da porta. N�o ficou nem sessenta segundos dentro do toalete, saiu de l� desesperado, as cal�as ainda arriadas, s� de cuecas: - Oceis s�o tudu uns bosta! Eu v� mat� o lazarento morf�tico qui mi sacani�! Dentro do sanit�rio era uma verdadeira sauna �mida, cheirando a eucalipto. Seus rolos de vapor praticamente envolveram toda a casa do s�tio, umedecendo todos os cantos. Ficou t�o abafado ali que precisaram trancar a porta e ved�-la com fita isolante. Os homens tentavam controlar o avan�o das chamas, at� que o poste, espontaneamente, come�ou a tremer, sacudido com alguma for�a invis�vel. Tremeram de medo, e fugiram para tr�s das bananeiras. Um g�iser levantou-se do meio das chamas, cuspindo uma coluna fervente de �gua sulfurosa. A fuma�a amarelada que apareceu para acompanhar a fuligem e o vapor, segundo alguns, fedia a ovo podre, mas uma tia professora falou que era enxofre, e era muito bom para os pulm�es. O inc�ndio perdurou at� o anoitecer. Munidos de uma mangueira enorme, cortesia do tio bombeiro, o inc�ndio foi debelado com jatos violentos, e dele s� restou a fuma�a e umas brasas assoviando. O duro foi que, antes de bombardear a caixa, a mangueira encharcou a churrasqueira, frustrando os planos de assar as carnes. Mas n�o havia nada de mal, o inc�ndio at� foi ben�fico para o s�tio, pois as torneiras e o chuveiro ficaram com �gua aquecida por v�rios dias ainda, sem precisar gastar nem uma fagulha de energia el�trica. Com a churrasqueira alagada, guardaram-se as picanhas e costelas no refrigerador. Mas, como na segunda-feira era feriado, decidiram fazer lanches � noite. Trouxeram uma chapa, ligou-se o fog�o e abriram-se v�rias garrafas de cerveja, uma vez que ningu�m precisaria se preocupar em acordar cedo no dia seguinte. |
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