Ter�a-feira, Dezembro 21, 2003

JOS� MARCELO SIVIERO

NATAL GAL�TICO


Era noite de Natal, e eu estava mal-humorado. A missa ainda n�o tinha come�ado. Estava eu do lado de fora da Matriz, morrendo de calor debaixo daquela t�nica franciscana, o cord�o bege apertando-me as gorduras da minha saliente barriga de cerveja, ela pendurada acima daquele cinto de l�. Eu nem parecia quem deveria parecer, qualquer cat�lica n�o veria um S�o Jos� ali, nem o cajado salvava.

J� a Virgem Maria, pregava a opini�o p�blica, talvez n�o fosse mais virgem. Eu n�o escondia que gostava dessa amiga minha, mas ela nunca deu maiores provas de que sentia alguma atra��o por mim. Ela sa�a junto com o nosso pessoal, �amos beber juntos, faz�amos piada, divert�amo-nos, mas ela nunca transpareceu algo mais. E eu sentia ci�mes cada vez que ela chegava e dava aten��o a um amigo seu. A minha amargura, nesse Natal, era o fato de que eu tinha acabado de saber que um bom amigo a tinha agradado mais que eu, e que ela andava saindo com ele. E eu n�o tinha coragem de puxar uma briga ignorante, n�o era namorado, mas ainda pelo menos era um bom amigo dela, como a pr�pria j� reiterou uma vez.

Ali na pra�a, os pipoqueiros e os donos das carrocinhas de cachorro-quente e churros esperavam o t�rmino da missa para depois correrem �s suas festas particulares. Alguns carros passavam ali pelo centro, hoje todo iluminado, com guirlandas, gorros vermelhos, Papais No�is, neves de algod�o, fest�es e estrelas-de-Bel�m. As �rvores do largo pareciam em chamas, cobertas daquelas l�mpadas do tamanho de vaga-lumes.

- Vije, acho que esqueceram o Menino Jesus- dizia a minha m�e a qual eu era apaixonado em segredo.

- �, pelo visto- respondi eu. Uma das minhas falhas a� estava, eu era insosso, n�o tinha muitos assuntos, e tamb�m acho que nunca terei jeito com as mulheres.

- Bom, a missa j� vai come�ar- falou um dos reis magos.

- Esse menino Jesus tem que aparecer por aqui at� a hora do Evangelho, pelo menos- disse outro s�bio do oriente- sen�o o padre vai quebrar o c�rio na nossa cabe�a.

Gaspar, Melchior e Baltasar levavam nas m�os caixas embrulhadas com coloridos pap�is de presente, embrulhos muito avan�ados para a �poca que a gente tentaria reproduzir. Uma amiga nossa, essa vestida de anjo, aproveitava a demora da chegada do beb� e do in�cio da celebra��o para comprar um sorvete americano na esquina da pra�a, daqueles de massa morna cuja carrocinha se enxerga de longe devido aos gal�es de suco e das abelhas que se acotovelam aos p�s dos mesmos. At� que enfim, � porta da igreja, chegou o padre, j� paramentado, acompanhado por dois ac�litos de jaleco branco, quatro irm�os do Sant�ssimo com seu colete roxo e suas lamparinas e o casal escolhido para levar a �ltima vela � coroa do Advento.

- N�o avisei voc�s porque n�o deu tempo- disse o p�roco, reluzindo na sua batina dourada de debruns encarnados, que parecia costurada com ouro- mas n�o vai ter um beb� de verdade. A gente providenciou uma imagem.

- Tudo bem, sem problemas- respondi eu.

Desafinado, o coral executou uma m�sica de entrada desconhecida de toda a assembl�ia. Enquanto esper�vamos ali, �s costas do povo, chegou o Professor Hamilton no seu Fiat 147 creme, aquele calhambeque que s� ligava por milagre, levando uma parafern�lia debaixo do bra�o que lembrava um cruzamento de um Motoradio de mais de vinte anos, uma televis�o a v�lvula a uma bateria de autom�vel.

- Com licen�a, onde � a escada at� o campan�rio?

O Prof. Hamilton parecia uma mistura de Einstein com Jacques Cousteau, e era um dos mais velhos mestres de F�sica da cidade. Tinha fama de avoado e maluco, e j� fazia duas semanas que ele andava com aquela fixa��o de captar mensagens de outros mundos. O padre o autorizara e utilizar a torre da igreja para suas pesquisas, e ele a entulhou de lunetas, p�ndulos, livros de anota��es, lousas, um 486 que abrigava baratas em sua CPU e agora vinha com aquele aparelho estranho.

"Gl�ria a Deus nas alturas, gl�ria, gl�ria, aleluia. Gl�����ria, gl�ria n�s c�us, e paz na terra entre os homens", cantou o grupo de anima��o da missa. "Gl��������riaaaaa...in excelsis Dei", cantou o sacerdote. Logo depois aclamaram o Evangelho e n�s entramos, primeiro eu e a minha amada que n�o me correspondia, ela levando a est�tua do Menino Jesus com se ele fosse um beb� verdadeiro, e depois, ao t�rmino da leitura, o padre mostrou a imagem a toda a assist�ncia e badalou um sino de m�o. N�o tardou muito e chegaram os Reis Magos do Oriente, levando a mirra, o incenso e o ouro em pacotes avan�ados muitos s�culos. E ali, numa estrebaria improvisada � frente do altar, imitamos a imagem cl�ssica dos pres�pios.

Na volta, cada um dos Santos Reis se despediu e, correndo r�pido, j� foram cair na festan�a. Eram primos os tr�s, e sua fam�lia era muito agitada, gostava de uma farra, divertiam-se a valer. Diferentemente da minha, onde eu vivia magoado com meus primos, ignorado por alguns tios, meus pais brigando com todos os parentes, o cl� cada vez mais desunido e distante. E todas as ceias de Natal nossas eram frias, cheias de falsidade.

A minha amiga de asas de algod�o era a �nica que me entendia, mas tamb�m ela tinha um jantar na ch�cara para se preocupar. Sobrou a garota de v�u e t�nica azul-clara, que mal se vestiu novamente e j� saiu atr�s da igreja para se encontrar com o meu amigo que a roubou, os dois conversavam muito pr�ximos, ela n�o se constrangia de tocar nele, ele n�o era repelido quando a acarinhava, que era o que se dava comigo. Ele me cumprimentou e me fez votos de Feliz Natal antes de irem embora juntos, no Gol cinza dele.

Eu n�o estava com paci�ncia para ver o resto da missa, nem me sentia suficientemente limpo de pecados para tomar a comunh�o, de
maneira que subi at� o campan�rio quando come�aram a tocar a velha can��o da cepa. Encontrei l� o professor, que me deu aula no
colegial inteiro, compenetrado em operar sua aparelhagem.

- E a�, "seu" Hamilton, beleza com o senhor?

Ele p�s o dedo aos l�bios e me pediu sil�ncio. Depois, mostrando as listras e pontos da TV sem sinal, come�ou a divagar, como ele fazia muitas vezes durante as aulas:

- Veja, voc� pode chamar tudo isso de chuviscos, mas essa TV � alterada para usar um sistema imag�tico de capta��o de radia��es. Em outras palavras, ele agora est� conectado ao universo, repassando informa��es. Em um momento ou outro, poderemos fazer contato com povos de outros planetas!

O Professor Hamilton e os seus velhos sonhos.

- Eu vi no meu telesc�pio um cometa inesperado a alguns anos-luz de Plut�o! Os cometas n�o surgem de uma hora pra outra, e a astronomia at� agora n�o p�de explicar como uma estrela cadente dessas p�de aparecer assim, espontaneamente!

S�bito, a TV a v�lvula emitiu um longo assovio, de ferir os ouvidos. Numa mesa de controles que pareciam equalizadores, o f�sico girou bot�es e apertou teclas, acionou chaves e sacudiu um comando que parecia um seletor.

- N�s fizemos contato, viva! N�o estamos sozinhos no Universo, n�o...vamos ver, vamos ver, vamos ajustar essa freq��ncia e esses comprimentos de onda...

A cena que vimos no seu monitor cat�dico talvez tenha sido presenciada por poucos mas lembrada por muitos, sem nenhuma prova viva sua. Num deserto que parecia os mares da Lua, cheio de forma��es rochosas, �rido e agreste, sob um iglu feito com algum tipo de metal azul, talvez tit�nio, dois seres de pele verde pousavam um singelo filhote sobre um c�lice de madeira, acomodando-o num macio tapete de grama fina. O beb� extraterreno era rosado, e ele emitia luz, sua pele parecia pegar fogo. Logo chegaram tr�s seres cabe�udos que levavam consigo b�falos em miniatura de p�lo verde e antenas de inseto, que se ajoelhavam � entrada do domo. Um disco de luz aterrissou ali perto, levantando v�rias dunas, e dele desceram tr�s reis com a apar�ncia de r�pteis, trazendo em suas m�os um cristal, uma flor quadrada e um instrumento que de longe lembrava um tur�bulo. O meteoro que o professor viu veio queimando a sua cauda, rasgando o ar, at� estacionar-se sobre o domo e iluminar todo o deserto.

- Ent�o, professor, o que � isso? eu estava at�nito, pasmado com aquela cena que via.

- Eu posso dizer a voc�, agora- o cientista estava visivelmente emocionado- que por um momento a minha Ci�ncia derramou l�grimas pela primeira vez na sua longa hist�ria.

Toda a minha amargura passou ao olhar fundo nas pupilas ovais do beb� alien�gena. S� de pensar que ele viveria e lutaria muitos anos para libertar aquele planeta distante, eu senti que a esperan�a era poss�vel, ali a anos-luz de dist�ncia.
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