Domingo, Abril 10, 2005

JOS� MARCELO SIVIERO

Uma f�bula virada de ponta-cabe�a pelo avesso! Uma par�bola ora reta, ora torta, ora espiral. Duvidam? Ent�o venham bater um papo com...

A Doida da Torre

Todo mundo sabia que a Doida da Torre morava numa tenda feita com os farrapos de um velho toldo, ali em cima daquela estrutura de metal, ao lado de um bumbo gigante e de uma retorcida antena parab�lica. Bem onde � noite piscava uma fagulha cor de sangue. A torre de r�dio e TV de nossa cidade era t�o alta, t�o imponente, t�o s�lida nas suas esquadrias pintadas ora de vermelho e ora de branco, que era vista nitidamente at� dos s�tios e fazendas. Com aqueles v�rios c�rculos, que a molecada achava que eram bumbos do tamanho de casas, mais as v�rias parab�licas, n�s pod�amos ouvir r�dio e sintonizar a Rede Globo. A torre trazia a voz do mundo at� n�s. A sua pintura, que para n�s era muito ex�tica, dizia o prefeito que era assim para orientar algum aviador para que n�o trombasse sua aeronave contra as esquadrias met�licas. Mas s� mesmo um piloto b�bado para guiar o seu avi�o para aquele fim de mundo.

O toldo verde da tenda da Doida destacava-se como uma folha viva durante o dia. � noite a cabana sumia, mas ela estava ali em cima, a luz sinalizadora era como o seu olho espi�o. Para nos esconder, precis�vamos cerrar as portas e janelas das casas, pois a Doida, debru�ada no cercado do topo, enxergava at� mesmo os gatos e c�es perambulando pelas ruas.

Mas nada do mundo escapava � Doida. Por viver ao lado de antenas, parafusos, receptores e im�s, bastava ela ligar um arame no metal da torre que imagens e sons chegavam �s suas sucatas de televisores e r�dios. O que acontecesse no Planeta Terra ela sabia: um atentado terrorista na Espanha, a morte de um cartunista norte-americano, a nova guerra no meio do deserto do Oriente M�dio, os rob�s japoneses, o �ltimo discurso do presidente da China, uma instala��o feita de bicicletas enferrujadas e garrafas pintadas na Bienal.

Poucas vezes a Doida desceu do seu ref�gio a�reo. Nessas ocasi�es, nunca viam-na pendurada nas escadas. Num piscar de olhos, ela pisava as cal�adas com seus p�s cascudos, em outro, j� estava ela l� em cima novamente. Nessas suas visitas, muitos moleques corriam subir no topo das mais frondosas goiabeiras, ou se enfiar por meio dos matagais dos terrenos baldios, pois as m�es, usando a disciplina do medo do que n�o se v�, contavam que a Doida perseguia e devorava crian�as desobedientes que n�o gostavam de comer feij�o. Mas ela s� percorria os quarteir�es, jogando um velho ioi� num eterno vaiv�m, sempre serena.

Ningu�m sabia quando a Doida tinha aparecido, h� quanto tempo morava no alto da torre, seu verdadeiro nome, porque resolvera se isolar nas alturas. S� lembravam dela jogando seu ioi�, com a pele curtida de tanto sol, usando sobre o corpo somente um cobertor xadrez desbotado e esfiapado, agitando os cabelos cor de palha, rebrilhando ao sol como se suasse em bicas, mas exalando um aroma de incenso indiano, daqueles de missa de Natal. A Doida n�o era nem menina e nem velha, tinha uma idade indefin�vel.

Uma vez, ainda um molecote que soltava pipa, ca�a de bicicleta e viva com a tampa do ded�o do p� dilacerada, cismei de subir na torre, mesmo com as hist�rias da Doida, com o perigo de ser pego pela pol�cia e pelo Conselho Tutelar. Encontrei-a sentada no ch�o em posi��o de l�tus, o reflexo das coxas roli�as ofuscando meus olhos.

- Eu tenho a resposta para as suas perguntas e as perguntas para as suas respostas- falou ela, abrindo os bra�os e inundando minhas narinas com seu cheiro de missa- voc� veio me perguntar quem sou eu, n�o �?

Ela arrancou � for�a as palavras da minha boca. E veio me explicando algo complicado sobre viagens no tempo, sobre uma infinidade de portais que levavam ao passado e ao futuro espalhados pela cidade...que a janela para as lembran�as ou para as conjecturas poderia estar por entre as cornijas e arcos da Matriz at� nos buracos da rua de casa.

O tempo foi passando, fui perdendo o interesse por brincar de esconde-esconde, por abrir com suspense os ovos de chocolate que vinham com miniaturas-surpresa, por empinar pipas, por jogar licen�a-b�ti no meio da rua e por pular feito pipoca quando via algum desenho japon�s de pancadaria. Minha acanhada cidade, aquela caixa de f�sforos no meio do mato onde se amontoavam quarteir�es, onde s� as luzes de merc�rio ficavam acordadas de madrugada, continuava o mesmo fim-de-mundo, com algumas diferen�as: algumas vielas asfaltadas, algumas casas de outrora com o teto caindo, o reboco arranhado, os port�es enferrujados e as plantas grandes, antigos terrenos baldios com constru��es levantadas, ruas com novos buracos, a igreja da pra�a com nova pintura, os amigos altos, mudados, tomando cerveja, trocando o estalo dos traques e bombinhas pelo cantar dos pneus. E eu longe, morando fora, pois ali era terra onde nada ia para a frente, era morada somente dos que esperavam a morte.

Desci do carro em frente ao alambrado da torre. Subi como da primeira vez, sem me importar com a pol�cia, e encontrei novamente a Doida da Torre sentada como um Buda, ainda cheirando a incenso.

- Eu sei muito bem o que pensa sem que me revele e sei o que me revela sem pensar- falou ela, ajeitando uma dobra da manta que escorregava pelo ombro- o futuro j� se transformou em presente, mas ainda h� uma migalhas de passado por a�.

Sa� como um louco, buscando o farelo do que j� tinha sido e acontecido, mesmo que ele estivesse amarelo, caduco e comido de carunchos. Entrei num bar, cujas garrafas nas estantes e cujo retrato do time do Palmeiras ainda continuavam os mesmos, pedi um ovo de chocolate daqueles que vem com surpresa. Saboreei o doce, matando a saudade do cacau, e rapidamente montei um tosco centauro de armadura espanhola esculpido em pl�stico e pintado a m�o. Cortei umas varetas finas de bambu, colei em folhas de seda, emendei v�rios novelos de linhas de pesca e de costura, enrolei-os numa latinha de leite em p�, e fui at� a estrada de terra onde por v�rias vezes tinha que esconder o cerol nas touceiras de mato e nos buracos de tatu-galinha. Quando dei por mim, tinha acabado de �batizar� minha pipa, com a linha toda desenrolada, formando uma barriga com o vento. Comprei um estilingue, assusteis alguns pardais, derrubei um caga-sebo, estourei a l�mpada de um poste. � noite, quando j� estava escuro, dei pedradas em alguns gatos ariscos e procurei pela mancha negra entre os cones luminosos de dois postes, meu esconderijo preferido para ganhar nas brincadeiras. Deixei o asfalto e o cal�amento fritarem a pele de meus p�s, florescendo v�rias bolhas brancas.

Pela amanh�, ao acordar com os galos cantando, parecia que nevava em minha cidade. V�rios len��is alvos flutuavam e cobriam as casas e esquinas, deixando sua marca �mida nas samambaias e arrudas. O nevoeiro s� deixava enxergar alguns vultos de varandas, lixeiras e fia��es el�tricas, al�m dos contornos das antenas. A torre agora parecia s� um risco negro. Parecia que tinham aspergido incenso nas r�tulas de todas as portas.

S� enxergava o esqueleto da minha terra, os rabiscos, os rascunhos com marcas de borracha. Ali, obscura na bruma, n�o sabia se minha terra era a de antes, se era aquela atual desde a hora do meu sono ou aquela depois do tempo em que fiquei distante. Nenhum rel�gio se via na umidade da n�voa, nem as batidas do carrilh�o da igreja se ouviam. Mas o nevoeiro, eu sabia, brotava do topo da torre, de dentro da tenda verde, dos poros do corpo da Doida. Num instante que jamais se conseguiria medir ou calcular, o tempo tinha parado. Respirei fundo aquele ar gelado.
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