Quinta-feira, Agosto 05, 2004

JOS� MARCELO SIVIERO

Extra�do do livro "Contos Absurdos"(que faz muito jus ao nome), neste conto os leitores poder�o acompanhar a saga surreal e imposs�vel de Wanderklaydisson, um garoto um tanto quanto...diferente. Ent�o deleitem-se ao ler um t�pico...

CONTO FANT�STICO DE CIDADE PEQUENA



Naquele tempo, nos ver�es com aquele sol de rachar mamona ou naqueles invernos em que tudo mundo sa�a na rua para soltar pipa, uma das coisas que meu primo e eu, al�m de toda a molecada da vizinhan�a, gost�vamos de fazer era invadir a casa do Dr. Celso e l� dentro aprontar alguma, brincar de esconde-esconde, soltar traques e outras travessuras em geral.

Era um sobrado imenso, imponente, tomando uma esquina inteira, perto dos pastos onde terminava a cidade. Fazia j� muito tempo que ele estava em constru��o, e j� especul�vamos que, quando estivesse pronto, seria um belo dum palacete. Apesar de n�o ter ainda muros, port�es, jardins, janelas, portas e piso, e tamb�m de poucos aposentos terem teto e nenhuma parede ter reboco, muita gente j� queria morar l�, por entre pilhas de tijolos, sacos de argamassa e andaimes. E, como naquela cidadezinha ningu�m erguia tapumes nas constru��es, invariavelmente muita gente entrava e circulava por ali.

Uma tarde de domingo, quando j� estava escurecendo e ventando frio nas ruas empoeiradas, bem na hora em que meu tio entornava mais uma dose de conhaque e gritava para a televis�o, numa v� tentativa de que Rom�rio o escutasse e acabasse de vez com aquela tensa final de Copa do Mundo, uma fam�lia desceu da carroceria do caminh�o do �seu� Z� Boiadeiro. Estavam sujos do suor da viagem e vermelhos de tanta poeira, da ponta dos cabelos at� o bico das botinas. O pai foi o primeiro a saltar, chacoalhando o seu terno de missa e deixando cair no ch�o v�rias sacolas de supermercado estufadas e rasgadas. A m�e pousou no asfalto a gaiola do periquito e o quadro rachado de Nossa Senhora Aparecida com a bas�lica antiga e o rio ao fundo. O filho, um moleque desdentado da nossa idade, mas que aparentava bem menos, largou as pesadas malas e valises xadrezas que aqueles bra�os de palito miraculosamente conseguiam sustentar, e p�s a brincar com o vira-lata bege que os acompanhava.

- �ia, Calango- falou �seu� Z� ao retirante- a� � a casa do Dr. Celso. O Dem�trio da Neusa � o pedreiro que manda. Ele mora ali atr�s da SABESP- apontou com o queixo a caixa d��gua na arborizada sede da companhia. L�, quando havia pessoas hom�nimas, detalhes como a mulher, a m�e, o pai e outros serviam para distinguir os moradores com nome id�ntico.

Calango, que soubemos depois que se chamava Fabiano, como o Fabiano de Vias Secas, foi at� a casa do mestre-de-obras e o encontrou fazendo churrasco no lote do lado, geminado � sua acanhada e velha casa.

- �Seu� Fabiano...

- Cumigo n�o tem seu. S� home de Deus, num tenho nem unha de senhor. Pode cham� eu de Calango memo, patr�o.

- Calango, tem cama e colch�o sobrando aqui, e se faltar eu mando buscar na casa do meu irm�o.

- Carece n�o. Eu durmo na constru��o memo.

Mas Fabiano n�o vinha do mesmo local do outro Fabiano. Era ali da regi�o mesmo. Tinha perdido o emprego num s�tio da regi�o, foi para Rio Preto para tentar a vida, mas l� chegou at� mesmo a estourar carros para levar toca-fitas, enquanto a mulher satisfazia os desejos doentios dos jovens filhos de fazendeiros que queriam sentir o gosto do corpo de caipiras sujas e o filho vendia balas nos sem�foros e fazia mesas de jogo fajutas no centro. Mas a Virgem de Aparecida fez um milagre e os levou para l�, na sua mesma terra, num lugar mais calmo, com emprego e tudo.

Fabiano cumprimentava todo mundo na rua e ia todo domingo � missa, mas n�o sentava nas mesas dos bares, n�o entrava nas rodas de cacheta, n�o tomava nenhuma dose de cacha�a na venda do Delfino e tamb�m n�o entrava em nenhum carro. Parecia um roceiro bruto, duro e seco, daqueles que batem nas esposas, mas nunca destratava a Nega, sua mulher. Era calmo. Ela era do mesmo jeito, vinha sempre fazer unha na casa da minha tia, cozinhava a feijoada beneficente que o padre sempre pedia, fritava os past�is e bolinhos da chuva das quermesses e era ela quem comandava os almo�os da par�quia.

Quem era o diabo era o Wanderklaydisson, o filho. Este vivia tomando surras hom�ricas dos pais. Vinha a m�e com o chinelo e o pai com sua cinta de vaqueiro, mas ele era t�o �gil e sortudo que v�rias vezes desviava dos golpes, fazendo os pais se acertarem por acidente. Na primeira vez que ele pisou no fliperama do Cupim, j� foi escorra�ado pelos comensais da casa. O dono sempre tentava atenuar a cabe�a quente dos seus fregueses, mas teve um dia que at� ele socou o balc�o de tanta raiva.

- Eu estou falando pra voc�s, e � s�rio- dizia Cupim, arrumando a gaveta onde guardava os cartuchos de Super Nintendo- se o filho do Calango relar nessa porta, podem chamar o tio de voc�s e mandar vir buscar!

(nessa �poca, um tio nosso, que n�o era o pai do meu primo, era presidente do Conselho Tutelar, e as crian�as o viam com o pr�prio Dem�nio, circulando com seus olhos vigilantes na Kombi de chapa oficial, pronto para pegar algum moleque fugido da escola.)

Num dia em que ningu�m, nem mesmo o propriet�rio do fliperama, conseguiam permanecer por muito tempo na casa de jogos, um cheiro esquisito insistia em impregnar o ar ali dentro. Afastaram as m�quinas, os pinballs, os aparelhos entulhados de chicletes, de bolas coloridas de l�tex e de bichinhos de pel�cia e at� o arcade de corrida que imitava um carro, e acharam um objeto em forma de charuto atr�s dos fios da Caddillac & Dinossaurs.

- Puta que pariu! gritou Cupim, derrubando um velho baleiro de farm�cia- o filho do Calango cagou no meu fliperama!

Ele tinha fama de louco. Diziam que conversava com o Quito, a ave da fam�lia, e com o Troglodita, o c�o que sempre o acompanhava. Isso a gente nunca viu, mas um dia l� estava ele com um filhote de gato nas m�os, comentando o bicampeonato brasileiro do Palmeiras. Falavam ainda que, para Wanderklaydisson n�o fugir de casa, depois das oito da noite os pais lhe davam uma dose cavalar de ch� de camomila, acorrentavam-no num aposento da casa do Dr. Celso e, ali dentro, queimavam bosta de burro, pois acreditavam que o g�s daquela combust�o o dopava.

Mas Wanderklaydisson, acima das fofocas que peg�vamos de orelhada nas sess�es de manicure da minha tia, realmente tinha h�bitos estranhos. Alimentava-se exclusivamente de pe�as inteiras de mortadela com sacos e mais sacos de farinha de mandioca. Ao contr�rio do pai, tinha amor por autom�veis, tinha ere��es quando entrava dentro de um carro. J� das bicicletas tinha um pavor doentio. Nas brincadeiras de esconde-esconde, era quem sempre corria mais. No fliperama do Cir�o, o irm�o rival do Cupim, onde os maloqueiros da cidade fumavam e bebiam � vontade, ele consertava as m�quinas arrebentadas com o pensamento. Quando cismava, fazia fogueiras com santinhos de pol�ticos e de ora��o. E, muito freq�entemente, dizia que amava os bichos-de-p�, os sapos e as arapu�s da mesma maneira que amava as meninas de seios nascentes na flor dos doze anos.

Um dia, n�s o encontramos empinando pipa no pasto. A sua era feita de cortina de chuveiro, toda remendada, e marcada com seu pr�prio sangue. Com a lata nas m�os, ele falava que um dia ainda seria astronauta, que lutaria igual ao Jackie Chan, que viajaria para lugares distantes que ficavam perto do fim do mundo, como a China, Buenos Aires, Paris, Portugal, Araras, Oriente M�dio e v�rios outros lugares. Disse que seria dono de uma emissora grande de TV, mas que nunca empinaria o nariz e ficaria chato, sempre chamaria todo mundo quando fosse fazer churrasco.

Numa das tardes intermin�veis em que pass�vamos horas jogando videogame no fliperama do Cupim, ele apareceu, com a m�o em viseira sobre os olhos, procurando alguma coisa.

- T� procurando o qu�, Calanguinho(o diminutivo do apelido de seu pai j� lhe tinha sido atribu�do).

- Aquele brilhante- respondeu ele, absorto em seu exame- aquele brilhante.

Mesmo com os protesto de Cupim, ele esquadrinhou o fliperama inteiro � procura do �brilhante�.

- Eu achei ele no quintal de casa- come�ou a contar- � um brilhante assim diferente, meio pequeno, meio grande, meio redondo, meio quadrado, do tamanho dum gr�o de areia, mas que parece que � maior que uma casa. � que uma noite eu fui matar uma r� no banheiro do fundo de casa, da� ele apareceu pra mim, uma puta duma bolona de luz, era pior que o Sol, a luz era tanta que dava pra p�r numa garrafa. Eu pensei que Nossa Senhora ia aparecer ali, mas da� veio o brilhante e queimou minha camisa e a parede. Ele falou comigo e disse que tinha vindo da Lua. E tamb�m falou que � louco por banana, bolinho de chuva e X-Salada.

Essa foi a primeira. Meu primo contou que, num dia na escola, Wanderklaydisson disse que para se aprender carat� a primeira coisa a se fazer era saber voar. Falou tamb�m de um casebre perdido no meio do mato onde estava escondido um livro terr�vel de magia negra, de um galo �ndio de um metro e sessenta de altura, de um barco enorme abandonado no rio, de motos como pneus de avi�o e do seu sonho de ter uma fazenda maior que a cidade inteira junta.

Um dia, est�vamos todos no s�tio, que o pai de um amigo nosso levou no seu caminh�o, amontoados junto com os ton�is de leite. Wanderklaydisson estava junto conosco. Foi muito divertido aquele dia, a gente correndo por meio dos laranjais, das canas-de-a��car, matando pardais e tico-ticos com estilingue, afundando o p� na lama do riacho e fazendo espadas de bambu. Numa hora, chegamos perto de um brejo entupido de bananeiras. �amos saltar na lama, mas Wanderklaydisson nos impediu:

- Cuidado! falou ele.

- Que deu em voc�? perguntamos todos.

- � que me falaram, j� faz um tempo, que teve um cara que tinha bananeira, e um dia ele deixou a penca do lado e subiu formiga nela. As formiga ficaram mexendo na casca, e deixaram um neg�cio vermelho em cima. Da� o home levou em Rio Preto, levaram num laborat�rio e falaram que aquilo era lava de vulc�o. Contaram e o home n�o acreditava: de que tinha uma lenda de que debaixo de planta��o de bananeira existem vulc�es. A� na frente tem um baita dum vulc�o brabo, de fritar o p� da gente.

- Larga m�o, Calanguinho- disse meu primo, no que foi prontamente seguido pelos outros.

Amea�ava chover. Mas n�s, moleques arteiros, nem ligamos, fomos mesmo � chafurdar no p�ntano das bananeiras. Um vento fresco sacudiu as folhas delas, e logo os pingos come�aram a cair de uma vez. O brejo se alagou, as geladas �guas barrentas j� batiam no queixo em ondas bravias.

- Puta merda- falou meu primo, pulando e agarrando a grama rala do barranco- t� quente pra caramba aqui debaixo.

A �gua rubra come�ou a ferver, pipocando em v�rios montes de bolhas. A molecada come�ou a choramingar de dor, pois os p�s ardiam, os de alguns at� a pele saiu, o meu tem marcas de queimaduras at� hoje. O fedor esquisito de carne humana assada subiu numa velocidade incr�vel. Mesmo com o frio, a chuva e aquele mundar�u de �gua, a terra onde estavam plantadas as bananeiras estava pelando de t�o quente.

Fugimos todos para o barranco, alguns choravam e gritavam com seus p�s incrustados de brasas. Aquela vis�o sangrenta e em carne viva me d� nojo at� hoje, e meu primo t�m arrepios quando lembra de ver peda�os de pele se descolando da sua carne. A terra tremeu, e g�iseres derrubaram as �rvores, ao mesmo tempo em que as bananeiras eram petrificadas pelo magma. Vapor se desprendia das �guas barrentas, parecendo miasmas.

- Voc�s duvidaram, t� a�- apontou Wanderklaydisson.

Nunca mais duvidamos nem rimos da cara do Calanguinho. Fomos amigos muito leais dele, principalmente no dia em que a Ave Maria de Gounod subiu pelas cornetas da torre da Matriz falando da morte do velho Fabiano.

Um dia, quando N�ga estava tamb�m muito doente, com Troglodita chorando diariamente e Quito sumido, pois um dia ele arrebentou a tramela da gaiola e fugiu para longe, Wanderklaydisson nos chamou para dentro da sua casa. Casa era modo de dizer, pois a resid�ncia de sua fam�lia se limitava � garagem e a algumas saletas do sobrado em constru��o do Dr. Celso. Mas eles tinham at� televis�o ali, uma Telefunken em preto e branco de gabinete de madeira. Foi de cima dela que ele pegou uma agenda ensebada e amassada.

- Esse � o livro de magia negra que eu falei pra voc�s- mostrou sua capa preta rasgada, com uma cruz g�tica dourada bordada e nenhum t�tulo ou letra. Deixou que a gente folheasse, embora o fizemos tremendo de medo dessas coisas macabras do Al�m. As p�ginas estavam amareladas, carcomidas, sujas de bolor, algumas ileg�veis devido a enormes manchas negras que lembravam borra de caf�, algumas grudadas umas com as outras, algumas ainda arrancadas. Os tipos eram bem trabalhados, com muitas iluminuras, e as figuras e fotos eram inquietantes.

Numa p�gina, havia o desenho de um Drag�o de Komodo se enrolando numa torre medieval.

- Esta figura aqui � o meu pai. A outra tamb�m- virou a p�gina mal-costurada e mostrou a figura de um druida de barbas brancas- aqui est� a minha m�e- mostrou uma �ndia nua, espregui�ando-se numa densa floresta- e estes s�o Quito e Troglodita- um era um le�o alado que lembrava um lobo e o outro era um falc�o esverdeado com uma cidade inteira nas costas- por fim, aqui estou eu- Wanderklaydisson apontou uma mandala, onde havia a figura de uma menina nua, de um garoto caipira de chap�u de palha na cabe�a e de um galo enorme.

Quando n�s viramos o rosto, Wanderklaydisson tinha-se metamorfoseado numa garota loira, com olhos negros e obl�quos como o de uma �ndia, a pele vermelha como um piment�o, o seu corpo nu em p�lo exalando um suor doce que nos deu uma dor-de-cabe�a terr�vel.

- Se voc�s amam o mundo- falou-nos- venham me amar.

Assistimos assustados �quilo, e a garota pelada virou ent�o um galo de um metro e sessenta de altura que quase nos cortou ao meio com uma esporada. Nunca corremos tanto na nossa. Mas a vis�o da garota loira nua ainda continuou ecoando nos nossos sonhos, aquele cheiro doce da garota suada ainda nos cutucando a cabe�a.

Um dia, uma das fofoqueiras que vinham fazer unha na casa da minha tia contou que Wanderklaydisson tinha morrido de rub�ola. Na casa do Dr. Celso n�o viram nenhum sinal de mob�lia, acharam somente o livro aberto em p�ginas brancas. As beatas, junto com o padre, acharam aquele livro her�tico e medonho demais e o queimaram na pra�a. Wanderklaydisson tinha voltado para dentro do volume de magia negra. De onde nunca deveria ter sa�do.
Coment�rios:
Voltar para Z� Marcelo

Voltar para
Contos
Hosted by www.Geocities.ws

1