| Sexta-feira, Junho 11, 2004 JOS� MARCELO SIVIERO O pr�logo de Kalixlandi- O Senhor das Bananas! Sim, aqui est� o pr�logo do meu livro que tenta ser uma s�tira a todos os Final Fantasies da vida. Criado como um descarrego para problemas emocionais, o Kalixlandi logo se tornou um mundo de RPG humor�stico e tamb�m uma inspira��o para uma nova s�rie de livros da minha autoria- todos usando as fantasias e sonhos que eu tive depois da minha inf�ncia. Bom, chega de papo. Vamos ao in�cio de O Senhor das Bananas! Na Banda Ocidental, banhada pelo Oceano Fermentado e geograficamente dividida em Resistores num�ricos, a grande mancha marrom que surgia por entre as nuvens hexagonais em forma de mol�cula de etil era o continente de Pankalix. � nele que nossa hist�ria vai se desenrolar, e que nossos inusitados anti-her�is ter�o a sua torta e ao mesmo tempo bel�ssima jornada. Ao sul deste enorme peda�o de pedra e terra, est� o Reino de Lemy, que por pouco n�o � rep�blica. Desde a tr�gica morte de Itamar, o Simpl�rio, ao ingerir um p�o de queijo envenenado, o Trono de Marivaldo est� vago, sem nenhuma linha de sucess�o. Lemy atualmente � uma reg�ncia sob car�ter provis�rio, mas um car�ter provis�rio diferente, quase eterno. A briga entre o chanceler Lorde Leelo, um antigo sindicalista e agitador pol�tico cuja coragem lhe custou um dedo extirpado por um wyvern faminto, e o conde Vit�rio Terranigma, um rico empres�rio e dono de quase toda a cidade de Ciudadizlan, era t�o singela e respeitosa que era incr�vel como ainda n�o tinham chovido tripas. Logo abaixo de Lemy est� o frio Reino de Kurebita, com o qual eles est�o em guerra h� muitos anos. Suas tr�s prov�ncias s�o reflexos das tr�s tribos que se unificaram para fundar o pa�s- Kurebita, Floryp e Pyrat- e desde as eras mais esquecidas eles t�m fama de arrogantes e xen�fobos. Tanto que o Rei Aleph, soberano de Kurebita, incentivava a cria��o de mil�cias de cavaleiros que espalhavam boatos sobre os lemyenses, aterrorizavam-nos e os perseguiam. Contudo, naquela noite estrelada em que tudo parecia mais gelado no C�lice, h� ponto de formar cristais de gelo de hidrog�nio nas bordas, nossa aten��o vai para uma bolha inchada sobre a Cidade de Kurebita, capital do nebuloso reino. Vis�vel do espa�o, parecia um domo volumoso e s�lido, v�vido devido �s suas palpita��es, como um pudim monstruoso ou uma pelota viva. Aproximando-se mais um pouquinho a c�mera liter�ria desse livro, percebia-se era neblina densa, quase tang�vel. Com uma talhadeira e uma faca, era bem poss�vel quebrar aquele nevoeiro, amassar e coloc�-lo num vidro de azeitonas. Esse fen�meno s� acontecia quando havia uma sobrecarga de man�, a energia m�gica. Que era o que acontecia ali, naquele exato momento. - Socorro! Tem algu�m a�? Ol�...ol�! Socorro! Um jovem que n�o devia ter mais que quinze anos, vestindo uma capa, uma bata e um chap�u de mago corria quase cego pela n�voa, trope�ando em pedregulhos, dando topadas com caules grossos e correndo para lugar nenhum. Seus �culos fundo-de-garrafa de aros grossos estavam emba�ados devido ao orvalho da n�voa, obscurecendo por completo a sua vis�o n�o muito favorecida. Desorientado, ele estava a ponto de chorar de medo e ang�stia por estar perdido naquela floresta desconhecida. N�o devia ter sa�do da cama naquele dia. Mal chegara na escola e j� tivera que fugir dos colegas, que o perseguiam pelo fato de ele ter nascido em Lemy. Sempre apanhava dos mais fortes e recebia olhares indiferentes ou zombeteiros das garotas. Combine a tudo isso aquela terr�vel fase da vida em que os horm�nios se tornam capetas com chifres, tridente e tudo- e assombram a vida dos seus possu�dos com espinhas que surgem espontaneamente, com cheiros estranhos debaixo do bra�o, com pensamentos sem sentido e com c�cegas quentes no ventre. Mal pisara no seu col�gio e j� tivera a sua capa puxada por um bra�o que teria feito muito drag�o amputar a cauda por causa de orgulhos feridos. Adoravam zombar de si devido ao seu gosto pela magia. Numa escola onde todo mundo queria seguir carreira de guerreiro, paladino, ronin, b�rbaro, ladr�o e arqueiro, ele era um gnomo no meio de um bando de caegils. Al�m das agress�es habituais, naquele dia, onde ele j� acordara estranho, ca�ra numa armadilha e, envolto numa rede, foi levado para aquela floresta. Agora ele tentava fugir. - Ei, voc�s! Por que fizeram isso comigo? Apare�am! Pegou sua varinha e invocou um feiti�o de luz, para tentar se orientar. Mas nem isso o ajudava, a n�voa era um verdadeiro sud�rio infinito. Foi ent�o que ele sentiu a temperatura diminuir mais ainda. Na ponta do seu nariz surgiu uma estalactite de gelo. Flocos prateados e �midos se enroscaram no seu cabelo. A umidade trincou as lentes dos seus �culos. Naquela hora ele sentiu n�useas e tontura, suas veias e art�rias se enrijecendo, como se o seu pr�prio sangue se solidificasse com aquele sopro glacial. O vapor d��gua que sa�a pela sua respira��o j� ca�a no ch�o em cubos. - N�o, n�o! gritou ele, a garganta seca e arranhada pelo vento, ao ver as pontas negras de um v�u balou�ando ao sabor da brisa. V�rios vultos escuros, verdadeiras sombras de carne e osso, trapos vivos, apareceram detr�s das �rvores, sa�ram do meio da folhagem de suas copas, emergiram da terra e desceram dos c�us. Aqueles panos esfrangalhados com uma vaga semelhan�a humana emitiam um som que era ao mesmo tempo guincho, grito e zunido- um ru�do de compassos de doidarina incandescentes riscando lousas de plut�nio. O mago m�ope come�ou a correr, in�til, pois os espectros eram muito numerosos e voavam furando o ar como balas de canh�o, deixando sua trajet�ria marcada com espirais roxos. Toda vez que esbarrava em um dos fantasmas, sentia uma dor lancinante no peito, como se tivesse surgindo um v�rtice no seu t�rax. At� o momento em que se chocou com uma esp�cie de rocha, que ele logo depois viu que era uma est�tua de um homem musculoso, cujas fei��es esculpidas lhe davam um estranho ar zombeteiro e provocador. Os olhos da escultura o assustaram, pareciam querer lhe instilar medo. Mais assustado ficou quando viu manchas �midas crescendo sob as pupilas de pedra, escorrendo viscosamente pelo rosto em gotas grossas. A est�tua estava chorando! - EU SOU GLAZER, A ALMA DAS TREVAS, SENHOR DAS ESTRELAS SEM LUZ- ecoou uma voz vinda da est�tua, que agora tremia como um liquidificador depois de bater um duende e rachava, derrubando fragmentos- VOC� JAMAIS CONSEGUIR� LIBERTAR O C�LICE, MESMO COM TODOS OS SEUS ESFOR�OS! O �dolo ent�o explodiu, liberando uma fuma�a p�rpura cheia de fagulhas e rel�mpagos, tendo um olho verde-lim�o ao centro, cuja pupila era um pentagrama. Mais espectros apareceram, agora vindos do meio da n�voa emanada pelos restos disformes da imagem. As dobras do tecido que formava os seus corpos et�reos se esticaram e se afilaram, transformando-se em agulhas gigantes, que logo iam picando e atravessando o corpo do nosso azarado protagonista. Ele gritou de dor. Parecia que era lancetado diretamente na alma, sem ferir a carne, sem derramar uma gota de sangue sequer. Como sempre acontece nessas ocasi�es her�icas, a hist�ria tem de dar uma virada mirabolante atrav�s de um milagre for�ado que, al�m de fazer o leitor se impressionar, ainda bagun�a mais a vida dele com novos mist�rios. E, com os mist�rios e as d�vidas, convence-se ele de que � interessante desembolsar um dinheiro pelo livro e ir at� o final. Continuando, o garoto gritou a plenos pulm�es, invocando a ajuda de todo o pante�o do Kalixlandi. Mas um cometa, que passou despercebido pelo c�u, deixou duas esferas ca�rem da sua cauda direto sobre a bolha de nevoeiro. As duas bolas se fundiram num s�, de chamas azuladas, emitindo in�meros fachos e explos�es luminosas que acuaram os espectros e rasgaram seus len��is de breu. O menino assustado caiu estirado sobre o �mido tapete de folhagem seca. Duas pessoas, um homem e uma mulher, olhavam-no do centro da esfera azul. O rapaz de chap�u pontudo, com uma varinha prateada nas m�os, aproximou-se dele e o ajudou a se levantar. - Meu nome � Z� Doido. Sou o mago mais poderoso que j� existiu, que existe e que vai existir no Kalixlandi- disse ele- est� � a minha varinha de cond�o, ela � a chave para a restaura��o da Sagrada Espada de Prata. E esta- apontou a mulher que estava junto de si- est� � uma pessoa muito cara a voc�. Encontre-a nem que precisa dar sua vida para isso. E essa � a sua Miss�o, assim como � a minha: torne-se o Senhor das Bananas e liberte as estrelas! Dito isso, o misterioso mago sumiu. Ele ficou sozinho com a mulher, cujos trajes eram bordados com ouro puro, o que real�ava a sua pele branca e seus lisos cabelos castanhos. Ela destruiu os seus �culos com um estalar de dedos e logo depois abriu o seu manto, deixando entrever um peitoral de ouro maci�o, que queimava os olhos de t�o brilhante, delineando muito bem o desenho dos seus seios avantajados. Arrancou de l� duas pedras, e com ela moldou um novo par de �culos. - Com essas lentes, voc� vai se guiar rumo � Verdade- disse ela- logo nossa jornada se iniciar�. Voc� vai precisar de parte do meu poder- pegou sua varinha dourada enfeitada com um rubi na ponta e a afundou no peito do medroso garoto, agulhando seu cora��o. Ele come�ou a sentir como se tivessem lhe injetado todo o man� do C�lice, que logo depois virou uma sensa��o boa, de tranq�ilidade, uma energia muito positiva lhe acariciando a alma. Quando a maga puxou o seu bast�o, o buraco no peito dele emanava luz at�mica, uma das cores da magia. Lentamente a fissura foi se fechando, at� cicatrizar-se completamente, deixando a tatuagem de um cacho de bananas- hora de voc� ir, Iannes- misteriosamente, ela o chamou pelo nome. Logo depois se aproximou do rosto dele e, inclinando sua cabe�a, aplicou-lhe um beijo na boca, esticando toda a sua l�ngua dentro da boca dele. Acordou em sua casa, como se tudo tivesse sido um sonho. Mas n�o fora, porque a marca do cacho continuava ali, marcado em seu peito. Por cerca de sete semanas, Iannes sonhou copiosamente com uma garrafa de cerveja. |
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