Quarta-feira, Outubro 19, 2005

JOS� MARCELO SIVIERO

...No balc�o da funer�ria

- Arturzim, � Arturzim!

- Fala, seu Valter!

- Olha, tem defunto novo, achamos ele l� no meu rancho. Precisa lavar, vestir e p�r no caix�o!

- E o presunto de quem que �?

- Ent�o, n�o sei. Parece de moleque, mas tamb�m parece que � de menina-mo�a. Sei l�, � uma crian�a, pensando bem parece maior e mais velho que crian�a, mas ainda n�o t�m p�los, nem no sovaco. Pensando bem, sei l� qual � a idade do cad�ver! E tamb�m n�o sei se � homem ou mulher.

- Mas n�o olhou nem pra ver o que ele ou ela tinha no meio das pernas, seu Valter?

- N�o, Artuzim, benza Deus! � pecado bisbilhotar as vergonhas do morto, falta de respeito, n�o pode porque sen�o a alma penada aparece de noite, puxa as canelas, arrasta corrente pela casa, mata as galinhas.

- T� bom. O defunto a�, o senhor conhecia? � filho de algu�m?

- Nunca tinha visto, � gente de fora daqui. E tamb�m n�o � filho nem filha de ningu�m que eu n�o conhe�a. Nunca vi aquele moleque, ou aquela menina, andando a� pra rua. Ali�s, Arturzim, teu pai t� a�?

- N�o, foi pra Rio Preto hoje cedo, resolver uns rolos com uns fornecedores de l�.

- Fala pra ele que eu t� devendo uma caixa de cerveja que eu apostei com ele l� no bocha, mas que vai demorar pra pagar, porque o dinheiro acabou mais cedo nesse m�s, sabe? Mas m�s que vem eu pago, d� pra comprar at� duas caixas! E o defunto, como faz?

- Ah, eu poderia pegar a perua e ir l� no rancho do senhor, mas meu pai enche o saco porque eu n�o tirei carta ainda. E tem que preencher a ficha.

- Mas a gente n�o conhece o presunto...

- J� falaram com a pol�cia?

- J�.

Crescera vendo o pai atender �s fam�lias desamparadas e acometidas pela trag�dia do falecimento dos parentes, desde que aprendera a andar vivia se escondendo atr�s dos caix�es e das l�pides que o pai produzia, of�cio iniciado pelo av�, que ali�s fora quem comprara o im�vel. Nos tempos do velho, aquela casinhola onde eles lavavam e vestiam os defuntos e cortaram a madeira dos f�retros j� era estava cheia de infiltra��es, teias de aranha acumuladas nos cantos e rachaduras. Agora era pior ainda, pois os neg�cios n�o iam bem, o pre�o de um vel�rio digno tamb�m se tornava abusivo e o pai n�o tinha o dinheiro suficiente para custear a reforma ou para fazer a mudan�a para outro ponto.

Parou ao meio-fio uma viatura de pol�cia, mais um dos Uno Mille pintados de cinza e equipados com sirenes, luzes avermelhadas e aparelhos de r�dio. Era o que dava para comprar e reformar, segundo o delegado, que descia da viatura e vinha correndo para o balc�o da funer�ria, chacoalhando a poeira dos seus sapatos mal-engraxados. Apoiou a pan�a de cerveja sobre o vidro do tampo, e Arturzim viu-lhe as manchas de massa de macarr�o sob o tecido da gravata.

- Arturzim, j� trabalhei em muito pres�dio, em cada distrito violento, vi tiroteios brabos, uma vez assisti a um traficante torturando e decapitando um pessoal, mas o que eu vi hoje...

- O que foi, seu delegado?

- O defunto no rancho do seu Valter. Parece que ele caiu do c�u...

- Vai ver, um acidente de avi�o por a�...

- Sei l�, mas o morto t� pelado! N�o sei de nenhum paraquedista que pularia sem roupa nenhuma, t� me entendendo? � estranho demais...

- E descobriram se � homem ou se � mulher?

- Nem isso, Arturzim. Sabe, � dif�cil de acreditar, mas...parece que caparam ele antes da morte! N�o tem nada l�, s� um peda�o de carne indefinido, e acho que faz tempo, porque n�o tem cicatriz, n�o tem sangue, n�o parece um ferimento recente!

- E ele t� muito machucado?

- Ent�o, nem est�. N�o tem sangue, nem verg�o, nem osso fora do lugar, nem fratura exposta. O defunto n�o tem nenhum arranh�o!

Arturzim n�o entendia mais o que lhe contavam, se tinham combinado uma hist�ria para lhe pregar uma pe�a, ou se os dois tinham bebido umas cacha�as e agora deliravam. Quando o delegado se despediu, quis pedir uma carona de radiopatrulha at� o local da queda, mas n�o podia deixar a loja, e se a fechasse seu pai o esfolaria pelo preju�zo. Apareceram ent�o o padre e uma meia d�zia das beatas que se sentavam nas primeiras filas e puxavam a reza das novenas.

- Estamos diante dum fen�meno in�dito, Arturzim, um epis�dio que influenciar� a nossa f�, uma interven��o divina que talvez mobilize o Brasil e o mundo!

- Por qu�, seu padre?

- Aquela criatura que est� na ch�cara de seu Valter veio diretamente do C�u! Um mensageiro de Deus trazendo um aviso urgente aos povos da humanidade.

As carolas, ter�o pendente da m�o e uma vela acesa apoiada sobre os seus missais e seus livrinhos de novena, come�avam a chorar e a se benzer a cada detalhe enunciado pelo vig�rio.

- Meu filho, h� duas asas enormes e frondosas coladas nas costas da criatura, asas maiores do que dum gavi�o e macias como um cobertor de cetim. H� uma penugem rala tamb�m crescendo em seus calcanhares. E as suas penas cheiram a um perfume incr�vel, celestial, de encher a alma. Mistura de jasmim com alm�scar com incenso indiano com terra molhada com p�ozinho quente tirado do forno �s seis da manh�! E o halo que ilumina a sua cabe�a, aquela bola de luz que ele carrega entre os ombros...gl�ria a Deus, aleluia!

- Aleluia! respondiam as velhas, chacoalhando seus livretos de ora��es.

- H� uma mensagem de Deus para n�s! Um de Seus mensageiros veio para a nossa cidade nos trazer novidades celestiais.

Arturzim deixou os religiosos exultando pelas ruas, balan�ando as m�os, no auge de seu �xtase m�stico. Puxou do caderno de esportes do jornal amarelado de ontem e folheava as p�ginas j� amassadas por seu pai � procura da tabela do Brasileir�o e lendo as not�cias sobre as novas contrata��es de v�rios clubes.

Ela entrou arrastando seus chinelos roxos de palmilha de borracha como se estivesse correndo, afogueada, o rosto e o pesco�o avermelhados, quase derrubando o vaso trincado de comigo-ningu�m-pode que sua m�e sempre esquecia de aguar. Ana Maria deixou os cabelos escorrerem sobre o vidro do balc�o e, se apoiando nos cotovelos, esparramada, deixando ver os seios pelo decote, chamou Arturzim:

- �, c� t� sabendo do anjo que falaram que caiu no rancho do seu Valter? Dizem que ele � lindo, tem os cabelos que parecem um monte de molas...

- Ah, sei l�, t� todo mundo falando, j� veio aqui o padre, o delegado e o seu Valter. Mas ver o neg�cio a�, eu n�o vi n�o.

- Ai, Arturzim, tamb�m, voc� fica o dia inteiro fechado aqui, no meio desses caix�es, ui, eu teria muito medo se precisasse trabalhar numa funer�ria. N�o tem nenhum presunto pra voc�s lavarem guardado aqui, n�?

- N�o, n�o tem, at� morto t� em falta nesse fim de mundo. Faz tempo que n�o morre ningu�m, o �ltimo vel�rio foi da Cida do �seu� Valter, vai pra tr�s meses j�...assim a gente n�o vende nada aqui!

- Vamos l� ver o anjo? Ana Maria agarrou as m�os do herdeiro da loja, enroscando os dedos antes que ele esbo�asse qualquer rea��o, apertando suas falanges com aqueles an�is do�dos e cheios de farpas e pedras que ela usava- c� fecha a funer�ria e depois fala pro teu pai que n�o vinha ningu�m, que tava fraco de freguesia, pensa, ele vai chegar tarde de Rio Preto, nem vai passar aqui...

- Minha m�e conta pra ele e da� eu t� fodido!

- Ah, ent�o eu vou l� sozinha...

- � Ana Maria, que neg�cio � esse que falaram por a� que c� tava ficando com um cara de fora? Que que andaram falando a� que c� catou o cara na pra�a s�bado passado?

- Esse pessoal inventa muito, nada a ver! Mas nem t� namorando com voc�, ent�o, se voc� quer alguma coisa, ent�o seja r�pido e encontra comigo na pra�a antes que os caras de fora cheguem!

Ana Maria desceu o degrau de ladrilhos xadrez do estabelecimento rebolando, naquele seu gingado provocante ao andar, uma mistura de caminhada e dan�a que nunca ningu�m sabia se ela o fazia de prop�sito ap�s in�meros ensaios ou se ela j� nascera com aquele cacoete. Arturzim aproveitou e fitou-lhe os fundilhos do short, a calcinha curta e cavada estava bem vis�vel, marcando o tecido justo. Vagabunda, pensou ele, mas enfim, nem gosto dela, ou ser� que n�o sentia nem mesmo uma �nfima e impercept�vel ponta de afei��o de por ela, daquelas part�culas de poeira que a gente assopra mas que logo elas voltam carregadas por uma brisa. Afinal, Ana Maria era oferecida demais, grudava em qualquer garoto que logo conhecia e come�ava a miar como gata dengosa.

Arturzim foi at� o escrit�rio do pai, atr�s do vidro rugoso duma divis�ria, do lado da sala de azulejos onde eles preparavam os cad�veres, conferiu o rolo de contas com os balan�os dos livros de contabilidade e aproveitou para desaguar no sanit�rio cont�guo. Ao puxar a cordinha da caixa d��gua, ouviu um barulho na recep��o, era um fregu�s. Foi correndo atender e viu o Natalino deitado no sof� rasgado de dois lugares, os p�s na parede, abra�ado a uma garrafa vazia de vermute. Faltavam bot�es na camisa amassada e cheia de emendas e costuras desfeitas, que �quela hora da tarde j� fedia a �lcool. O b�bado sempre esperava o �ltimo dos bares fechar e geralmente j� emendava o passeio noturno com a abertura das primeiras casas, onde l� ia tomar seu desjejum: uma coxinha de frango ou de carne mo�da com um copo de coca com cacha�a e lim�o galego.

- �, Arturjim, eu num acredito necha porra di anjo, echa paiachada di...diiiii...padri, eches padri fio dumas puta cumed� di h�stia i bebed� di vinho...

- Natalino, c� viu o anjo ou n�o?

- N�o, qui v� anjo o cachete, fui beb� umas pinga...

- T�o falando a� um monte de coisa desse anjo a� que despencou no rancho, cada hora algu�m vem e fala um tro�o novo dele, mas eu acredito mesmo s� vendo...

- Ieu tam�m, pur icho qui eu t� muito doido...

- C� tava bebendo onde, Lino? E c� virou o qu� pra ficar t�o derrubado assim?

- Ieu tava bebeno nu inferno, l� na puta qui pariu! O Capeta cham� ieu, fii, e pag� as dose...da� ieu bibi int� fic� doido, int� inlouquec�, v� mat� uns d�i hoje! V� tom� mai agora l� no Bar do Lambari!

Natalino tentou p�r-se de p�, mas logo as pernas se tran�aram e ele caiu sentado no bra�o do sof�, por pouco n�o enfiou a cara no xaxim da planta ao lado. S� faltava mesmo o mais famoso e difamado �brio da cidade babar no vaso, isso acontecera uma vez, sua m�e at� dera uns tapas nele quando o encontrara saindo do bar. Espancar b�bado � covardia, pois, dessa vez, por pouco que a m�e de Arturzim n�o rachou uma costela de Natalino, de tanto lhe bater com a sombrinha, at� arroxear suas carnes balofas e amareladas. Por�m, mal saiu � rua, amparado por Arturzim, Natalino dobrou a esquina e, apoiando-se no muro do vizinho da funer�ria, vomitou numa valeta. De nada adiantava regurgitar o excesso de bebida que o f�gado negava, l� ia ele encher seu ulcerado est�mago de novo.

Arturzim pegou a cadeira girat�ria do pai e se sentou, observando o pequeno peda�o de rua que a porta do pr�dio de esquina lhe deixava ver. Passou uma caminhonete Ford com ton�is de leite balan�ando em sua carroceria, uma Kombi velha da prefeitura, umas comadres levando as sacolas que tinham acabado de comprar no mercadinho duas ruas abaixo, a vizinha saiu � cal�ada para molh�-la com a mangueira e para deixar o lixo. N�o tardou muito para que passasse o pesado caminh�o dos lixeiros, os moleques que moravam no s�tio pendurados em seu p�ra-choque, recolhendo os fardos e jogando-os na betoneira gigante que revolvia os despojos.

At� que a Variant de seu Valter estacionou na esquina, longe demais da sarjeta, toda torta, de atravessado na rua, o que nunca atrapalharia o tr�nsito de bicicletas e carro�as. Vinham dentro da viatura caindo aos peda�os o delegado e o padre.

- Arturzim, c� n�o vai acreditar, n�o caiu anjo nenhum l� no meu rancho. O que caiu foi um urubuz�o gordo, gigante, maior que um gavi�o. Acho que ele passou mal l� em cima, caiu e destroncou o pesco�o.

- Mas todo mundo n�o andou falando que era anjo, que o anjo era loiro, tinha asas...

- �, mas na verdade todo mundo achava que era um anjo, ningu�m tinha muita certeza- respondeu o chefe de pol�cia- sabe aquele velho ditado, "quem conta um conto acrescente um ponto"?. Foram falando por a� que achavam que ele tinha asas, que achavam que ele era loiro, que pensavam ter visto sua aur�ola, que n�o tinham certeza mas devia ser um anjo, que s� poderia ser um milagre...

- Mas ningu�m inventou nada, ningu�m cometeu o pecado da mentira, gra�as a Deus n�o levantaram o falso testemunho- benzia-se o p�roco- s� aumentaram um pouco exageradamente os fatos. E dramatizar os relatos, que eu saiba, n�o � pecado, pelo menos o reitor do semin�rio nunca disse que seja- pegou da sua B�blia de bolso e correu-lhe o z�per, folheando rapidamente suas p�ginas finas, indo do Eclesiastes aos Atos no tempo em que se gasta para uma banal piscadela- e eu n�o achei nada aqui...

- Mas j� t�o falando por a� que o anjo virou urubu, porque ele pode virar qualquer coisa- falou o propriet�rio do rancho- as vizinhas a� que t�o lavando o quintal j� falaram por entre os muros que � um bicho do outro mundo que vira anjo e urubu...

Logo o urubu ca�do j� falava como gente, j� tinham descoberto que ele era uma f�mea e tinha v�rios ovos chocados de urubuzinhos, tinham dito que ouviram dizer que fulano que morava l� nas ruas de baixo tinha cortado um quinh�o da carne da ave para comer, mesmo sabendo que ela estava cheia de vermes e parasitas e que ela comia carni�a. At� que Ana Maria voltou, trazendo na sua delicada m�o um ma�o de notas enroladas e �midas de suor.

- Arturzim, minha v� falou que viu esse urubu-anjo voando e ela acha que � sinal que ela vai morrer logo, ela falou que leu num lugar que urubu que vira anjo que aparece voando pra gente anuncia que a morte t� perto. Ent�o ela pediu pra eu comprar j� o caix�o adiantado, antes que suba o pre�o.

- T� bom- Arturzim puxou do fich�rio de capa de couro com as fotos, informa��es, dimens�es e o pre�o dos esquifes, cujas p�ginas estavam manchadas de anos e anos de fregueses que o manuseavam.

- Mas voc�s n�o sabem o que aconteceu com o Natalino...

- Santa M�e do C�u!

- T�o dizendo a� que ele foi pro hospital e j� tem at� uma ambul�ncia pronta pra levar ele em Rio Preto, porque ele mexeu com o urubu de brincadeira e o urubu ficou bravo e picou ele com o bico. E bico de urubu � venenoso que nem falam por a�. Dizem que o veneno � t�o brabo que deu uma febre que fez ele ficar com a pele azul e apareceu um tipo diferente de sarampo, que tem umas pintinhas cor de laranja - seu Valter consultou seu rel�gio de pulso e prometeu uma visita ao b�bado, s� n�o sabia em qual hospital ele seria internado, s� sabia que era "um hospital a� que t�o falando mas eu n�o lembro".
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