Ter�a-feira, Fevereiro 08, 2005

ROMULO AUGUSTO ORLANDINI

               Anjo Negro



Roberta espia para fora do pequeno camarim. Ela � a pr�xima a entrar. D� uma olhada no vulto dos espectadores enquanto uma mo�a j� nua se contorce em cima do palco. Apura os olhos para ver se consegue ver algum rosto, mas do modo que a ilumina��o foi disposta n�o d� a possibilidade de enxergar o p�blico. Ainda n�o se acostumou com o local do novo servi�o, o Caf� XXXXXTEatratr. � primeira vista, onde ela vai ter que dan�ar � mais parecido com um palco teatral do que com uma casa de shows. Enquanto dan�am, as mulheres tentam usar todas as possibilidades que lhes s�o oferecidas: sof�, espelho, chuveiro, passarela iluminada (com pisca-pisca verde), o tradicional cano de ferro e, para lembrar que ali est�o meninas, flores de pl�sticos penduradas no teto. Roberta est� nervosa: n�o h� como n�o se sentir nervosa, j� que este � o terceiro dia que ela est� na casa. Bem na frente da porta do camarim est� o sof� azul, j� esfarrapado, que sua irm� gostava de dan�ar, ou melhor, que de tanto fazer malabarismos er�ticos, recebeu o apelido de aranha.

Com certeza, esta n�o � a vida com que a menina de treze anos sonhou quando veio da Bahia para Campinas com a irm� e a m�e. A tentativa era buscar uma vida melhor, mas ela chegou a cogitar com uma distante vida de artista. Gostava desse mundo estrelado e da dan�a. Na escola, era sempre a core�grafa das amigas e at� chegou a fazer um n�mero para ser apresentado quando estava no oitava s�rie. De tanto dan�ar, acabou entrando para o concurso de dan�arina morena do grupo de ax� � o Tchan. Mas, na hora da sele��o regional, o corpo s� tremeu e simplesmente as pernas n�o obedeciam aos seus pensamentos. Ficou decepcionada, pois sabia que tinha chances, principalmente por causa de seu corpo. Naquela �poca, antes da primeira gravidez indesejada, ele era outro: perna r�gida, busto maior e cabelo melhor cuidado. N�o que hoje ela se considere feia, mas acha que poderia ser muito melhor para seus atuais vinte e um anos. Roberta � alta, tem pele parda, cabelo curto, com mais ou menos 1,70 de altura e uns cinq�enta quilos.

No entanto, os rumos que a vida levou a ela fizeram que acabasse em num outro palco, muito menos famoso do que os freq�entados pelo � o Tchan: o alto da rua Ferreira Penteado, no centro popular da cidade, ruas das prostitutas de rua e um dos pontos mais perigosos de Campinas. Quando se olha no espelho, Roberta v� uma mulher de vinte e um anos cronol�gicos e sensa��o que vem � de ter noventa.

Antes de virar dan�arina, a garota tentou trabalhar em outros lugares e chegou a ser faxineira da prefeitura de Hortol�ndia. Por�m ela considerou que ganhava muito pouco. Quando estava gr�vida pela segunda vez e passando por dificuldades financeiras, Roberta foi convidada pela irm� para conhecer o Teatro Er�tico. Na primeira vez que ela entrou no local, a gravidez estava em quatro meses e o pai ainda n�o assumira a crian�a, coisa que n�o fez at� agora. O di�logo com a irm�, que � quatro anos mais velha, foi r�pido e convincente:

- Vamo conhec� o neg�cio l�. Se chegar um dia que voc� precisar vir pra c�, voc� vem, disse.

Foi e ficou como muitos garotos que v�o l� pela primeira vez: sentada e quieta. Logo na entrada, viu que a casa � diferente das boates normais. Todo o m�s tem uma pe�a diferente, na qual as dan�arinas interagem com os espectadores. Na entrada, p�steres com fotos atraem os clientes � pagar sete reais para entrar. Uma placa negra com as letras de pl�stico amarelas avisa: shows todos os dias da semana das duas e meia da tarde at� �s dez e meia da noite. No primeiro dia, Roberta conheceu quais eram as pe�as que elas, as artistas, teriam que atuar: a garota iogurte, o creme, o banho e a massagem er�tica. Em todas, algu�m mais animado da plat�ia passa creme, ensaboa e at� recebe uma massagem corporal de uma das oito garotas da casa. Tamb�m ficou sabendo que os pagamentos dependem do n�mero de pessoas que entram na casa para v�-las. Pelo que sabe, os ganhos chegam a mais ou menos 320 reais por m�s. Contudo, foi informada que o modo de pagar era injusto, ou melhor, dentro dos par�metros definidos pelo cafet�o e dono do lugar, Ari Santiago. Se ela faltasse em algum dos dias da semana, todos os dias de sal�rios v�o ser descontados, perdendo o lucro semanal.

Com duas crian�as em casa, um com tr�s anos e outro de dois meses, filhos de pais diferentes, sendo que um j� faleceu e outro namora uma prostituta ex-amiga de Roberta, n�o houve como n�o aceitar a oferta de um bom sal�rio. Roberta sabe que a necessidade � mais importante do que a divers�o da dan�a. A proposta foi refor�ada principalmente porque no dia em que foi conhecer ela j� conseguiu ganhar trinta reais de um homem da plat�ia. Por�m ela aprendeu da pior maneira poss�vel o mundo onde estaria entrando, j� que a felicidade de ter ganho dinheiro f�cil durou pouco. O dinheiro sumiu e, claro, alguma das dan�arinas havia pego. Ela at� que tentou descobrir a culpada, mas foi em v�o. No outro dia, para a surpresa da garota, a irm� chegou para ela toda estranha e murmurosa:

-Voc� me perdoa? - Disse para Roberta.

-Mas por qu�? Dissimulou a garota, j� entendendo toda a situa��o.

-N�o, por nada n�o...

-Perdoar por qu�? - Insistiu.

Nesse momento, a irm� se arrependeu de ter come�ado o pedido de desculpa e virou para Roberta tentando virar a conversa:

-Nada n�o. Voc� t� louca! T� dando uma de retardada? - vociferou a irm�

Roberta, que pelo menos j� havia tido provas fortes de como seria o novo emprego, resolveu n�o levar adiante o di�logo e terminou:

-Eu n�o. Voc� que falou em perdoar...

Apesar do ocorrido, ela voltou para trabalhar fixo no local depois que o filho nasceu. Ficou sabendo que teria que dan�ar tr�s m�sica a sua escolha. Na primeira deveria ficar no palco, a segunda, j� com o busto � mostra, dan�aria perto dos clientes e na terceira, nua, andaria na frente de cada homem da plat�ia, exibindo seu corpo. Apesar de gostar de ax�, escolheu m�sicas blacks norte-americana misturadas com afro para tocar durante sua apresenta��o e para dar um clima maior de cabar� para o local que naturalmente � escuro, com luzes negras, roxas, azuis, amarelas e, principalmente, vermelhas. Mesmo come�ando, a nova vida come�ou a dar dor de cabe�a para a rec�m contratada: morando junto com a m�e, em Hortol�ndia, algumas vizinhas foram 'soprar' que haviam visto a filha em locais que a garota falava que n�o ia. Sorte de Roberta que a m�e acredita na falsa palavra da garota e espanta as fofoqueiras:

-Me leva l�. - Desafia as impetuosas.

Mesmo assim, Roberta sabe que a m�e desconfia do seu servi�o. A �nica pessoa que n�o sabe de nada � o atual namorado da garota. Com medo de rea��o do rapaz, que � representante de vendas na cidade de Sumar�, ela diz que sai todo dia de casa com um �nico destino, muito diferente do original, a f�brica da Honda, em XXXXX. Para ele, a namorada � uma faxineira.

Distante da ilus�o do namorado, Roberta se prepara para entrar. Sabe que tem que ser natural para que seja aplaudida. No palco ainda � inexperiente e por isso n�o faz nenhum n�mero do teatro. Por ordens, ela tem que treinar girar no cano de ferro e tamb�m alguns passos no palco. A primeira coisa que o dono lhe ensinou para sobreviver no local � saber vender bebidas depois do show, incitando os homens sempre a gastar dinheiro. J� as companheiras s�o mais instrutivas e a aconselharam a ser firme para conter os poss�veis engra�adinhos que n�o querem somente em olhar, fugindo do contexto er�tico e querendo partir para o sexual.

Mesmo assim o relacionamento com as mulheres da casa n�o � bom. Para ela, � confiar desconfiando. Aprendeu com a li��o da irm� e tamb�m desconfia do car�ter delas, j� que somente ela que n�o faz programa e todas tem pelo menos uma crian�a para criar. Algumas s�o casadas e tem at� uma que sustenta um rapaz na faculdade, mas todas precisam de qualquer dinheiro poss�vel. Uni�o mesmo � s� contra o dono do estabelecimento, para que a explora��o n�o se torne insustent�vel. Al�m do esquema dos sal�rios, quando uma garota engata um programa, ela tem que bancar sete reais para sair do Teatro e mais sete para o quarto a ser usado.

A outra garota recolhe suas roupas e Roberta lhe d� passagem. Agora � esperar a m�sica extremamente alta e abafada come�ar para ela iniciar seu strip-tease. Sua atitude agora � olhar a penumbra e dan�ar, viajar na m�sica. Olha para frente, sobe os degraus, tenta esquecer que tem homens olhando para ela, ouve os tambores da sua m�sica escolhida, pensa que esta em casa, sozinha...e dan�a
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