Segunda-feira, Novembro 17, 2003

MIGUEL NAKAJIMA

Ol� escribas e leitores de plant�o,

Continuando a saga de Raimundo Severino Nonato, tamb�m conhecido como R�i, posto mais esse cap�tulo de sua hist�ria.
Para os que n�o se lembram ou n�o leram, no �ltimo cap�tulo R�i tinha ido � floresta praticar um pouco dos poderes estranhos que se manifestaram nele ap�s o traumatizante assassinato de seu pai. L� ele fora capturado por pessoas de armadura que se diziam seguidores de um Deus muito estranho.


Roxo-azulado

Alguns minutos ap�s sua captura pelos Seguidores Supremos do Grande Tih! (denomina��o que R�i decorou depois de repedida dezenas de vezes durante as conversas que seus captores mantinham por toda a travessia da floresta) Raimundo Severino Nonato finalmente fora desamarrado e teve sua vis�o restaurada pela retirada da venda que o cegava.

"Valeu a� camaradinha!" - Disse R�i em um tom sarc�stico para o homem que o desamarrara.
"N�o tente nada engra�ado, ou voc� n�o ter� sua vida poupada" - disse o cavaleiro que carregava Severino nos ombros, enquanto "delicadamente" o jogava no ch�o duro e poeirento da estrada.
"Pode deixar que se eu for fazer algo n�o vai ser nada engra�ado!" - pensou R�i, tentando imaginar um plano para escapar dali.
A estrada era conhecida de Raimundo. Ele e a m�e a utilizaram para chegar em Lenhabrava, enquanto tentavam despistar um bando de salteadores que tinha tentado assalt�-los. R�i ainda lembrava de como sua m�e guiava Jerec� (o jegue da fam�lia) enquanto ele tentava ficar em p� na parte de tr�s da carro�a, arremessando a comida nos seus perseguidores na tentativa de deix�-los para tr�s. Eram sacos de farinha de mandioraba, peda�os duros de queijo de an�o(1) e embrulhos de alfanouras(2) desidratadas. Enquanto jogava os engradados na estrada, R�i sentia pesar seu cora��o e seu seu est�mago (o �ltimo principalmente), pois sabia que aquele alimento faria falta nos dias que se seguiriam.

Um empurr�o nas costas fez as lembran�as de R�i correrem desordenadamente por sua cabe�a, como um bando de baratas ap�s terem seu esconderijo descoberto e exposto ao sol. Sabia que, no desespero do momento, uma dessas lembran�as provavelmente escorregara e agora descia por sua garganta, indo diretamente para a destrui��o pelos �cidos estomacais concentrados. Com uma engolida seca, l� se foi o coitado.
� frente de Roi estava um Ser muito estranho, com um manto roxo cobrindo a pele azulada, ele tinha um queixo protuberante e uma testa que parecia (pois estava coberta por um gorro) ser mais protuberante ainda.

"Ah! Veja o que temos aqui!" - disse a figura estranha enquanto examinava visualmente Raimundo- "Um dos Destinados ainda fora da maturidade! Que maravilha!"
"Qual� o problema, tio?" - reclamou R�i para o azulado - "Olha, foi muito bom o passeio pela floresta com seus amigos, mas realmente agora eu tenho que ir. Sabe como �, minha m�e vai ficar preocupada..."
"Vamos, segurem-no enquanto eu tiro o sangue dele!" - ordenou o cor-de-c�u aos cavaleiros, ignorando Nonato completamente.
Enquanto a raqu�tica figura de R�i lutava em v�o para se libertar dos dois brutamontes que o seguravam, a figura do manto roxo pegou um animal muito estranho, lembrando vagamente os animais que invadiram Mari�polis, mas em tamanho reduzido e com um aspecto menos amea�ador, e caminhou na dire��o de Raimundo, com o animal na altura do rosto de R�i.
"N�o se preocupe, ser� r�pido e indolor" - disse o coisa-estranha.
R�i sentiu os tent�culos do bicho agarrarem seu rosto e uma sensa��o de torpor foi dominando seu corpo, at� que sua consci�ncia saiu pela porta da frente sem se despedir.

(1) Queijo de An�o: Queijo fabricado a partir do leite de porcos (animal muito criado por an�es em suas minas). � feito de forma bem peculiar, onde os an�es colocam o leite em um grande tacho e dan�am dentro do tacho uma m�sica t�pica da ocasi�o para fazer o leite coalhar.
(2) Alfanouras: Uma leguminosa em que a parte que fica acima da terra se assemelha a uma alface e a parte que fica abaixo da terra � id�ntica a uma cenoura. Muito apreciada seca, devido � sua alta resist�ncia ao mofo.
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