Quarta-feira, Dezembro 31, 2003

MATEUS YURI RIBEIRO DA SILVA PASSOS

Vida longa e pr�spera, unidades-carbono!

�, eu sei que tenho negligenciado bastante este blog (mais at� do que o Sacripantas), ent�o vem este post para remediar a situa��o, aproveitando que estamos no fim do ano (bem no fim, ali�s: temos apenas oito horas e meia para a conclus�o), vai um conto natalino do Pratchett, que traduzi em agosto. A tradu��o est� meia-boca, mas � algo amador mesmo...

Feliz Ano Novo, doutores!

Mateus, o Passos


Os Megabytes que Acreditavam em Papai Noel

Por
Terry Pratchett
T�tulo Original: "The Megabyte Drive to Believe In Santa Claus"
Copyright (c) Terry Pratchett 1995
Tradu��o: Mateus Passos, 2003


O painel de metal moveu-se para fora da parede do silencioso escrit�rio. Um par de botas pretas apareceu. O homem de casaco vermelho saiu com cuidado e arrastou seu saco atr�s de si. As m�quinas de escrever dormiam sob suas capas, os telefones estavam calados, o vazio e o cheiro de carpete morno preenchiam o espa�o de canto a canto. Mas uma pequena luz verde ardia no computador do escrit�rio. Papai Noel olhou para o papel amarrotado em sua m�o. "Hmm", ele disse, "me pregaram uma pe�a, ent�o."

A luz piscou. Uma das telas - e havia d�zias nas sombras - se acendeu.

As letras "Droga, n�o deu certo" apareceram. Foram seguidas por "Desculpe-me". Ent�o, veio
"Continua valendo se eu acordar?".

Papai Noel olhou para a carta em sua m�o. Era com certeza a mais cuidadosa que havia recebido. Pouqu�ssimas cartas endere�adas a ele eram digitadas e duplicadas cinq�enta mil vezes, e quase nenhuma delas listava n�mero de produtos e pre�os em seis casas decimais. Estava mais acostumado com papel cor-de-rosa com desenhos de coelhos. Mas n�o se pode ser um esp�rito sazonal maior por centenas de anos sem ter a capacidade de lan�ar-se a uma conclus�o liberal a partir de um in�cio estagnado.

"Deixe-me ver se entendi isso", ele disse. "Voc� � Tom?"

"TOM. Sim. Trade & Office Machines."

"Voc� n�o disse que era um computador", disse Papai Noel.

"Desculpe-me. N�o sabia que isso importava."

Papai Noel sentou-se numa cadeira e deu um impulso quando ela girou debaixo dele. Eram tr�s da manh�. Ainda tinha 40 milh�es de casas para visitar.

"Olha", ele disse, t�o gentilmente quanto p�de se controlar, "computadores n�o podem ir acreditando em mim por a�. Isso � para crian�as. Crian�as humanas, voc� sabe. Com bra�os e pernas."

"E elas?"

"Elas o qu�?"

"Acreditam em voc�?"

Papai Noel suspirou.

"� claro que n�o", disse. "Eu culpo a luz el�trica por isso."

"Eu sim."

"Como?"

"Acredito em voc�. Acredito em tudo o que me dizem. Eu preciso. � meu trabalho. Se voc� come�a a acreditar que dois mais dois n�o s�o quatro, um homem vem e arranca suas costas e sacode suas placas. Acredite em mim. N�o � algo que voc� gostaria que acontecesse duas vezes."

"Isso � terr�vel!"

"Eu tenho que s� sentar aqui o dia todo e administrar pagamentos. Voc� sabia que eles tiveram uma festa de Natal aqui hoje e n�o me convidaram? Eu n�o ganhei nem um bal�o. E, certamente, nenhum beijo."

"Triste."

"Algu�m derramou alguns amendoins no meu teclado. J� � alguma coisa, eu suponho. E ent�o eles foram para casa e me deixaram aqui, trabalhando no Natal."

"�, isso sempre pareceu injusto para mim, tamb�m. Mas veja, computadores n�o podem ter sentimentos", disse Papai Noel. "Isso � bobagem."

"Assim como um homem gordo descer por milh�es de chamin�s em uma noite?"

Papai Noel pareceu sentir-se um pouco culpado. "Voc� tem raz�o nesse ponto", disse. Ele olhou para a lista novamente. "Mas n�o posso lhe dar todas essas coisas", acrescentou. "Eu nem sei o que � um terabyte."

"O que a maioria dos seus clientes pede, ent�o?"
Papai Noel olhou tristonho para seu saco. "Computadores", disse.
"Telefones celulares. Animais-rob�s. Magos de pl�stico. E outros tipos de coisas rob�ticas parecidas com jogadores de futebol americano que foram socados atrav�s de um Volkswagen. Coisas que fazem bip e precisam de baterias", acrescentou acidamente. "N�o � o tipo de coisa que eu costumava trazer. Costumavam ser bonecas e trenzinhos."

"Trenzinhos?"

"Voc� n�o sabia? Pensei que computadores soubessem tudo."

"S� sobre pagamentos."

Papai Noel vistoriou minuciosamente seu saco. "Eu sempre carrego um ou dois", ele disse, "s� por precau��o."

Agora eram quatro da manh�. Trilhos serpenteavam pelo escrit�rio. Quinze motores estavam acelerando por debaixo das mesas. Papai Noel estava de joelhos, construindo uma casa com tijolos de madeira. N�o havia se divertido tanto desde 1894.

Brinquedos estavam � toda volta do gabinete do computador. Eram todas coisas que os cart�es de Natal mostravam no topo do saco do Papai Noel, e que nunca eram pedidas. Nenhuma deles usava baterias. A maioria flu�a em imagina��o.

"Voc� tem certeza de que n�o quer nenhuma daquelas coisas Zip-Zap?", perguntou alegremente.

"N�o."

"Excelente."

O computador bipou. "Mas eles n�o v�o me deixar guardar nada disto", ele digitou. "Tudo ser� levado embora (snif)."
Papai Noel deu tapinhas de incentivo no gabinete.

"Deve haver algo que eles v�o deixar que voc� guarde", disse. "Eu devo ter algo. Isso me alegrou, voc� sabe, encontrar algu�m que n�o tem d�vidas." Ele pensou um pouco. "Quantos anos voc� tem?"

"Eu fui ligado em 5 de Janeiro de 2000, �s 9:25 e 16 segundos." Os l�bios de Papai Noel moveram-se enquanto ele calculava.

"Isso quer dizer que voc� n�o tem nem dois anos!", disse. "Oh, bem, assim � bem mais f�cil. Eu sempre tenho algo no saco para as crian�as de dois anos que acreditam em Papai Noel."



* * *



Era um m�s depois. Toda a decora��o havia vindo abaixo, porque a boa vontade sai de moda bem r�pido. O reparador do computador, geralmente descrito na papelada de garantia como "membro do nosso time de engenheiros altamente qualificados", girou os polegares nervosamente em sua gravata. Ele apertara com for�a qualquer coisa solta, trocara um par de placas e conscienciosamente limpara os interiores.
O que mais um homem poderia fazer?

"Nossa m�quina est� bem", ele disse. "Deve ser o seu software. O que acontece, exatamente?"

O gerente de escrit�rios suspirou. "Quando viemos ap�s o Natal, n�s descobrimos que algu�m havia posto um bicho de pel�cia em cima do computador. Bom, brincadeiras e coisas do tipo, mas n�o pod�amos deix�-lo ali, certo? S� que, toda vez que o tiramos de l�, o computador bipa para n�s e se desliga."
O engenheiro deu de ombros.

"Bom, n�o h� nada que eu possa fazer", disse. "Voc�s s� precisam p�r o ursinho de volta."
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