| Sexta-feira, Junho 25, 2004 MATEUS YURI RIBEIRO DA SILVA PASSOS Chegando � segunda parte de Reparti��o, Guillard e �damo seguem para Marqu�s de Ahrwe. Durante a viagem, inicia-se certa discord�ncia ideol�gica entre ambos... Com muita frescura por parte do parnasiano �damo, como ver�o a seguir. Tamb�m aproveitei para explicar o porqu� de a fam�la real de Seg�via ser composta por minotauros. Para quem n�o leu Fus�o de Parentais, h� um resumo logo abaixo deste post. O destino do grupo que se meteu com o teletransporte? Semana que vem, na parte III! Carpe Jugulum Passos ALTERA��O Cap�tulo 2 - Reparti��o II Era conhecimento geral o fato de o arquip�lago rocland�s - cujo idioma oficial era o r�quen, embora estivesse muito em uso o olivar�s nos c�rculos burgueses (al�m de onipresente nas rela��es internacionais) e o orbisi�s entre os mais cultos - possu�a os artes�os com o mais escabroso mau gosto de todo o Norte - o que se devia, em � ascend�ncia b�rbara dos habitantes em parte � relut�ncia em aprovar a atividade profissional de qualquer indiv�duo pertencente a esp�cies alheias � humana. Portanto, n�o foi pequeno o espanto de Iossef Efraim �damo, o bardo Kauanerairemense, ao deparar-se com seu novo confrade Kilaro Guillard III em posse de uma enorme dilig�ncia de um branco l�mpido, reluzente, quase et�reo, adornada nos flancos por entalhes dourados e um estranho emblema preto-e-branco - novamente, a figura estilizada do fumante sentado. "Serr a brrason da sua cl�?", indagou �damo, indicando a gravura cercada de fios dourados. "Hum? N�o, n�o! � a bandeira nacional l� do servi�o." Intrigado, o homem esteve a fitar o rocland�s por alguns instantes, durante os quais reinou um sil�ncio sepulcral - inclusive os p�ssaros das cercanias interromperam seus afazeres para prestar aten��o. Jamais vira estandarte semelhante �quele. "De qual na��o serr, mesmo?" Guillard respondeu. O nome n�o era familiar ao menestrel. Pelo corpo lhe percorreu um mau pressentimento - decidiu, assim, adiar a retomada das indaga��es sobre o trabalho do amigo e trilhar terrenos menos pantanosos. Seguiu para o t�pico seguinte. "Voc� viajarr em carrrro oficial?" "�. Bonito, n�o?" "Eles te darr o condu�on, mesmo nos f�rrias?" "Licen�a-pr�mio." Efraim esbo�ou uma careta desgostosa. "Os outrras trrabalhadorres non prrecisarr de trransporrte?" "Ah", riu Kilaro, "as coisas l� n�o s�o como aqui. O Estado providencia um destes para cada quatro de n�s. At� mesmo fora do expediente, de acordo com as necessidades. N�o sei como fazem em Kauanema..." "Kauanerrairrema..." "... mas sugira ao seu pai que adote essa linha. Resolve um bocado." "Sei. Eu falarr com ele quando rregrressarr, i�?" �damo lan�ava ou olhar incr�dulo, que Kiro pensou ser um bom motivo para mudar de assunto. "Bom, vamos nessa? Deixe-me estar te apresentando ao condutor." Crespo era, no m�nimo, aterrador. Magrelo, mais de tr�s p�s de altura, cabelo cinzento desgrenhado, costeletas bem aparadas, orelhas perturbadoramente heptagonais, a pele azul-cobalto e tra�os que, ao mesmo tempo, traziam � lembran�a diversas criaturas - civilizadas ou n�o - da fauna e flora zemlyenses - o conjunto, por�m, n�o se assemelhava a nenhuma delas e fazia a id�ia de parentesco parecer rid�cula. Trajava uma t�nica branca de algod�o, cujo corte lhe ca�a muito bem. Temeroso de cometer uma indelicadeza, �damo lutou para conter o impulso de levantar questionamento a respeito de sua proced�ncia ou simplesmente sair correndo. Ao inv�s disso, cumprimentou-o secamente e foi sentar-se com o colega no espa�oso interior da dilig�ncia. � partida do ve�culo, p�s-se a observar pela janela de cortinas creme as �rvores que ladeavam as trilhas e seus respectivos habitantes - p�ssaros, esquilos (entorpecentes ou n�o), liquens, brom�lias e salteadores em hiberna��o. A roupa grossa o protegia do ar frio - era prov�vel tamb�m o guerreiro r�cland�s estar vestindo alguma sorte de agasalho por sob a armadura, visto seu estoicismo perante o clima. Para longe voava o pensamento de �damo - desistia de idealizar discuss�es com os correligion�rios (em especial o mago metido a besta), nas quais os convencia da import�ncia do Festival e da atividade trovadoresca em geral para a cultura e da superficialidade de uma vida desregrada � ca�a de tesouros e uma boa briga; passou � mentaliza��o de suas futuras performances - quando ouviu Guillard bufar. "Aquele minotauro... A besta quase estava pondo tudo a perder com os trolls." Estranhava-se a irritabilidade do homem, geralmente bonach�o. "Bom... Ele non serr muito esperrta, i�?" "Nota-se. Voc�s arranjaram um bicho mais tono que o Brook." "Ah, eles diferrirr muito i�? Brrook Brrok serr desmiolada, mas ele non terr consci�ncia disso, eu acharr. J� M�ctorr serr um porrta, non saberr nada, mas ele saberr que non saberr, i�? Serr bastante desconfiada." A argumenta��o n�o pareceu surtir efeito algum sobre Kilaro. Ainda estupefato, contemplava a paisagem externa: passavam no momento por um desfiladeiro. L� embaixo, corria o Prandi, afluente do Capivari, por um extenso vale verde. Guillard bufou novamente. "Como � que ainda est�o deixando esses monstros governarem uma terra pr�spera como Seg�via? Por que o povo n�o faz nada para tirar essas coisas de l�? Nem Oliv�rio se mexe! Ali�s, como foi que cometeram a loucura de deix�-los chegar ao poder?" J� era supera��o de expectativas que, enquanto r�cland�s, Kilaro detivesse alguma informa��o acerca de qualquer outra na��o. Assim, n�o era de espantar sua ignor�ncia a respeito da forma��o de Seg�via: nada de Hist�ria Geral em Hawkland. Tudo o que interessava os r�clandeses era R�cl�ndia. Naturalmente, Efraim nada sabia das origens do reino segoviano at� sua sa�da para o mundo, ao apurar os ouvidos para captar o m�ximo de informa��o poss�vel pelas localidades por onde passasse. Decidiu, assim dar in�cio � narrativa do ponto mais antigo de que se recordava - e este narrador, mui bondoso, poupar o pobre leitor do sotaque de Kauanerairema). Em meados do s�culo LXXII da Era Orbisiana, a tend�ncia da maioria dos reinos era a uni�o em grandes blocos, homeopaticamente - vista como id�ia de jerico pela maior marte dos monarcas, acomodados �s fun��es simples da gest�o de pequenos Estados (al�m disso, s�culos antes, diversas tentativas feitas nesse sentido mostraram-se pouco frut�feras). A �nica sombra do outrora grandioso imp�rio sediado em Orbisterrarum era um paiseco de saudosistas. Sacudiu-se todo um microverso de picuinhas pol�ticas e guerras milenares quando levantou-se do leito Oliv�rio, a vanguarda dos Estados Nacionais - formado a partir das vis�es de D. Carlos I, nobre de partircular eloq��ncia e primeiro rei da nova na��o, o qual granjeara o apoio das outras vinte e seis futuras prov�ncias com um inflamado discurso nacionalista ("Nossos costumes s�o quase os mesmos, nosso idioma � praticamente igual -com todo o respeito a vossos nobres dialetos - os elfos est�o a� e j� est� n hora de algu�m fazer alguma coisa a respeito: vamos passar a perna nessa gente atrasada e ver o povo correr atr�s do preju�zo!") abandonado t�o logo o governante sentou-se ao trono (n�o sem desinfet�-lo primeiro para se ver livre do estranho odor ferroso de que estava empestado) com o apoio econ�mico de um grupo �lfico notoriamente abastado. J� em processo de unifica��o, os reinos de Ribagorza e Silves, para fins financeiros e militares - e tamb�m n�o ficarem para tr�s -, creram ser uma boa atitude seguir-lhe o exemplo antes que fossem invadidos por olivareses ou r�quens - foi esse o ber�o de Seg�via, sob a batuta de D. Afonso Ferdinando de Ribagorza e D. Salom� Isabel de Silves, cujo matrim�nio vivamente celebrou o cardeal de Antequera, D. Filipe de Clydio, �s margens do rio Ebro, na capital, � �poca estabelecida em Almer�a (a transfer�ncia para Santa Eulina del Argar deu-se depois de mais quatro s�culos e meio). Os rec�m-casados em pouco tempo protagonizaram diversos esc�ndalos de devassa - o povo relatava em detalhes perturbadores suas brigas, orgias e rec�procas cornea��es. Com desaprova��o da Bas�lica de Santo Eraldo e do Sumo Pont�fice, ao que pagou com o cargo e um ex�lio nos confins do mundo, o escandalizado de Clydio lavou a honra ao excomungar os monarcas e, n�o saciado com tal puni��o, a seu ver nada significativa para ambos, rogou-lhes uma poderosa maldi��o - munida, por�m, do toque bem-humorado pelo qual era conhecido o cardeal entre religiosos e leigos -, deformando-os e ornando-lhes as cabe�as com um vigoroso e vistoso par de chifres, para que nunca se esquecesse a raz�o de sua desgra�a. O sangue foi tingido de azul, embora a mudan�a n�o pudesse ser apreciada pelas majestades, cuja vis�o diferenciava agora apenas o preto do branco, com direito aos tons cinzentos. Criada estava a ra�a dos minotauros, at� ent�o in�dita nos treze cantos de Zemlya - seus Ad�o e Eva a popula��o por pouco n�o linchou, mergulhando Seg�via numa guerra civil pela sucess�o ao trono. O estado conturbado do pa�s foi a deixa para Oliv�rio conduzir seus ex�rcitos num empreendimento ocupador que, se vitorioso, expandiria seu territ�rio em quase 40%. Pegas de surpresa e j� fatigadas pelo conflito interno, as fileiras segovianas quase tombaram e, se triunfaram, boa parte do m�rito deveu-se � interven��o direta de D. Alfonso Ferdinando e D. Salom� - at� ent�o entocados no Pal�cio das Raps�dias, sede da Corte -, cuja for�a, amplificada pela metamorfose sofrida, lhes permitiu marcharem � frente dos soldados nos campos de batalha. A vit�ria - seguida de um termo de compromisso para com a moral e os bons costumes, al�m da cria��o de um novo feriado, batizado como o Dia da Emancipa��o - trouxe novo respeito a rei e rainha: reassumiram o trono e fizeram acordos expansionistas com algumas comunidades vizinhas, dentre elas a dos elfos pardos. Com o tempo, a prole - que abdicou dos sobrenomes - foi nepotisticamente ocupando os cargos de nobreza e em poucas dezenas de d�cadas toda a fam�lia real compunha-se, exclusivamente, de minotauros, reconhecidos pelos s�ditos como genu�nas pessoas de opini�o, qualidade de suma import�ncia cultural. A condi��o amaldi�oada da ra�a f�-la nutrir certa repulsa pela imagem bovina - ao que se seguiu a instaura��o das touradas - e a ang�stia da humanidade perdida for�ou uma reaproxima��o com a Igreja - comprou-se muita indulg�ncia e rezou-se muita novena pelos minotauros e minotauras, por�m at� os dias correntes jamais dissipou-se seu infort�nio. "S�o humanos, ent�o? Que esquisito." "I�. Mas esse serr o hist�rria que eu ouvirr." Enquanto a dilig�ncia emparelhava com um regato a o Sol alcan�ava seu momento de supremo triunfo, Kilaro Guillard e Efraim �damo lan�aram-se a um acalorado sil�ncio reflexivo de quase cinco horas, o r�cland�s ainda inconformado pela subordina��o do povo segoviano � dinastia Minos, o kauanerairemense entretido numa composi��o �s portas do acabamento. Guillard subitamente sacudiu-se, lan�ou m�o de pergaminho, caneta e apoio e se p�s a redigir, en�rgico. "O que voc� fazerr?" "Ssssshh... Estou tendo agora inspira��o para uma trova." "Ah. Voc� prrecisarr de pauta? Eu terr alguns comigo." Kilaro interrompeu-se frente � prestatividade do colega. Jamais ouvira falar de semelhante artefato. "Pauta, voc� saberr. Parra parrtiturra." "Partitura?" "I�. Que instrrumento voc� tocarr?" "H�... nenhum, por qu�?" At�nito, Efraim conteve-se para n�o saltar. "Como non? Toda barrdo terr que tocarr alguma coisa! � isso o que fazer dele uma barrdo, i�?" "Hum... N�o � bem esse o meu estilo. Olha, logo eu j� termino este poema e ent�o vou poder estar lendo para voc�. Resignado, embora aturdido, �damo meneou a cabe�a. O r�cland�s retornou imediatamente ao pergaminho e por mais algum tempo pareceu adentrar outra realidade - mesmo com um vibrante sacolejar do ve�culo, permaneceu impass�vel, os �rg�os sensores temporariamente desativados.Ao cabo de meia hora de escrita, rabiscos e interrup��es, bradou um "Terminei!" que poderia ser captado facilmente pelos silv�colas de Abaet�, pigarreou e empostou a voz: Por ti, formosa minha Em companhia dos mais valorosos Ou sozinho Munido apenas de minha ardente paix�o Juro resgat�-la do mal que a aflige Seja a chantagem do nobre indigno Seja a lasc�via do minotauro prom�scuo Seja a espada do r�quen inculto Se belo com um elfo n�o sou Nem rico para lhe comprar o mundo Ofere�o a minha bravura Ofere�o meu amor Total dedica��o Pelos prados de Hawkland Crescer�o nossos rebentos Viva ser� nossa exist�ncia At� o derradeiro e negro leito E as trovas cantar�o o mundo Loar�o nossa humilde paix�o Pois amor t�o simples e puro Mais vale que o bem material Ent�o, minha bela Fuja comigo Arrependimento n�o vir� A cada dia uma nova tarimba E toda noite um novo cantar Como se n�o bastasse o homem quebrar a tradi��o ao deixar de lado a m�sica, era um dos modernos! Enamorado da forma, Efraim conteve-se ao m�ximo para dizer simplesmente: "Serr muito bonita. Mas algu�m poderr prrenderr voc� se non mudarr o parrte das minotaurros, i�? E de Rr�cl�ndia." "O que tem minha terra com isso?" "Porr tudo o que eu ouvirr, non serr bom fazerr elogios a ele porr aqui." Pensativo, ainda extasiado com a nova obra, o r�cland�s puxou novo pergaminho para passar a limpo e revisar o texto, enquanto travava-se na mente de �damo mortal peleja para impedi-lo de emitir qualquer outra opini�o - n�o desejava ofender os sentimentos do novo amigo por quest�es puramente t�cnicas, mas para ele sagradas. Olhou pela janela na tentativa de distrair o pensamento, contudo voltou novamente a face para o ve�culo - desenrolava-se no firmamento o crep�sculo, vis�o de mau gosto para o menestrel. Kilaro Guillard III criado por Miguel Nakajima Marques |
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