Sexta-feira, Junho 18, 2004

MATEUS YURI RIBEIRO DA SILVA PASSOS

Finalmente! Agora, em f�rias, posso retomar Altera��o. Assim, trago agora a primeira de oito partes do cap�tulo 2, Reparti��o.
Se voc� pegou o bonde andando e n�o leu o cap�tulo 1, n�o se preocupe: clique e leia tudo.

Carpe Jugulum
Passos


ALTERA��O

Cap�tulo 2 - Reparti��o

I


"Dean! Deeeeeeeeean!"

Reverberando nas pe�as met�licas presentes no local � tais como armaduras, espadas, facas, canecas e um ou dois talheres (propriedade de algum aventureiro mais asseado) -, a voz grave de William Walker ressoava pelo microacampamento erguido num claro junto � encosta noroeste do Setentriterrarum. O mago levitava a alguns p�s do ch�o, as m�os em concha sobre a boca, vis�vel juntamente com o restante da cabe�a - o capuz estava arriado. Enojados, os correligion�rios evitavam encar�-lo. Guillard, Jardel e Nyr jogavam conversa fora - o debate tratava das doze maneiras de se abater um linc�rnio com uma adaga cega (Kilaro afirmava que a terra de seu patr�o desenvolvera mais de trinta t�cnicas, Jardel defendia a exist�ncia de apenas cinco - algu�m inventara essa hist�ria de doze porque considerava dos n�meros o mais bonito - e Enrique animadamente contrariava ambos - afinal, todo linc�rnio de respeit�vel educa��o saberia lidar com qualquer imbecil a lhe importunar com um peda�o de bandeja) -, Efraim �damo afinava o ala�de -, enquanto conferia o estado de suas vestes da Corte - e M�ctor, constrangido, procurava escapar a olhares atravessados - despertara sob vigorosos cutuc�es do primo e tivera de ag�entar o mau-humor dos demais, agravado ao se constatar a aus�ncia do tanfo - o qual, �quelas horas, fazia a costumeira memoriza��o dos feiti�os a certa dist�ncia de Walker (costumavam competir na ruidosidade ao estudar os respectivos grim�rios, irritante ladainha, na vis�o do bardo). Logo se descartou qualquer possibilidade de predatismo ou seq�estro: tamb�m sua tenda e pertences haviam desaparecido.

"Serr melhorr deixarr disso, Walkerr. O fada querrerr se mostrrarr. Logo, logo ele aparrecerr porr a�."

O rocland�s deu de ombros e pousou. N�o havia muito a fazer, deveras. Dentre todos ali presentes, Dean era quem possu�a mais meios de sobreviver por si - s� n�o o fazia em decorr�ncia de uma necessidade quase patol�gica de sociabiliza��o. Sobre Walker pesava a preocupa��o de o tanfo abandon�-los de vez, por conta das tro�as da noite anterior ou da press�o para a escolha entre um dos destinos: Marqu�s de Ahrwe ou R�quen's Lech.

"Ele gostarr de fazerr espet�culo", prosseguiu �damo. "Prrovavelmente querrerr fazerr mist�rrio."

Sem paci�ncia - ou critatividade - para levantar sabatina sobre o assunto, decidiram por engolir de ver suas intrag�veis por��es de carne ressequida, para em seguida juntarem as tralhas e caminharem floresta adentro - acompanhariam Kilaro e Efraim at� o ve�culo do primeiro. Fizeram-no em sil�ncio, introspectivos.

J� se iam a desvanecer os tons alaranjados de aurora e erguia-se faiscante o astro-rei sobre o manto verde de Meliaceae. A mata exalava doce e suave fragr�ncia de orvalho - o cheiro revigorante e acalentador renovava as for�as dos ainda variados cidad�os (o termo certamente exclui Brook Brook Jardel, presen�a ainda ilegal em todo pa�s dito civilizado), os quais marchavam tais como circenses itinerantes (era, de fato, ins�lita a vis�o de um gigantesco homem troncudo e peludo - de cr�nio bovino particularmente avantajado nos ap�ndices - coberto por uma grossa e pouco adornada armadura; outro barbudo de andar truculento e tamb�m protegido por uma camada de a�o; outro, ainda que em trajes nobres, exibindo um ar desolado; um meio-elfo de cabelo esquisito vestindo uma t�nica verde-azulada cheia de bolsos; uma figura aparentemente revestida por espelhos; e um encapuzado flutuando a dois p�s do ch�o, para impressionar), apari��es pouco incomuns em Zemlya (e mesmo naquela floresta). A todos acalentou o aroma da selva matutina, � exce��o de �damo, a quem incomodavam o frio e umidade.

Assim, uma jovem fiscal olivaresa fez pouco caso da comitiva ao v�-la passar. Limitou-se a trocar fa�scas oculares com M�ctor - ainda n�o se esquecera do incidente com o esquilo-entorpecente. Tamb�m cumprimentou o colega druida, o qual lhe correspondeu com um aceno de cabe�a.

Depararam com uma cena peculiar, mais � frente: cerca de oito aves azuis, as cabe�as adornadas com uma crista em vermelho vivo, chilreavam e se sacudiam sobre os galhos de um par de lari�os. No alto de uma das �rvores, mais um daqueles p�ssaros executava bela toada na pose mais exibida em que conseguia se postar, arremedado em seguida pelo coral dos demais. Como se a temperatura dos poleiros selvagens se elevasse subitamente, come�aram a pular aos pares. O passarinho do alto, ofuscado e, com isso, irritado, ordenou-lhes com um pio a retomada de suas posi��es. Desandou a voar, ent�o, de galho em galho, entre a flora, enquanto os outros davam rasantes uns por cima dos outros, num louco revezamento, cantando de forma a compor bizarra trilha sonora para a birra do primeiro. �damo quebrou o sil�ncio humano:

"Tangarr�s. Bichos estrranhas. Porr que n�o bicarr de vez a passarrinho inconveniente?"

N�o houve apoio ou r�plica ao coment�rio, pois � vis�o da dan�a das aves estalou a d�vida na mente de William Walker:

"Nyr? Voc� n�o ia falar com os outros druidas sobre as f�nixes que se fusionaram? Ignorou aquela por qu�?"

"'Fundirr', n�o 'fusionarr'."

"Sen�res, assim como toda la Liga, n�o tenho grande afeto por esses vendidos que trabalham en la fiscalizaci�n. El trabalho pela Grande Madre, la Natureza, no se puede hacer visando ao lucro."

"I qui tem isso? Pru qu� a mui� num p�di sab� dus ovo?"

O druida n�o respondeu a M�ctor. Tremia s� de pensar em um daqueles traidores lhe confiscar os ovos para entregar a alguma cidade fronteiri�a com Ribeir�o da Truta Estr�bica. Seria como se lhe levassem os filhos. Certamente o gr�mio requisitaria os esp�cimes para estudos, mas certamente lhe permitiriam manter consigo pelo menos um deles.

O pr�ncipe de Kauanerairema pretendia aproveitar o sil�ncio sepulcral para retomar sua discuss�o com o mago, por�m estarreceu ao atingir uma clareira, onde seis trolls - os mesmos da v�spera, com grande probabilidade -, ao redor de uma fogueira - por�m a dist�ncia segura - faziam seu desjejum. Comiam um tipo de estranho de p�o de centeio roxo com ch�, o qual bebiam em grandes x�caras de barro. Antes de lev�-lo � boca, assopravam o l�quido, ainda quente.

"Ah, vejo que o Crespo est� conseguindo fazer algum progresso!", exclamou Guillard, expansivo, ao aproximar-se deles. Os pregui�osos raios de sol reluziam em sua armadura, numa p�fia imita��o do efeito obtido plenamente no dia anterior.

"Pd tr crtz dss, Sr Ghllrd. H, mnh sps Zlmr h ms crrlgnrs srms htrnmnt grts h std d Vrn pl hprtndd q ns f cncdd."

"Folgo em saber, lorde Hrmngld."

"Ce fala a l�ngua deles?", inquiriu M�ctor, inconformado. "J� podemo brig� di novo?"

O r�cland�s suspirou profundamente.

"Temo que n�o, caro confrade. Estes trolls est�o entrando em d�bito comigo e � meu dever de cavaleiro proteg�-los". Rapidamente, em resposta � m�scara de censura em que se transformou o rosto bovino, explicou: "N�o se preocupe, logo vamos estar trabalhando na reabilita��o deles". Virou-se para os entes - um tanto perturbados pela animosidade do minotauro e da n�o muito convincente indiferen�a dos amigos: "Sabem onde est� meu cocheiro?"

"Fh hl h vlt jh."

Dito isso, por entre as �rvores, tal como um tronco independente, destacou-se uma silhueta esguia, t�o alta quanto M�ctor. Aproximou-se do fogo sem embara�o e acenou para Kiro:

"J� � um bom come�o, n�o? Seu Guillard, precisava ver como se portaram bem essa noite. Nem mataram o ladr�ozinho que apareceu para levar a condu��o."

"Est� de parab�ns, Crespo. O patr�o vai ficar sabendo disso mais cedo do que voc� imagina!"

"Se n�o se importa, senhor, voltarei para preparar nossa partida."

"� vontade. J�, j� vou estar indo para lhe apresentar nosso passageiro."

A criatura retirou-se com um meneio e, sem dizer palavra, desapareceu na mata.

"Kilarro, o que serr aquilo?"

"Calma, daqui a pouco voc� vai estar conhecendo o homem. � melhor que nos despe�amos agora dos amigos."

Dirigiu-se ao agrupamento de trolls, a amadura a espalhar pelo ambiente a d�bil ilumina��o da fogueira �s portas da morte. Guillard abra�ou-os um a um � desajeitadamente, as grotescas entidades retribu�am o gesto. O homem lhes falava com tranq�ilidade, como se em presen�a de velhos amigos. As respostas vinham com esfor�o - aquela esp�cie, desprovida de pregas vocais, requereu muito treino e dedica��o para reproduzir a fala humana (tendo em vista a aceita��o social) e o resultado mais satisfat�rio at� o momento soava como vento suave. Embora a articula��o fosse perfeitamente intelig�vel para quem estivesse a ela habituado, despercebida passaria por ouvidos incautos.

"J� t�m suas instru��es, ent�o agora s� me resta desejar-lhes boa viagem. Cuidem para que a entrada seja desativada ap�s seu uso."

"Mt grt, Sr Ghllrd", respondeu Hrmngld. "Sh mnrc n s dcpchnr cnsc, dss h snhr pd tr crtz. Vms hmr, cmbd!"

As criaturas apanharam seus pertences - em grande parte armas e comida - e sa�ram a p� rumo ao leste (nota��o r�quen). Por educa��o, al�m da necessidade de manter as apar�ncias, Delf Nyr cumprimentou-os quando partiam - os demais se limitaram a fit�-los intrigados (com exce��o de M�ctor, o qual rugiu para os trolls, parando apenas frente ao olhar censor com que Kilaro o alvejava).

Entre os confrades, foi breve e morno o momento da despedida. �damo aproveitou a ocasi�o para cobrar de Walker d�vidas contra�das h� consider�vel per�odo - j� devidamente corrigidas e convertidas em broqu�is, para evitar aborrecimentos cambiais em Oliv�rio - e recebeu de Jardel a encomenda de algumas garrafas de branquinha.

"Vai s� boa essa festa! C�is v�o v� s�! Os otro bardo v�o t� tudo na ro�a!", berrou M�ctor aos amigos que partiam.

Sem perder tempo, os dois bardos embrenharam-se na mata, rumo ao ve�culo que os aguardava. Efraim cultivava ainda certa perturba��o pelo desaparecimento de Dean - preferiu n�o deix�-lo transparecer aos amigos -, entretanto exultava com a nova perspectiva: chegaria a Marqu�s de Ahrwe em grande estilo. O outro apreciava a companhia, por�m seu pensamento ia longe. Mal podia acreditar que seu maior sonho, irrealiz�vel em Hawkland, estava prestes a tornar-se palp�vel. Gostava de seu emprego, por�m a realiza��o como poeta, artista, desde a mais tenra idade urrava para se concretizar.


Jardel, M�ctor e Walker voltaram-se para Nyr, express�es inquisidoras nos rostos e os corpos prontos para uma longa jornada.

"Pra qui lado, primo?"

"Noroeste."

"Qual?", inquiriu Walker.

"Orbisiano... Mantenham la calma. El sen�r Kezwally deu-me isto."

Abrindo uma sacola de pano consideravelmente surrada, o druida sacou um peda�o de papel enrolado, faiscante com as ondas t�umicas nele contidas. Os olhos de William brilharam.

"Robert est� cheio de recursos, hein? Para onde, exatamente?"

"Yo j� disse: Floresta de Abaet�, extremo noroeste de Lech."

"N�o tem algum ponto de refer�ncia?"

"Hum... Indicaram-me uma certa Estalagem Jepatr�je."

"Serve. Muito bem, fiquem todos em c�rculo ao meu redor."

O minotauro, o meio-elfo e o r�quen cercaram o mago, enquanto este abria o pergaminho m�gico. S�bito, um jorro de mana transferiu-se da mat�ria para o campo taumat�rgico do r�cland�s. As id�ias confundiam-se, a vista nublava-se. Era poss�vel somente concentrar-se no objetivo. O destino.

Foi o inverso de um clar�o. Como se um r�pido lampejo de escurid�o emanasse do local, os quatro correligion�rios desapareceram em meio ao feiti�o de teletransporte.

Brook Brook Jardel criado por Jo�o Pedro Amaral Ramos Augusto
Dean e Kilaro Guillard criados por Miguel Nakajima Marques
Delf Nyr criado por S�vio Fran�a Rosa
M�ctor criado por T�lio Vieira de Paiva
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