Segunda-feira, Abril 12, 2004

MATEUS YURI RIBEIRO DA SILVA PASSOS

Vida longa e pr�spera, unidade-carbono!


Pen�ltima parte de Fus�o de Parentais!
Nem tem o que escrever... Quando acabar esse primeiro cap�tulo, vou postar outras coisas (como uma cr�nica e micro-contos), antes de partir para o cap.2, Reparti��o.

hurm.

ALTERA��O

Cap�tulo 1 - Fus�o de Parentais


        IX

�Eram duas galinhas.�

William Walker caminhava ao redor da fogueira, gesticulando, como normalmente agia ao falar em p�blico, mesmo se a audi�ncia fosse constitu�da apenas por cinco indiv�duos � Brook Brook Jardel, Kilaro Guillard III, Dean Glennon Krisonis, Iossef Efraim �damo e M�ctor. O rocland�s n�o parava de andar por um segundo sequer, irritando levemente seus espectadores.

A ceia fora salva � Kilaro julgara deselegante comparecer a um lanche entre amigos sem levar sua parcela de contribui��o (farta, diga-se de passagem). A carne lhes era desconhecida, por�m ningu�m ousou lan�ar m�o de um questionamento sobre sua proced�ncia � ele poderia ofender-se, crendo que se apreciava pouco a sua oferenda, pensamento absolutamente inconcili�vel com a realidade. Tamb�m trouxera dois gal�es de conhaque, completamente esvaziados ap�s alguns minutos de boa conversa � a marca, �Aderaldo Hip�lito�, igualmente ignoravam, assim como o desenho no recipiente de barro (vagamente lembrava um homem sentado fumando cachimbo).

Ao concluir a enuncia��o da primeira senten�a da anedota, uma das mais c�lebres nos corredores de Lostbride, Walker fez sua primeira parada, estendeu os bra�os, com os indicadores � de apar�ncia horripilante � estendidos. Aproximou-os lentamente, flexionando os cotovelos at� traz�-los para perto da face, oculta n�o pelo capuz, mas pela intensa sombra criada por ter �s suas costas as labaredas. Prosseguiu:

��Hum!�, fez uma delas, empinando o bico. A outra perguntou, curiosa: �O que h� de novo, Giselda?�. �Am�lia, voc� n�o soube? Meu dono est� expandindo as transa��es. Agora vai comercializar nossos ovos no mercado, a trinta r�gios a d�zia!�, respondeu a primeira, orgulhosa. �Trinta? Meu senhor vai vender os nossos por quarenta!�. ��? Pois o meu h� de ganhar muito mais do que isso, voc� ver�!�, disse Giselda, cheia de inveja. E foi cada uma para seu canto.�

Separou os dedos � utilizados para interpretar a linguagem corporal das penosas � e retomou sua marcha ao redor do fogo. A aten��o dos confrades variava: somente M�ctor e Guillard lhe concediam aten��o total. Jardel at� se esfor�ava, embora fosse estorvado pela bebida, que amorteceu seus reflexos e o fez sentir calor como se ca�sse em �gua fervente ou nas chamas do Inferno. �damo, por sua vez, dedilhava as oito cordas do ala�de, aguardando uma chance para exibir suas habilidades.

Dean apenas escutava, enquanto alimentava Edgard. O corvo fora seu companheiro desde os tempos de col�gio � estabelecido numa tenda de sua tribo erigida na copa de um carvalho �, quando o constru�ra. Krisonis, como todo tanfo � esp�cie de fada relativamente gra�da e poderosa � aprendera os rudimentos taumat�rgicos desde os quatro anos de idade. Sua educa��o completou-se quando atingiu os onze � recebeu na ocasi�o o equivalente ao diploma de bacharel (um peda�o de tronco de corti�a com inscri��es m�gicas). Possu�a, como seus oito colegas de turma, conhecimento o suficiente para a vida buc�lica de sua comunidade. Entretanto, n�o desejava isso para si: queria viajar, conhecer o mundo.

Com seus poderes metam�rficos inatos, assumiu a forma de um an�o e ingressou na Universidade Real de Vale das Ac�cias, a setenta l�guas de casa � fora descoberto, mas n�o por imperfei��es no disfarce. Embora conservasse as barbas limpas demais, despertara pouca suspeita � o problema era a conhecida inaptid�o da esp�cie an� para a magia. O reitor concedeu-lhe a perman�ncia na institui��o � acreditava residirem apenas benef�cios no interc�mbio estudantil �, algo de que posteriormente arrependeu-se com amargura.

O tanfo consolidou sua vontade de viajar e tornou-a necessidade perante a indigna��o com o assassinato do pai, ocorrido durante as f�rias letivas � era preciso descobrir o criminoso (provavelmente um dos cadetes os quais faziam da Mata dos Caboclos sua �rea de treino) e puni-lo. Como de praxe, sua �nsia de vingan�a e julgamento precipitado j� haviam causado grande tumulto entre os atuais companheiros.

�Algum tempo depois, as duas se reencontram. �Am�lia, voc� n�o sabe da �ltima! Meus ovos agora est�o valendo sessenta r�gios a d�zia! Grandes, lindos, nutritivos!�. �Tudo isso?�, exclama a outra, apavorada. �Os meus ainda est�o a quarenta...�. �Subir na vida � pra quem pode, querida!�, diz Giselda, com o bico mais empinado do que da primeira vez. �Pois �, mas n�o � por causa de vinte r�gios que vou estourar o meu cu!��

Irromperam gargalhadas por boa parte dos ouvintes � Efraim limitou-se a um resmungo, Guillard for�ou o riso. Jardel perdeu o equil�brio restante e quase se atirou de cabe�a nas chamas � escapou apenas pela interven��o de seu velho amigo Kilaro. O guerreiro segurou-o firme e conseguiu deix�-lo ereto novamente.

�Minha vez, agora!�, disse o r�quen, falando mais alto do que costumava. Era imensamente vulner�vel ao �lcool, embora sua suscetibilidade n�o pudesse ser comparada � de seu antigo correligion�rio, o Pe. W�rchnen � do qual dizia-se ser capaz de embriagar-se completamente com uma s� gota de branquinha. Cambaleando, Brook Brook levantou-se, para em seguida andar num passo tr�pego ao lado das labaredas. Posicionou as m�os contra a luz intensa e come�ou a brincar com as sombras. A primeira figura lembrava vagamente...

�Um �rqui?�

�N�o, M�ctor!�, corrigiu o artista. �� um cachorro, can�t you see?�

�damo esbo�ara uma tentativa de p�r-se em p� para cantar, por�m deixou-se cair novamente quando Jardel ergueu-se. Ficou a passar os dedos inutilmente pelo instrumento.

�Sua alteza?�

Virou-se � era Guillard quem lhe dirigia a palavra.

�Voc� poderr me chamarr pela nome, Kilarro.�

�Iossef, ent�o?�

O outro refletiu por alguns segundos, os olhos fixos nas sombras projetadas pelo r�quen, mas a aten��o focada no invis�vel.

�Efrraim estarr mais em uso.�

�Tudo bem, Efraim. Voc� tamb�m � bardo, ent�o?�

�I�, desde quando eu terr seis anos. Minha pai, a rrei de Kauanerrairrema darr grrande valorr aos arrtes. Porr que o �tamb�m�? Voc� trrovarr?�

O guerreiro de R�clanda esbo�ou um sorriso, como um estudioso ao encontrar algu�m de semelhantes interesses acad�micos.

�Tenho minhas composi��es. O patr�o adora poesia.�

�Mesmo? Eu non saberr que as rr�clandeses aprreciarr a l�rrica. Norrmalmente o povo dizerr porr a� que nos Ilhas Rr�quens a cancioneirro serr um...�

�Ah, n�o trabalho em minha na��o.�, cortou Kiro. �Estou empregado em...�

�Uma brabuleta!�

�N�o, isso era pra ser Dean...�

�Hum... Onde est�vamos? Voc� estava dizendo que n�o comp�e, quando fomos apresentados? Pelo menos � o que se espera de um menestrel...�

�Non! Efrraim comporr com frreq��ncia, mas tamb�m cantarr m�sicas popularres e grrandes feitos, porr isso se considerrarr de menestrrel, em vez de trrovadorr.�

�O nome certo para isso n�o � segr...�

O kauanerairemense contorceu a face numa careta de desgosto.

�Non serr ofensivo, confrrade! Chamarr Efrraim de segrrel serr um...�

�Hrrrrrrrrrrrrrrrf!�

A conversa interrompeu-se novamente, com um s�bito arrancar de M�ctor para atingir Jardel. O b�rbaro fizera a silhueta de uma vaca e estava mugindo, quando foi atirado ao ch�o. O minotauro estava ficando paran�ico � ap�s tantas tro�as a que fora submetido pelos outros, decidira-se a matar no ber�o qualquer ato de mau gosto por eles porventura concebido.

�Perd�o, colega, n�o foi minha inten��o ofend�-lo. Estou pouco a par dessas classifica��es hier�rquicas.�

�Estarr perrdoado, mas serr bom tentarr non rrepetirr essas enganos. N�s non estarr em Lech, aqui as cuidados serr outrras.�

Dean levantou v�o para apartar a briga entre os dois camaradas, por�m n�o houve necessidade: M�ctor parou ao perceber a imobilidade de Jardel � grogue como estava, n�o esbo�ava qualquer rea��o �, depositou o corpo do r�quen em seu assento e acomodou-se a seu lado, na tentativa de sustent�-lo. Pediu � fada:

�Piada di �rfu!�


O tanfo subiu � altura das flamas murmurando algo como �Hanve a mmi, recto ad m��olicataa�. Seu cajado � o qual possu�a uma bela pedra amarelada fixa na ponta � moveu-se e flutuou do ch�o at� as pequenas m�os de seu criador. Mais alguns resmungos e pipocaram pequenas luzes ao redor de Dean, circundando-o. Apreciava faz�-lo antes de apresentar algum n�mero � normalmente m�gico, exceto em casos como aquele, quando seu mana encontrava-se exaurido.

�No meio do deserto, encontram-se tr�s elfos: um pardo, um vermelho e um edil orbisiense�, come�ou. Os �elfos de escrit�rio�, como eram popularmente conhecidos os �ltimos, na classifica��o crom�tica costumavam entrar como �verde-mofo� ou �verde�, simplesmente.

Guillard retomou a conversa com �damo:

�Bom, meu caro, o que gostaria de inform�-lo, se tamb�m profissional de m�sica, � a realiza��o de um festival, bem perto daqui, numa cidade de Oliv�rio.�

�Ah, voc� dizerr a Festival de Trrovas de Inverrno?�

�J� o sabia, ent�o? Vou estar indo para l�, aproveitando que tirei um m�s de licen�a-pr�mio.�

Efraim olhou para os confrades e desabafou: �Serr uma pena: voc� perrderr o viagem. A munic�pio de Marrqu�s de Ahrrwe estarr a v�rrios dias, ainda. Non sei at� quando os inscrri�ons estarron aberrtos, mas eu acharr dif�cil chegarr a tempo, grra�as a eles.�

�N�o h� problema: tenho um coche estacionado nas cercanias. Posso lev�-los, sem quiserem. S� acho que M�ctor n�o caberia...�

�Uma coche?� A id�ia parecia uma b�n��o divina. �Mas voc� o larrgarr porr a�? Meliaceae serr famoso porr estarr imprregnado de salteadorres!�

�Eu sei, at� encontrei-me com dois deles, ainda hoje, pouco antes do almo�o. Foi para proteger o carro e o condutor que contratei os trolls, na verdade.�

�Condutorr? Voc� terr uma condutorr?�

�AHRWE?�

Os dois olharam imediatamente na dire��o do berro agudo, quase hist�rico � Dean interrompera-se e fitava Efraim com os olhos vermelhos e uma express�o combinada de raiva e desesperan�a � mas n�o vergonha, embora ciente dos diversos pares de olhos a encar�-lo.

�Estamos indo para Ahrwe?�

�Clarro! Parra onde voc� acharr que n�s irr?�

�M�lis�, respondeu a fada, indignada.

�O capital? Mas o que n�s terr parra fazerr em... Ah.�

O rosto do trovador, antes uma m�scara de d�vida, abriu-se num largo sorriso de compreens�o, exemplo seguido de imediato por Walker e � com certa demora em virtude da concatena��o de dados � M�ctor. At� mesmo Jardel, antes arrasado pela f�ria do minotauro, teve convuls�es de tanto gargalhar. O tanfo apagou suas luzes e fechou carranca, cruzando os bra�os, uma das m�os ainda sustentando o cajado.

�O que foi?�, indagou Kilaro, confuso com a rea��o geral.

�M�lis. A litorral,� foi tudo o que p�de dizer �damo, entre risos mal sufocados.

�Ele nunca viu o mar, entende?�, esclareceu William. Dean pareceu ainda mais furioso com a explica��o � odiava sua fama de caipira entre os confrades, por nunca ter viajado muito (antes de conhec�-los, o lugar mais distante onde estivera ficava a menos de vinte l�guas do reino de Vale das Ac�cias). �Viajo com a mente�, costumava dizer para justificar-se e impedir os coment�rios � n�o funcionava. Por�m, do fundo da alma, gostaria de fazer longas jornadas pessoalmente � em especial para conhecer o grande Lago Salgado do qual tanto falavam.

�Y ahora, �sen�res? ��Acabou-se la diversi�n? Y la pilh�ria, �Dean?�

Todos se viraram e passaram os olhos ao redor do acampamento, esquecendo-se momentaneamente do instante de esc�rnio � alguns com bem mais vontade do que outros � para descobrir de onde viera a voz. O sotaque segoviano n�o lhes era estranho, por�m o timbre...

��Yo conozco uma excelente! Era uma vez cinco kobolds � dois normais, dois mudos e um maluco�, continuou. O som parecia vir de �reas escuras, distantes demais para o alcance da luz plut�nica.

Walker e Dean seguiram em dire��es opostas. M�ctor preparou a marreta, esperan�oso � outra pancadaria era s� o que faltava para fechar o dia com chave de ouro. Guillard aguardou. �damo come�ou a tocar as cordas do ala�de e preparou-se para soltar a voz. Brook Brook Jardel continuava a gargalhar.

�Eles estavam atravessando a estrada, quando um diz �Olha o cava...� Ploft! �Que cava...?� Ploft! Ploft!�

Dean acendeu a pedra do cajado com uma magia de luz � tr�mula e vagabunda, a �nica restante. Come�ava a enxergar uma forma baixa.

�Ploft! �Brl, brl, brl, brl!� Ploft!�

�Encontrei!�, o tanfo gritou para os companheiros.

�Ningu�m vai rir, n�o? �Nem por la educaci�n?�

A fada olhou bem para o ser falante � sua frente. N�o lhe restavam d�vidas � com o couro verde-escuro e o corpo comprido, a bocarra cheia de dentes afiados, era um crocodilo.

Brook Brook Jardel criado por Jo�o Pedro Amaral Ramos Augusto
Dean Kilaro Guillard criados por Miguel Nakajima Marques
M�ctor criado por T�lio Vieira de Paiva
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