Segunda-feira, Abril 26, 2004

MATEUS YURI RIBEIRO DA SILVA PASSOS

Vida longa e pr�spera, doutores!

Enquanto Altera��o entra num ciclo lisog�nio entre Fus�o e Reparti��o (terminei a primeira parte!), trarei algumas produ��es que redigi nesse �nterim.
Agora, minha primeira cr�nica genu�na (resultado de algumas aulas com o Saviani).

Carpe Jugulum


Entardecer no Centro

Nos c�us do crep�sculo dominical do Centro campineiro, agrupavam-se densos c�mulos em amea�adora forma��o. Ao ar quente e abafado - por conta do prov�vel temporal -, somava-se o bodum dos bueiros da Campos Sales, sobre a qual erguia-se o palco de madeira coberto por lona preta. � sua frente, alinhavam-se mais de seiscentas cadeiras pl�sticas. Sobre os assentos ou eretos, centenas de pares de ouvidos sobrepunham aos demais sensores as notas t�tricas de Mussorgsky: a Orquestra Sinf�nica Municipal de Campinas executava "Uma Noite no Monte Calvo", primeiro dos treze temas cinematogr�ficos do programa.

Era 28 de mar�o. O concerto, realizado �s seis horas da tarde ao lado do F�rum Municipal e do Centro Cultural Evolu��o, fazia parte da S�rie Especial da Temporada 2004 da Sinf�nica e do projeto Ruaminha, iniciativa da Prefeitura para integrar o povo � cultura, seja popular, seja erudita, por meio de eventos a c�u aberto.

Na condi��o de regente convidado, o americano Daniel Richard Havens, h� mais de trinta anos no pa�s. Compositor, fez arranjos para dez das m�sicas, agrupadas em blocos: "Western Forr�" (temas de faroeste) , "V�o Para Fantasia" (temas de aventura e fic��o cient�fica, dos quais feriu-se apenas "De Volta Para o Futuro", de Alan Silvestri) e "Cine Su�te" - o qual inclu�a as aberturas de "Robin Hood" (Michael Kamen), "Dan�a com lobos" (John Barry) e "Jurassic Park" (John Williams). Antes de cada pe�a, o bonach�o Havens dirigia-se ao p�blico para apresent�-la, didaticamente - ent�o, virava as costas ao espectador e expressivamente conduzia a profus�o de cordas, sopros e percuss�o. Fazia-o com as m�os nuas, sem o aux�lio de batuta.

Engana-se quem cr�  ser o humilde incapaz de apreciar a arte erudita - mesmo que, nesse caso, n�o se tratasse dos cl�ssicos. Lotaram-se as cadeiras e o espa�o ao redor apinhou-se de gente das mais diversas castas. Evang�licos, estudantes, comerciantes, engravatados, b�bados, mendigos, hippies: paravam todos para assistir ao espet�culo, sorrindo e umedecendo os olhos.

"A CORRUP��O E A INCOMPET�NCIA...", berrou um megafone, ao cabo do concerto.

O Politizador - Ant�nio Francisco dos Santos, pol�tico do PST e figurinha carimbada do Centro -, devido � conflu�ncia de almas - ou � presen�a do americano -, aproveitava o momento para expor sua mensagem contestadora da sacada do segundo andar do Evolu��o, utilizada por alguns como camarote.

Acostumado ao barbudo grisalho e seu insepar�vel megafone, o campineiro no geral acha gra�a em suas apari��es - alguns at� o incentivavam. Naquela ocasi�o, entretanto, n�o lhe deram corda: a saraivada de aplausos da plat�ia, dirigidos � orquestra, sobrepuseram-se � sua voz e o calaram. Ofendido por ter sido cortado ou respeitoso � Sinf�nica, o Politizador retirou-se pacificamente do local. Lucrou o povo, agraciado com, al�m do "bis" de praxe, o tema de "A Miss�o" (Ennio Morricone), que n�o fazia parte do programa oficial.

Quando o espectador deu conta de si, j� a noite se esparramara pelo firmamento. Da chuva, nem sinal.
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