| S�bado, Fevereiro 12, 2005 MATEUS YURI RIBEIRO DA SILVA PASSOS Ol�, unidades-carbono! Este post � para inaugurar uma nova se��o no Folhetim: resenhas. Sintam-se livres para opinar sobre o que for: livros, filmes, CDs, teatro... Vida longa e pr�spera! Mateus Passos Incidente em Antares, de Erico Verissimo Em 2005, comemora-se o centen�rio do nascimento de um dos maiores prosadores da literatura brasileira, o ga�cho Erico Verissimo. Suas obras, inicialmente publicadas pela editora Globo, passaram a ser editadas tamb�m pela Companhia das Letras, uma das maiores e mais cuidadosas casas livreiras do Brasil. A nova s�rie teve in�cio pelo mais fino de sua bibliografia: o ciclo romanesco O Tempo e o Vento, trilogia dividida em "O Continente" (2 partes), "O Retrato" (2 partes) e "O Arquip�lago" (3 partes), e Incidente em Antares, um dos melhores romances que j� tive o prazer de ler. No romance, Verissimo tra�a um panorama da sociedade brasileira, representada no microcosmo de Antares, cidade fict�cia do Rio Grande do Sul, pr�xima � fronteira uruguaiana. A disputa entre fam�lias rivais, o conflito de classes, a repress�o familiar, o papel da Igreja Cat�lica e a tortura da pol�cia (est�vamos na �poca do AI-5) s�o alguns dos temas abordados. Como Saramago, o escritor ga�cho utiliza uma pequena dose de realismo fant�stico para apimentar a trama. Nesse caso, uma greve geral de trabalhadores impede que sete mortos sejam enterrados no cemit�rio. Os caix�es s�o abandonados �s portas da "terra dos p�s-juntos" e, � meia-noite, os defuntos se levantam. Indignados com a situa��o, retornam � cidade para rever os entes queridos e decidem ir at� as �ltimas conseq��ncias para terem um enterro digno - o que inclui dizer cobras e lagartos dos habitantes da cidade, cujos segredos, intrigas e trai��es s�o revelados � luz do dia. Destaque especial para a primeira parte, destinada � ambienta��o de Antares e habitantes, interessant�ssima pela intera��o entre personagens reais e da fic��o - o coronel Tib�rio, um dos protagonistas, � amigo de Get�lio Vargas at� o fim do Estado Novo; quando renuncia, muitos de seus amigos o abandonam, o antarense inclu�do. Assim, quando � eleito presidente, Tib�rio o procura novamente, para reatar a amizade, e � ignorado. O escritor ga�cho tem um dom especial para mesclar cr�tica e humor, criando um fascinante contraste. S� � lament�vel que o escritor tenha sido injusti�ado por seus pares, na �poca - soube recentemente, por meio da revista Bravo!, da demora da intelectualidade brasileira em reconhecer a qualidade do autor, por muito tempo tachado como med�ocre - uma grave falta, jamais reparada, pois Verissimo nunca fez parte da ABL. Talvez o culpado por isso seja o seu estilo limpo, sem "firulas liter�rias" - em "Solo de Clarineta", o escritor afirma: "Jamais fui um writer's writer, um escritor para escritores". No Incidente, por�m, vinga-se com uma cr�tica mordaz aos seus opositores: a cidade de Antares abriga um clube chamado Kaf� Kafka, "criado por um grupo de estudantes esnobes que acreditava que a salva��o estava apenas em Kafka, Proust e Joyce". � ineg�vel a qualidade da obra dos tr�s autores, mas h� certo exagero em se afirmar, por exemplo, ser � imposs�vel superar o Ulisses de James Joyce, o "romance para acabar com todos os romances". Uma Casa para o Sr. Biswas, obra m�xima do Nobel de literatura Vidiadhar Surajprasad Naipaul, possui um texto simples e leve com o do nosso Verissimo e, em agradabilidade, senso cr�tico e mesmo profundidade psicol�gica, desbanca o irland�s (que nem por isso deixa de ser um grande mestre). |
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