Quinta-feira, Setembro 25, 2003


GABRIELA ANDRADE DA SILVA


Esse � menos batido, embora algumas pessoas o conhe�am. Escrevi-o em 2000...

Folha em branco

Deitado em minha cama, contemplo a janela aberta. As estrelas parecem tirar-me o sono por completo. Parece que nelas h� uma certa magia ou misticismo, capaz de encantar at� mesmo o mais vil�o ou o mais c�tico. Sejam elas anjos, deuses, p�rolas, entes falecidos ou bolas de g�s estourando h� milhares de anos luz, parecem irradiar uma for�a que me inspira.

Sinto vontade de escrever sobre qualquer assunto. Mas j� � tarde, tenho que dormir. No dia seguinte, precisarei levantar-me de madrugada e ocupar-me com meus afazeres. Ah! Como dormir com milh�es de olhos brilhantes me contemplando, enquanto eu os contemplo?

Desisto de resistir. Descubro-me, e a manta fica jogada sobre o colch�o. Levanto-me e pego o papel e a caneta que est�o sempre perto de mim, a espera da f�ria e da ressaca do mar que me rege e que movimenta, com a for�a de suas ondas, a caneta.

Sentado na cama, encostado na parede, olho para a folha em branco, inspiradora, como as estrelas, de tantos poetas. Em quantas coisas pode ela se transformar quando jogada em minha imagina��o f�rtil! Olhando para ela, vejo nuvens, t�dio, falta de inspira��o, Deus, eu mesmo, ou o que quiser ver... E vejo que em breve ela pode conter terror, ternura, amor, tristeza, alegria, paix�o, morte, vida...

Parece fazer-me gozar da mais completa liberdade: posso fazer dela o que bem entender! E n�o � como a vida, em que fa�o o que bem entender, mas depois preciso arcar com as conseq��ncias... Da folha, nada tenho a temer, e a �tica e a moral s� entram nela se eu quiser! Ela � inteira minha, e n�o me proporcionar� conseq��ncia alguma pelos atos escritos...

Por instantes contemplo-a como �s estrelas: t�o pura e t�o bonita! Tenho mesmo pena de macul�-la com a tinta suja.

E ainda n�o sei o que vou escrever! Encosto a ponta da caneta no papel, e a caneta move-se sozinha, e escreve o texto para mim.

N�o, n�o foi ela quem escreveu. N�o � ela que tem personalidade. Quem tem personalidade � o pr�prio Texto, que se escreveu, pois tem vida pr�pria antes mesmo de nascer. Diante disso, finalmente entendo que Deus tenha criado a si pr�prio, da mesma forma que o Texto escreveu a si pr�prio.

E observando o resultado final, sinto-me olhando para um filho: n�o � meu, mas veio atrav�s de mim; ter� sua vida, conhecer� e ser� conhecido por muita gente; sonha, e talvez consiga mudar o mundo!
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