| Ter�a-feira, Janeiro 18, 2005 GABRIELA ANDRADE DA SILVA Minha experi�ncia, este ano, fazendo est�gio no hospital psiqui�trico (ou dever-se-ia chamar manic�mio?) foi muito marcante. Muitas hist�rias para contar e muitas impress�es, sensa��es, sentimentos e informa��es que n�o consigo deixar de contar. Muitas pessoas me perguntam sobre isso. Ent�o, passo horas satisfazendo a curiosidade dos meus interlocutores e, ao mesmo tempo, a minha pr�pria necessidade de falar... Li, outro dia, que um escritor deve escrever sobre aquilo que viveu, aquilo que conhece, que sabe. Pois bem, escrevo agora sobre o conhecido, sobre o terreno em que pisei e que a grande maioria das pessoas, felizmente, s� conhece atrav�s de filmes, livros e talvez relatos. E ao mesmo tempo sobre o desconhecido... Sobre o que sinto que jamais entenderei. A loucura n�o � simples... E talvez por isso me fascine. Acho que � esse um dos grandes motivos da minha escolha profissional: entender o fascinante e obscuro mundo da loucura que habita n�o s� os internos de manic�mios, mas a mente e o cora��o de cada um de n�s. "Cr�nitos de Hosp�cio" � cr�nica e conto ao mesmo tempo. � a mistura do que aconteceu realmente e que ficou gravado em minha mem�ria, com o que sei que aconteceu atrav�s de relatos de conhecidos e com o que aconteceu apenas em minha cabe�a, ou seja: eu inventei, ou simplesmente projetei minha pr�pria loucura. Divirtam-se! Cr�nitos de hosp�cio - fasc�culo 1 N�O! ELES N�O PODEM ME PEGAR! N�O DEIXA! N�O PODE! N�O! Calma, seu Agenaro... N�o tem ningu�m querendo pegar o senhor... P�RA! P�RA! N�O QUERO FALAR COM ELES! N�O DEIXA ELES VIREM AQUI! Quietinho agora. Toma seu remedinho e vai pra cama, vai... Depois o Doutor quer te ver. N�O QUERO VER AQUELE FILHO DA PUTA! ELE QUER ME MATAR! ELE ME D� VENENO PRA EU MORRER E VOC� AJUDA! Pssssssiu! Quieto! Vai pra cama agora. Engole o rem�dio! Engole, anda! Isso, pra cama! Que rem�dio? Fui pra cama depois de engolir mais uma porcaria. Mais uma merda de p�lula de bosta de veneno. Estricnina. Eles d�o isso pra todo mundo. Da� todo mundo come�a a morrer aos pouquinhos. S� que eles n�o avisam pro governo que a gente morreu, n�o! Eles querem � ficar com o nosso dinheiro! Mas ningu�m acredita. A enfermeira foi embora e me largou aqui sozinho com os marcianos filhos da puta... Eles sempre querem falar comigo. Falam que eu n�o estou obedecendo. E que se eu continuar assim, eles v�o acabar comigo. Instalaram umas c�meras em mim. Uma em cada m�o, uma na minha testa, outra no meu pau. E tem um receptor por baixo da minha pele pra eles ouvirem tudo que eu falo. Eles sabem tudo que eu fa�o. Foram eles que mandaram me prender aqui. Eles ficam dizendo que v�o acabar comigo. Que eu vou morrer. Eu j� falei pro m�dico me ajudar. Ele diz que � coisa da minha cabe�a, que nada disso existe n�o. � que ningu�m consegue ver os marcianos, s� eu. Eles s� aparecem pra mim, da� o m�dico me chama de mentiroso. Saudade da m�e! J� faz um m�s que ela n�o me visita. Ela nem manda cigarro mais. Vontade de fumar... E o filho da m�e do Man� l� do lado n�o quer me dar nenhum cigarro. Ego�sta! EGO�STA! FILHO DA PUTA EGO�STA! SEU IDIOTA DE MERDA! QUIETO, AGENARO! FILHO DA PUTA! ELE N�O QUER ME DAR NENHUM CIGARRO! EGO�STA! QUIETO, DEITA, J� FALEI! OLHA QUE ESTOU INDO A�! C� VAI LEVAR INJE��O! ME D� CIGARRO! CIGARRO! ME D� cigarro, m�e... M�e, cigarro... M����e... E os idiotas dos marcianos t�o rindo de mim agora. Que �? Que foi? Nunca viu homem chorar? Eu sou macho, viu? Experimenta encarar! Que eu fui criado em favela, l� no Rio de Janeiro! Eu s� do morro! Eu apronto mesmo! Se vi� eu te encho a cara de bolacha! Num vem, n�? T� com medo? N�O, O NEG�CIO DE CHOQUE N�O! Eu paro... Marcianos filhos da puta. S�o tudo covarde. Ficam me zoando, mas se eu encaro, eles pegam o neg�cio de choque. N�o sabem brigar que nem homem. S� ficam me dando choque. E falando que v�o acabar comigo. Que eu vou morrer. Eles mandam eu bater a cabe�a na porta cinco vezes, porque eu sou mau. Eu fiz muita maldade, ent�o tem penit�ncia. Se eu n�o bato a cabe�a, eles pegam o neg�cio de choque. Eles falam que ainda acabam comigo. Esse lugar � muito claro. D�i a vista. Os marcianos ficam polindo. Encerando as paredes. Fica tudo brilhando. Eles fazem isso pra ofuscar a gente, pra gente n�o conseguir sair daqui. Aqui � uma pris�o pra quem foi mau. Os marcianos que mandaram me prender. E prender todo o povo daqui, tamb�m. Os m�dicos na verdade n�o s�o m�dicos, n�o... S�o tudo carcereiros. Ficam aqui pra vigiar a gente. Os rem�dios na verdade s�o p�lulas de veneno. � estricnina dilu�da. Eles querem ver a gente morrer de pouquinho pra depois ficar com o dinheiro do governo. Meus colegas v�o sumindo aos poucos... Ontem foi o Francisco. Ele dormia na cama aqui do lado. Sumiu ontem. Disseram que foi pra casa. Foi nada! Mentira. Ningu�m consegue sair daqui n�o. Os marcianos n�o deixam. Aqui � castigo pra quem foi mau. Tem que ficar aqui at� morrer. O Francisco morreu ontem. Nunca mais vai voltar aqui. Mas tamb�m nem vou sentir falta. O Francisco era maluco. Ficava falando coisa estranha. Ele falava que era Jesus Cristo. Maluco! Se fosse Jesus, n�o tava aqui dentro. Aqui s� tem gente do mal. Aqui tem que tomar cuidado com quem a gente conversa, porque tem muito maluco. De vez em quando aparece um com cabe�a boa, mas a maioria � maluco. Muita gente que briga, que xinga de repente. O Francisco n�o era assim, n�o... Ele n�o brigava nem xingava. Mas ele era doido. Achava que era Jesus. Falava: amai ao pr�ximo como assim mesmo... Falava que eu via o satan�s. Que n�o era maciano, nada, era o capeta. Ele n�o sabe de nada, coitado, ele � maluco. Mas ele morreu, ontem. Por causa das p�lulas... D�o estricnina dilu�da, falando que � rem�dio, pra ficar com nosso dinheiro. Cad� a m�e? Saudade da m�e. Pelo menos um ano que n�o vejo. T� longe, l� na serra do Alagoas. Por isso que demora pra vir. Mas ela podia me mandar cigarro. Cad� o cigarro? � enfermeira, me arranja cigarro! Enfermeira! �... Cigarro! � Man�... Me d� um cigarro? AI! Choque... Choque de novo... O que que eu fiz dessa vez? Ah, eu esqueci de bater a cabe�a no hor�rio... J� t� indo... Uma... Duas... ai... Tr�s... AGENARO! Quatro P�RA, AGENARO, ASSIM VOC� SE MACHUCA! Me solta, falta s� uma... Sen�o eles me d�o choque! Eu n�o falei pra voc� ficar deitado? S� mais uma... Deita, Agenaro! ELES T�O VINDO AQUI PERTO, ELES V�O ACABAR COMIGO... DEIXA, S� MAIS UMA! S� MAIS UMA! Deita, Agenaro, ningu�m t� vindo, � coisa da sua cabe�a! AAAAHHHHHH! |
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