Quinta-feira, Janeiro 27, 2005

GABRIELA ANDRADE DA SILVA

Acabo de escrever este conto... Pretendo que este seja um dos que v�o para o livro, mas talvez eu ainda fa�a algumas modifica��es, tornando-o mais "profissional". Passou por apenas duas revis�es antes de vir para c�...

O confronto

Sala escura... Com o marido viajando, a casa fica solit�ria, sombria... Estas noites quentes d�o sede. O sil�ncio, cortado apenas pelo ru�do do tr�fego e das vozes na televis�o, faz ecoar os sons dos meus passos, que se dirigem, lentamente, � cozinha. Caminho descuidadamente, a cabe�a no trabalho e na saudade do marido distante... Quando de repente...

Seu vulto ligeiro cruza meu caminho. P�ra exatamente em frente � porta da cozinha, como que zombando de mim. Fita-me com seus olhos arregalados, a desafiar-me. Suas pernas escuras e retorcidas parecem ter p�los... P�los nojentos! O corpo tem cor de quem muito j� andou por lugares encardidos.

Minha primeira rea��o � gritar e correr de volta para a sala. Paro, por�m, na metade do corredor. Cad� o marido? Est� viajando. Que hora para viajar, meu Deus! Que hora para a maldita aparecer! Elas parece que adivinham! E agora? Penso em correr para o quarto e trancar a porta. Mas que coisa rid�cula... Eu, mulher feita, senhora casada... Ela � muito menor que eu! Tenho que enfrent�-la!

Caminho cautelosamente ao seu encontro. N�o est� mais l�. Com meu grito, escondeu-se. Eu poderia ficar aliviada, mas o pensamento de que ela pode estar em qualquer lugar e aparecer inesperadamente me apavora. E se tiver asas? E se voar para cima de mim? E se ficar presa em meus cabelos? Um frio m�rbido passa por minha espinha. Por alguns instantes, fico paralisada. N�o ouso dar um passo � frente e entrar na cozinha, mas tamb�m n�o sou covarde o suficiente para voltar atr�s. E fico num terr�vel impasse, que talvez pudesse segurar-me por toda a madrugada.

Mas ela � mais valente que eu e aos poucos desponta, surgindo por detr�s da porta. Primeiro as antenas, as horr�veis antenas que exploram o caminho � sua frente. E logo j� se posta em meu caminho novamente.

Preciso tomar alguma atitude... Ela � t�o pequena se comparada a mim, e eu sou t�o grande... Bastaria pisar nela para que ela se fosse, esmagada, espalhando seu sangue branco pelo ch�o. Chego a levantar o p� direito, numa men��o de acabar com sua vida e meu problema. Mas n�o consigo... H� algo nela que me enfeiti�a e faz-me voltar atr�s. Que ser�? Medo de sujar o ch�o? De macular minha cozinha com seu hediondo cad�ver? Ou ser� compaix�o, repulsa pelo assassinato at� mesmo de um ser de t�o baixa estirpe? Seja qual for o motivo, o fato � que n�o consigo esmag�-la, como seria sensato fazer. Onde est� o marido, nessas horas? Ele n�o teria hesitado.

Fico a contempl�-la com um misto de pavor, nojo e admira��o. O veneno... Onde est� o veneno? De qualquer maneira, eu a estaria matando, mas com veneno parece mais simples. N�o � morte t�o violenta... Parece que n�o fui eu que matei... N�o preciso toc�-la, nem sequer com a sola do sapato. N�o gruda sangue no ch�o... � isso! O veneno! Onde est�?

Na dispensa. Maldi��o! Para ir � dispensa, preciso passar pela cozinha e, consequentemente, pela infeliz criatura em meu caminho. E n�o ouso passar por ela para busc�-lo. E se ela subir por minhas pernas? Entrar em minha roupa? Sinto um forte arrepio s� de pensar. Meus p�los ficam arrepiados... N�o consigo mover-me dali, dar um passo � frente. N�o posso invadir seu territ�rio, embora ela esteja invadindo o meu...

Amanh� mesmo compro outro spray de veneno. Vai ficar um em cada canto da casa! Para que nenhuma delas jamais se interponha entre eu e minha arma novamente! Ali�s, melhor seria comprar um para cada c�modo! � mais garantido! O marido diria que estou exagerando, mas ele n�o sabe como �! Ele nunca est� aqui quando elas aparecem!

Mas isso s� resolve os problemas futuros. Tenho que resolver o de agora... E a maldita deixa-me sem a��o! Paralisada, com sede, com medo, � porta da cozinha. Talvez o melhor seja mesmo trancar-me no quarto. E colocar v�rios len��is enrolados debaixo da porta, para ela n�o passar. Mas como vou beber �gua?

Ser� que se eu telefonasse para o vizinho, ele viria ajudar-me? Olho para o rel�gio na parede. S�o mais de onze da noite de uma segunda-feira. Acho que o vizinho odiar-me-ia se eu o chamasse a esta hora por um motivo que, para ele, deve ser t�o bobo.

Continuo parada, no mesmo lugar, na mesma posi��o. E, agora percebo, ela tamb�m. Est� l� h� tanto tempo quanto eu, encarando-me como eu a encaro: com os mesmos olhos esbugalhados, o mesmo p�lo arrepiado, o mesmo medo, a mesma falta de a��o.

Mas neste momento, no exato momento em que tenho este pensamento, ela se move. Vira de costas para mim e corre com uma agilidade que eu jamais teria. Enfia-se por debaixo da porta que d� para a �rea de servi�o. Como que despertada de um transe, corro para a dispensa, pego o veneno e borrifo por debaixo da porta. Por aqui ela n�o volta! Guardo o spray, lavo as m�os e pego �gua na geladeira, sem tirar o olho da porta. Saciada minha sede, desligo a TV e vou para o quarto. Tranco a porta e coloco v�rios len��is por baixo. Por aqui n�o entra nada!

Deitada na cama, percebo que, na verdade, ela foi mais valente que eu. Despertou sozinha do transe, conseguiu dar-me as costas e correr, mesmo sabendo ser mais fr�gil. E eu, mesmo sabendo t�-la � dist�ncia, ainda estou amedrontada, apavorada, e n�o consigo parar de pensar nela e de arranjar mil maneiras de proteger-me! Antes de fechar os olhos, censuro-me: "Voc� tem sangue de barata!"...
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