Segunda-feira, Outubro 19, 2004

GABRIELA ANDRADE DA SILVA

E finalmente, ap�s cerca de um ano, ser� postada a �ltima parte de Um Dia em Nove Partes...


Di�rio de Campo - Um dia em nove partes

PARTE 9 - ESCRAVA ISAURA

Conforme o tempo foi passando, o movimento foi diminuindo. As pessoas foram indo embora, apressadas e sorridentes, para seus trabalhos ou col�gios, com seus ternos e roupas sofisticadas. A pra�a foi ficando vazia e o t�dio foi chegando novamente. Minhas pernas j� do�am um pouco, pois eu estava h� mais de duas horas em p�. Minha cabe�a tamb�m do�a, o que ocorre sempre que tento usar coisas que se apoiem em minhas t�mporas (tiaras, por exemplo), e a touca, embora n�o fosse apertada, ocasionava
aquele problema. Eu j� estava morrendo de vontade de ir embora, tirar aquela touca, trocar-me, comer, chegar em casa e descansar. N�o sabia que horas eram e tinha medo de perguntar, pois se fosse muito cedo, eu desanimaria. Al�m disso, eu sabia que a partir do momento em que eu perguntasse as horas, o tempo passaria mais devagar. Em certo momento, n�o ag�entei, perguntei para a Adriana, que estava de rel�gio, que horas eram. Eram 14 horas e 20 minutos, e n�s t�nhamos que ficar l� at� �s 14 horas e 40 minutos. "Apenas mais 20 minutos", pensei. Foram 20 minutos bastante longos de minha vida...

No come�o, fiquei conversando com Iracy. Ela tamb�m perguntou sobre o trabalho, se �amos fazer relat�rio, se ela ia aparecer no relat�rio, etc. Os funcion�rios, de maneira geral, pareciam bastante curiosos quanto a isso. Ent�o, ela come�ou a comentar como eu estava cansada: "est� com os olhinhos pequenininhos!". Eu realmente devia estar com cara de sono, pois al�m de estar trabalhando faz tempo, n�o havia dormido direito � noite, como eu disse no in�cio deste di�rio de campo. Expliquei isso a ela. Eladisse que sabia que n�s ficar�amos cansados... Um rapaz que tamb�m estava trabalhando na pra�a de alimenta��o, catando lixo do ch�o com uma vassoura e uma esp�cie de p�, tamb�m comentou sobre isso... Perguntou se eu ag�entaria trabalhar todos os dias assim. Eu disse que achava que sim, que era uma quest�o de acostumar. Ele concordou. Iracy perguntou se eu j� queria descer, trocar-me e ir embora. Eu disse que n�o, que ficaria at� o fim. N�o gostava que os funcion�rios perguntassem o que eu queria fazer... Eu preferiria que eles me tratassem como uma igual. A todos os instantes, Iracy falava de meu cansa�o. Eu estava, mesmo, cansada, mas acho que bem menos do que a mulher parecia achar que eu estava. Parecia-me que este era um meio que ela encontrava de valorizar o pr�prio servi�o. Falava a cada instante dos meus "olhinhos pequenininhos". Comentou sobre "os dois que vieram no s�bado", sobretudo a Marina, de quem gostara bastante. Disse que a Marina era boa para p�r a m�o na massa, que tinha dado conta do recado, que estava chovendo e ela conseguira mandar toda a �gua para fora com o rodo (como a parte central do shopping n�o tem cobertura, quando chove, cai muita �gua para dentro e � necess�rio tir�-la com rodo, at� porque as pessoas passam pelo ch�o molhado com os p�s sujos e acabam por sujar o piso).

Exatamente neste momento, outra pessoa me reconheceu: a m�e da Marina. Ela estava trabalhando na loteria dos pais da Marina, que fica nesse shopping, e foi me procurar. Ficou toda feliz quando me viu: "Ah, voc� est� a�, consegui te reconhecer!". Iracy conversou com ela e continuou falando muito bem da Marina.

Por fim, chegou a hora de ir embora. Entramos, pegamos o elevador e descemos at� a sala da faxina. Iracy ent�o me lembrou: "pode colocar as m�os para frente, menina! Voc� n�o est� mais trabalhando!". Realmente, passar mais de duas horas com as m�os para tr�s havia feito daquele gesto um h�bito que se repetiu por v�rias vezes durante aquele dia.

Entramos no vesti�rio e nos trocamos. Voltamos � sala de faxina, onde v�rios funcion�rios se reuniam, despedimo-nos e voltamos para a parte p�blica do shopping. Eu me sentia bastante aliviada, parecia que minha miss�o estava cumprida. Liguei para minha m�e ir buscar-me e fui tomar sorvete. Achei que, depois de tudo aquilo, eu merecia...

Esperei minha m�e sentada em um banco. Ela chegou junto com meu irm�o de 13 anos, os dois dando muita risada e cantando para mim a m�sica da Escrava Isaura. Isso deixou-me bastante irritada, embora eu tenha me esfor�ado para n�o demonstrar, pois se isso ocorresse, s� pioraria as coisas. Quiseram saber tudo sobre o trabalho: o que eu tinha feito, se tinha conseguido fazer tudo, se tinha encontrado algu�m conhecido. Meu irm�o estava impressionado: "mas Gabi, voc� consegue faxinar um shopping
inteiro?". Expliquei-lhe que, "por incr�vel que pare�a", eu n�o sou a �nica funcion�ria, e que trabalhando em equipe, com diversos outros faxineiros experientes, � poss�vel faxinar um shopping inteiro. Perguntou, tamb�m, se eu tinha recebido pelo servi�o. Eu disse que n�o, que s� tinha colhido boas experi�ncias, e ele n�o gostou muito da id�ia... Ainda achava que eu deveria ter ganhado algum dinheiro. Eles realmente estavam se divertindo com a situa��o. Dias depois, telefonei de S�o Paulo para minha m�e e ela estava jantando com v�rios amigos. J� havia contado a eles minha experi�ncia de "faxineira do Shopping Galleria por um dia".Todos se reuniram no telefone para cantar para mim a m�sica da Escrava Isaura.

Certamente, este dia foi uma experi�ncia bastante enriquecedora. Deparei-me com uma realidade social que n�o conhecia, estando mais ou menos inserida nela. N�o totalmente, porque j� frisei ao longo desse texto v�rias diferen�as entre a minha situa��o e a dos demais funcion�rios: eu s� estava l� por um dia, n�o iria receber nada, sou de uma classe social mais elevada, estudo e estava sendo tratada como estudante, n�o como uma funcion�ria qualquer. Mas tive a oportunidade de conversar com essas pessoas, de ver como � o trabalho delas, como s�o tratadas, o quanto � cansativo, como � seu dia a dia, etc.

A �nica coisa que lamento � o fato de ter escolhido o per�odo da manh�. Depois que fiz esse trabalho � que pensei que deveria ter ido no turno da noite. Ent�o, eu trabalharia com outros funcion�rios, em outras tarefas (por exemplo, eu n�o iria abrir o banheiro, mas sim fech�-lo), veria como � trabalhar at� mais de 10 horas da noite e n�o ficaria t�o evidente que eu sou uma estudante, pois os funcion�rios noturnos ainda n�o tinham passado por essa experi�ncia.
Coment�rios:
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