Quarta-feira, Janeiro 21, 2004

GABRIELA ANDRADE DA SILVA

Chegamos � pen�ltima parte de "Di�rio de Campo - um dia em nove partes". N�o percam o �ltimo cap�tulo, que eu porei no blog assim que poss�vel!


Di�rio de Campo - Um dia em nove partes

PARTE 8 - RECONHECERAM-ME!


Durante o per�odo em que fiquei na pra�a de alimenta��o, aconteceu algo que chamou-me a aten��o. Encontrei uma pessoa conhecida... Era Cristina, uma amiga minha e de minha m�e. Passei por ela e ela n�o me reconheceu, sequer olhou para mim. N�o estranhei. Havia muita gente na pra�a, e achei pouco prov�vel que ela me reconhecesse uniformizada e de touca. Continuei trabalhando. Ela sentou-se a uma mesa, junto com uma amiga, para comer. Aos poucos, fui vendo que ela olhava para mim e comentava algo com a amiga. Fingi n�o estar prestando aten��o. Apenas continuei o meu trabalho. A mesa dela estava pr�xima a uma lata de lixo, que era um dos pontos em que pod�amos parar. Em uma das vezes em que parei ao lado da lata de lixo com as m�os para tr�s, como tinha me instru�do Iracy, Cristina me olhou fixamente. Ent�o disse um encabulado "Oi?!", que parecia realmente ter um tom de pergunta, e n�o de cumprimento. Eu lhe disse "oi", tamb�m, e aproximei-me de sua mesa. S� ent�o ela teve certeza de que era eu. Mas ainda assim estava bastante confusa.

- Gabriela?

- Sim, sou eu, tudo bem, Cristina?

- Tudo... Eu estava falando com minha amiga que parecia que eu te conhecia de algum lugar, mas eu n�o conseguia lembrar de onde... Voc� n�o estava fazendo psicologia na USP?

- Sim, estou.

- Mas voc� est� trabalhando aqui?

- N�o. (Eu me divertia com a situa��o. Ela ficava cada vez mais confusa.)

- Mas como assim, o que voc� est� fazendo?

- Estou fazendo um trabalho da faculdade... Preciso trabalhar um dia em uma profiss�o que n�o exija preparo intelectual, treinamento ou algo parecido, para ver como � a vida desses funcion�rios.

- Puxa, que interessante! Muito legal!

Ent�o ela me perguntou do curso, se eu estava gostando ou se n�o, se estava tudo bem em S�o Paulo, se minha m�e estava bem, coisas desse tipo. Conversei um pouco com ela e continuei trabalhando.

A pra�a de alimenta��o lotava cada vez mais. J� havia mais clientes do que mesas, e muitos vinham me perguntar onde havia mesa vaga. Eu n�o sabia. Por que ser� que as pessoas acham que os funcion�rios devem saber? N�o temos vis�o de raio X para enxergar uma mesa vazia no meio daquela multid�o! Na verdade, acho que realmente n�o restava nenhuma mesa vaga. Quando algu�m se levantava, nem dava tempo de eu limpar a mesa e j� havia pessoas se sentando.

As horas foram se passando rapidamente. Fui ficando com fome, pois estava acordada trabalhando desde as 6 da manh� e havia comido muito pouco. Para completar, o cheiro de comida dominava todo o ambiente, e em v�rias das bandejas que eu pegava para devolver nas lojas, havia muito alimento sobrando. Um verdadeiro desperd�cio! Lembro-me de duas meninas que deveriam ter 10 ou 12 anos e que estavam sentadas a uma mesa, comendo e conversando. Quando passei perto delas, pediram-me que eu retirasse seus pratos. Cheguei a ter raiva: os pratos estavam repletos! Elas mal haviam tocado a comida. E era proveniente de um dos restaurantes mais caros da pra�a de alimenta��o... Tive vontade de dar a maior bronca, explicando aquelas coisas que m�e explica: que a gente fica jogando comida fora sendo que tem gente que nem tem o que comer! Mas � claro que eu n�o podia fazer isso... Eu era uma funcion�ria que estava l� para servi-las. Resignei-me a levar a bandeja ao restaurante, pesada, at�, de tanta comida. Enquanto trabalhava, eu pensava: "quando terminar, vou comprar alguma coisa bem gostosa para comer". No meu caso, isso era poss�vel. No entanto, certamente eu n�o poderia fazer isso se fosse uma faxineira comum daquele shopping.
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