Quarta-feira, Novembro 12, 2003

GABRIELA ANDRADE DA SILVA

Di�rio de Campo - Um dia em nove partes

Pois �, j� passamos da metade de meu di�rio de campo. Hoje recebi-o corrigido pelo professor. Tirei 9,0! Legal... Mas ainda n�o entendi o crit�rio de corre��o. Depois que terminar de postar as 9 partes, darei in�cio a um novo folhetim... A hist�ria j� est� toda na minha cabe�a, s� falta arranjar tempo pra sentar e escrever.

PARTE 6 - MEDO DA M�QUINA

Terminando de "fazer a pedra preta", fui chamada para recolher o lixo. Adriana novamente estava junto. Quem fazia isso era o Nei, um jovem e animado rapaz. Ele pegou um carrinho azul que tinha quase a minha altura, era comprido e largo. N�s fomos passando pelas lojas e recolhendo o lixo, mas n�o pela porta dos fundos, como eu imaginava que fosse, mas pelas portas da frente. Acontece que algumas lojas n�o t�m portas dos fundos. Ent�o, faz-se necess�rio passar pela porta da frente dessas lojas para recolher o lixo. As outras, que t�m porta dos fundos, colocam o lixo para fora por l�.

Algo que chamou-me a aten��o nesse momento foi pegar o elevador de servi�o. Eu j� pegara v�rias vezes o elevador desse shopping na parte que � aberta ao p�blico. � um elevador muito bonito, panor�mico, de forma que dele � poss�vel ver a paisagem, a j� comentada decora��o. Quem v� o elevador desse shopping, assim, t�o bonito, n�o imagina como � o utilizado pelos funcion�rios. Quando me deparei com ele, passou-me pela cabe�a que o que os construtores do shopping gastaram construindo o elevador panor�mico, economizaram construindo o elevador de funcion�rios. A porta era composta por duas grades flex�veis, que eram abertas ou fechadas como se fossem cortinas. Nei advertiu-me que tomasse cuidado para n�o prender a m�o. Freq�entemente ocorre que algum funcion�rio esquece de fechar uma das grades, ou n�o a fecha completamente, ent�o o elevador fica parado no andar, e para que ele v� at� o outro, faz-se necess�rio subir ou descer por escada e arrumar a porta. Isso aconteceu conosco: precis�vamos subir com o carrinho azul, mas o elevador estava preso no andar superior. Nei teve que subir at� l� para arrumar a porta, enquanto n�s esper�vamos para levar o carrinho. Talvez o tal elevador fosse seguro, mas n�o era a impress�o que me dava. Parecia-me que a qualquer momento algu�m iria prender a m�o na grade, ou cair no po�o...

Quando conseguimos subir, fomos passando com o carrinho pelos corredores de servi�o at� chegar a uma das sa�das que d�o para a parte do shopping que � aberta ao p�blico. Em v�rios pontos do corredor, havia portas que precisavam ser abertas para que pass�ssemos. Geralmente, abr�amos a porta para ele passar, mas quando ele est� sozinho, creio que tem que parar o carrinho, abrir a porta, voltar, empurrar o carrinho, par�-lo de novo e fechar a porta. Em um certo momento, vimos outro rapaz passar com um carrinho de limpeza, e em vez de fazer todo esse ritual da abertura da porta, ele simplesmente for�ou-a com o carrinho e passou. Nei falou: "Se o pessoal da administra��o vir isso ele vai levar uma bronca... N�o pode fazer assim. T� vendo as marcas na porta? S�o tudo de passar direto com os carrinhos, sem parar.".

Nei sabia de cor quais eram as lojas pelas quais t�nhamos que passar. Fomos de uma em uma, e os vendedores, quando viam o carrinho azul, j� corriam para buscar seu lixo. Nei era muito simp�tico. Perguntou v�rias coisas sobre o nosso trabalho, como por exemplo de que curso �ramos e se ter�amos que fazer relat�rio. O carrinho foi ficando cada vez mais cheio, e eu me impressionava com a quantidade de lixo que a maioria das lojas produzia. Eram sacos e caixas imensas... Em pouco tempo, era necess�rio amassar com a tampa do carrinho o lixo que j� tinha, para que coubessem mais sacos e caixas.

Depois do recolhimento, fomos para uma parte externa do shopping, onde havia um enorme processador de lixo. Enquanto Nei montava uma m�quina de lavar o ch�o, eu e Adriana jogamos o lixo do carrinho no processador. O carrinho era t�o grande que n�o consegui alcan�ar para pegar os sacos de sanito que estavam mais no fundo... Nei pegou-os para mim. O processador era grande, e fiquei imaginando o quanto de lixo um shopping produz por dia. Aquele shopping, que nem tem tanto movimento, j� tinha um volume de lixo t�o grande... Fiquei imaginando um shopping como � o que fica pr�ximo � minha casa, o Parque Dom Pedro, que dizem que � o maior da Am�rica Latina, e que sei que tem um movimento bem maior.

Fiquei apreensiva quanto � m�quina que Nei estava montando. Acontece que uma semana antes, morrera a mulher de um amigo meu, eletrocutada em uma dessas m�quinas. A mo�a limpava a piscina de sua casa, e n�o se sabe se ela levou um choque e caiu dentro da piscina, ou se caiu na piscina com a m�quina e ent�o levou um choque. O que se sabe � que ela faleceu, a despeito da tentativa do marido de socorr�-la. Enquanto Nei montava a m�quina, eu tinha calafrios e pensava comigo mesma: "N�o, ele n�o vai pedir para eu usar essa m�quina! N�o agora! N�o t�o cedo!". Fiquei pensando no que eu faria se ele me mandasse utilizar a tal m�quina. N�o sei o que teria feito. O que sei � que na posi��o que eu estava, de estudante de psicologia trabalhando por um dia naquele shopping, eu estava em condi��es de, se fosse o caso, negar-me a fazer aquele servi�o. O mesmo provavelmente n�o aconteceria se eu fosse uma "verdadeira" faxineira, se eu realmente estivesse empregada na faxina daquele shopping. Nei n�o me mandou usar a m�quina. Ele a estava montando para uma outra mulher.
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