Segunda-feira, Novembro 10, 2003

GABRIELA ANDRADE DA SILVA

Di�rio de Campo - Um dia em nove partes

PARTE 5 - A DIF�CIL TAREFA DO SAB�O

N�o fiquei muito tempo nessa tarefa. Logo, Marilene veio me chamar para ir com a Andr�ia abrir os banheiros. Aproveitou para mandar-me colocar a camisa para dentro das cal�as. Percebi que eles eram bastante rigorosos com o padr�o dos uniformes. Entrei novamente na sala da faxina, onde encontrei a mo�a. Tamb�m parecia ser bem nova. Fui com ela, primeiramente, at� o almoxerifado. Era um grande dep�sito, cheio de coisas, desde papel higi�nico at� ferramentas. Enchemos o carrinho com papel higi�nico, papel toalha, sanitos e um gal�o de sabonete. Tudo � bem controlado, h� uma respons�vel que anota o material que est� saindo e quem retirou.

Subimos e Andr�ia mostrou-me o que deveria ser feito. N�s �ramos respons�veis pelos banheiros femininos, o banheirista homem, pelo banheiro masculino e tanto um como o outro podiam limpar o banheiro reservado para os deficientes f�sicos, pois este era misto. Em cada banheiro, t�nhamos que verificar se todas as cabinas tinham papel higi�nico, se havia papel toalha nos aparelhos, se havia sabonete l�quido dentro dos recipientes (aqueles aparelhos que voc� aperta um bot�o e o sab�o sai na m�o) e se o arm�rio estava abastecido (em cada banheiro, havia um arm�rio de uso das faxineiras, com chave, contendo alguns sanitos, 6 pacotes de papel toalha e 3 rolos de papel higi�nico). Dever�amos abastecer o banheiro com todo o material que estivesse faltando, e colocar sacos de sanito nas lixeiras.

A pior parte era o sab�o. Para verificar se ele estava acabando, precis�vamos nos abaixar e olhar sob a pia. Se ele estivesse no fim, precis�vamos deitar no ch�o (e nessa hora eu sempre me lembrava dos conselhos de minha m�e e minhas av�s, de "n�o encostar nesse ch�o sujo de banheiro"), entrar embaixo da pia e desrosquear o recipiente. Ent�o, peg�vamos um gal�o pesado cheio de sabonete l�quido e transfer�amos parte de seu conte�do para ele. Era uma tarefa delicada, pois n�o havia funil, e a boca do gal�o era bem maior que a boca dos recipientes de sab�o do banheiro, ent�o, t�nhamos que despejar bem devagar, para que o sabonete n�o derramasse por sobre a pia e o ch�o. Depois de isto estar feito, t�nhamos que novamente nos abaixar, deitar no ch�o e rosquear o recipiente de volta embaixo da pia. Achei impressionantemente mal feito esse sistema de sabonete. Realmente, eu nunca tinha parado para pensar em como o sab�o era colocado naquele lugar. Ainda n�o entendo como foi que n�o inventaram um m�todo melhor, em que n�o se precise deitar no ch�o para abastecer os recipientes.

Abrimos um dos banheiros juntas, e no caminho para o pr�ximo, trouxeram a Adriana para nossa companhia. Foi bem engra�ado v�-la uniformizada. Quase t�o engra�ado quanto ver a mim pr�pria. N�s tr�s abrimos todos os banheiros. Em um deles, algo interessante aconteceu. Adriana estava deitada no ch�o tentando rosquear um dos recipientes de sab�o no lugar, quando C�ntia entrou no banheiro. Andr�ia estranhou, pois o lugar de trabalho de C�ntia n�o era l�.

- O que voc� est� fazendo aqui, C�ntia?

- Eu vim ver a outra menina...

Olhou para a Adriana, conversou um pouco com Andr�ia e saiu. Percebi que n�s, para eles, �ramos novidade, pessoas que despertavam curiosidade... Os funcion�rios, em geral, ficavam nos olhando, fazendo perguntas... E agora, como eu podia ver, uma funcion�ria at� mesmo se deslocou do seu local de servi�o para poder nos ver.

Terminamos de abrir os banheiros, e voltei para a companhia de C�ntia. Ela ainda n�o tinha terminado de encerar os corrim�es e "fazer a pedra preta". Dessa vez, invertemos as tarefas. Ela ficou com os corrim�es e eu com a pedra preta. N�o era dif�cil, ou pelo menos n�o parecia. Eu tinha que molhar o esfreg�o em um balde, torc�-lo (junto ao balde, havia um espa�o para torcer o esfreg�o) e passar na pedra. Percebi que eu n�o estava sabendo torcer direito... O esfreg�o ficava muito molhado, pingava �gua pelo ch�o. C�ntia tamb�m percebeu e corrigiu-me. Era necess�rio torcer com mais for�a. Uma for�a que eu n�o tinha... Esfor�ando-me, consegui melhorar um pouco, mas novamente senti que n�o chegava aos p�s de C�ntia. Essa tarefa tamb�m me dava a sensa��o de trabalho em v�o, de algo que deveria ser feito por mera formalidade, pois n�o fazia a menor diferen�a.
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